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As razões subjetivas (individuais) do envelhecimento

No documento TERRITÓRIO DOS IDOSOS (páginas 75-81)

2.2 O ENVELHECIMENTO HUMANO: UM NOVO TERRITÓRIO

2.2.2 As razões subjetivas (individuais) do envelhecimento

Ao buscar um referencial que traz explicações sobre o processo de envelhecimento encontra-se uma maior quantidade de produções científicas que iniciam com as razões objetivas deste fato contemporâneo, ou seja, sobre os aspectos demográficos, sendo menor a quantidade de trabalhos que se preocupam em buscar as explicações subjetivas do fenômeno. Compreende-se que este é um evento contemporâneo que atinge o mundo todo, mas de forma mais intensa os países em desenvolvimento, como o caso do Brasil. Assim, tem-se a ideia de que este fenômeno é homogêneo, uniforme e igual para todos. Embora os conceitos biológicos do processo de envelhecimento expliquem de fato este artifício, atinge a toda população que alcança idades mais avançadas. Acontece de forma diferenciada e individual, tendo relação direta com contextos e vivências sociais de cada indivíduo.

Biologicamente entende-se o envelhecimento referendado por Hoffmann (2002) como uma alteração molecular e celular que resulta em perdas funcionais progressivas de todo o organismo, sendo mais perceptível após a fase reprodutiva,

embora as perdas funcionais comecem a ocorrer muito antes. Magalhães (1989, p.17) explica que a evolução biológica do ser humano é afetada por vários determinantes entres estes a classe social, o grupo profissional, a cultura por exemplo que ajudaram a prolongar a vida. Isso, portanto, “contribuiu para a melhoria dos processos de preservação da saúde, aquisição de cultura e fruição dos bens e serviços que possibilitam um bem-estar social e individual.”

Debert(1999) coloca que por muito tempo compreendeu-se e se estudou a velhice a partir dos aspectos de perdas, como a decadência física e a ausência dos papéis sociais, visualizando-se apenas os aspectos negativos deste ciclo da vida.

Com essa ideia a gestão da velhice era prioridade da vida privada. Com a tendência contemporânea de revisão dos estereótipos associados ao envelhecimento, a velhice passa a ser também uma questão social pública. Assim, destaca Debert(1999, p. 14) que:

Os estágios mais avançados da vida são momentos propícios para novas conquistas, guiadas pela busca do prazer e satisfação pessoal. As experiências vividas e os saberes acumulados são ganhos que oferecem oportunidades de realizar projetos abandonados em outras etapas e estabelecer relações mais profícuas com o mundo dos mais jovens e dos mais velhos.

Neste aspecto Lins de Barros (2006, p. 119) coloca que “Dentro da categoria velhice há uma pluralidade marcada também por gerações” e utilizando-se de citação de Motta (2004) mostra que “a velhice deve ser pensada no plural, não só pela constatação da pluralidade de formas de envelhecer dentro do mesmo grupo etário, mas porque há vários grupos etários dentro desta única denominação genérica da velhice.”

Se para alguns o envelhecimento é sinônimo de perdas e afastamento da vida social (morte social), para outros significa o começo de uma outra fase na busca de experiências novas e estimuladoras para continuar em desenvolvimento. A ação desses sujeitos é que fará a diferença. E foram essas ações que modificaram a visão de exclusão que a categoria idoso engendrava em outras épocas.

Objetivamente 60 anos pode ser a idade que marca o envelhecimento, mas é apenas o seu início. Com o prolongamento da expectativa de vida a cada década, este torna-se o início de uma nova fase de vida ainda com a possibilidade de

organização de muitos projetos, que dependerão essencialmente de suas capacidades funcionais e por isso diz-se que há muitas velhices.

Assim também Beauvoir12 (1990, p. 17) expressa que é impossível definir a velhice, pois constatou que “ela (a velhice) assume um multiplicidade de aspectos, irredutíveis uns aos outros”, além de que a diferenciação das velhices individuais demonstra causas como a saúde, a família, o contexto de trabalho, a classe social e econômica do sujeito que envelhece e, acrescenta “ A involução senil de um homem produz-se sempre no seio de uma sociedade; ela depende estreitamente da natureza dessa sociedade e do lugar que nela ocupa o indivíduo em questão”(p. 47).

Também essa pluralidade no envelhecimento que Alda Brito da Motta13, pesquisadora baiana, atribui e se coaduna com o pensamento de Pavarini et al.(2005, p. 400) ao exporem que “A história de vida de seus membros, a cultura de origem e o contexto histórico e cultural em que vivem, a disponibilidade dos recursos pessoais e sociais de apoio são fatores importantes” no processo do envelhecimento.

Nesse sentido contribuem ainda Neri, Cachioni e Resende (2002) ao afirmarem que “a velhice é um conceito historicamente construído que se inscreve na dinâmica das atitudes, das crenças e dos valores da sociedade.”

