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3. CAPÍTULO 2 DO SITCOM TRADICIONAL AO NOVO SITCOM

3.1 As origens

Na segunda metade do século XIX, o desenvolvimento de diversos setores da indústria norte-americana, no que ficou conhecido como Segunda Revolução Industrial, levou a uma intensa migração da zona rural para a zona urbana dos Estados Unidos. Na época, com cerca de metade dos norte- americanos concentrada nas cidades e trabalhando de forma regulamentada, tempo e dinheiro estavam à disposição desses trabalhadores para serem despendidos com lazer e entretenimento24. Robert W. Snyder, pesquisador da State University of New Jersey, em colaboração para a obra The Encyclopedia of New York City, mostra que diferentes formas de entretenimento estavam disponíveis para diferentes classes sociais.

[...] o entretenimento em Nova York estava dividido por classes: as óperas eram principalmente destinadas à classe alta, as apresentações de menestréis à classe média e os shows de variedades nos saloons aos homens da classe trabalhadora e aos pobres. O vaudeville foi desenvolvido por empreendedores que buscavam maiores lucros advindos de maiores audiências. (SNYDER, 1995, p. 1226, tradução nossa)25

Os vaudevilles reuniam uma diversidade de artistas que se apresentavam em uma sequência de espetáculos circenses, musicais e de comédia. Essa formatação de variedades sequenciais não representava, entretanto, uma inovação absoluta. Shows de variedades eram comuns na Europa e também                                                                                                                          

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Informações obtidas no site musicals101.com, disponíveis em http://www.musicals101.com

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“[…] entertainment in New York City was divided along class lines: opera was chiefly for the upper middle and upper classes, minstrel shows and melodramas for the middle class, variety shows in concert saloons for men of the working class and the slumming middle class. Vaudeville was developed by entrepreneurs seeking higher profits from a wider audience.”

nos Estados Unidos mesmo antes da nova conjuntura de desenvolvimento industrial. Diferentes apresentações estavam à disposição de diferentes públicos, sobretudo o masculino, até mesmo pela recorrência do uso do erotismo e da dita vulgaridade. O diferencial do vaudeville, portanto, estava relacionado ao seu modelo comercial: o espetáculo encontrava-se pela primeira vez organizado de uma forma estável e institucionalizada. As atrações – de oito a doze por show – continham mandatoriamente de sete a vinte minutos cada, sendo seu conteúdo adequado para todos os públicos, acessível para a nova classe trabalhadora e sofisticado o suficiente para atrair também a burguesia. Esse foi um marco que caracterizou o entretenimento popular como um grande negócio26.

Tony Pastor, um empresário norte-americano e proprietário de teatros, foi o idealizador de um vaudeville clean, ou seja, um show de variedades com as características de um entretenimento familiar. Suas apresentações semanais, com estreia em 1881 em Nova York, passaram a atrair vários moradores da cidade, tornando-se um sucesso comercial instantâneo. Também defendendo um espetáculo convidativo para mulheres e crianças, Benjamin Franklin Keith, outro proprietário de teatros nos Estados Unidos, inaugurou uma variedade de luxuosas instalações para a exibição de vaudevilles moralmente adequados, com preços variáveis de acordo com os lugares disponíveis, o que permitia o acesso a todos. A censura em seus teatros estendia-se aos artistas, proibidos de apresentar conteúdo tido como vulgar ou de duplo sentido, e até ao público, ao qual foi imposta uma rígida discrição que ajudou a classe trabalhadora a superar velhos hábitos. Gritos e arremessos de frutas nos palcos não eram mais tolerados. O espetáculo oferecido nos teatros de Keith ajudou a educar e a transformar as plateias norte-americanas em seu novo papel de espectadores educados e consumidores de experiências27.

                                                                                                                         

26

Disponível em: <http://www.musicals101.com>. Acesso em: 11 set. 2012.

27 TRACHTENBERG. Versão de hipertexto. Disponível em:

<http://xroads.virginia.edu/~ma02/easton/vaudeville/vaudevillemain.html>. Acesso em: 12 jun. 2012.

No começo do século XX, os vaudevilles foram progressivamente perdendo espaço para o cinema. Inicialmente, exibições de filmes começaram a fazer parte do set de atrações, mas a popularização do novo meio e seu custo reduzido diminuíram drasticamente o interesse do público pelas apresentações ao vivo. O surgimento da indústria cinematográfica norte-americana e, posteriormente, dos filmes sonoros, aliado à Grande Depressão de 1929, fez com que o vaudeville praticamente desaparecesse28.

Outro fenômeno relacionado à falência do modelo comercial dos vaudevilles foi o surgimento do rádio. As atrações musicais, informativas e ficcionais, incluindo os sketches de comédia, que antes levavam os cidadãos aos teatros e às salas de cinemas, agora poderiam ser apreciados em ambiente doméstico. O show de variedades perdeu o apelo frente às grandes massas.

A partir do surgimento da primeira rádio comercialmente licenciada, em 1920, até o surgimento da NBC em 1926, a programação já apresentava conteúdo humorístico, resumido a pequenas brincadeiras e piadas entre os membros das orquestras e os anunciantes. Nessa época, as emissoras de rádio não contavam com recursos suficientes para atrair atores de prestígio dos vaudevilles para sua programação.

