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3. CAPÍTULO 2 DO SITCOM TRADICIONAL AO NOVO SITCOM

3.2 O sitcom tradicional

A situation comedy, mais conhecida pela abreviação sitcom, torna-se popular no rádio e, posteriormente, na televisão como uma conjunção dos formatos de comédia já existentes em music halls e vaudevilles (MILLS, 2005, p. 37). Trata-se, inicialmente, de uma conjunção de propostas já consolidadas, além de uma reciclagem de atores e artistas que já haviam conquistado o público naqueles outros meios.

Segundo Joseba Bonaut e Mario del Mar Grandío, pesquisadores respectivamente da Universidad San Jorge e da Universidad Complutense de Madrid, podemos apontar como principais características dos sitcoms tradicionais:

• Sistema de produção com padrões narrativos específicos: o sitcom é um produto audiovisual de entretenimento cuja narrativa de cada episódio apresenta introdução, desenvolvimento e conclusão, categorizando-a como fechada. Possui curta duração (cerca de 22 minutos). Geralmente rodado em interiores e com a presença de um público, utilizando cores vivas em uma única locação dividida em vários cenários fixos que se repetem ao longo de todos os episódios. O formato se caracteriza principalmente pela claque, ou seja, o som da reação da audiência, que enfatiza os momentos de humor.

Estrutura narrativa e decupagem: o sitcom tradicional possui sua estrutura em três atos, ficando claras as divisões entre eles através dos intervalos comerciais. Existe geralmente uma trama principal e uma ou duas tramas adjacentes. Faz-se uso de teaser, um prólogo que, com uma pequena cena, pretende segurar a audiência após o primeiro corte publicitário e exibição da abertura. Também utiliza-se o tag, pequena cena que acompanha os créditos finais e traz um último momento cômico do episódio. Sobre a captação, são usadas três ou mais câmeras, com poucos movimentos, geralmente limitados a plano/contra plano.

• O humor é construído através de piadas por diálogos, imagens e som: é frequente a utilização de técnicas como a surpresa, o mal-entendido verbal, a mudança de papéis, o engano e a confusão. As personagens falam mais do que atuam e, sendo assim, a comicidade constrói-se comumente baseada em diálogos.

• Temática tradicional e personagens baseadas em estereótipos: originalmente a maioria dos sitcoms era centrada em uma família, como em Father Knows Best (NBC, 1954). Aos poucos, o local de trabalho também ganhou espaço, como em Mary Tyler Moore Show (CBS, 1970). Os sitcoms foram, através das décadas, moldando a personalidade e a profissão de suas personagens em referência à cultura da época. (BONAUT; GRANDÍO, 2009, p. 759). A serialidade também pode ser apontada como algo determinante para o formato. Estando o aparelho de televisão dentro das residências, foi possível contar com a formação de um hábito entre os espectadores e pensar em produções que estimulassem e ao mesmo tempo favorecessem a ação de ligar a TV em determinados dias e horários.

A comédia surge como uma das maiores favorecidas do formato seriado, pois ajuda na construção de uma familiarização dos espectadores com as personagens (MILLS, 2009, p. 17). É fácil entender a importância dessa familiarização. Alguma vez você já deve ter contado a um grupo de pessoas um caso engraçado que aconteceu com um amigo seu. Talvez você se lembre também da diferença entre as reações dos que conheciam o amigo e dos que nunca tiveram nenhum contato com ele. Os que o conheciam certamenteriram muito mais. Sendo assim, o conteúdo seriado traz essa possibilidade de reconhecimento da personagem, potencializando o quão engraçado o espectador considera suas peripécias. O sitcom, particularmente, é tão dependente dessa familiarização conquistada através do conteúdo seriado que não poderia existir no cinema ou no teatro (MILLS, 2009, p. 18).

A serialidade dos sitcoms difere de acordo com os programas. Algumas produções apresentam textos fechados, ou seja, os acontecimentos de um

episódio dificilmente interferem nos seguintes. Já o conteúdo seriado aberto aproxima-se do que é visto em telenovelas: os episódios trazem acontecimentos mais complexos que desenvolvem-se no decorrer de toda a série e ultrapassam as barreiras do episódio enquanto unidade. Sendo assim, a narrativa fechada favorece o espectador casual, que não pode ou não procura assistir TV nos mesmos horários, enquanto que a narrativa aberta demanda maior dedicação por parte do espectador, dado o seu caráter de continuidade (SAVORELLI, 2010, p. 17-18).

