8. Discurso e guerra
8.2. As representações sociais
Para completar a noção de contexto e de modelos mentais proposta por Van Dijk, achamos pertinente usar as representações sociais como filtros e organizadores das práticas discursivas que se originaram durante a Guerra Colonial portuguesa. Usamos as representações porque constituem o elo que nos falta para criar uma ligação entre o indivíduo, a produção discursiva e o consenso. Num evento coletivo como a guerra, a conformidade de pensamento, elaborada num ambiente coletivo, é primordial. Acreditamos que as representações sociais determinam os tópicos e a relevância argumentativa que têm como função criar um contexto consensual adequado para apoiar um esforço de guerra.
Veremos de seguida a evolução deste conceito de representações sociais recorrendo a autores como Durkheim, Moscovici, Jodelet e Abric. Realçamos, no entanto, que nem mesmo o seu principal teorizador, Serge Moscovici, chegou a elaborar uma teoria 'forte e fechada' sobre o tema. O que propôs foi uma perspetiva para se poderem 'ler' os mais diversos fenómenos e objetos do mundo social.
Foi a partir de uma situação concreta - o fim da Segunda Guerra Mundial e o desenvolvimento das comunicações de massas - que Moscovici (1961) elaborou a sua teoria sobre o senso comum e o conhecimento. Segundo o autor, estávamos prestes a passar de um conhecimento 'culto' para um conhecimento 'inculto', sendo este último um conhecimento prático, oposto ao pensamento científico, mas também semelhante a ele e aos mitos no que diz respeito à sua elaboração a partir de um conteúdo simbólico e prático. Um conhecimento que construímos todos os dias e que condiciona as ações e atitudes que partilhamos com o nosso grupo. As representações sociais teriam o papel, entre outros, de nos ajudar a interpretar os eventos sociocognitivos e de poder comunicá-los ao grupo ao qual pertencemos.
Diferentemente dos conhecimentos científicos, as representações sociais procuram as suas bases em:
●Componentes ligadas diretamente à prática;
●Componentes ligadas a experiências indiretas; por exemplo, a tradições e a crenças que nos fornecem explicações a priori.
As representações, surgindo num contexto social e histórico determinado, sujeitam-se às expetativasdo grupo ao qual se pertence. Daqui o facto de as representações sociais se vincularem à noção de confiança, elemento essencial da sua transmissão. Confiança e consenso estão assim
intimamente ligados, permitindo aos indivíduos identificarem-se com o grupo escolhido e partilharem formas de conhecimento similares.
Serge Moscovici não trabalhou a partir do vazio. Recuperou um conceito de representação
coletiva usada por Durkheim (1898), que dele tinha precisado, essencialmente, para a análise da
relação indivíduo-sociedade. O sociólogo francês, ao fixar os contornos do conceito, associou-lhe variados fenómenos. As representações coletivas seriam formas de as comunidades, em cada tempo e em cada lugar, entenderem o mundo em que viviam e expressarem esse entendimento. Na conceção de Durkheim, as representações dominantes na sociedade impunham-se aos indivíduos de maneira coerciva, influenciando-os na conduta quotidiana. Por conseguinte, era a sociedade que pensava e exprimia os sentimentos individuais. As representações não eram, portanto, necessariamente, conscientes para os indivíduos. Mais estáveis do que as representações individuais, eram a base onde se originavam os conceitos, traduzidos nas palavras do vocabulário de uma comunidade linguística, de um grupo ou de uma nação.
Em termos de premissas Durkheimianas, tinha sido através do estudo das religiões primitivas que o sociólogo tentara compreender as categorias fundamentais do entendimento humano, classificadas logo em Aristóteles como sendo as de tempo, espaço, número, causa, substância e personalidade. Para Durkheim, com efeito, a religião era o mais primitivo fenómeno social, revelando facilmente os elementos comuns a todas as sociedades. Uma instituição como a religião:
[...] ne saurait reposer sur l'erreur et sur le mensonge: sans quoi elle n'aurait pu durer. Si elle n'était pas fondée dans la nature des choses, elle aurait rencontré dans les choses des résistances dont elle n'aurait pu triompher. Quand donc nous abordons l'étude des religions primitives, c'est avec l'assurance qu'elles tiennent au réel et qu'elles l'expriment.
(Durkheim 1968, p. 14) Mas o ponto essencial da sua reflexão era o de que a religião não só oferecia uma quantidade de ideias/conhecimentos ao espírito humano como contribuía para o formar:
Les hommes ne lui [à religião] ont pas dû seulement, pour une part notable, la matière de leurs connaissances, mais aussi la forme suivant laquelle ces connaissances sont élaborées.
(ibid., p.20)
Tentando explicar a questão do conhecimento, Durkheim usou as noções de empirismo e apriorismo, e introduziu as categorias que, segundo ele, traduziriam estados da coletividade, sendo,
pois, produtos da cooperação.
La proposition fondamentale de l'apriorisme, c'est que la connaissance est formée de deux sortes d'éléments irréductibles l'un à l'autre et comme de deux couches distinctes et superposées. En effet, les connaissances que l'on appelle empiriques, les seules dont les théoriciens de l'empirisme se soient jamais servi pour construire la raison, sont celles que l'action directe des objets suscite dans nos esprits. Ce sont des états individuels, qui s'expliquent tout entiers par la nature psychique de l'individu. Au contraire [...], les catégories sont des représentations essentiellement collectives, elles traduisent avant tout des états de la collectivité : elles dépendent de la manière dont celle-ci est constituée et organisée, de sa morphologie, de ses institutions religieuses, morales, économiques, etc.