Steve Neale e Frank Krutnik afirmam que a consolidação comercial do rádio ocorreu nos Estados Unidos em 1929, quando um em cada três lares norte-americanos possuía um aparelho de rádio (NEALE; KRUTNIK, 1990, p. 212). Ironicamente, trata-se do mesmo período em que o país sofreu a Grande Depressão, quando quedas das ações e a falência de diversas indústrias e bancos resultaram em altíssimas taxas de desemprego. Segundo William e Nancy Young, pesquisadores independentes e autores de The Great Depression in America, o cinema perdeu mais de um terço do público pagante entre 1929 e 1933, culminando no fechamento de mais de 5 mil salas nos Estados Unidos. Nos jornais, o número de anunciantes despencara 45%. Isso representou uma redução de 860 milhões para 470 milhões de dólares em receita de publicidade entre 1929 e 1933 (YOUNG; YOUNG, 2007, p. 320-352). A diferenciação do                                                                                                                          

modelo comercial possível através do rádio, por outro lado, fez com que este crescesse expressivamente. Além de o rádio estar presente na casa de muitas famílias e possuir grande audiência, até mesmo os norte-americanos que não sabiam ler poderiam compreender os anúncios.

Com o aumento na renda publicitária das rádios, programas humorísticos baseados em vaudevilles ingressaram na programação da NBC e da CBS, as maiores redes até então, contando com altos orçamentos. Em sua maioria, esses artistas comandavam comedy-variety shows (shows de comédia variada), nos quais uma miscelânea de conteúdos de entretenimento era apresentada.

Alguns problemas de adaptação definiram progressivamente os formatos na transição midiática. Os artistas, acostumados com as performances teatrais, mantiveram o costume de vestir-se de acordo com os personagens encenados nos sketches, quadros isolados do contexto do programa em que uma situação cômica possui início, meio e fim. Entretanto, o formato não permitia que a audiência os visse. Sendo assim, no início da década de 1930, foi instituída a audiência presente no estúdio. O riso dessa plateia passou a fazer parte do texto cômico, servindo para sinalizar as reações da audiência em casa (NEALE; KRUTNIK, 1990, p. 231). Nascia assim a claque, uma das características que, posteriormente, acompanharia diversos títulos de sitcom televisivo até o século XXI.

f

Figura 11. Estúdio de rádio da DePauw University nos anos 1940, com capacidade para 100 pessoas29.

No rádio havia também a necessidade de uma quantidade maior de novos textos a serem encenados, fazendo com que os apresentadores passassem, em partes ou integralmente, a responsabilidade do conteúdo de seus programas a uma equipe de roteiristas (NEALE; KRUTNIK, 1990, p. 214).

Na busca pela fidelização da audiência, a continuidade não era um forte dos variety-shows. Por apresentarem atrações isoladas, a identificação do público não era trabalhada em seu máximo potencial e as redes buscavam a criação de um hábito em seus ouvintes para manter os índices de audiência.

Em 1939, durante a New York World's Fair, a RCA apresentou a televisão ao grande público norte-americano, uma criação associada às mentes de

                                                                                                                         

29 Disponível em: <http://my.depauw.edu/library/archives/wgre/EarlyYears1941-19512.asp>.

Vladimir Zworykin e Philo Farnsworth, inventores do tubo (Orthicon tube) e do receptor (Kinescope), respectivamente30.

A transmissão de televisão nos Estados Unidos durou cerca de cinco meses, até ser interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Retomada a produção após o término da guerra, a demanda por televisores era surpreendente. O aparelho era um símbolo de status, como retrata Patricia Mellencamp, professora do departamento de Artes e História na University of Wis-Mailwaukee, em seu artigo “Film History and Sexual Economics” (MELLENCAMP, 1992, p. 80).

A programação comercial das redes de televisão norte-americanas começou verdadeiramente em 1948, quando o programa do gênero comedy- variety, Texaco Star Theater, consolidou-se como o primeiro grande sucesso da TV dos Estados Unidos.

A comédia esteve presente na leva dos primeiros gêneros a serem televisionados. Em 1950, o formato mais popular era o comedy-variety show, definido por Jeff Little31 como “um vaudeville eletronicamente transmitido” e também conhecido como vaudeo, uma abreviação de vaudeville e vídeo. Programas como The Colgate Comedy Hour (1950-1955) e Cavalcade of Stars (1950-1952) traziam uma miscelânea de atrações que incluíam música, dança e, em destaque, sketch comedies, quadros ficcionais isolados de comédia com início, meio e fim, como os dos programas de rádio. O comedy-variety show tratava-se então, grosso modo, de uma versão do mesmo gênero radiofônico, adaptado para uma apresentação com imagens.

Dos 25 shows de comédia variada televisionados em 1950, 11 eram baseados na apresentação de artistas conhecidos do público. Nomes como Sid Caesar de Your Show of Shows (1950-1954) e Milton Berle de Texaco Star                                                                                                                          

30

TAFLINGER, Richard F. Sitcom: What it is and How it Works. A History of Comedy On Television: Beginning to 1970. Disponível em: <http://public.wsu.edu/~taflinge/comhist.html>. Acesso em: 9 nov. 2012.

31 LITTLE, Jeff. Rewind the Fifties: Timeless Laughter. Disponível em:

Theatre (1948-1956), mencionado anteriormente, comandavam as apresentações trazendo para a televisão a audiência que já os acompanhava em transmissões radiofônicas.

Além dos 25 shows de comédia variada, as redes norte-americanas NBC, CBS e ABC apresentavam no total mais 11 sitcoms em 1950, uma modalidade de comédia que, com o passar dos anos, tornou-se a mais popular da televisão. Já a partir de 1951, o sitcom tornava-se a modalidade de show de comédia mais volumosa na televisão norte-americana, e essa marca se mantém até os dias atuais. O sitcom não se tornou apenas um produto volumoso, mas também popular.