Capítulo 4 O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DA E SCOLA T ÉCNICA DE
4.3. Os espaços ganham vida
Para Barthes (2008), “a fotografia não rememora o passado. (…) O efeito que ela produz não é o de restituir aquilo que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de confirmar que aquilo que vejo existiu realmente” (p. 92). Apesar da fotografia ser definida como uma imagem imóvel e, como tal, a presença dos objetos retratados corresponder à “imagem viva de uma coisa morta” (Barthes, 2008, p.89), a observação de fotos dos espaços escolares em que o elemento humano está presente, quando comparadas com fotografias em que ele está ausente, faz com que esses retratos ganhem vida.
Foi assim possível através da observação de fotos do espólio da Escola apreciar uma pequena parcela do quotidiano escolar tanto no edifício da Avenida da República, como no do Complexo Hospitalar. Vi as estudantes nas aulas teóricas com farda de trabalho e ordeiramente sentadas em fila, de frente para a professora que, usando um mapa parietal sobre o quadro preto, explicava a anatomia dos órgãos auditivos266. Observei as alunas nas aulas práticas de Enfermagem simulando o banho a um doente acamado e a um bebé, aprendendo a deitá-lo no leito, a cuidar dele e da mãe267; nas aulas práticas de Dietética, em redor da bancada com os fogões, a preparar os leites e as
265 Cf. Corrêa para Almeida, maio 26, 1959, Obras, 5 fls. dactilog. [AD-ESEnfFG]; – Série:
Contribuições para a história da Escola; Caixa n.º 2; 1956-1990.
266 Cf. Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 21, 30 e 87. – [AF-
ESEnfFG].
farinhas268; e nas aulas práticas de Química, com as suas batas brancas e aventais escuros, a verter líquidos de uns recipientes para outros269. Vi como estudavam em grupo na Biblioteca270 e sozinhas nos seus quartos271. Observei as estudantes a saírem da Escola dirigindo-se ao estágio hospitalar e ao de saúde pública272, a trabalhar numa enfermaria hospitalar273 e a acompanhar uma doente em cadeira de rodas274. Tudo isto
visava a preparação para o seu futuro trabalho como enfermeiras. Contemplei a realização de exercícios físicos com equipamento adequado, jogando voleibol no jardim do edifício da Avenida da República275, praticando ginástica rítmica no interior do
ginásio276, ténis de mesa na sala de jogos277, o que era aconselhado pelo Committee on
Curriculum of the National League of Nursing Education (1938). Segundo esta
comissão, para as horas de lazer deviam ser programadas atividades promotoras do fortalecimento físico278.
Quanto a outras formas de ocupação dos tempos livres, pude observar as jovens a conviver na sala de estar279, a participar em festas organizadas por elas com recurso a
um esqueleto a quem chamavam “Zé Maria”280 (V. Fotografias n.º 31 e 32), o qual
segundo a terceira Diretora, que havia sido aluna da Escola, no final da década de 1940, representava o estado em que as alunas chegavam ao fim do curso (Corrêa, 2002), isto é esqueléticas pelo muito esforço, físico e mental, dispendido ao longo dos três anos de estudo. Julgo interessante a atribuição numa Escola feminina de um nome masculino ao esqueleto com o qual interagiam. Desconheço se os motivos de tal opção teriam que ver com o facto da vocábulo “esqueleto” ser um substantivo masculino ou se a bacia do 268 Cf. Idem, fotografia n.º 80. 269 Cf. Idem. 270 Cf. Idem, fotografia n.º 31 e 84. 271 Cf. Idem, fotografia n.º 77 e 78. 272 Cf. Idem, fotografia n.º 65. 273 Cf. Idem, fotografia n.º 58. 274 Cf. Idem, fotografia n.º 57. 275 Cf. Idem, fotografia n.º 29. 276 Cf. Idem, fotografia n.º 135. 277 Cf. Idem, fotografia n.º 30.
278 Cf. Goff, (1945a). Op. Cit., fl.18 dactilog.. – [AD-ESEnfFG].
279 Cf. Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 70. – [AF-ESEnfFG]. 280 Idem, (1955-1960). Álbum n.º 3, fotografia n.º 135. – [AF-ESEnfFG].
mesmo evidenciava ter-se tratado do esqueleto de um homem. Acerca deste assunto as fontes nada esclarecem, nem permitem qualquer interpretação.
Fotografias n.º 31 e 32 – Ocupação de tempos livres.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1. Fotografia n.º 70
e Álbum n.º 3, fotografia n.º 135. – [AF-ESEnfFG].
Brincavam também com ossos ou modelos de ossos “tocando a dança macabra”281, talvez como forma de exorcizar medos e ultrapassar as dificuldades da
disciplina de Anatomia. Tais práticas estariam possivelmente relacionadas com o tabu que a morte representava para a sociedade e, naturalmente, para as jovens. Estaria igualmente associado com o facto de o dito esqueleto e ossos ser objeto de estudo na disciplina de Anatomia, uma matéria muito extensa e sempre complicada para as estudantes da área da saúde. Ou seja, “apesar de um trabalho intenso, as alunas não deixam de ter horas indispensáveis de salutar recreio”282.
As estudantes podiam também dedicar-se, nos seus tempos livres, à leitura de diferentes autores. Para tal havia, no salão principal, uma biblioteca de ficção com cerca de 160 obras requisitáveis283. Este salão era também utilizado para convívio com pessoas externas à Escola, amigos ou familiares das alunas. Conforme depreendo das palavras de Goff, a sala anexa era utilizada, por exemplo, à noite, para momentos de
281 Idem, fotografia n.º 31.
282 Instituto Português de Oncologia, 1946a, p.1.
agradável distração e convívio ouvindo música, lendo jornais e revistas, jogando284. Não me foi possível, porém, saber quais os periódicos que podiam ser lidos, se bem que julgue que seria difícil a circulação daqueles que fossem proibidos pela censura. Pelo contrário, a National League of Nursing Education (1938) aconselhava que os jornais e revistas fossem representativos de várias correntes de pensamento e de diferentes ideologias, uma vez que a sociedade norte-americana não tinha essas restrições.
Todas as tardes era reservado tempo para chá285, um hábito enraizado no
quotidiano das sociedades anglófonas e das senhoras portuguesas das classes mais elevadas. Para o efeito, como se pode ver pelas plantas do edifício, existia nos 3.º e 4.º pisos uma pequena “copa de chá” (Cf Anexo n.º 20) que posteriormente ficou reduzida a uma copa no 2º andar (Cf. Figura n.º 3). Pretendia-se com este espaço impedir que as alunas armazenassem produtos alimentares nos seus quartos com todos os inconvenientes que daí advinham.
Como vemos pelo exposto, as fotografias deram-me a conhecer de forma mais concreta a racionalização e ocupação dos espaços da Escola e a forma como os diferentes atores viviam o seu quotidiano.