Capítulo 4 O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DA E SCOLA T ÉCNICA DE
4.2. Um edifício escolar modelar
4.2.2. Os espaços interiores
Segundo Lino e Kopp (1935-1938), no rés do chão do novo edifício, que começava por um vestíbulo relativamente amplo (V. Fotografia n.º 15), situavam-se os serviços administrativos, a sala de visitas (V. Fotografias n.º 16 e 17), o refeitório (V. Fotografia n.º 18), a cozinha (V. Fotografia n.º 19), os seus anexos e a sala de aula da dietética (V. Fotografia n.º 20).
O primeiro andar era ocupado pelas salas de aulas teóricas (V. Fotografia n.º 21), o Laboratório de Química e Microbiologia (V. Fotografia n.º 22), a sala de demonstração de Arte de Enfermagem e a Biblioteca (V. Fotografias n.º 23 e 24). Neste andar ficavam ainda os aposentos das dirigentes e docentes e os chamados quartos de isolamento. Os segundo e terceiro pisos, de planta idêntica, ficavam reservados para a instalação de cinquenta quartos, dotados de um pequeno cubículo para a higiene e um guarda-vestidos embutido na parede (Gentil, 1951), (V. Fotografias n.º 25 e 26).
252 Lino, R. & Kopp, E. (1935-1938). Op. Cit., Memória descritiva: 1935-1938. 2 doc.; 12 fls dactilog. RL
Fotografia n.º 15 – Vestíbulo do novo
edifício da Escola Técnica de Enfermeiras.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras,
(1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 66. – [AF-ESEnfFG].
Fotografias n.º 16 e 17 – Sala de visitas.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 69 e 71. –
[AF-ESEnfFG].
Fotografias n.º 18, 19 e 20 – Refeitório, cozinha e sala de aula da dietética.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 74, 73 e 80. – [AF-
Fotografias n.º 21, 22, 23 e 24 – Salas de aulas teóricas, Laboratório de Química e
Microbiologia, sala de Arte de Enfermagem e Biblioteca.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 86, 72, 82 e
84. – [AF-ESEnfFG].
Fotografias n.º 25 e 26 – Quarto de aluna
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 75 e 77. – [AF-
ESEnfFG].
No quarto e último andar estavam localizados os dormitórios do pessoal de serviço e os chuveiros, bem como divisões no terraço que incluíam sala de jogos e de ginástica (V. Fotografias n.º 27 e 28) para uso das estudantes.
Desconheço a existência de uma divisão específica para o Canto. Provavelmente, para esse fim podia ser utilizada tanto uma sala de aula teórica, como a sala de visitas onde se encontrava o piano de cauda, ou o ginásio onde, numa fotografia publicada por
Gentil (1951, p. 138), parece visualizar-se um piano sem cauda, de parede (V. Fotografia n.º 29).
Fotografias n.º 27 e 28 – Sala de jogos e de ginástica
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras, (1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 135 e 136. –
[AF-ESEnfFG].
Fotografia n.º 29 – Sala de ginástica
Fonte: Gentil, 1951, p.138
Em cada andar existiam dois longos corredores retilíneos (V. Fotografia n.º 30), ligados por outros dois de menor comprimento, de paredes claras e chão lustroso, que dava acesso às diferentes salas do edifício.
Resumindo, no dizer dos seus arquitetos, o projeto procurara, na parte destinada a habitação, “certa nota de interesse para a vista e conforto, bem necessários a quem exerce esta árdua profissão, cuja elevada índole não pode ser confundida com outros vulgares mesteres”253. No entanto, os espaços destinados à vida em comum, ou seja, as
instalações de caráter recreativo, “foram cerceadas a um quase que suficiente
mínimo”254, embora o seu planeamento tenha obedecido “ao propósito de estimular a inscrição na Escola de senhoras pertencentes às melhores classes sociais” (Gentil, 1951, p.133).
Fotografia n.º 30 – Um dos corredores
do novo edifício escolar.
