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O contexto urbano

No documento TERRITÓRIO DOS IDOSOS (páginas 49-54)

2.1 O CONTEXTO DA MODERNIDADE REFLEXIVA

2.1.2 O contexto urbano

outro lado, pode levá-lo a uma situação ativa, a partir da reflexividade, compreender as novas coletividades e torná-lo um sujeito atuante, um sujeito de ação a partir de novas sociabilidades.

“A característica marcante do modo de vida do homem na vida moderna é a sua concentração em agregados gigantescos em torno dos quais está aglomerado um número menor de centros e de onde irradiam as ideias e as práticas que chamamos civilização.” (WIRTH, 1979, p. 90). Portanto, um fator importante a se levar em consideração neste estudo é o contexto urbano, pois o que caracteriza também a modernidade é o crescimento das grandes cidades.

Para Wirth (1979, p. 96) “uma cidade é um núcleo relativamente grande, denso e permanente de indivíduos socialmente heterogêneos.” A partir desse conceito, o autor propõe suas hipóteses para uma teoria sobre o urbanismo, sugerindo que se pense a questão urbana como um fenômeno sociológico, baseada nos seguintes processos: a densidade, o contraste e a diferenciação presentes neste fenômeno.

Por certo o crescimento urbano gera o crescimento populacional, que consequentemente gerará a densidade. A densidade diz respeito à concentração de pessoas num limitado espaço, trará certas consequências, conforme explica Wirth(1979, p. 113) “Densidade envolve diversificação e especialização”, ou seja, é a “coincidência de contato físico estreito e relações sociais distantes, contrastes berrantes, um padrão complexo de segregação, a predominância do contraste social formal, e atrito acentuado, entre outros fenômenos.” Assim, o necessário movimento de fricção entre os habitantes desse espaço limitado (urbano) cria atritos e contradições em função de modos de vida divergentes, o que entretanto resulta dos contrastes que a densidade urbana ascende e que faz refletir suas diferenças.

Explicação clara tem-se, quando Wirth (1979, p. 102) diz que “A densidade, pois, reforça o efeito que os números exercem sobre a diversificação dos homens e de suas atividades e sobre o aumento da complexidade da estrutura social.”

Para entender o urbano como um contexto sociológico, o autor aduz que o crescimento urbano determina o crescimento populacional e, por sua vez, gera a densidade. Isto coloca as pessoas em interação e exibe os contrastes que causam a diferenciação entre os homens expondo então as demandas, a partir das diferentes coletividades, movimentos e organizações.

Essa heterogeneidade “[...] tende a quebrar estruturas sociais rígidas e a produzir maior mobilidade, instabilidade e insegurança, e a filiação de indivíduos a

uma variedade de grupos sociais opostos e tangenciais com um alto grau de renovação dos seus componentes” (WIRTH, 1979, p. 113).

O grande número de pessoas habitando um mesmo espaço é responsável pela variabilidade individual e pela relativa ausência de conhecimento pessoal íntimo, por isso “quanto mais densa e habitada, quanto mais heterogênea for uma comunidade, mais acentuadas serão as características do urbanismo” (p.97). Explica assim porque as características da vida urbana dependem essencialmente de três variáveis: número, densidade do agrupamento e grau de heterogeneidade da população.

Na opinião de Giddens (2005), Wirth desenvolveu o conceito de urbanismo como um modo de vida que reproduz a impessoalidade e o distanciamento social, o que o faz discordar. Para Giddens (2005), mesmo na cidade, em bairros urbanos, ainda é possível estabelecer e manter laços íntimos e pessoais. Já Touraine (2007) concorda com as ideias de Wirth sobre a ruptura dos vínculos sociais, principalmente entre os mais vulneráveis, como consequência do esgotamento da política social centrada na sociedade que, segundo Touraine, encaminha-se para outro paradigma: o cultural.

Entretanto, Wirth (1979) explica que “se o indivíduo participar de qualquer forma na vida social, política e econômica da cidade deverá subordinar um pouco de sua individualidade às exigências da comunidade maior e, nessa medida fazer parte de movimentos coletivos.”(p. 106). É isso que o autor chama de personalidade urbana e o comportamento coletivo. O mesmo autor expõe ainda que “Em face do desaparecimento da unidade territorial como base de solidariedade social, criamos unidades de interesse” (p. 111).

As explanações sobre a descontinuidade gerada pela modernidade, consequente desenvolvimento urbano e mudanças sociais, suscitam questionamentos, sobre os processos que perturbam ou perturbaram estruturas tradicionais como uma questão causal, que está na origem ou gênese destas perturbações e elaboração das respostas sobre os desdobramentos que estas perturbações causam na sociedade.

Antes de se buscar suposições para esses questionamentos, procura-se entender, tendo como suporte teórico Everett Hagen(1967), algumas preocupações

complementares ao espaço urbano, mas agora a partir de macroestruturas sobre os processos de mudança.

