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As revoltas do precariado: a base social da rede de movimentos antissistêmicos.

4. CULTURA POLÍTICA EM REDE: NETNOGRAFIA COM OS NOVADS E INTERSEÇÕES POLÍTICO-CULTURAIS

4.4. As revoltas do precariado: a base social da rede de movimentos antissistêmicos.

As políticas de ajustes, como receituário para procurar resolver crise econômica global que se agrava desde 2008 e ainda está em curso, aliadas aos processos resultantes da contradição central do capital vem provocando o alargamento da condição de proletariedade, ampliando a precarização da vida e do mundo do trabalho de camadas cada vez maiores da população, incluindo das classes médias, constituindo o vem sendo denominado de precariado (STANDING, 2011; ALVES, 2011).

O precariado claramente aparece como a base social dos movimentos dos países do Norte e também no Brasil, a constituírem conexões dos nodes de uma rede global de indignação que evidenciam-se tanto nas referências simbólicas e conceituais, quanto na formulação crítica ou na prática cultural, estratégias e táticas dos diferentes grupos e constelações, que se articulam para as ações diretas ou, mesmo, visando construir estratégias mais duradouras como atores transnacionais. Alguns exemplos mais significativos destes atores transnacionais, que atuam

em redes de movimentos sociais antissistêmicos são: a tática Black Bloc55, os Anonimous56, o

Movimento Democracia Real Já, a rede Occupy, o Movimento 15-M, a Via Campesina, entre outros.

No capitalismo contemporâneo, especialmente com a conjunção da crise, o processo gradual de precarização ou “proletarização” da “burguesia assalariada” ‒ ou seja, de grande parcela da classe média ‒ entra em contraste com o processo oposto: os salários exorbitantes de altos executivos e banqueiros (denominados como 1% pelo Occupy Wall Street), e a corrupção da classe política, que deveria representar os interesses e as demandas da população e acaba representando os interesses das corporações e grupos que detém o poder sobre os governos e sistema eleitoral, financeiro e econômico que sustentam os partidos políticos e suas campanhas, interferindo em seus programas e nas prioridades de governo, criando miragens democráticas, especialmente nas democracia representativas. Angélica, do Ocupa Sampa fala sobre a base social do movimento, representada pela metáfora dos 99%, identificando-a com o precariado:

99% É sempre discutido isso. Eu não sou contra, na verdade, é meio ilustrativo. Os 99 é o precariado. Não necessariamente só os pobres em estado de miséria mais a classe média também pelas limitações que têm, tem a diferença de país para país... na Espanha... mesmo formado numa universidade, sendo classe média, não consegue trabalhar. É o precariado, as mulheres, os negros, …. as que estão em extrema pobreza... embora não tenham feito parte do Ocupa... São as pessoas que não conseguem ter liberdade de alguma maneira, do corpo, de igualdade de direitos...99 é um número chutado. Não é 99% que é o precariado. Mas ninguém sabe. Isso é ilustrativo. Como ilustração, serve... para ter uma noção de como é desigual.

É perceptível o esvaziamento progressivo da cidadania da esfera do político, como um artifício de controle social e dominação ilusória nas democracias ocidentais, onde os cidadãos, cada vez mais, são meticulosamente representados como “consumidores de serviços públicos” apenas com direito ao voto para escolha de representantes, de tempos em tempos. Boaventura de Souza Santos, em 1995, atribuiu à globalização e ao consenso de Washington a crise de legitimidade e da capacidade do Estado em organizar a sociedade. Um dos objetos centrais da crítica formulada pelos movimentos sociais em foco, incide justamente sobre a legitimidade da

55 Black Bloc (do inglês black, preto; bloc, agrupamento de pessoas para uma ação conjunta ou propósito comum,

diferentemente de block: bloco sólido de matéria inerte) é o nome dado a uma tática de ação direta, de corte anarquista, empreendida por grupos de afinidade que se reúnem, mascarados e vestidos de preto, para protestar em manifestações de rua, utilizando-se da propaganda pela ação para desafiar o establishment e as forças da ordem. Black bloc é basicamente uma estrutura efêmera, informal, não hierárquica e descentralizada. Unidos, seus integrantes pretendem adquirir força suficiente para confrontar as forças da ordem capitalista.