Fonte: Escola Técnica de Enfermeiras,
(1940-1948). Álbum n.º 1, fotografia n.º 67. – [AF-ESEnfFG].
Com o mesmo propósito foi concebida a sala de visitas (Cf. Fotografias n.º 16 e 17), correspondente a duas salas unidas por um grande vão, sendo uma delas dotada de lareira, piano de cauda e sofás diversos que possibilitavam repousar e ouvir música. A outra, com um móvel de parede, sofás e escrivaninha permitia receber as visitas e repousar. Ambas tinham grandes tapetes no chão, um em cada recinto, alguns quadros na parede e amplas janelas destinadas a uma boa iluminação.
No seu conjunto, as instalações eram modelares, como nenhuma outra escola de Enfermagem possuía então em Portugal. O novo edifício escolar permitia às alunas não só um espaço devidamente equipado para o desenvolvimento do processo de ensino, como criava condições ótimas à aprendizagem das competências exigidas então às enfermeiras, as quais tinham posteriormente oportunidade de desenvolver nas práticas clínicas. Paralelamente estas instalações ofereciam o conforto e ambiente familiar a que
a maioria delas estaria habituada permitindo através de uma vigilância e disciplina apertadas e constantes, manter e ou desenvolver os hábitos que se entendiam dever possuir quem frequentava aquela Escola.
No que respeita a mobiliário e decoração, parece que se procurou proporcionar comodidade mas com uma certa sobriedade. Assim, a sala de jantar, retangular, era dotada com pelo menos oito mesas de madeira e seis cadeiras por mesa, construídas no mesmo material. No centro de cada mesa existia um recipiente com flores destinada a alegrar o ambiente (Cf. Fotografia n.º 18). Cada quarto de estudante, de pequenas dimensões, estava recheado com cómoda, cama, escrivaninha, sofá individual e um candeeiro de pé (Cf. Fotografias n.º 25 e 26), mobiliário este que teria, decerto, transitado do primeiro edifício. O gabinete das professoras, um dos locais de reunião e de preparação de aulas, tinha duas secretárias de madeira com um candeeiro elétrico, duas cadeiras, dois cadeirões, duas mesas de apoio e um tapete (Gentil, 1951). A exiguidade deste equipamento estava relacionada certamente com o escasso número de docentes de Enfermagem, uma vez que os médicos preparariam as suas lições em casa, ou nos seus gabinetes, consultórios e serviços. A sala de Ginástica era dotada de espaldares numa das paredes, um cavalo sem arções, um banco corrido e um piano de parede (Gentil, 1951), possivelmente utilizado nas aulas de ginástica rítmica como instrumento gerador de cadência para as alunas.
Neste novo edifício, as condições das salas de aulas teóricas e de Arte de Enfermagem255, melhoraram substancialmente. Ao contrário do que se observava no primeiro alojamento da Avenida da República, onde as paredes se apresentavam inclinadas e os espaços pareciam exíguos, no novo espaço educativo as paredes eram verticais e os espaços amplos. Apesar do equipamento parecer ser o que existia nas instalações utilizadas nos primeiros anos, ele multiplicou-se. Aumentou o número de cadeiras das aulas teóricas, os quadros pretos e os quadros parietais.
Procurando responder às exigências do currículo, o Laboratório de Química e de Microbiologia (Cf. Fotografia n.º 22) tinha no centro da sala uma bancada com tampo de pedra com pelo menos seis bicos de Bunsen, rodeada de seis bancos rotativos e uma enorme quantidade de equipamento necessário às atividades que aí se desenvolviam.
