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AS PRÁTICAS COTIDIANAS COMO CONSTRUTORAS DAS POLÍTICAS E

CAPÍTULO II POLÍTICA E PRÁTICA CURRICULAR NO CONTEXTO DO COTIDIANO

2.3 AS PRÁTICAS COTIDIANAS COMO CONSTRUTORAS DAS POLÍTICAS E

Como destacamos anteriormente, no estudo do cotidiano é necessário lembrar que a escola e principalmente a sala de aula são espaços em que se concretizam as definições sobre a política e o planejamento que as sociedades estabelecem para si próprias, como projeto ou modelo educativo que se tenta pôr em ação (AZEVEDO, 2004).

Em seus estudos sobre a sociedade pós-moderna, Gilbert (1995, p. 46) afirma que ainda que as características dessa sociedade “venham demandar uma ampliação do conceito de cidadania às esferas de expressão cultural e produção econômica, essa ampliação não precisa implicar alguma unidade abrangente em um nível mais alto”. O autor afirma que, em vez disso, “o que é necessário é o foco nos direitos envolvidos nos vários discursos da vida cotidiana. A procura desses direitos revelará suas conexões, bem como a necessidade de articulação. Desse modo, novos compromissos poderão ser construídos e um sentido ampliado de humanidade comum poderá desenvolver-se”.

No caso de nossa pesquisa, consideramos que as práticas cotidianas estão associadas à luta pela expansão das relações democráticas na confecção da agenda política (MULLER; SUREL, 2002) para o ensino médio e a educação profissional.

Em seus estudos sobre cotidiano escolar, Penin (1995, p. 17) já alertava que “no caso da escola, conhecer com precisão a natureza das práticas e processos desenvolvidos no seu cotidiano pode orientar decisões tomadas a nível quer das associações de classe, quer da instituição”. Ampliando a visão de Penin, esta pesquisa considera que as práticas cotidianas podem orientar decisões da política curricular, inscrevendo na agenda política ações normativas institucionalizadas.

No entanto, considera-se como Ferreira (2002) que tratar do cotidiano como campo de análise é entrar em um debate ainda muito pouco definido e com limites muito tênues. Algumas correntes, que trabalham com o cotidiano ou vida cotidiana, seguem por rumos diferentes, mas possuem alguns pontos de partida semelhantes. A autora destaca a tese marxista que considera que o conhecimento deve partir dos homens e da sua vida real, contribuindo para o desenvolvimento de abordagens diferenciadas, mas que se encontram nos estudos do cotidiano, principalmente os propostos por Heller (1992), Lefebvre (1991) e Certeau (1994, et al, 1996).

Ao deslocar as análises estáticas da vida social para a análise das relações em movimento, Heller e Lefebvre contribuíram muito para o desenvolvimento de uma sociologia

do cotidiano, no entanto, tomamos como referência para nossa pesquisa as análises de Michel de Certeau, por trazer novos enfoques quando salienta o poder das práticas cotidianas na construção das políticas e práticas curriculares.

Certeau et al. (1996, p. 341) se interessam em conhecer os tipos de operações em jogo nas práticas ordinárias, seus registros e suas combinações. Procuram realizar uma “análise combinatória sutil, de tipos de operações e de registros, que coloca em cena e em ação um fazer-com, aqui e agora, que é um ato singular ligado a uma situação, circunstâncias e atores particulares”. Assim, os autores valorizam a cultura ordinária.

Cultura ordinária e cultura de massa não são equivalentes. Dependem de problemáticas diferentes. A segunda remete a uma produção em massa que simplifica os modelos propostos para ampliar sua difusão. A primeira diz respeito a um “consumo” que trata o léxico dos produtos em função de códigos particulares, muitas vezes obras dos praticantes e em vista de seus interesses próprios. A cultura de massa tende para a homogeneização, lei da produção e difusão em grande escala, apesar de ocultar esta tendência fundamental sob variações superficiais destinadas a assentar a ficção de “novos produtos”. A cultura ordinária oculta uma diversidade fundamental de situações, interesses e contextos, sob a repetição aparente dos objetos de que se serve. A pluralização nasce do uso ordinário, daquela reserva imensa constituída pelo número e pela multiplicidade das diferenças (Ibid., p. 341, grifo do autor).