56 É uma rede internacional associado ao “hacktivismo” (ativismo de hackers). Um site nominalmente associado

com o grupo descreve-o como “um encontro de internet “, com “uma estrutura de comando muito solto e descentralizada que opera a partir de ideias, em vez de com base em diretivas". O grupo ficou conhecido por uma série de golpes de publicidade bem divulgados e distribuídos de ataques contra o governo, e sistema online de bancos, sites corporativos e religiosos.

representação política, com a diferença que o cenário atual desenvolve-se no mundo contemporâneo da segunda década do século XXI e sofre as consequências do período de expansão do neoliberalismo da última década do séc. XX.

Os processos de globalização geram discussões sobre o papel da sociedade civil e a forma como os movimentos sociais devem ser compreendidos e abordados teoricamente. O papel do Estado e da classe política, sob o predomínio dos processos neoliberais contribuiu para a mudança do foco da atenção política, que passou de uma abordagem que privilegia a tomada do poder do Estado para questões de direitos humanos, civis e de novos modos de vida, fundados em relações sociais mais igualitárias e libertárias. O uso de novas tecnologias de informação e comunicação por parte de atores sociais que se articulam na forma de redes de movimentos sociais, abriu um leque de novas formas de lutas progressistas em que o cultural, conjugado às questões materiais, torna-se uma arena crucial de luta.

Nas últimas décadas, o mundo do trabalho vem sofrendo processos de complexificação e sendo submetido, assim, a novas e diferentes formas de assujeitamento e subjetivação a partir de dispositivos de poder e biopoder que atuam sobre as relações de trabalho e entre capital e trabalho, garantindo a continuidade da subsunção do trabalho ao capital. Já não existem formas homogêneas de trabalho, como se dava tipicamente nas sociedades industriais com os trabalhadores do “chão de fábrica” e o sindicalismo resultante das lutas do proletariado que exercia determinada centralidade nas lutas e no próprio mundo do trabalho demonstra sinais de desarticulação e fragmentação nos sistemas complexos das sociedades contemporâneas características da era da informação.

Atualmente predomina uma pluralidade e heterogeneidade generalizada das formas de trabalho no âmbito do capitalismo, no processo incontrolável de busca por valorização progressiva sem limites e constante do capital em expansão. Neste processo, é preciso ressaltar, estão cada vez mais evidentes as contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas e o das relações sociais de produção, conforme asseverado pela teoria marxista. No tempo social da cibercultura, a nova temporalidade histórica do capital está a produzir transformações radicais no padrão de acumulação e nas formas de valorização, configurando um novo momento de desenvolvimento e de expansão aparentemente sem limites. Acirram-se, portanto, as contradições que atingem violentamente o mundo do trabalho, ampliando o contingente de trabalhadores supérfluos ao capital. Assim avalia Giovani Alves, sobre o contexto contraditório encarnado nos circuitos da crise:

A “condição crítica” da síndrome do capital é a convergência histórica de um conjunto de crescentes contradições sociometabólicas do sistema mundial do capital, principalmente a

partir de meados da década de 1970. A principal delas diz respeito à contradição capital- trabalho, na medida em que é através do trabalho que o sociometabolismo do capital vincula os seres humanos à natureza: a aguda elevação da produtividade do trabalho, em virtude do processo cumulativo do progresso técnico, tende a explodir a materialidade do valor-trabalho, uma “implosão” contínua e permanente no espaço-tempo comprimido do novo tempo histórico do capitalismo global (ALVES¸ 2012).

