CAPÍTULO 4 – CONTEXTOS DE SOCIABILIDADES DOS ATORES IDOSOS
4.3.2 Políticas Públicas voltadas ao envelhecimento
previdenciário e são as de mais difícil encaminhamento”; e as políticas constitutivas lidam com procedimentos.
Ainda explicita Souza, C. (2006) que a política pública possui um ciclo e este se constitui dos seguintes estágios: definição de agenda, identificação de alternativas, avaliação das opções, seleção das opções, implementação e avaliação.Portanto, cabe sintetizar algumas características principais em relação a políticas públicas, conforme descreve Souza, C. (2006, p. 36):
A política pública permite distinguir entre o que o governo pretende fazer e o que, de fato ,faz; a política pública envolve vários atores e níveis de decisão, embora seja materializada através dos governos, e não necessariamente se restringe a participantes formais, já que os informais são também importantes; a política pública é abrangente e não se limita a leis e regras; a política pública é uma ação intencional, com objetivos a serem alcançados; a política pública, embora tenha impactos no curto prazo, é uma política de longo prazo;a política pública envolve processos subseqüentes após sua decisão e proposição, ou seja, implica também implementação, execução e avaliação.
A partir das mobilizações internacionais de discussão do envelhecimento na esfera pública, há a inserção do idoso brasileiro na Constituição de 1988, onde estabeleceu-se a garantia de um salário mínimo aos idosos carentes maiores de 65 anos e ampliação da previdência aos idosos da zona rural. Foi assim, com essa preocupação, que na década de 1990, o País dá início à disponibilização de serviços voltados para o idoso, onde se vê, a velhice como questão pública e culmina com uma Política Nacional do Idoso, em 1994.
No Brasil os principais marcos legais que constituem as políticas públicas do Idoso são a Constituição Federal de 1988, a Lei de Assistência Social (LOAS) nº 8.742/1993 – que regulamentou a concessão do benefício de prestação continuada às pessoas com mais de 70 anos pertencentes a famílias com renda mensal per capita inferior a ¼ do salário mínimo (em 1998, a idade foi reduzida a 67 e em 2004 para 65 anos31), a Política Nacional do Idoso – Lei nº 8.842 de 1994, regulamentada em 1996, o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso constituído em 2002, o Estatuto do Idoso – Lei nº 10.741/2003, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa – resolução nº 145/2004 do Conselho Nacional de Saúde e a Rede Nacional de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RENADI), que veio como uma proposta de
31 Atualmente, uma das reivindicações dos idosos é reduzir essa idade para 60 anos, conforme prevê o Estatuto do Idoso.
política pública inovadora, a partir de sua proposição, na I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, em 2006. Atualmente, como principal discussão no entorno desta política há a questão da intersetorialidade32, já que esta requer a participação de diferentes instâncias em forma de rede e o protagonismo do idoso.
De acordo com Coutrim ( 2002, p. 35):
As políticas públicas destinadas a esta parcela da população implantadas nas últimas décadas têm ficado aquém das necessidades.
No entanto, dia a dia este contingente populacional tem se organizado e procurado alternativas para a solução de seus problemas, chamando a atenção da sociedade civil e da elite política do país. Novos grupos identitários têm se formado, demonstrando que uma crescente parcela dos idosos não está disposta a abrir mão de seus direitos. São estes novos atores sociais que se levantam contra as injustiças, os maus tratos, os baixos benefícios pagos pela previdência social, a falta de opções de lazer e educação.
Dessa forma Moragas (1997) chama as políticas públicas voltadas aos idosos de políticas gerontológicas e explica que os valores e atitudes políticas em relação aos idosos refletem-se nas legislações que se concretizam nas políticas desenvolvidas em favor dos idosos e culminam com as os programas e ações da administração pública. Com o aumento da população idosa, a maioria dos países, se obrigaram a criar legislações específicas para esse contingente populacional, a partir de um plano nacional com ampla participação dos cidadãos (idosos, profissionais, políticos e familiares). No Brasil a partir da criação dos Conselhos de Direitos dos Idosos há maior participação dos atores nesta construção, mas infelizmente ainda há grande parcela dessa população que não se alertou para a necessidade de participação nesses espaços.
Concebe-se a participação social nas políticas públicas na perspectiva do
‘controle social’ no sentido de os setores organizados da sociedade participarem
32 Intersetorialidade significa a complementaridade das ações com convergência compartilhada. Se a incompletude das instituições implica a multidimensionalidade, a ação em rede implica uma ação multidimensional articulada em que haja complementaridade de níveis, escalas, complexidade e fundamentalmente interação, com construção coletiva de propostas e práticas compartilhadas.