Os sitcoms nem sempre estão categorizados exatamente como seriados abertos ou fechados. É bastante comum que a primeira temporada apresente as narrativas mais fechadas. Se o programa sobreviver na emissora e for acordada a produção de uma segunda temporada, geralmente observa-se tendência à maior abertura das narrativas. Um bom exemplo é The Office, da NBC, parte do corpus da presente pesquisa. Na primeira temporada, o sitcom ressaltou as características de cada personagem e trabalhou acontecimentos isolados dentro do escritório. Já na segunda temporada, os criadores passaram a construir o progressivo romance entre Pam e Jim, o primeiro dos conflitos que passaria a evoluir no decorrer dos episódios do sitcom. Relacionamentos amorosos são recorrentemente os principais traços de abertura das séries que inicialmente apresentam episódios mais fechados.

Parte das características presentes no sitcom tradicional desde a década de 1950 até a atualidade foi resultado das influências culturais e da conjuntura encontrada por produtores no início da transição rádio-televisão. A mudança do meio apresentou problemas para o sitcom, principalmente no que tange ao aspecto visual.

Adaptar a comédia a um novo meio representava um problema, uma vez que ela tinha longa tradição em apresentações teatrais, na literatura, na música e outros. Talvez por isso o sitcom televisivo não tenha abandonado a característica teatral na forma como se organiza para a apresentação ao público. Segundo Mills, a configuração que se tornou a práxis do sitcom por tantas décadas pode ser considerada um híbrido teatral, pois trata-se de uma tentativa

de passar para o público em casa a sensação de uma apresentação humorística teatral ao vivo, o que fica bastante claro nas reações expansivas dos atores (que precisariam ser vistos até nas últimas fileiras de um teatro) e nas claques, que, entre outras contribuições, traz uma sensação de identificação com o grupo (MILLS, 2009, p. 14).

As câmeras de televisão na época de shows como Amos n' Andy (1951- 1953) eram pesadas e difíceis de transportar, o que fez com que produtores evitassem externas e construíssem a narrativa dentro dos limites de uma locação interna (estúdio). Segundo Elizabeth Bastos Duarte, os sitcoms adotam um formato simplificado, caracterizado por produções baratas com a utilização de locações e cenários pré-estabelecidos (DUARTE, 2003, p. 30).

Foi I Love Lucy (1951-1957) o sitcom que instituiu muitos dos recursos de linguagem encontrados até hoje no formato, através das criações do diretor e fotógrafo Karl Freund. Freund, após fotografar clássicos como Metropolis (1927), de Fritz Lang, e Dracula (1931), de Tod Browning, acompanhou os sete anos de I Love Lucy no ar. Entre suas criações está uma iluminação específica que possibilita o uso de câmeras simultâneas sem que haja diferença de luz entre os diferentes ângulos de captação. Esse jogo de (muitas) luzes permite o uso do Three-Headed Monster, ou “monstro de três cabeças”, uma alusão às três câmeras estrategicamente posicionadas à frente do cenário que capturam o diálogo entre dois ou mais atores, possibilitando o uso de três enquadramentos na edição: um plano mais aberto, mostrando o conjunto dos atores e duas opções de plano americano ou fechado, em parte das personagens ou em um ator específico. Segundo Mills, essa configuração mostra que a importância do plano de quem fala é equivalente à importância do plano de quem reage ao que é dito. Uma piada seguida de reação traz duas possibilidades: a de deixar clara a estranheza e, portanto, a comicidade do que foi dito e a de gerar duas risadas em vez de uma (MILLS, 2009, p. 39).

É possível reconhecer um sitcom tradicional imediatamente na televisão ao detectarmos a presença da claque. O som da risada não é importante apenas porque é a finalidade do gênero, mas também porque, através do uso da reação

do público presente no estúdio e também das risadas enlatadas, pode-se dizer que o riso faz parte do texto do sitcom (MILLS, 2005).

