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1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

2 A LINGUÍSTICA TEXTUAL E CONSIDERAÇÕES SOBRE GÊNEROS DISCURSIVOS, TEXTO E HIPERTEXTO

2.1 A LINGUÍSTICA TEXTUAL

2.3.3 As principais características do hipertexto

Koch (2003) aponta como as principais características do hipertexto a não- linearidade, a fragmentaridade, a descentração, a interatividade, a iteratividade, a volatilidade, a espacialidade topográfica e a multissemiose. Xavier (2009) traz quase as mesmas características e acrescenta a elas outros dois traços fundamentais do hipertexto, a ubiquidade e a intertextualidade – vista por Koch (2003) como um fator de textualidade15do hipertexto.

A não-linearidade é considerada a característica central do hipertexto. Ela representa a flexibilidade desenvolvida na forma de ligações permitidas/sugeridas entre nós que constituem as redes que possibilitam a elaboração de vias navegáveis. O hipertexto “[...] rompe a ordem de construção ao propiciar um conjunto de possibilidades de constituição textual plurilinearizada, condicionada por interesses e conhecimentos do leitor-co-produtor” (MARCUSCHI, 2004, p. 33).

Xavier (2009, p.122), considerando o argumento de outros autores que atribuem a não-linearidade também a textos impressos, expõe:

Todo texto ou obra literária, embora tenha sido produzido com certa ordenação em suas partes consideradas importantes pelo autor, pode ser consumido do fim para o começo, do meio para as extremidades. De igual forma, suas notas de rodapé ou índices remissivos podem nunca ser utilizados por quem os lê. Fazê-lo é uma decisão exclusiva do leitor.

O mesmo autor, no entanto, replica: “A não-linearidade na leitura de um texto impresso é uma forma de recepção das informações e não uma regra constitutiva de sua produção como no hipertexto” (XAVIER, 2009, p.123). Nesse sentido, a não- linearidade é uma característica constitutiva do hipertexto, definida pelo dispositivo material construído e, por isso, é um princípio básico da construção do processo da leitura no hipertexto (por meio de seus links e nós), e não uma decisão do leitor

15 Beaugrande e Dressler, já em 1981 (no livro Einfhrung in die Textlinguistik), referindo-se ao texto,

apresentavam a intertextualidade como um dos sete fatores de textualidade. Em 1997 (na obra “New foundations for a science of text and discourse”), Beaugrande ainda mantém a intertextualidade.

como nos textos impressos.

Relacionada à não-linearidade do hipertexto aparece mais uma característica: a fragmentaridade. Além de não ser linear, o hipertexto não possui um centro regulador imanente. Este suporte textual “[...] consiste na constante ligação de porções em geral breves com sempre possíveis retornos ou fugas” (MARCUSCHI, 2004, p.25). Xavier (2009) ressalta a relação dessas características com os links do hipertexto:

Portanto, o hipertexto parece só se deixar ‘decifrar’ fragmentariamente, funcionando como uma tecnologia enunciativa, ao mesmo tempo, mutante e plural, cuja inteligibilidade potencial é conquistada, lentamente, por meio dos mergulhos nos links [...] (XAVIER, 2009, p. 126).

A descentração também é apontada por Koch (2003) como mais uma característica do hipertexto. Segundo a autora, a descentração ocorre “em virtude de um deslocamento indefinido de tópicos, embora não se trate, é claro, de um agregado aleatório de fragmentos textuais” (KOCH, 2003, p. 64). Embora se reconheça, no hipertexto, a não-linearidade e, consequentemente, “a ausência de um foco temático dominante durante o processo da hiperleitura” (XAVIER, 2009, p.123), não se corrobora a ideia de Koch (2003) ao elencar a descentração como característica do hipertexto. Acredita-se que, no hipertexto, há várias centrações em função dos diferentes tópicos discursivos, à disposição do lautor, que fará suas escolhas no processo hipertextual de leitura.

Outros traços do hipertexto são a interatividade, “[…] devido à relação contínua do leitor com múltiplos autores praticamente em superposição em tempo real” (KOCH (2003, p. 64) e iteratividade, “[…] devido sua natureza polifônica e intertextual” (KOCH (2003, p. 64). Outra característica do hipertexto é a volatilidade, e pode-se atribuir tal traço à própria natureza (virtual) do suporte, afinal o que aparece na tela não possui a mesma estabilidade dos textos impressos.