De fato, Hagen(1967, p. 27) procura explicar o processo de mudança, pelas estruturas macro. Busca entender qual é a questão causal que desdobra os processos de mudança, quando explana que “A passagem da sociedade tradicional a uma situação de mudança tecnológica contínua é demorada, tanto na lógica quanto na realidade histórica.” E complementa que “[...]O problema da transição não abarca apenas a transformação final para um progresso tecnológico contínuo, mas toda a longa seqüência de mudanças anteriores, a partir da situação tradicional.” O autor pondera que os processos de mudanças ocorrido no desenvolvimento das sociedades acontecem baseados em duas teses contraditórias: a técnico- econômica e a sociológica. Mudanças técnico-econômicas provocam progresso, porém “alterações sociais básicas são necessárias durante a transição”(p.30). Como aspectos de inovação Hagen (1967, p.31) ressalta que:

Um contexto social nunca está perfeitamente integrado, no sentido de que as motivações e valores mantidos por todos os seus segmentos sejam consistentes e o papel de cada grupo satisfaça às suas próprias necessidades emocionais. Alguns segmentos estarão em posição relativamente desvantajosa e insatisfatória na estrutura social.

Sem dúvida o autor constata que a mudança econômica implica em mudança social. Os principais agentes dessa mudança são os grupos subordinados e em determinadas situações, como um evento que ocorre no fluxo histórico dessa transição.Uma tese importante deste autor é de que:

[...] a reação à subordinação de um grupo social subordinado tem constituído uma força central de cada passo da mudança da sociedade tradicional, e, especificamente, que tal reação de um grupo subordinado, em circunstâncias favoráveis, é um requisito da onda final por meio da qual o progresso tecnológico contínuo se institucionaliza na sociedade.(HAGEN, 1967, p. 32).

O autor supracitado ainda se questiona sobre as circunstâncias favoráveis para que as mudanças aconteçam e assim define os critérios:

- que a sociedade inteira, ou os segmentos importantes hajam se distanciado da situação tradicional, ainda que não totalmente;

- que o grupo subordinado mantenha uma posição de revolta e não de submissão;

- quando é barrada a possibilidade de libertação da subordinação por meio de atividades tradicionais;

- quando há oportunidade de ascensão através de empreendimentos econômicos, e;

- a presença de grupos subordinados ávidos por tirarem proveito deles, do que acontecimentos felizes que podem aparecer por acaso como relato histórico.

Assim se percebe que a “reação à submissão é necessária ao desenvolvimento.”

Dessa forma, observa-se que as ideias de Hagen fazem uma analogia à lógica da globalização vivenciada atualmente. Essas mudanças acontecem desde a instalação de uma tensão entre sociedade que se torna crescente, estabelecendo contradições que levam a uma aceleração da mudança (GIDDENS, 1991; 1996;

2002; 2005). Esta exposição, portanto conduz ao questionamento levantado no item anterior onde se quer saber como acontece o processo de mudança na sociedade e se essa mudança é sempre imposta, a partir de sistemas abstratos.

Em 1997, o Conselho Estadual do Estado do Rio Grande do Sul (CEI)realizou uma pesquisa8 visando conhecer as condições de vida dos idosos deste Estado e em observação aos dados verificou-se que dos idosos entrevistados nas zonas urbanas 66,22% nasceram no meio rural e 32,83%, no meio urbano. ( RIO GRANDE DO SUL, 1997). De acordo com Morais (2007) estes dados já demonstravam o grande número de migrações da população em busca de melhores condições de vida em razão da mecanização massiva do campo.

Para Morais (2007) a metrópole constitui o lugar onde, agora, muitos podem viver (neste caso referindo-se aos idosos) de forma um tanto heterogênea, pois ela põe em contato as diferenças e permite ao indivíduo, através de uma relativização da diferença, uma maior liberdade de ação. Enquanto em um vilarejo pré-moderno a diferença seria motivo de desconfiança, na metrópole moderna ela é tolerada – ou exigida, na medida em que se vivencia o exercício do individualismo. Individualismo

8A autora desta tese trabalhou na referida pesquisa como entrevistadora na coleta de dados realizada na cidade de Cruz Alta e que integrou os dados da referida pesquisa.

este característico das sociedades complexas da contemporaneidade e que também identifica atualmente os novos atores sociais.

Por um lado, alguns estudos indicam que a referida atitude de migração se dá em função da ampliação da aposentadoria entre os idosos urbanos e rurais, a partir da constituição de 1988 e também pela busca de acesso a recursos, principalmente na área da saúde. Assim, com a grande concentração de pessoas vivendo nas cidades, muitos idosos tornam-se também vítimas da pobreza e precarização devido a sua própria condição de vulnerabilidade social. Em decorrência, a grande maioria reside em áreas periféricas das cidades de médio e pequeno porte e nas favelas, em grandes metrópoles.

Por outro lado, a participação do idoso no contexto urbano leva-nos a uma constatação de que, os idosos, vivendo em um contexto em que a Modernidade gera diversidade, pelas influências globais, também não ficam limitados a padrões de identidades locais, o que colabora para que liberem seus potenciais e de forma reflexiva busquem subjetivar espaços de atuação plurais, tais como políticos, sociais, culturais e religiosos.

No documento TERRITÓRIO DOS IDOSOS (páginas 49-54)