No livro de Simone de Beauvoir (1990) quando esta infirma alguns dados etnológicos de povos antigos e sociedades históricas, mostra o quanto os idosos sacrificaram-se em nome de mitos e lendas em torno da morte. Além disso, com sua obra a autora traz ainda ao público a realidade sobre a velhice que a sociedade da época14 não queria revelar, pois a velhice torna-se uma “espécie de segredo vergonhoso”, e se tornara indecente falar, conforme ela mesma aclara:

A atitude da sociedade para com os velhos é, por outro lado, profundamente ambígua. Em geral, ela não encara a velhice como uma fase da idade nitidamente marcada. A crise da puberdade permite traçar entre o

12 Essa autora francesa escreveu o Livro A Velhice em uma época que pouco ou nada se falava sobre o envelhecimento. Na realidade essa foi uma das primeiras autoras a falar de forma escancarada sobre a realidade cruel dos idosos, especialmente os das classes mais baixas e intelectuais que viviam na França na década de 1960/1970.

13 Esta é uma pesquisadora brasileira que também é idosa e pesquisa sobretudo sobre os idosos mais idosos. Também em seus trabalhos ela pesquisa a chamada geração pivô (idosos cuidadores).

14 O livro foi escrito no final da década de 1960 do século XX na Europa e traduzido para o português no ano de 1970. No Brasil a velhice passou a ser tratada como questão social somente a partir da década de 1990, após ser inserida na Constituição de 1988.

adolescente e o adulto uma linha de demarcação que é arbitrária apenas dentro de limites estreitos: com 18 anos, com 21 anos, os jovens são admitidos na sociedade dos homens. Quase sempre os ‘ritos de passagem’

envolvem esta promoção. O momento em que começa a velhice é mal definido, varia de acordo com as épocas e lugares. Não se encontram em parte alguma ‘ritos de passagem’ que estabeleçam um novo estatuto.

(BEAUVOIR, 1990, p. 09).

Nas culturas tradicionais a função social da velhice era a memória e lembranças, conforme referenda Magalhães(1989, p. 33) “O papel da memória é tradicionalmente valorizado entre os mais velhos, assim como suas lembranças constituem patrimônio coletivo, expresso e revivido permanentemente no contato com novas gerações, sejam crianças ou adultos.” Preleciona o autor que nas sociedades tradicionais esses são representados pelos idosos mais antigos com a função de conselheiros, curandeiros, sábios e feiticeiros, respeitados pela tradição cultural e pela experiência acumulada. Entretanto, caso se buscar por uma antropologia da velhice ver-se-á que nem sempre os idosos foram reconhecidos e respeitados, pois as questões culturais de muitos povos entendiam que a velhice trazia a morte e em torno destas havia muitos rituais macabros, como o gerontocídio15.

Com o decorrer da história da humanidade houve épocas de valorização e desvalorização dos idosos. Após o período de extrema importância e valorização dos idosos nas sociedades tradicionais (famílias patriarcais) surge novamente um período de desvalorização da velhice, especialmente com a chegada da industrialização. Isso ocorreu porque havia o entendimento de que se valorizar a força do jovem para os trabalhos nas fábricas e indústrias e após um período de atividades o idoso deveria se afastar para dar lugar aos mais jovens. Essa concepção de velhice trouxe a aposentadoria e com isso o afastamento das pessoas não só do trabalho, mas também da vida social. A ideia que vigorava era de que lugar de idosos era em casa, descansando, tratando de suas doenças ou esperando a morte chegar. Fernandes (2000) corrobora com essa noção ao afirmar que o idoso passa a ser desvalorizado pela sociedade a partir da revolução industrial e destaca:

Até o século XVIII a velhice não se encontrava discriminada; a longevidade não implicava abandono das atividades produtivas nem afastamento das

15 Quando se envelhecia chegava-se próximo a morte, os filhos eram responsáveis por matar seus pais, como o caso dos esquimós que levavam os idosos ao cume de um monte para morrer sozinho, de fome e de frio.

relações sociais. O envelhecimento era concebido como sabedoria:

revestia-se de sacralidade. Na passagem do século XVIII para o século XIX, o envelhecimento passou a ser sinônimo de degeneração e decadência[...]Nas últimas décadas do século XX ‘testemunhamos’ a retomada da valorização do idoso e um movimento a favor de sua seguridade e participação no circuito de bens e riquezas socioculturais (p.32).

Por um lado, nas sociedades industrializadas a velhice é vista como um quadro dramático de perda de status social, pois a industrialização destruíra a segurança econômica e as relações familiares, típicas das sociedades tradicionais, respeitados por sua sabedoria e experiência (DEBERT; OLIVEIRA, 2007). Santin e Borowoski (2008, p. 143) também referendam sobre o assunto:

[...]Com a velocidade da urbanização, a figura da família patriarcal desapareceu, dando lugar à industrialização. [...]No contexto desse cenário, o idoso começa a perder espaço, pois não se enquadra em nenhuma função de relevante importância. A ele são atribuídas funções de pouca ou nenhuma significância.

