3. CAPÍTULO 2 DO SITCOM TRADICIONAL AO NOVO SITCOM
3.4 Novas modalidades de sitcom
Na década de 1990, o sitcom vivia um de seus momentos mais frutíferos desde o surgimento da televisão. Programas como Frasier (NBC, 1993-2004) e Friends (NBC, 1994-2004) consolidaram-se como grandes sucessos e símbolos culturais da época (BONAULT; GRANDÍO, 2009, p. 47). São apenas dois exemplos que mostram a força e a influência do gênero no século XX. Quando esses e outros grandes títulos da década de 1990 já haviam encerrado ou exibiam seus episódios finais, revistas especializadas decretaram a morte do sitcom. “Não existe nenhum sitcom entre os 10 programas mais assistidos nos Estados Unidos”, atestava o Daily Telegraph em 200445. Apesar disso, na mesma publicação, Robert Thompson, professor de Estudos de Cultura Contemporânea e Mídia da Syracuse University de Nova York, afirma a resiliência do Gênero:
Quando um meteoro atingir o planeta, duas coisas vão sobreviver: baratas e sitcoms. Quando estivermos todos em Marte, posso garantir que estaremos assistindo a sitcoms. É uma unidade gramatical básica da TV norte-americana. Televisão é uma forma artística em um espaço doméstico, e sitcom é o programa mais amigável aos espectadores de todos os tempos. Você pode apreciá-lo se estiver meio adormecido ou meio morto. (PILE, 2004, tradução nossa)46
O motivo pelo qual os sitcoms perdiam força na época era principalmente a popularidade dos reality shows. Como mencionado anteriormente, o forte apelo frente ao público e a grande conveniência na produção desses títulos fizeram com que a reality TV tomasse conta de horários tradicionalmente ocupados por sitcoms. “Se as emissoras produzem apenas quatro novos
45 PILE, Stephen. The Last Laugh. Daily Telegraph, 24 jan. 2004. Disponível em:
<http://www.telegraph.co.uk/culture/tvandradio/3610803/The-last-laugh.html>. “Not one of the top 10 programmes in America is currently a sitcom [...]”.
46 “When a meteor hits this planet two things will survive: cockroaches and sitcom. When we are all up on Mars I can assure you that we will be watching sitcom. It is the basic grammatical unit of American TV. Television is an art form in a domestic space and sitcom is the ultimate user- friendly programme. You can enjoy it if you are half asleep or half dead.”
sitcoms em um ano e apenas um a cada oito é um sucesso, então existe apenas meia chance por ano de surgir um sitcom que dure várias temporadas” (PILE, 2004, tradução nossa)47.
O caráter estritamente comercial das emissoras norte-americanas pode ter sido um dos motivos pelos quais o sitcom ficou, durante tanto tempo, sem inovações mais significativas, partindo-se do princípio de que toda inovação representaria um risco, alterando o que funcionava há décadas.
Isso não significa que o sitcom jamais tivesse experimentado mudanças em relação à práxis tradicional na história da TV anteriormente. Programas como Seinfeld (NBC, 1989-1998) e M.A.S.H. (CBS, 1972-1983) são dois exemplos de rompimento que antecedem as reviravoltas comerciais da televisão nos anos 2000. M.A.S.H. era um híbrido de gêneros, o que tornava sua classificação enquanto sitcom um pouco confusa, levando a denominações alternativas como dramedy (drama + comédia). Além disso, não organizava sua decupagem como os sitcoms tradicionais.
A crise na comédia televisiva no começo do século XXI levou a uma abertura maior para a tentativa de repaginar o sitcom nos Estados Unidos. Essa mudança foi impulsionada por dois motores: o sucesso de emissoras como HBO, TNT e Showtime, com seus novos programas de temática polêmica e linguagem audiovisual mais artística, apresentando requintes cinematográficos; e os reality shows, com a utilização de práticas documentais. “As origens desse novo tipo de comédia foram motivadas por razões industriais e por transformações televisivas derivadas da hibridização de formatos” (BONAULT; GRANDÍO, 2009, p. 38).
Um grande volume de novos títulos com mudanças expressivas em relação ao sitcom tradicional passou a integrar as grades de programação: Extras (BBC-HBO, 2005-2007), Spaced (Channel 4, 1999-2001), Curb your Enthusiasm (HBO, 2000-), Scrubs (NBC, 2001-2008) (ABC, 2008-), Arrested Development (Fox, 2003-2006), 30 Rock (NBC, 2006), entre outros. Em termos
47 “If the networks are trying out only four news sitcoms a year and one in eight is a hit, then you
de ruptura, cada programa possui suas especificidades, mas os dois diferenciais mais marcantes certamente são a exclusão da claque e a invasão da diegese por parte da câmera, semelhante às práticas cinematográficas, contando também com movimentos de grua, steadycam, travelling e câmera na mão. Além disso, a maior mudança de cenas e locações intensificou o ritmo da narração, e os temas abordados ficaram mais polêmicos, havendo também uma maior abertura para o humor politicamente incorreto e o nonsense, ou absurdo.