A cultura ordinária configura-se como “uma ciência prática do singular, que toma às avessas nossos hábitos de pensamento onde a racionalidade científica é conhecimento geral, abstração feita do circunstancial e do acidental” (Ibid.).

Identifica-se em Certeau (1994) uma nova compreensão da realidade social e das ações praticadas pelos sujeitos praticantes em sua vida cotidiana. Em sua visão, o indivíduo é um homem ordinário que possui um repertório de mil maneiras da arte de dizer, da arte de fazer e da arte do pensar.

Como na literatura se podem diferenciar “estilos” ou maneiras de escrever, também se podem distinguir “maneiras de fazer” – de caminhar, ler, produzir, etc. Esses estilos de ação intervêm num campo que os regula num primeiro nível (por exemplo, o sistema da indústria), mas introduzem aí uma maneira de tirar partido dele, que obedece a outras regras e constitui como que um segundo nível imbricado no primeiro (é o que acontece com a “sucata”). Assimiláveis a modos de empregos, essas “maneiras de fazer” criam um jogo mediante a estratificação de funcionamentos diferentes e interferentes (CERTEAU, 1994, p. 92, gripo do autor).

Destacamos que Certeau (Ibid.) entende o cotidiano como um ambiente que sofre influências exteriores e, por isso, local onde se formalizam as práticas sociais. Assim, as relações sociais são formadas por práticas que são construídas ou fabricadas a partir das

diversas atividades que se exercem na vida cotidiana, como atividades profissionais, sociais, políticas e culturais.

Essa concepção de cotidiano indica a inversão do olhar do pesquisador sobre a realidade, ou seja, “ao invés de olhar a realidade de forma panorâmica, totalizadora, recorrendo ao olhar divino do homem de ciência, Certeau se debruça sobre as práticas, ‘as mil maneiras de fazer’, que não cessam de aparecer como o fundo noturno da atividade social” (FÁVERO SOBRINHO, 2004, p. 96).

Em seus estudos sobre o cotidiano, Ferreira (2003) esclarece que Certeau parte de Lefebvre quando considera que as instituições econômicas interferem nas ações e pensamentos dos indivíduos, porém, o autor se destaca ao afirmar que não se podem resumir as análises sociais ao determinismo econômico.

A maior parte dos trabalhos sobre o cotidiano ao considerar a questão da produção econômica capitalista nas análises sociais tem valorizado o poder centralizador que esmaga quase que completamente o “consumidor” – como sujeito social que vive na sociedade de consumo capitalista. Esses trabalhos também consideram que o cotidiano reproduz influências do poder econômico nas suas relações sociais, restando aos “consumidores oprimidos” reproduzir ou superar essa situação.

Do lado do consumidor existe também uma produção que parece invisível. Nessa produção o consumidor transforma o espaço que lhe é imposto e se transforma em um caçador furtivo, no qual circula, caça, faz uma produção que não é marcada pela criação de novos produtos, mas que serve de um léxico imposto para produzir algo que lhe seja próprio. Assim, “o consumidor pode ser visto também enquanto criador, produtor ou praticante” (FERREIRA, 2003, p. 42).

No exame das práticas cotidianas, conforme Fávero Sobrinho (2004, p. 96), Certeau considera “que a individualidade é o lugar em que atua uma pluralidade incoerente (e muitas vezes contraditórias) de suas determinações relacionais”. Em sua pesquisa sobre o cotidiano, o autor “volta-se aos modos de operações ou esquemas de ação e não diretamente ao sujeito que é o seu autor ou seu veículo”.

A partir das operacionalizações das práticas cotidianas, Certeau considera três aspectos:

- estético – que se trata da arte de fazer, diz respeito ao estilo, a maneira específica de fazer, de praticar alguma coisa.

