Capítulo 1 P ROGRAMAS DE SAÚDE P ÚBLICA DA F UNDAÇÃO
2.2. As relações da Fundação Rockefeller com a Direção-Geral
2.2.1. As propostas da International Health Division para a
Foi em 1932 que os responsáveis na Europa da Fundação Rockefeller manifestaram junto do Diretor-geral de Saúde de Portugal o parecer de que, para que o
103 Direção-Geral de Saúde, Repartição de Saúde, Secção Administrativa, setembro de 1938-setembro de
1941, p. 10. – [FHBD-GS].
104 Cf. Idem, p. 7-10.
105 Cf. PT/TT/PS/AMC/12-555 (1943-11-12 – 1944-12-18) Caixa n.º 26, Correspondência/FARIA, José
ensino das auxiliares dos médicos sanitaristas pudesse ter qualidade, era necessário a criação em Lisboa de um Centro de Saúde. Nele, as alunas candidatas a enfermeiras de saúde pública poderiam ensaiar e praticar o que aprendiam num curso com essa finalidade. Para tal, a International Health Division pretendia financiar um edifício para albergar esse centro e os estudos pós-graduados de um médico e de uma enfermeira na América do Norte, os quais, após a sua formação, deviam assumir a direção dessa nova instituição. Era esperado pois, em seu entender, “un personnel compétent et possédant l`experience requise est probablement le facteur le plus important dans le succès futur dùn centre d`hygiene”106. Mais, os responsáveis pela divisão de saúde da Fundação
entendiam que, para que o curso de visitadoras sanitárias, então a ser lecionado, fosse ao encontro do que então a International Health Division preconizava: era necessário exigir habilitações literárias mais elevadas às candidatas e assegurar às alunas, ao longo do curso, práticas clínicas hospitalares. Concomitantemente, seria necessário preparar um grupo de enfermeiras em gestão e em enfermagem de saúde pública, para que fossem capazes de dirigir a Escola e ministrar enfermagem de saúde pública107.
Com base nestas ideias, o Diretor-geral de Saúde, em 1934, anuiu a que se iniciasse em Portugal a formação de enfermeiras de saúde pública. Assim, identificou à
International Health Division potenciais candidatas a cursarem enfermagem de saúde
pública, nos Estados Unidos, como bolseiras da Fundação Rockefeller. Os representantes da International Health Division não podiam estar mais de acordo com José Alberto de Faria. A disponibilidade por ele demonstrada relativamente a este assunto veio ao encontro das suas ideias e ao que eles julgavam como mais indicado para o desenvolvimento e melhoria dos serviços de saúde pública e da profissão de enfermagem em Portugal. Apenas exigiam, à semelhança do que já tinha acontecido nos outros países com quem tinham protocolos de colaboração, que, após os seus estudos, as bolseiras fossem contratadas pela DGS, para aí exercerem as funções para as quais se haviam preparado.
106 Direção-Geral de Saúde, Repartição de Saúde, Secção Administrativa, abril de 1930 - agosto de
1935, p. 54. – [FHBD-GS].
107 Strode preparava nessa época uma viagem de estudo do Diretor-geral de Saúde por alguns países da
Europa Central e propunha que, quando ele estivesse em Varsóvia, visitasse a escola de enfermagem dessa cidade e que estudasse o tipo de preparação que davam às enfermeiras visitadoras de higiene, pois “le developpement de votre service d`hygiene publique, dans l`avenir, tel qu`il se présent à mon esprit, me parait requérir un nombre toujours plus grand d`infirmières” (Idem, p. 55).
Foi precisamente por tudo isso que, em abril do ano seguinte, o nosso País recebeu a visita da assessora de enfermagem da Fundação, a enfermeira Elizabeth Crowell. Ela veio inspecionar os Hospitais Civis de Lisboa, a Misericórdia, o Instituto do Cancro, um dispensário antituberculoso, um centro infantil e os serviços antivenéreos da DGS, o hospital e os serviços de saúde da cidade do Porto e de Coimbra. Com essa vistoria pretendia avaliar a situação em que a enfermagem portuguesa se encontrava, seus pontos fortes e fracos. Nesse ano, acabou por não sair de Lisboa dados os muitos contactos e intensidade do trabalho que aí desenvolveu108. Durante essa estadia
conheceu Maria Monjardino, que selecionou para estudar enfermagem de saúde pública como bolseira da International Health Division. Quatro anos mais tarde, esta enfermeira, após regressar da América do Norte, foi nomeada Diretora de Enfermagem do Centro de Saúde de Lisboa. José Alberto de Faria descrevia-a como
(…) filha de um professor da Faculdade de Medicina, sobrinha de outro professor da mesma Faculdade, senhora que viveu na América do Sul muito tempo e cujo pai viveu na América do Norte onde fez também o curso de medicina. (…) Tem uma educação mental e física cuidada mas como tipo de educação familiar. É pessoa devotada aos estudos sociais, ao sport e à vida de enfermeira109.