Mészáros, em sua crítica radical e contundente, enfatiza que “o sistema de controle do metabolismo social atingiu um estágio em que lhe é necessário expulsar centenas de milhões de indivíduos do processo de reprodução social, do próprio processo de trabalho” (2009, p. 152). O sistema do capital, nessa lógica de expansão destrutiva e incontrolável, revela a sua incapacidade de incluir esse “refugo humano”, essa “população sobrante”, condenando amplos contingentes populacionais à redundância social (CARVALHO, 2010). É a saga de milhões de migrantes, de desempregados, de executores de atividades precarizadas, de jovens estudantes que não conseguem a devida inserção no mundo do trabalho, enfim, de trabalhadores e trabalhadoras altamente qualificados sem condições de mercantilizar sua força de trabalho e responsabilizados pela sua exclusão nas tramas ideológicas da qualificação e do acirramento do individualismo.

A globalização hegemônica neoliberal, a circunscrever o “Norte” e o “Sul”, na metáfora de Boaventura de Sousa Santos (1997), constitui uma chave analítica fecunda para pensar os processos contemporâneos do capitalismo, a produzirem cada vez mais exclusão social, desemprego estrutural e precarização do trabalho, destruição sistemática e irreversível da agrobiodiversidade e da própria natureza, violação de direitos humanos, ódios inter-étnicos e declínio de políticas sociais. Neste cenário, o “Sul” encarna uma potencialidade de lutas e resistências. A tese de Boaventura de Sousa Santos é que está em curso uma contra-hegemonia como novidade histórica encarnada no “Sul”. A rigor, o “Sul” é uma categoria que configura grupos subalternos, segmentos sociais e países sujeitos a novas formas de domínio do capital hibridizadas às formas de opressão do neocolonialismo.

A história vem confirmando a fecundidade de sua tese, na medida em que, cada vez mais, novos sujeitos políticos estão a construir redes de alianças transnacionais entre movimentos, lutas e organizações que se propõem à construção de projetos emancipatórios no interior da civilização do capital. De fato, tem-se em curso, com diferentes expressões, um processo de disputa hegemônica (CARVALHO, 2010) que se intensifica no contexto da crise estrutural e das formas de mobilização, consubstanciadas nos movimentos de ocupação. Neste

contexto, ganha visibilidade pública os limites da democracia liberal nas suas configurações representativas, que se torna, em muitas situações, funcional à expansão do capitalista.

Mészáros enfatiza o caráter repressivo e antidemocrático destes processos sociopolíticos dominantes no sistema do capital, alertando para os possíveis resultados que podem comprometer a democracia até aqui conquistada. Afirma ele que não é apenas o modelo de crescimento e modernização sem transtornos que se despedaça, “mas ironicamente, é também o slogan do crescimento sustentado sobre uma base política e social que preserva as possibilidades de um progressivo desenvolvimento democrático” (2009, p. 50), trazendo, então, a questão da crise para o âmbito das instituições democráticas, assim como para a esfera do poder.

No século XXI, o proletariado como “classe” social amplia-se e diversifica-se, cada vez mais, no plano sociológico. Na medida em que se desenvolve o modo de produção capitalista e dissemina-se a lógica do trabalho abstrato pela vida social, universaliza-se a condição de proletariedade. Depois, o precariado não pode ser meramente identificado como “proletariado precarizado” pois considerá-lo assim, significa perder a especificidade da categoria social de precariado. Na verdade, precariado diz respeito a uma nova camada da classe social do proletariado constituída por jovens-adultos altamente escolarizados imersos em relações de trabalho e emprego precário.

Portanto, o conceito de precariado implica o cruzamento das determinações de ordem geracional, educacional e salarial. A nova camada social do precariado se vincula historicamente à etapa de crise estrutural do capital e a hegemonia do capitalismo financeiro. Ele se manifesta socialmente com vigor nas economias capitalistas mais desenvolvidas onde a contradição radical entre desenvolvimento das forças produtivas e relações sociais de produção assume dimensões amplas e intensas.

4.5. As formas morfogênicas das redes de movimentos antissistêmicos: rizoma, ocupação,