De fato, como alude Lins de Barros (2006) na década de 1970, no Brasil, o envelhecimento ainda não estava na mídia, não se debatia nas academias e nem nos espaços públicos. Ao contrário, vivia-se um período de “culto ao jovem”, como um país com um contingente enorme de crianças e jovens que levariam ao progresso do país com o lema do regime militar “Pra Frente Brasil” .

Por outro lado, o idoso passa a ser visto com possibilidades de consumo e é representada como “Terceira Idade”. Prado (2002) confirma isso ao explicitar que a Terceira idade é uma criação do Ocidente. No século XX, o fenômeno do envelhecimento empurra a velhice para idades cada vez mais avançadas. Vistos por um lado, como vítimas da marginalização e da solidão, os idosos então, a partir de 1970, passam a ter instituições e agentes especializados para o atendimento de suas necessidades, mais especificamente na área da saúde e assistência. Por outro lado são vistos como uma nova categoria (Terceira Idade) que apresenta possibilidades de buscar novas sociabilidades e usufruir de momentos de lazer, viagens e principalmente como potenciais consumidores.

A Alta Modernidade ou Modernidade Tardia proporcionou as condições para as pessoas refletirem sobre sua intimidade, já que uma de suas características é o individualismo. A tradição perde espaço e se reconstitui num jogo dialético entre

escolhas locais e globais. Assim se força os indivíduos a escolher em um estilo de vida a partir de uma diversidade de opções, conforme relata Giddens (2002). Essas escolhas de diferentes estilos de vida apontam para várias transformações da intimidade.Entre elas a reestruturação da família, a emancipação da mulher e a visibilidade das minorias excluídas, como as étnicas, as mulheres, os idosos, entre outros, constituindo-se em novos atores sociais na esfera pública. Com efeito, as condições mais favoráveis de vida, proporcionado também pela Alta Modernidade, como as máquinas, equipamentos e utensílios domésticos, os meios de transporte e de comunicação, a universalização da aposentadoria e os produtos da área da cosmética permitem ao idoso viver com mais conforto e usufruir dos bens culturais da sociedade (RABELO; NASCIMENTO, 2007). A própria sociedade capitalista e consumista batiza este período de “Terceira Idade” ou “Melhor Idade”, forçando-os a usufruírem este ciclo da vida como um período em que ainda pode haver desenvolvimento e disponibilidade de capital humano e social.

O gênero demonstra um papel fundamental nessa transformação, pois são as mulheres que modificarão essa paisagem da modernidade. Saem do mundo privado para usufruir da vida pública e também ajudam a dar visibilidade ao processo, pelo elevado contingente de idosas. Também se justifica pelo fato de a esperança de vida feminina ser superior a masculina, como evidenciado anteriormente.

Hipotetiza-se que estas mulheres idosas buscam mais os espaços de atuação hedônicos, culturais e/ou religiosos, enquanto os homens idosos, aos poucos se inserem na esfera pública através dos movimentos com características mais políticas.Considera-se assim que estes espaços constituem os lugares de sociações, definida por Simmel como sendo as interações e relações recíprocas que constituem o fazer-se sociedade (MORAES FILHO, 1983).

Para Lins de Barros (2006) estes espaços de sociabilidades, portanto se constituem na sociedade contemporânea como o lugar das distinções e identidades sociais, características estas mais visíveis atualmente em razão de maior concentração urbana e, portanto foco das pesquisas sobre o envelhecimento por antropólogos e pesquisadores brasileiros.

Esta autora identifica os espaços hedônicos de sociabilidade entre os idosos, definindo-os como “territórios”, conforme sua elucidação abaixo:

Nos ‘territórios’ dos mais velhos, a dança e os jogos criam as regras básicas de sociabilidade entre os frequentadores, onde estão incluídas as transgressões a padrões tradicionais de velhice, como o namoro e os jogos de sedução. Nestes espaços de interação prevalece, ao contrário da velhice estigmatizada, uma versão da experiência de velhice ativa que remete à idéia de juventude.( LINS DE BARROS, 2006, p. 120)

A referida autora busca suporte em Peixoto (2000) que organizou um estudo comparativo entre pessoas mais velhas da cidade do Rio de Janeiro e de Paris. Em sua pesquisa Peixoto também faz relação da identidade social com territórios de pertencimento em espaços urbanos, conforme referenda a antropóloga Myriam Lins de Barros(2006, p. 119):

Ao apropriar-se destes ‘territórios’, os idosos desenvolvem sociabilidades e determinados padrões de comportamento, mas com estratégias de interação suficientemente flexíveis para incluir gerações mais jovens e diferentes segmentos sociais.A busca de companhia e de interações não familiares é o que une as pessoas nestes espaços destacados da multidão anônima das cidades. Estas formas de sociabilidade trazem, para os estudos sobre envelhecimento, o foco nas representações sociais de outras versões da velhice e, sobretudo, da velhice feminina.

Aclara-se, portanto, com estes estudos, que a velhice urbana constitui territórios específicos, em que buscam transgredir comportamentos tradicionais especialmente em sociabilidades com características hedônicas em que a maioria são mulheres.

No documento TERRITÓRIO DOS IDOSOS (páginas 75-81)