Deste material sobressaíam tubos de ensaio e frascos de vidro tanto em duas prateleiras sobre a bancada, como noutras cinco sobre um balcão junto a uma parede. Na parede oposta existia uma outra bancada com mais frascos e um dispositivo especial envidraçado para preparação de vários produtos químicos. O Laboratório de Dietética (Cf. Fotografia n.º 20) possuía uma bancada retangular no seu centro, sobre a qual estavam dispostos seis pequenos fogões para utilização das alunas que aí preparavam diferentes dietas. Do teto pendia uma estrutura para saída de fumos e numa das paredes era visível uma bancada com lavatórios. Numa outra, dois pequenos armários. Havia ainda uma mesa de apoio. A Diretora Lima Basto reconhecia que estes espaços estavam bem equipados, “deixando as visitas atónitas especialmente com as características do laboratório de dietética”256. Para que o processo de ensino-aprendizagem resultasse e as
futuras enfermeiras ficassem aptas a exercer as funções que delas se esperavam era fundamental que tivessem a possibilidade de em ambiente protegido, na Escola, conhecer e manipular todo o equipamento que mais tarde como profissionais de enfermagem iriam utilizar. Daí a necessidade da Escola estar dotada de toda uma parafernália dos mais recentes apetrechos em qualidade, e quantidade, adequada ao número de estudantes que a frequentavam. A preocupação deste estabelecimento escolar em proporcionar o equipamento necessário às tarefas das suas pupilas e consequentemente à sua aprendizagem, levava, inclusive, a transportar para os serviços hospitalares e de saúde pública todo o material, que neles fosse considerado pelas docentes, em deficit.
A Biblioteca (Cf. Fotografia n.º 24), tão necessária ao estudo individual, desenvolvimento de trabalhos de grupo e de hábitos de pesquisa bibliográfica, que nas primeiras instalações era rudimentar257 e estava instalada numa marquise envidraçada,
possuía agora uma sala ampla com sete mesas, doze cadeiras, duas caixas onde se encontravam arquivadas as fichas de referenciação bibliográfica e duas estantes de madeira com doze prateleiras cada, recheadas de bibliografia proveniente dos Estados Unidos da América, umas doadas por enfermeiras estrangeiras que visitavam a Escola, outras pela Fundação Rockefeller e outras ainda, as revistas, por assinatura ou compra direta a editoras desse país.
256 Basto, (1943b). Report, december 31, fl. 1 dactilog. [AD-ESEnfFG].
Todos os espaços descritos eram dotados de janelas que permitiam uma boa luminosidade e de aquecimento central a óleo, o que para a época constituía um luxo se pensarmos em outras instituições educativas. O chão, com exceção da cozinha e do vestíbulo, onde era de pedra, era forrado com tacos de madeira tornando o ambiente muito mais acolhedor e agradável do ponto de vista térmico.
Para além do ginásio no 4.º andar existiam outros espaços onde as alunas podiam realizar as diferentes atividades desportivas, nomeadamente, o jardim onde jogavam voleibol e faziam outro tipo de exercícios.
No caso de as alunas adoecerem, a Escola possuía instalações que funcionavam como uma pequena enfermaria de isolamento. Localizavam-se no 1.º piso e estavam devidamente assinaladas nas plantas do edifício (Cf. Figura n.º 2 e Anexo 20). Na sua antecâmara existia um consultório onde as estudantes podiam ser observadas e examinadas pelo médico escolar. Os cuidados a prestar às alunas doentes eram da responsabilidade da instrutora que neste estabelecimento escolar lecionava Arte de Enfermagem258.
Toda a escola deve exercer sobre os alunos uma influência socializadora, o que se tornava mais evidente ainda numa com internato, numa das primeiras fases do Estado Novo, uma vez que ela substitua efetivamente o papel da família no que à socialização dizia respeito. Assim sendo, a Escola Técnica de Enfermeiras, na sua relação com a arquitetura do novo edifício, é concebida em certa medida como uma instituição separada do mundo exterior, como um local de proteção das estudantes face a influências perniciosas e contrárias às das docentes e dirigentes. Para isso, fica rodeada dos muros do Complexo Hospitalar e protege-se na sua sombra, cuidando das estudantes, em substituição dos familiares a quem controla a entrada e os dias de visita. Mais. A conceção do seu edifício promove a disciplina, fomenta a vigilância e impede a fuga por meio da existência de corredores longos e retilíneos em todos os pisos, ausência de recantos, salas amplas, retangulares e bem iluminadas (Cf. Figura n.º 2 e 3), onde as professoras podem supervisar, orientar e avaliar continuamente as estudantes de forma a perceber se estas possuem as características que a Escola entende como desejáveis a uma profissional de enfermagem. Todos estes aspetos poderão de alguma
258 Cf. Goff, (1945a). Special report of the Technical School for Nurses. Portuguese Institute of Cancer, june, fl.18 dactilog.. – [AF-ESEnfFG].
forma ter contribuído para a elevada taxa de abandono/insucesso escolar das alunas que nos primeiros seis cursos por exemplo atingiu os 30,1%.