(FALEIROS,2001). Para o Ministério da Saúde (MS), intersetorialidade é o desenvolvimento de ações integradas entre os serviços de saúde e outros órgãos públicos, com a finalidade de articular políticas e programas de interesse para a saúde, cuja execução envolva áreas não compreendidas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), potencializando, assim, os recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos disponíveis, evitando duplicidade de meios para fins idênticos (BRASIL,2011b).
desde as suas formulações – planos, programas e projetos –, acompanhamento de suas execuções até a definição da alocação de recursos para que estas atendam aos interesses da coletividade
É nesta perspectiva de uma sociedade democrática e participativa, que os conselhos de direitos sedimentam nova estratégia de gestão de políticas sociais a partir da década de 1990. Surgem como novidade, já que possibilitam a participação dos sujeitos (cidadãos) na discussão e controle da implementação das políticas públicas. Essa articulação dos cidadãos se dá por segmentos como gênero, etnia, demografia e áreas prioritárias de atendimento das demandas sociais, como saúde, educação, envelhecimento (TÓTORA, 2007).
Com vistas a demonstrar as políticas públicas engendradas a partir da trajetória histórica dos movimentos de lutas e mobilizações sociais no mundo, em prol do idoso, elaborou-se esse quadro síntese:
Quadro 5 – Trajetória Histórica dos Movimentos e Mobilizações Sociais Data/
Período
Movimentos Sociais/
Marcos Legais/
Legislação
Comentários
1888 Direito à
aposentadoria para os funcionários dos correios
Os empregados dos correios, pelo Decreto n°
9.912-A, de 26 de março, receberam o direito a aposentadoria. O decreto estabelecia 30 anos de serviço e 60 de idade. Nos anos posteriores criou-se vários fundos de pensões para os trabalhadores das estradas de ferro e das forças armadas.
Século XIX
Carta de lei instituída por Dom Pedro I, ainda príncipe regente do Brasil, que concedia
aposentadoria aos professores régios Cria-se o núcleo de uma das primeiras instituições geriátricas da Europa
Concedeu-se esta aposentadoria aos professores com 30 anos de serviço e denominava-se jubilação e quem optasse por permanecer trabalhando recebia abono de 25%. Pode-se dizer que esta foi a primeira iniciativa brasileira de Previdência Social.
Na França, o Salpêtriére, o maior asilo da Europa e considerado como o núcleo da primeira instituição geriátrica da Europa. Nesse período Charcot proferiu célebres conferências sobre a velhice , que tiveram grande repercussão, especialmente após
serem publicadas em 1866.
1916 Lei 3.071/1916 – Código Civil
Desde 1916 consta no Código Civil Brasileiro a lei de amparo e ajuda aos pais na velhice quando estes não têm condições de prover seu próprio sustento, mais precisamente em seu art. 399: São devidos os alimentos quando o parente, que os pretende, não tem bens, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença, e o de quem se reclamam, pode fornecê-los, sem desfalque do necessário ao seu sustento.
Parágrafo único. No caso de pais que, na velhice, carência ou enfermidade, ficaram sem condições de prover o próprio sustento, principalmente quando se despojaram de bens em favor da prole, cabe, sem perda de tempo e até em caráter provisional, aos filhos maiores e capazes, o dever de ajudá-los e ampará-los, com a obrigação irrenunciável de assisti-los e alimentá-los até o final de suas vidas.”
1923 Caixa aposentadoria e pensões para as empresas ferroviárias
A lei Eloy Chaves é a responsável pela criação da Caixa de Aposentadorias e Pensões (CAP) para as empresas ferroviárias. Considera-se este o ponto de partida da Previdência Social Brasileira. Com isso autorizavam outras empresas a construir um fundo de amparo aos trabalhadores. É o marco que identifica a velhice no Brasil como questão social (MAGALHÃES, 1989).
1930 e 1950
Grande número de idosos nas cidades
Industrialização da sociedade ocidental e grande número de idosos nas cidades gerando os primeiros problemas sociais nesta área Anos
1930 a 1950
Primeiros movimentos
sociais dos
aposentados
Movimentos restritos a algumas categorias de ex-trabalhadores, como os ferroviários e os bancários, por exemplo, dependendo da sua capacidade de mobilização. Na verdade este foi o começo do movimento dos trabalhadores aposentados, cujos sindicatos, no período do regime militar, foram destituídos retomando suas atividades somente nas décadas de 1980/1990, através do movimento conhecido como “ a luta dos 147%”
1933 Criação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões(IAPs)
Substituíram-se as caixas pelos IAPs destinados as categorias como bancários, marítimos, industriários, comerciários, pessoal de transportes e cargas e mais tarde estendida aos funcionários públicos.