“A maioria dos sitcoms atualmente não possui claques, com exceção das produções da CBS” (ADALLIAN, 2012). Os produtores de Two and a Half Men, Big Bang Theory e 2 Broke Girls afirmam que as claques são provenientes de uma audiência presente no estúdio, sem recursos para exagerar essas reações. A única de suas produções que admite o uso de risadas enlatadas é How I Met your Mother, que, diferentemente das demais produções de comédia citadas, possui uma decupagem mais cinematográfica. E este apresenta risadas abrandadas em relação às encontradas nos programas que contam com a audiência presente. How I Met your Mother é um sitcom que traz inovações sobretudo no que diz respeito ao roteiro, contando a história a partir de vários pontos de vista (apesar de o ponto de vista do pai, Ted, ser o principal) e fazendo um intenso jogo com o tempo, rompendo diversas vezes a cronologia dos fatos.
Certa vez, conversando com um amigo que assistiu a todas as temporadas da série repetidas vezes, entrei em uma discussão: ele alegava que não havia claque na série e eu, que já havia escrito este parágrafo na ocasião, insisti que a claque era utilizada. Ele disse isso com tanta convicção que eu mesma tive que rever trechos de episódios para ter certeza de que não estava enganada. Sim, How I Met your Mother usa claque. Talvez meu amigo a tenha excluído da memória após incontáveis horas assistindo aos episódios, porque trata-se de um sitcom com uma linguagem tão inovadora para o gênero que a claque soa antiquada em meio a seus recursos. Ou também pelo novo hábito que o espectador de sitcoms pôde criar ao assistir títulos sem o uso da claque.
Mesmo sem admitir as manipulações nas reações do público através da captação, é possível mudar a percepção dos espectadores em casa, seja com posicionamento de microfones ou com diferentes níveis de volume em relação ao que é dito pelos atores. O quanto esses ou outros recursos são utilizados na CBS, como diria o próprio Adallian, “apenas a cabeleireira do estúdio sabe ao certo”. Essa discussão é evitada pelos produtores, pois pode sugerir que o programa não é engraçado, tornando-se uma espécie de tabu.
Um rompimento ainda maior surgiu com as séries que flertam com a linguagem documental. The Office é considerado um marco dessa hibridização na televisão. Originalmente produzido pela BBC, emissora britânica, o formato do programa chamou a atenção de produtores norte-americanos que, sob algumas adaptações, passaram a exibir uma versão estadunidense da série na NBC em 2005.
Emissoras públicas, tanto da Inglaterra quanto da Austrália, trouxeram novas propostas de sitcom para suas grades de programação antes dos Estados Unidos. Talvez pelo fato de não serem tão dependentes de audiência e publicidade, elas possam ter testado novos formatos com maior liberdade. E não seria apenas o sucesso de The Office na BBC uma justificativa suficiente para a adaptação do título para televisões norte-americanas, já que os dois públicos diferem em hábitos e preferências. A afinidade do formato com o apresentado pelos reality shows que encantavam os norte-americanos seria uma garantia a mais de que The Office, com uma adaptação textual, pudesse atrair a audiência. The Office, além de ser uma comédia situacional sobre pessoas vivendo seu dia a dia em um escritório, é uma comédia acerca da fascinação contemporânea pela reality TV: tudo pode ser gravado e todos podem ser observados, inclusive os telespectadores.
Se essas séries estão em conformidade com as características do documentário é irrelevante. O que é significativo é que as audiências estão mais acostumadas a serem entretidas por programas que
misturam as características de gêneros factuais e ficcionais. (MILLS, 2005, p. 65, tradução nossa)48
Além de The Office (NBC, 2005-presente), Parks and Recreation (NBC, 2009-presente) e Modern Family (ABC, 2010-presente) são exemplos de sucesso de púbico e crítica. No próximo capítulo eles servirão de objeto de análise dessa hibridização com reality shows no universo dos sitcoms.
48 “Whether any of these series conforms to the characteristics of documentary is irrelevant;
what’s significant is that audiences have become more accustomed to being entertained by programmes which mix the characteristics of factual and ficcional genres.”