Capítulo 3 – O campo religioso afro-brasileiro em Pelotas
3.5 As tensões entre unificação e segmentariedade
Durante a etnografia, pude observar duas orientações contraditórias no que se refere as estratégias organizacionais dentro do campo umbandista e do batuque de Pelotas. Quando há o enfrentamento de questões que afetam a todos, como nas Audiências Públicas, há um movimento em direção a uma unificação entre as várias entidades representativas ou lideranças individuais, que se pronunciam abertamente favoráveis a esta tendência. Esta orientação se faz tanto mais forte, quanto mais representantes do poder público estão presentes na situação.
A segunda orientação, é verbalizada ou observada no âmbito das práticas mais cotidianas, direcionando-se claramente para um fortalecimento de uma lógica segmentar. Para além da possibilidade desta segmentaridade ser inerente a uma cosmologia afro-brasileira (Goldman, 2001), os diferentes posicionamentos a respeito – manter diversas entidades representativas ou unificar – refletem, dentre outros fatores, diferentes graus de legitimidade que uma ou outra destas entidades possui dentro do próprio campo religioso afro-brasileiro ou, perante o poder público e a sociedade de uma forma geral.
Para Joabe, por exemplo, o tempo de existência da Federação e o fato desta ter o domínio formal sobre um espaço físico, atributos que as demais organizações representativas não possuem, tornam-se fatores diferenciais desta entidade em relação às outras existentes em Pelotas. Por esta razão, ele entende que não há como as entidades se fundirem, atualmente, para formar uma única instituição representativa das religiões afro-brasileiras no município. Além disso, a Federação
Sul-rio-grandense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros, segundo o presidente, contempla no seu estatuto, não somente o estado do Rio Grande do Sul como, “todo o território nacional”, o que demonstra sua importância como instituição representativa, ao contrário das rivais.
Ouvi muitas reclamações, durante a minha etnografia, especialmente nos diálogos informais, sobre a atual administração da Federação Sul-rio-grandense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros. Mas, ao mesmo tempo, observo duas tendências em relação a isso: alguns dissidentes que possuíam vínculos históricos com a entidade, se sentiram de tal forma desprestigiados que optaram por se afastar e fundar outras instâncias organizativas; outros interlocutores, entrevistados ou não, remetem justamente a este vínculo histórico com a Federação para se manterem filiados a ela.
Segundo Maria Ochoa, o centro de umbanda Joana D’Arc que está sob a sua responsabilidade, é filiado à Federação desde a sua inauguração na década de 70 e desde então, mesmo havendo diversas trocas de membros das diretorias e dos conselhos, permanece filiado a entidade:
Mas como eu sempre fui da Federação desde quando ela começou, que me filiei porque não tinha onde tu se filiar, não tinha segurança para
trabalhar, quando eles deram a segurança pra ti trabalhar e tudo mais, eu
me associei ali. E ali eu fiquei até hoje, muda o presidente, muda quem
quiser, mas eu não sou presidente, eu sou Federação. Eu sou fiel a
Federação, porque uma que ela é Sul-Riorandense de Umbanda, ela vai, ela é todo Rio Grande do Sul e ela é federal. Existem leis que regem ela, federal. E as associações não são, elas são validas em Pelotas. (Entrevista realizada com Maria Ochoa, em 4 de novembro de 2014; grifos nossos).
A ideia de unificação permanece forte, especialmente entre os umbandistas que se julgam herdeiros dos grupos, que outrora estiveram no comando da Federação:
Eu sempre em toda a minha vida, enquanto eu existir nessa terra, o meu maior sonho é a unificação da nossa religiosidade dentro da cidade de Pelotas. Unir numa única, acabar com isso aí, a divisão gera discordância em todos os setores. Então, não existe isso aí, tem que ter unidade, união, fraternidade. Eu fiz, eu acho que foi na Universidade Católica que me chamaram pra fazer uma palestra, conversar, e daí eles me perguntaram e eu disse que o meu sonho sempre foi esse, unificar. Porque onde houver divisão, nunca vai se chegar num coeficiente comum. (Entrevista realizada com Carlos Alberto, em 14 de abril de 2015).