1938 Conferência Nacional sobre Senescência
Em Kiev, na França, em 1938 realiza-se a I Conferência Nacional sobre Senescência 1940 Decreto Lei nº 2.848 -
Código Penal
Decreto-Lei nº 2.848,de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal traz os seguintes artigos relacionados a questão de idosos:
Art.135 – omissão de socorro;Art.136 – maus tratos;Art.168-Apropriação indébita; Art. 133 – Abandono de incapaz; Art. 173 – Abuso de incapaz; Art. 330 – Desobediência;Art. 158 – extorsão; Art. 345 – exercício arbitrário das próprias razões;Art. 317 – Corrupção passiva.
( PAULA, 2011) 1945 Criou-se o Instituto de
Serviços Sociais do Brasil
1946 Criou-se o Conselho
Superior da
Previdência Social e o Departamento
Nacional de
Previdência Social 1950 Associação
Internacional de gerontologia
Em Liège, na França em 1950 cria-se a Associação Internacional de Gerontologia e o Centro de Estudos e Pesquisas Gerontológicas.
1960 Criou-se a LOPS- Lei
Orgânica de
Previdência Social
Em 26 de agosto de 1960, criou-se a LOPS, para unificar a legislação referente aos Institutos de Aposentadorias e Pensões. O limite de idade para a aposentadoria que antes era de 50 anos ampliou-se para 55 anos, devido ao aumento da expectativa de vida.Reuniu os seis Institutos de Aposentadorias e Pensões no Instituto Nacional de Previdência Social – INPS.
1961 Criação da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia–
SBGG
Manifestação dos intelectuais de que o envelhecimento se tornara uma questão social e estes se organizaram para estudos e produção científica.
1963 Iniciam as atividades de gerontologia social pelo Serviço Social do Comércio – SESC
O SESC foi uma das primeiras instituições a oferecer atividades aos idosos, inicialmente com cunho recreacionista.
1963 Criou-se o
FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural
Os benefícios eram inferiores aos concedidos aos trabalhadores urbanos(PRADO, 2006).
Ainda no período da ditadura militar.
1965 Lei nº 4.737/65 - Código Eleitoral
O Art. 6º prevê que o voto é obrigatório para os brasileiros, salvo os maiores de 70 anos
1966 Criação do Instituto
Nacional de
Previdência Social – INPS
Formação do INPS, onde o Estado assume as aposentadorias e pensões. Os direitos eram restritos aos trabalhadores urbanos. Com privilégio para populações institucionalizadas, financeiramente ativas e socialmente incluídas, não admitindo aqueles que pudessem configurar informalidade ou mesmo que pudessem onerar o Estado, como o caso da população idosa (CAMARGOS;MENDONÇA;
VIANA, 2006; SIMÕES, 1998). O Decreto Lei nº 72, de 21 de novembro de 1966 reuniu os seis IAPs e transformou-se em INPS.
1968 Conferência dos Direitos Humanos
Realizou-se a em Teerã em 1968.
1970 A criação da União dos Aposentados e Pensionista no Brasil
Tinha como objetivo conscientizar politicamente os idosos na luta pelo fim da segregação geracional e contra o descaso das autoridades diante dos baixos proventos.
1970 Criou-se o PAI
(Programa de
Assistência ao Idoso)
A LBA(Legião Brasileira de Assistência), desenvolveu este programa com caráter assistencialista, através dos projetos Conviver e Asilar, visando atenuar tensões sociais características da época militar (CAMARANO et al. , 2004).
1974 Criação do Ministério da Previdência e Assistência Social
Desmembrou-se o Ministério do Ministério do Trabalho e da Previdência Social. Neste mesmo ano construiu-se uma empresa de processamento de dados da Previdência Social. Essas medidas (a unificação da previdência em Instituto em 1966 até a criação do ministério)contribuiram para desvincular a luta sindical, levando os aposentados a uma situação de orfandade política, visto que os sindicatos concentraram seu poder de fogo nas questões salarias dos trabalhadores da ativa (SIMÕES, 1998).
1974 Criação da Renda Mensal Vitalícia – Lei 6.179/74
Destinada aos idosos com mais de 70 anos e a inválidos, cujo valor do benefício correspondia a meio salário mínimo, somente modificado em 1993 com a criação da LOAS. Este benefício passa então a chamar-se BPC (Benefício de Prestação Continuada).
1975 Implantação do PAI
(Programa de
Assistência ao Idoso) do INPS
Este foi o primeiro programa em nível nacional, implantado através do INPS, o PAI (Programa de Assistência ao Idoso), que consistia na implementação de grupos de convivência para idosos previdenciários.
1977 Criação do Sistema A Lei n° 6.439, de 1° de setembro de 1977,