Relativamente às novas instalações, dizia a sua primeira Diretora que era ”uma casa bonita e confortável que estava de acordo com as exigências de uma escola de enfermagem moderna”259 e que com ela tinha aumentado a capacidade das salas de
demonstrações, bem como dos espaços destinados às aulas teóricas (duas salas), da Biblioteca que tinha capacidade para 32 leitores. E acrescentava que havia razões para “estar orgulhosa com o novo edifício porque ele representava um enorme passo em frente para a enfermagem e ainda porque, mesmo fora da profissão, não existia outra escola em Portugal que apresentasse tais condições”260. Tinha opinião semelhante a
deputada Maria Luísa van Zeller, a qual afirmava que o novo edifício da Escola Técnica de Enfermeiras se impunha como modelo para construções com finalidades semelhantes261.
Apesar de reconhecer a modernidade e excelência das instalações escolares de Palhavã, Hazel Goff, a segunda diretora, era de opinião de que existiam espaços mal concebidos que tornavam alguns serviços pouco eficientes e o ambiente por vezes pouco propício ao processo de ensino-aprendizagem. Por isso, mandou realizar alguns melhoramentos no verão de 1945, como seja, a colocação de janelas envidraçadas no 4.º andar com a finalidade de conservar a temperatura e impedir as correntes de ar no interior do edifício; a instalação de um grande armário no corredor do 1.º piso para colocação de uniformes; a mudança da central telefónica para um espaço mais reservado, com uma cabine que permitisse privacidade aos utentes e a modificação do mesmo sistema nos quartos das alunas para que pudessem atender o telefone em todos os pisos262.
Posteriormente e até ao final da década de 1950, foram realizadas apenas pequenas reparações com a finalidade de adaptar o edifício às necessidades provocadas pelo aumento do número de estudantes. No entanto, em 1959 as adaptações efetuadas
259 Basto, (1943b). Report, december 31, fl. 1 dactilog. [AD-ESEnfFG]. 260 Idem, fl. 2 dactilog. [AD-ESEnfFG].
261 Cf. Assembleia Nacional, Diário das Sessões, IV Legislatura, (19), p. 285.
262 Cf. Goff, (1945a). Special report of the Technical School for Nurses. Portuguese Institute of Cancer, june, 48 fls. dactilog.. [AD-ESEnfFG].
Figura n.º 2 - Plantas da Escola Técnica de Enfermeiras (R/C e 1.º andar).
Fonte: Planta em papel vegetal de data desconhecida263.
263 Este documento em 2008 encontrava-se num chaveiro existente naquele que havia sido, no R/C das
Figura n.º 3 - Plantas da Escola Técnica de Enfermeiras (2.º e 3.º andar).
Fonte: Planta em papel vegetal de data desconhecida264.
até aí já não propiciavam boas condições de ensino e de alojamento pelo que foi necessário proceder a algumas obras de remodelação, nomeadamente aumentando o número de gabinetes para as professoras; criando um gabinete para enfermeiras bolseiras que estagiavam na Escola ao abrigo dos protocolos estabelecidos com organismos nacionais e internacionais; adequando as salas de aulas teóricas e de demonstrações às necessidades do processo de ensino-aprendizagem; construindo e adaptando espaços nos pisos destinados ao internato (2.º e 3.º andares), para facilitar a arrumação dos haveres das residentes e aumentar a sua capacidade de alojamento; adaptando a sala de jogos e o ginásio do 4.º andar a salas de aulas e reuniões265.