Xavier (2009, p.114) menciona a imaterialidade em relação ao texto, uma vez que não se pode tanger tactilmente o hipertexto: “É paradoxal a sensação de tocar e não tanger tactilmente o hipertexto, de atualizá-lo sem senti-lo fisicamente”. Por sua vez, a espacialidade topográfica é igualmente um traço do hipertexto, justificado por se tratar de um espaço de escrita/leitura de limites indefinidos, não-hierárquico, nem tópico. Bolter (2001), o responsável por esse conceito, afirma que nesse espaço

topográfico a escrita eletrônica pode ser tanto uma representação verbal quanto visual, sem limites para seu desenvolvimento. Xavier (2009, p.127 – grifos do autor) acrescenta: “A linguagem digital efetuada no hipertexto tende a produzir, em seus hiperleitores, percepções sensoriais jamais experenciadas utilizando qualquer outra linguagem analógica”.

Essas “percepções sensoriais” estão diretamente relacionadas a outra característica do hipertexto: a multissemiose ou multimodalidade. É ela que viabiliza a absorção de diferentes aportes semióticos numa mesma superfície de leitura. O hipertexto “[...] acondiciona outros modos de enunciação, tais como as imagens em vídeo, ícones animados e sons, todos interpostos ao mesmo tempo na tela” (XAVIER, 2009, p.118). Há, então, uma possibilidade de conexão simultânea entre a linguagem verbal escrita, a imagem, o som, o movimento, de maneira integrativa, por contar com o recurso de multimídia/hipermídia.

A ubiquidade também é identificada por Xavier (2009) como característica do hipertexto. A diferença em relação às outras é que esse traço se aplica somente ao hipertexto aberto – online, uma vez ele é intangível, onipresente e atemporal na internet. “Uma vez publicado e indexado à Internet, um hipertexto poderá ser mundialmente visto” (XAVIER, 2009, p.116) e isso permite interações sociais diversas com e nesses espaços.

Xavier (2009) destaca a intertextualidade, também chamada por ele de hiperintertextualidade ou intertextualidade infinita, como uma característica do hipertexto, devido à possibilidade garantida ao falante de acesso a inúmeros outros textos que circulam na rede mundial de computadores, mediante os links nele indexados. De acordo com o autor: “Os links dispostos na página web abrem a possibilidade para o encadeamento de tantos outros hipertextos que podem provocar no hiperleitor um enovelamento de dados às vezes sufocante” (XAVIER, 2009, p.126).

Apesar de Xavier (2009) utilizar o termo “intertextualidade” para identificar o processo de dialogar com outros hipertextos indexados à internet, o que ele descreve se aproxima muito com as características interatividade e iteratividade descritas por Koch (2003): respectivamente, a relação contínua do leitor com múltiplos autores praticamente em superposição em tempo real e a natureza polifônica e intertextual do hipertexto.

Koch (2003, p. 67-68) refere-se à intertextualidade do hipertexto como um fator de textualidade. Nas palavras dela:

O hipertexto é, por natureza e essência, intertextual. Por ser um texto múltiplo, funde e sobrepõe inúmeros textos, textos simultaneamente acessíveis ao simples toque de mouse. Como encontro e/ou entrechoque das diversas vozes que permeiam esses textos, é essencialmente polifônico e dialógico.

Percebe-se que, tanto na abordagem de Koch (2003) como na abordagem de Xavier (2009) sobre o hipertexto, a intertextualidade presente é enfocada em sentido amplo, ela se equipara ao dialogismo bakhtiniano16, o que permite inferir, portanto, que todo e qualquer discurso é intertextual. A polifonia à qual Koch (2003) se refere também é em sentido amplo e indica “[…] a (inevitável) presença do outro naquilo que dizemos ou escrevemos” (KOCH, 2004, p. 145).

Concorda-se que o hipertexto é polifônico e dialógico, em sentido amplo, uma vez que é marcado pelo diálogo entre os interlocutores e pelo diálogo com outros textos. Nessa perspectiva, a partir da abordagem dialógica, ele não pode ser estudado como um artefato tecnológico, sem que seja considerado o seu uso na sociedade.

Há mais de uma década, Marcuschi (2004) já destacava o potencial da internet como espaço privilegiado para práticas de leitura e escrita. E questionava se a escola continuaria ignorando, ou não considerando como possível objeto de ensino a produção dos diversos gêneros emergentes da mídia digital, e seguir ocupando-se, na melhor das hipóteses, com a produção de cartas e bilhetes.

Hodiernamente, pesquisas apontam que, aos poucos, alguns gêneros discursivos digitais vêm sendo trabalhados na educação formal e aparecem, inclusive, em livros didáticos, o que já é um avanço. Entretanto, é necessário continuar investigando de que forma isso acontece e se abordagem instigada nas aulas de Língua Portuguesa contribui, realmente, para o multiletramento do educando.

16O dialogismo linguístico, para Bakhtin ([1929] 2009, p. 128), indica que “A língua vive e evolui

historicamente na comunicação verbal completa, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem do psiquismo individual dos falantes”.

3 COMPETÊNCIA COMUNICATIVA: O QUE MUDA COM AS TECNOLOGIAS