A claque é considerada por alguns teóricos o substituto eletrônico para a experiência coletiva (MEDHURST; TUCK, 1982), alinhando o público presente nas gravações com a audiência em casa. A voz coletiva reage dentro de uma gama de risadas mais discretas, interjeições de surpresa, gargalhadas e algumas poucas outras opções. A claque é um elemento metalinguístico, pois deixa claro para os espectadores que o que eles estão assistindo é uma peça, uma performance de uma atividade cômica.

Em Burns and Allen Show (1950-1958), o programa era gravado com duas câmeras cruzadas, de modo que, em um diálogo entre duas personagens, cada câmera enfatizava a reação de uma delas. Após a gravação, o episódio era então mostrado a uma audiência para a gravação das claques. Essa apresentação determinava a edição: se a piada fazia os espectadores rirem, a segunda câmera mostrando a reação da outra personagem entrava na edição. Caso contrário não havia o corte e a audiência permanecia vendo o ator que fez a piada.

Já nos primórdios do sitcom televisionado, a risada “enlatada” também era utilizada. Gravações contendo o áudio de plateias em reações diversas eram inseridas, em processo de pós-produção, para forjar a presença de um público presente no espaço por trás das câmeras, a quarta parede cuja visualização não era permitida aos telespectadores. Bancos de dados contendo esses áudios são utilizados por produtores até os dias atuais.

Em entrevista para o site On the Media32, Joe Adallian, colunista de TV da New York Magazine, comenta que o motivo pelo qual os produtores passaram a optar pelas risadas previamente gravadas é que, durante as filmagens, por vezes era necessário refazer a mesma sequência. É bastante comum haver algum erro por parte dos atores, algum imprevisto técnico ou qualquer outro fator que os fizesse ter que repetir a cena. O público, após assistir à mesma piada mais de uma vez, não tinha a reação desejada.

                                                                                                                         

As risadas enlatadas, em contrapartida, soam artificiais. Era comum a repetição dos mesmos áudios em diferentes shows, por décadas. Segundo Adallian, claques gravadas nos anos 1950 ainda eram utilizadas nos anos 1960 e 1970. Alguém com uma percepção mais aguçada poderia até pensar: “acho que conheço essa risada!”. Provavelmente já a ouvira antes mesmo. Produtores brincavam entre si com o fato de que muitas pessoas já mortas estariam rindo em seus programas.

Na década de 1970, acreditava-se que, se não houvesse o som de risadas, os telespectadores não iriam rir. Por serem vistas como algo tão primordial na fórmula dos sitcoms, as claques invadiam as telas até mesmo quando não havia um espaço adequado no texto. Os criadores de M.A.S.H. eram contra o uso das claques, mas foram vencidos pelas determinações da emissora. É possível perceber, nesse caso, que a inserção da claque parece inadequada, tanto pelo humor diferenciado do texto quanto pelo fato de o programa não ter as configurações tradicionais de um sitcom, a começar pela ambientação, um cenário de guerra. Apesar disso, M.A.S.H foi muito bem- sucedido.

Através das décadas, o sitcom mostrou tendências diferentes. O foco do texto transitou por temas como família, ambiente de trabalho, ascensão feminina, universos fantasiosos etc. Em contrapartida, suas principais características mantiveram-se as mesmas.

Depois do sucesso dos reality shows no ano 2000, as emissoras reduziram os investimentos nessas produções para dar lugar ao novo fenômeno, havendo um menor número de títulos disponíveis nas grades de programação33. O sitcom, contudo, pôde contornar essas novas tendências televisivas e até mesmo utilizar-se de sua estética para manter-se presente. A seguir vamos

                                                                                                                         

33  VILLARREAL, Yvonne. Thank “Modern Family” for the Revival of the Sitcom. Los Angeles

Times, 30 out. 2011. Disponível em: <http://articles.latimes.com/2011/oct/30/entertainment/la-ca- modern-family-20111030>. Acesso em: 15 jan. 2012.

compreender o impacto da premissa apresentada pela reality TV e por novas tecnologias, e como isso interferiu nos sitcoms lançados a partir do século XXI.