Era, portanto, alguém que estava dentro dos padrões sociais, académicos e de género que a Fundação entendia como os mais adequados para liderar, em Portugal, o desenvolvimento da enfermagem profissional.
Ainda durante essa visita, em conversa com José Alberto de Faria, a enfermeira Crowell fez saber que, em sua opinião (e o mesmo era dizer na opinião da Fundação Rockefeller), a DGS, ao manter a formação de visitadoras sanitárias de acordo com o modelo de curso em vigor desde 1929, em nada contribuía para melhorar a saúde pública. Para esta dirigente da International Health Division, se a Direção da Saúde de Portugal pretendia inovar, tinha que proceder a alterações na formação dada nesse curso. Havia necessidade de que as futuras profissionais de enfermagem de saúde
108 Cf. Idem, pp.170-172.
pública fossem educadas numa escola moderna, isto é num estabelecimento escolar que seguisse os cânones de formação de enfermeiras de saúde pública utilizados na América do Norte, defendidos pela Fundação Rockefeller e divulgados e vulgarizados nos países com quem a instituição filantrópica norte-americana então colaborava. Tal implicava, na opinião da assessora da Fundação, não apenas a construção de um edifício para esse efeito, mas também a nomeação de uma direção e de um corpo docente, constituído por enfermeiras devidamente preparadas para ensinar enfermagem às estudantes, tanto no estabelecimento escolar quanto nos locais de práticas clínicas. Aconselhava que, uma vez a escola construída, as visitadoras sanitárias em exercício deviam aí fazer uma reciclagem, isto é completar a sua educação e requalificar as suas competências profissionais, se pretendiam manter-se em funções nos serviços de saúde pública do Ministério do Interior. Elizabeth Crowell entendia ainda que, acima de tudo, José Alberto de Faria necessitava da assessoria de uma enfermeira culta, de boa reputação, influência social e com preparação adequada em saúde pública, para o aconselhar em tudo o que dissesse respeito ao ensino e exercício desta profissão110.
Como resultado dos diálogos estabelecidos com o Diretor-geral de Saúde, durante a sua estadia em Portugal, a enfermeira Crowell tomou conhecimento de que ele falava com alguma frequência com o Dr. Francisco Gentil, do Instituto do Cancro. Tais conversas incidiam sobre a necessidade que Portugal tinha em possuir enfermeiras devidamente qualificadas; ambos os clínicos estavam interessados na criação de um estabelecimento que permitisse formar essas profissionais de saúde. José Alberto de Faria pediu inclusive a Miss Crowell que abordasse o assunto com Strode e o alertasse para o interesse que podia haver na união de esforços da DGS com a Universidade onde o IPO estava inserido, em vista do desenvolvimento futuro do ensino de enfermagem111.
Surgiu assim o interesse, por parte da Fundação, em que a DGS unisse esforços com a Universidade, onde o IPO estava inserido, com vista à criação e desenvolvimento de uma escola de enfermagem, que formasse enfermeiras de acordo com o modelo praticado na América do Norte. Paralelamente, essa escola daria resposta às necessidades tanto da DGS, como do Instituto e serviria como modelo para outras escolas que se pretendesse criar em Portugal, dada a enorme carência dessas
110 Cf. Crowell, Officer`s Diaries, folder diary 1935, april 3, reel 2, Record Group 12.1. – [RAC].
111 Cf. IHD, Portugal-Lisbon School of Nursing, (5 april 1935), folder 396, box 32, series 1.1, Record
profissionais, cuja necessidade o plano de abertura dos grandes hospitais escolares veio agravar.
2.3. Os efeitos da II Guerra Mundial nas atividades da Fundação Rockefeller na Europa
A II Guerra Mundial provocou efeitos perniciosos no desenvolvimento dos trabalhos que a Fundação Rockefeller desenvolvia nas diferentes partes do mundo, nomeadamente na Europa. Neste Continente, os tais efeitos, nas universidades, institutos e laboratórios de todos os países, independentemente do seu envolvimento, ou não, na guerra, modificaram necessariamente o trabalho daquela instituição. A guerra trouxera o caos à Europa em termos de saúde pública, particularmente para as crianças. Assim em julho de 1940, a Fundação organizou uma comissão de saúde sob a direção da International Health Division, destinada a preparar um programa especial. Na execução deste projeto, o responsável por este organismo, Dr. Wilbur A. Sawyer, fez duas longas visitas à Europa, percorrendo a França, a Inglaterra, a Espanha e Portugal. Dois outros médicos, com longa experiência e que já tinham estado em França, estiveram em Paris e Vichy, dois nutricionistas recrutados em escolas de Medicina americanas e um engenheiro sanitário estiveram em Marselha112.