(ibid., p. 25)
Resumindo, para Durkheim a individualidade humana constituía-se a partir da sociedade. A representação coletiva não se reduzia à soma das representações dos indivíduos que compunham a sociedade, sendo antes uma forma de conhecimento que superava a individualidade para recriar o coletivo. Uma função primordial da representação coletiva seria a transmissão da herança dos antepassados, que acrescentaria às experiências individuais tudo o que a sociedade acumulara em termos de conhecimentos.
As críticas de Moscovici à conceção durkheimiana − para quem a representação coletiva era exterior ao indivíduo enquanto produto social − foram relevantes para a evolução da teoria das representações sociais. Moscovici divergiu daquela visão durkheimiana, determinista e estática, da herança coletiva dos antepassados. O indivíduo teria antes uma participação ativa e autónoma no processo de construção da sociedade. Por outras palavras, as representações sociais, para Moscovici, tratam da produção dos saberes sociais, centrando-se na análise da construção e transformação do conhecimento social e da forma como a ação e o conhecimento se relacionam na dinâmica social.
Uma representação social é sempre representação de alguma coisa (objeto) e de alguém (sujeito). Na perspetiva de Moscovici, o sujeito é dinâmico, sendo que as representações são uma forma de transmitir, entre pessoas, certos conhecimentos adquiridos. Assim, as representações constituem modos de vida e formas de intercomunicação, e o indivíduo é tanto veiculador como criador de conhecimento social. Moscovici, afastando-se também de Durkheim quando este considerava as representações coletivas conhecimentos homogéneos e atemporais (Durkheim, 1898), viu nelas uma perspetiva para poder 'ler' os mais diversos fenómenos e objetos do mundo social.
Usando a definição de Moscovici (2004), as representações sociais são:
O conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida diária no curso das comunicações interindividuais. Elas são o equivalente, na nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; elas podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum.
(Moscovici 2004, p. 181)
Segundo Denise Jodelet, que aprofundou a teoria de Moscovici, as representações sociais são consideradas:
Une forme de connaissance socialement élaborée et partagée, ayant une visée pratique et concourant à la construction d’une réalité commune à un ensemble social. Une forme de savoir pratique reliant un sujet à un objet.
(Jodelet 1994, pp. 36 e 43)
As representações sociais assentam, assim, na esfera cognitiva, social e afetiva. Cognitiva, porque as representações sociais estão especialmente relacionadas com os saberes sociais; social, porque conhecimentos e afetos têm por base a realidade social e a interação entre indivíduos; afetiva, porque os saberes sociais atravessam um filtro simbólico e imaginativo congruente em função de cada indivíduo:
Les représentations sociales doivent être étudiées en articulant éléments affectifs, mentaux et sociaux et en intégrant à côté de la cognition, du langage et de la communication, la prise en compte des rapports sociaux qui affectent les représentations et la réalité matérielle, sociale et idéelle sur laquelle elles ont à intervenir.
(ibid., p. 41)
Jean-Claude Abric, por seu lado, acrescentou a noção de que o indivíduo usa as representações sociais para conhecer o mundo, mas que elas também lhe servem para ele agir sobre o mesmo mundo. Assim sendo, as representações sociais contêm uma visão funcional do mundo:
[...] qui permet à l'individu ou au groupe de donner un sens à ses conduites, et de comprendre la réalité, à travers son propre système de références, donc de s'y adapter, de s'y définir une place.
Qual é a função das representações sociais? É a de tornar familiar algo não familiar, ou seja, de transformar o desconhecido em conhecido. Os indivíduos constroem, com elas, uma esfera consensual, livre de conflitos. Nesse universo, tudo o que é dito ou feito confirma as crenças e as interpretações adquiridas. No entanto, tal universo não é estanque, permitindo assimilar o desconhecido e modificar as crenças.
Para assimilar o desconhecido, foram identificados dois processos enquanto geradores de representações sociais: o processo da 'ancoragem' e o da 'objetivação'. A 'ancoragem' é o processo pelo qual procuramos classificar algo dando-lhe um nome. Significa possuir o desconhecido através da sua verbalização. Mas a partir do momento em que podemos falar sobre algo, contextualizá-lo, avaliá-lo, classificá-lo num modelo familiar, somos capazes de o imaginar e representar. Este segundo processo é o da 'objetivação', ou seja, a reprodução de um conceito numa imagem.
O trabalho de Moscovici corresponde, essencialmente, a explicar como as cognições, no nível social, permitem a uma comunidade processar um dado conhecimento, veiculado pela linguagem, transformando-o numa propriedade coletiva, pública, e permitindo a cada indivíduo o seu manuseio e utilização de forma coerente em relação aos valores e às motivações da sociedade à qual pertence. Pela nossa parte, vamos usar o conceito de representação social para definir alguns conhecimentos que foram partilhados durante a Guerra Colonial e que aumentaram as probabilidades de um acordo entre os participantes.