- ético – quando se constitui em uma recusa do sujeito em se identificar com a ordem tal como ela se impõe. Existe uma ordem que de alguma forma não pode ser mudada e existe um aspecto essencialmente ético quando não se segue tal qual essa

lei configura-se. É o abrir de um espaço que não é fundado sobre a realidade existente, mas, sobre a vontade de criar alguma coisa. Assim, na multiplicidade dessas práticas cotidianas, dessas práticas transformadoras da ordem imposta, há constantemente um elemento ético.

- polêmico – que representa a defesa da vida, ou seja, são práticas que estão inscritas como intervenções de conflito permanente em uma relação de força (FERREIRA, 2002, p. 63).

Com base nesses elementos que compõem as práticas cotidianas, as práticas são analisadas enquanto operações, como manifestações de “táticas e estratégias” (CERTEAU, 1994, p. 99), sendo importante verificar se essas manifestações estão mais reunidas em determinados locais que em outros e se são mais específicas de determinados meios ou de determinadas conjunturas, na qual algum indivíduo se encontra.

Embora sejam relativas às possibilidades oferecidas pelas circunstâncias, essas

táticas desviacionistas não obedecem à lei do lugar. Não se definem por este. Sob

esse ponto de vista, são tão localizáveis como as estratégias tecnocráticas (e escriturísticas) que visam criar lugares segundo modelos abstratos. O que distinguem estas daquelas são os tipos de operações nesses espaços que as estratégias são capazes de produzir, mapear e impor, ao passo que as táticas só podem utilizá-los, manipular e alterar (CERTEAU, 1994, p. 92, grifo do autor).

Segundo Ferreira (2002), Michel de Certeau retoma a noção de estratégia de Bourdieu, na qual

É certo que a maior parte das condutas humanas acontece dentro de espaços de jogo; dito isso elas não têm como princípio uma intenção estratégica tal como a postulada pela teoria dos jogos. Dito de outro modo, os agentes sociais têm “estratégias” que só muito raramente estão assentadas em uma verdadeira intenção estratégica (BOURDIEU, 1996, p. 145).

Porém, Certeau não obedece ao esquema de circularidade de Bourdieu, no qual as estratégias utilizadas pelos sujeitos possuem um certo automatismo relacionado ao habitus45.

Nesse sentido, Certeau (1994, p. 126-127) esclarece que

O interesse de Bourdieu está na gênese, no “modo de geração das práticas”. Não se interessa, como Foucault, pelo que produzem, mas por aquilo que as produz. Dos “estudos etnográficos” que as examinariam para a sociologia que teoriza sobre elas há portanto um deslocamento que remove o discurso para o habitus, cujos sinônimos (exis, ethos, modus operandi, “senso comum”, “natureza segunda” etc.), definições, e justificações se multiplicam. Das primeiras para a segunda o herói muda. Um ator passivo e noturno toma o lugar da multiplicidade astuciosa das estratégias. A este mármore imóvel são atribuídos, como a seu ator, os fenômenos constatados em uma

45 Segundo Bourdieu e Passeron (1975, p. 212), “é suficiente perceber, a propósito de uma relação parcial, o sistema das relações circulares que unem estruturas e práticas, pela mediação dos habitus como produtos das estruturas, produtoras das práticas e reprodutoras das estruturas, para definir os limites da validade (isto é, a validade nesses limites) de uma expressão abstrata como a do ‘sistema de relações entre o sistema de ensino e a estrutura das relações de classe”.

sociedade. Personagem essencial, com efeito, por permitir à teoria seu movimento circular: agora, das “estruturas” passa para o habitus (sempre em grifo); deste para as “estratégias” que se ajustam às “conjunturas”, estas mesmas reduzidas às “estruturas”, de que são efeitos e estados particulares. De fato, este círculo passa de um modelo construído (a estrutura) a uma realidade suposta (o habitus), e desta a uma interpretação dos fatos observados (estratégias e conjuntura) (grifo do autor).