Algumas daquelas estruturas académicas e de investigação fecharam e outras trabalhavam em condições deploráveis. Nelas, o ensino e as atividades estudantis eram supervisionados em exclusividade pelas autoridades alemãs. Perante esta situação, a delegação de Paris foi obrigada a encerrar e transferida para Lisboa, a de Shangai foi transferida para Manila. Contudo, o escritório temporário aberto em Portugal foi encerrado em julho de 1941. Funcionava apenas a delegação de Londres113.
A repartição da capital portuguesa permitiu a fuga de inúmeros cientistas europeus, judeus e outros bolseiros da Fundação Rockefeller para a América do Norte.
112 Cf. The Rockefeller Foundation, (1940). Op. Cit. 113 Cf. Idem, (1941). Op. Cit.
Para além de Portugal e Espanha, a Fundação, durante a II Guerra Mundial conseguiu desenvolver projetos de investigação em Inglaterra, Suécia e Suíça114. Em Espanha, a International Health Division apoiou o Instituto Nacional de Saúde de Madrid. Em Portugal, continuou a auxiliar: o Instituto de Malariologia, onde realizava investigação sobre a doença e o seu controlo; o Centro de Saúde de Lisboa, onde desenvolvia estudos de nutrição, sob a direção do Professor Maia de Loureiro. Participou também na direção da ETE, onde se formavam profissionais polivalentes.
Em 1942, a International Health Division deu por terminada a cooperação que mantinha com a DGS e, consequentemente, o financiamento do Instituto de Malariologia de Águas de Moura e do Centro de Saúde de Lisboa, que, ao longo da década de 1930, tinha ajudado a criar e desenvolver. Com essa decisão manteve em atividade apenas o programa que tinha em comum com o IPO, ou seja, a ETE, o qual durou até 1959. Por essa época, o organismo da Fundação com programas na área da saúde foi reestruturado. Era então a Medical and Natural Sciences Division e dirigia a sua atenção para as universidades e para a investigação, deixando a saúde pública para a OMS.
O financiamento e o apoio que a International Health Division prestou à enfermagem de saúde pública estavam baseados na premissa de que o desenvolvimento do trabalho de saúde nessa área dependia, em grande parte, das enfermeiras. As demonstrações práticas que a Fundação desenvolveu nos centros de saúde obtinham sucesso ou, pelo contrário, falhavam, em função da existência de bons ou maus serviços de enfermagem de saúde pública. Segundo essa estrutura da Fundação Rockefeller, a enfermagem profissional não existia em muitos países, ou se existia, estava num estádio de desenvolvimento rudimentar. Consequentemente, tinham constatado que nessas circunstâncias a enfermagem de saúde pública só podia avançar quando a profissão de enfermagem fosse aperfeiçoada. Isso implicou que a Fundação fosse compelida para a educação em Enfermagem, apoiando técnica e financeiramente a criação e desenvolvimento de escolas, nos países onde a profissão se encontrava numa fase inicial115. Foi precisamente o que aconteceu em Portugal.
114 Cf. Idem, (1944). Op. Cit. 115 Cf. Idem.
Depois da II Guerra Mundial, a Fundação acreditou que os seus ex-bolseiros possibilitariam a reconstrução dos serviços de saúde europeus de forma mais rápida e mais segura do que havia sido possível após a I Guerra Mundial. No entanto, os recursos, tanto humanos quanto materiais, tanto de instituições públicas quanto privadas, foram insuficientes e inadequados para responder às necessidades criadas pela vasta dimensão da catástrofe que foi a II Guerra Mundial 116. Em 1946, os
representantes da Fundação Rockefeller para a Europa visitaram todos os países europeus, com exceção da Rússia, Hungria, Bulgária, Roménia e Grécia117, e puderam
verificar que as pessoas eram dominadas por um enorme desejo de paz, de segurança e de uma vida melhor118.
Conforme referido, a Fundação Rockefeller, década e meia antes, através da
International Health Division e a pedido do governo de então, entrou em Portugal, com
a finalidade de incrementar os serviços de saúde pública e melhorar os indicadores de saúde. Nesse sentido, os seus técnicos, em colaboração com a DGS então dirigida por José Alberto de Faria, desenvolveram várias ações e criaram o Instituto de Malariologia, o Centro de Saúde de Lisboa e a ETE. É desta instituição educativa de enfermeiras, que trata a II parte desta tese.
116 Cf. Idem, (1945). Op. Cit. 117 Cf. Idem, (1946). Op. Cit. 118 Cf. Idem, (1947). Op. Cit.