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As Sete Leis de 1836: a criação do Supremo Poder Conservador

PARTE II – O IMPASSE IBERO-AMERICANO: ENTRE CUMULAÇÃO E

54. As Sete Leis de 1836: a criação do Supremo Poder Conservador

Os mexicanos manifestavam-se publicamente no sentido da alteração da forma federativa de Estado. O fracasso do sistema federal abria espaço a um novo período de centralismo. Em 1835-1836, o congresso Constituinte reúne-se, objetivando resolver as manifestações públicas e formaliza, por primeiro as Bases Constitucionais expedidas

460 BAKER, 1971, p. 6.

461 FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 75. 462

pelo Congresso Constituinte, em 15 de dezembro de 1835; por segundo, as Leis Constitucionais de 30 de dezembro de 1836. Las Siete Leyes, em verdade, intentavam consolidar, de iure, o poder das classes privilegiadas, o que foi feito, em grande medida, às custas do poder dos Estados463. Neste contexto, estritamente nesta matéria, o Direito Francês, mormente a Constituição de 1799, foi a grande inspiração dos Constituintes mexicanos.

A Constituição centralista464 de 1836 encarou o problema do controle de constitucionalidade e criou o chamado Supremo Poder Conservador465. Este órgão era composto por cinco membros. Para se chegar ao cargo deveriam ter desempenhado, previamente, alguma das funções elencadas: presidente ou vice-presidente da República, senador, deputado, secretario del Despacho ou magistrados da Suprema Corte de Justiça466. Eram eleitos mediante seleção realizada por Juntas Departamentais, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Renovava-se um membro do Supremo Poder Conservador a cada dois anos, para haver maior mobilidade e alternância das ideias467.

Dentre outras atribuições, cabia ao Supremo Poder Conservador468, nos termos da Parte 2ª, artigo 12, incisos I, II e III, das Leys Constitucionales de 1836: declarar (1) a nulidade de uma lei ou decreto (no prazo de dois meses contados da sua sanção), quando contrariarem artigo expresso da Constituição; (2) declarar – provocado pelo Poder Legislativo ou pela Suprema Corte de Justiça – a nulidade dos atos do Poder Executivo, quando forem contrários à Constituição ou às leis, fazendo esta declaração dentro de quatro meses contados da data da comunicação destes atos às autoridades respectivas; e (3) declarar a nulidade dos atos da Suprema Corte de Justiça, provocado

463 FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 76.

464 Contrariando os caminhos abertos pela Constituição de 1824, que estabeleceu a descentralização e por conseqüência o federalismo, Las Siete Leyes de 1836 reverteram tal processo, retornando à centralização, voltando claramente aos ideais centralistas que caracterizaram a existência do período colonial Mexicano. BAKER, 1971, p.8.

465 “En la segunda de esas Leyes, dedicada a la organización de un ‘Supremo Poder Conservador’, que hasta en su denominación nos recuerda el ‘Sénat Conservateur’ ”. FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 76. 466

FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 76. 467 TENA RAMIREZ, 1955, pp. 493.

468 FERNÁNDE SEGADO afirmava que “Este Supremo poder no era responsable más que ante Dios y ante la opinión pública, no pudiendo sus miembros, en ningún caso, ser juzgados ni reconvenidos por sus opiniones” FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 76.

por algum dos outros poderes, somente no caso de usurpação de competências469. Todas estas declarações de nulidade, a teor do artigo 13, da segunda Ley Constitucional, necessitavam a conformidade de pelo menos três dos cinco membros, bem como tais resoluções possuíam validade erga omnes470.

As Sete Leis Constitucionais de 1836 concederam ao Supremo Poder Conservador o poder de declarar a nulidade dos atos contrários à Constituição de qualquer um dos três poderes, por solicitação de qualquer um dos outros dois. Tal poder, factível nas intenções, mostrou-se ineficiente na prática471. O Supremo Poder Conservador, durante seus cinco anos de existência, interveio apenas em quatro casos, sendo que em nenhum deles tratava-se de defesa da Constituição472. Não obstante o ditame legal (art. 15 da segunda Ley Constitucional) que considerava crime de alta traição a desobediência às resoluções do Supremo Poder Conservador; àquelas resoluções foram ignoradas, e sequer acatadas pelos órgãos do Poder Legislativo e Executivo473.

De um lado, a ineficiência do controle político exercido pela constituição de 1824. De outro lado, a ineficiência da prevalência do modelo francês (controle político) de salvaguarda da Constituição, uma vez que o Supremo Poder Conservador mostrava- se uma instituição inoperante no sistema jurídico mexicano. Resta saber se existia algum mecanismo jurisdicional de proteção da Constituição? A resposta aparece na primeira Ley Constitucional (art. 2º, III), pois o direito de propriedade e de não ser privado dela, o livre uso e aproveitamento da terra só poderia ser restringido por razões de utilidade pública. Mesmo nesse caso caberia reclamação à Suprema Corte de Justiça,

469 Artículo 12.- Las atribuciones de este Supremo Poder son las siguientes:

I. Declarar la nulidad de una ley o decreto dentro de dos meses después de su sanción, cuando sean contrarias a Artículo expreso de la Constitución y le exijan dicha declaración o el Supremo Poder Ejecutivo o la alta Corte de Justicia, o parte de los miembros del Poder Legislativo en representación que firmen dieciocho por lo menos;

II. Declarar, excitado por el Poder Legislativo o por la Suprema Corte de Justicia la nulidad de los actos del Poder Ejecutivo, cuando sean contrarios a la Constitución o a las leyes, haciendo esta declaración dentro de cuatro meses contados desde que se comuniquen esos actos a las autoridades respectivas; III. Declarar en el mismo término la nulidad de los actos de la Suprema Corte de Justicia, excitado por alguno de los otros dos poderes, y sólo en el caso de usurpación de facultades. Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/01361697524573725088802/p0000001.htm>. Acesso em 30 out. 2010.

470 FERNÁNDEZ SEGADO, s.d., p. 77. 471 TENA RAMIREZ, 1955, p. 494.

472 Ibidem, p. 494. Ver ainda: BAKER, 1971, p. 9. 473

na capital; e ao Superior Tribunal, no respectivo Departamento. O “reclamo” objetivava a suspensão da execução (chamaríamos nós de desapropriação) da propriedade até sentença judicial definitiva. Este instituto processual do “reclamo” subsistiu no México até ser substituído pelo recurso de amparo 474.

A partir deste momento, verificou-se uma clara tendência ao sistema jurisdicional de controle de constitucionalidade das leis. Tanto é que os Tribunais Federais e, em especial, a Suprema Corte de Justiça passaram a conhecer e decidir conflitos constitucionais. Qualquer violação à Constituição é submetida aos órgãos jurisdicionais, verdadeiros intérpretes e defensores dos valores fundamentais do Estado mexicano475. Este controle estava prestes a se perfectibilizar, sem contar que a Constituição de 1836 angariava hostilidades tanto da imprensa liberal476, quanto dos federalistas, que inclusive objetivavam mudar o sistema centralista. Em 15 de julho de 1840 o movimento federalista teve que ser sufocado, mas já não era mais possível manter a Constituição477, momento em que se apresenta um Projeto de Reforma às Siete Leyes.

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