Destacamos que o habitus é considerado por Bourdieu como “estrutura estruturada e estruturante”, que engaja, nas práticas e nas idéias, esquemas práticos de construção provenientes da incorporação de estruturas sociais que resultam do trabalho histórico de gerações sucessivas. A noção de habitus estrutura sua teoria da ação46.

Semelhante a Bourdieu, Michel de Certeau propõe tratar as práticas cotidianas como grupo de estratégias, sem desconsiderar os aspectos estruturais da sociedade, porém, em sua concepção essas estratégias são “produzidas e recriadas” pelos sujeitos através das práticas cotidianas que, por sua vez, possuem sua própria lógica, ou seja, a lógica das táticas (FERREIRA, 2002).

Assim, esta pesquisa considera que as práticas curriculares não estão inter- relacionadas com a noção de habitus, segundo o esquema de circularidade e de estratégias autômatas, e sim, que as práticas curriculares são resultantes das estratégias da política, mas que elas são “produzidas e recriadas” pelos sujeitos através das práticas cotidianas.

Certeau (1994, p. 94-95) destaca as inversões discretas provocadas pelo consumo da cultura dominante:

[...] usavam as leis, as práticas ou as representações que lhes eram imposta pela força ou pela sedução, para outros fins que não os dos conquistadores. Faziam com elas outras coisas: subvertiam-nas a partir de dentro – não rejeitando ou transformando-as (isto acontecia também), mas por cem maneiras de empregá-las a serviço de regras, costumes ou convicções estranhas à colonização da qual não podia fugir. Eles metaforizavam a ordem dominante: faziam-na funcionar em outro registro. Permaneciam outros, no interior do sistema que assimilavam e que os assimilava exteriormente. Modificavam-no sem deixá-lo. Procedimentos de consumo conservavam a sua diferença no próprio espaço organizado pelo ocupante.

46 Bourdieu (1996, p. 170) afirma que “a teoria da ação que proponho (com a noção de habitus) implica em dizer que a maior das ações humanas tem por base algo diferente da intenção, isto é, disposições adquiridas que fazem com que a ação possa e deva ser interpretada como orientada em direção a tal ou qual fim, sem que se possa, entretanto, dizer que ela tenha por princípio a busca consciente desse objetivo (é aí que o “tudo ocorre como se” é muito importante). O melhor de disposição é, sem dúvida, o sentido do jogo: o jogador, tendo interiorizado profundamente as regularidades de um jogo, faz o que faz no momento em que é preciso fazê-lo, sem ter a necessidade de colocar explicitamente como finalidade o que deve fazer. Ele não tem necessidade de saber conscientemente o que faz para fazê-lo, e menos ainda de se perguntar explicitamente (a não ser em algumas situações críticas) o que os outros podem fazer em resposta, como faz crer a visão do jogo de xadrez ou de bridge que alguns economistas (especialmente quando aderem à teoria dos jogos) atribuem aos agentes”.

Consideradas como práticas cotidianas, as práticas curriculares fazem as estratégias da política “funcionar em outro registro”, modificam-nas sem deixá-las, conservam as suas próprias diferenças, assumindo a forma de táticas.

Certeau (Ibid., p. 95) esclarece que “aquilo que se chama de ‘vulgarização’ ou ‘degradação’ de uma cultura”, ou de uma política, “seria então um aspecto, caricaturado e parcial, da revanche que as táticas utilizadoras tomam do poder dominador da produção”.

A lógica das práticas cotidianas não se apresenta apenas através do que é realizado em forma de ação em um determinado ambiente. A lógica da ação constitui toda uma rede de operações que envolve as relações de força, “que consiste em construções de táticas de ações ‘próprias’ desenvolvidas pelos sujeitos em um determinado ambiente que, todavia, se estabelecem quando as ações se transformam em práticas cotidianas e em práticas discursivas, tornando-se, portanto, indissociáveis” (FERREIRA, 2002, p. 64).

Consideramos como Certeau a importância da análise das práticas cotidianas conjuntamente com as práticas discursivas. Essas práticas discursivas estão relacionadas com os “atos de fala”, ou seja, com a utilização social da linguagem.

Assim, em Certeau (1994) a linguagem não é analisada de maneira isolada, ela está integrada aos contextos sociais, culturais e econômicos, da mesma forma que as práticas também estão integradas enquanto operações. Por isso, quando se analisa a forma operacional de um determinado grupo considera-se que essas formas são organizadas da mesma maneira que a linguagem. Os “atos de fala” são constitutivos das práticas cotidianas e são formas de práticas sociais. Conforme Ferreira (Op. cit.), é nesse sentido que “os documentos, as leis, o ato de conversar, de cumprimentar, de ordenar e de convencer fazem parte de todo um processo social no qual estão em jogo as relações de força em um determinado espaço social”. Assim, esta pesquisa pretende compreender as práticas curriculares através das práticas cotidianas conjuntamente com as práticas discursivas, ou seja, serão considerados os “atos de fala” presentes nos documentos institucionais e no discurso dos professores, além da observação direta das práticas docentes desenvolvidas no cotidiano da sala aula.

Ferreira (2003, p. 45) nos alerta que muitas dessas práticas cotidianas “estão apoiadas tanto na circunstância como na memória coletiva ou individual das pessoas”, por isso as representações dos professores sobre suas práticas são consideradas.

Diante do entendimento da teoria de Certeau, em nosso estudo sobre as práticas curriculares cotidianas analisaremos essas práticas enquanto operações, ou seja, como manifestações de tática e de estratégias.

Chama-se de estratégia o cálculo ou a manipulação das relações de forças que se torna possível, a partir do momento em que um sujeito de querer e poder – uma política, por exemplo -, pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças, no caso, os professores. As estratégias são organizadas pelo postulado de um poder, fazem parte da dominação ideológica e apontam para uma resistência, já as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresentam e também dos jogos que introduzem nas fundações de um poder. Nas palavras de Certeau (1994, p. 102),

As estratégias são portanto ações que, graças ao postulado de um lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto físico onde as forças se distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos outros. Privilegiam portanto as relações espaciais. [...] As táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, às relações entre momentos sucessíveis de um “golpe”, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos etc.

Assim, tomamos de Certeau (Ibid., p. 100) a tática como uma ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio, pois nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem um lugar senão o do outro e por isso joga com o terreno que lhe é imposto tal como organiza a lei de força estranha. “Não tem meios para se manter em si mesma, à distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento” dentro do campo do inimigo e no espaço por ele controlado.

Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto e objetivável. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não-lugar lhe permite sem dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos azares do tempo, para captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante. Tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Cria ali surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. É astúcia (Ibid., p. 100-101).

Destaca-se que quanto mais fracas as forças submetidas à direção estratégica, tanto mais a estratégia estará sujeita à astúcia das táticas.

Com essa compreensão sobre táticas e estratégias, consideramos em nossa pesquisa que o cotidiano escolar pode ser entendido como um ambiente onde se formalizam as práticas curriculares e que essas práticas sofrem influências exteriores da política curricular. No entanto, relativizamos a influência desses elementos externos, trazendo de Certeau “conceitos

que permitem analisar os sujeitos comuns, não só como reprodutores, mas também como sujeitos que produzem e constroem a vida de todos os dias” (FERREIRA, 2003, p. 47).

Assim, compreendemos que os espaços sociais não são dados e sim construídos e reconstruídos e que as orientações e normas presentes numa política, que são expressas nos documentos oficiais em forma de estratégias, não são simplesmente reproduzidas no cotidiano escolar e sim “fabricadas” a partir das diferentes realidades sociais, por meio da astúcia das táticas na reconstrução das orientações e normas presentes na política.

Nos momentos de encontros que acontecem no interior de cada unidade escolar se