Porque a umbanda não é minha, o africanismo não é meu, nem deles, é de todos nós. E se nós estamos sendo oprimidos, nós temos que nos dar as mãos e unir. Temos que respeitar qual? A Federação porque é a mais antiga e as outras todas surgiram dali[...] Ninguém é dono da opinião, ninguém sabe,
todos nós temos que realmente dialogar e passar aquilo que as pessoas que estão associados peçam. Eu sou muito... Na última reunião que a gente teve lá na Câmara eu falei, eu estou ali para representar o que as pessoas querem, eu não posso eu sair fazendo o que eu penso na minha cabeça, que eu acho que eu sei. Eu tenho que respeitar as pessoas e fazer o que elas querem. Por isso que eu sou um representante da religião, senão eu ficaria só no meu terreiro, no meu terreiro eu posso fazer o que eu quero. (Entrevista realizada com Josué Martins, em 10 de outubro de 2014).
As lideranças jovens que não possuem a memória dos antigos movimentos por unificação, a consideram relevante especialmente para fazer frente aos processos de intolerância religiosa:
O certo seria ter uma Federação para todos os umbandistas, uma união. Vamos supor, a Federação Sul-rio-grandense ou a Federação conhecida nacionalmente, internacionalmente, poderia se unir. Não digo ela que é matriz, vamos dizer, as outras que são filiais. As outras federações poderiam se unir e fortalecer a raiz da nossa umbanda, fortalecer a religião na cidade de Pelotas que infelizmente as federações não estão.... Só estão agregando, na realidade, os filiados. E na luta está muita fraca, hoje em dia na luta contra a intolerância religiosa na cidade de Pelotas está muito fraca da parte das federações, pra mim a Federação hoje em dia não tem nenhum benefício para os filiados, só as festas mesmo. A Federação Sul-Riograndense só, porque o resto das outras não tem salão para fazer festa, não tem, só tem um escritoriozinho, eu conheço todas. (Entrevista realizada com Juliano Silva, em 7 de outubro de 2014).
Na entrevista com os representantes do poder legislativo, a segmentaridade apresentada na atual configuração da representatividade no campo religioso afro- brasileiro na cidade, também é problematizado:
Isabel: E assim, o que o senhor acha dessa diversidade que tem em Pelotas de federações, de associações?
Ricardo: Acho um absurdo. Acho um absurdo. Acho uma desunião muito grande, isso provoca essa desunião. Porque é que existe as federações, as associações? Associação a, federação a, associação b, federação b, federação c, por quê? Porque não consegue chegar em um entendimento, um pega para uma linha, outro pega para outro e aí eu acho que nós deveríamos ter sim uma federação, devíamos ter sim uma associação. De repente, uma federação que contemplasse todos e que fizesse a coisa. (Entrevista realizada com vereador Ricardo Santos, em 17 de outubro de 2014).
Isabel: Eu queria saber assim, qual é a tua opinião, porque sempre foi colocado nas audiências que a gente falou sobre essa diversidade de federações e associações que tem aqui na cidade de Pelotas. Então, queria saber na tua opinião sobre essa diversidade das federações, o que o senhor acha disso? Se isso é bom ou ruim.
Ademar: Isso atende, por exemplo, a uma situação histórica nossa, nesse momento da política umbandista, mas o ideal seria que fosse, que pudéssemos estar todos dentro de uma mesma entidade e pudéssemos ter dentro da entidade, da Federação, e a partir daí ter as posições e se criar uma única Federação. Isso fica muito parecido com a política nacional, onde muitos partidos vão tendo brigas e vão criando outras facções, outros partidos
menores e aqui em Pelotas estão indo para as mesmas questões, assim como a Federação antiga que foi criando cisões e foi criando outras entidades. Então, eu não acho positivo para a religião como um todo, embora entenda que isto atende um momento histórico da religião. (Entrevista realizada com o vereador Ademar Ornel, em 20 de novembro de 2014).
A partir desta configuração do campo religioso afro-brasileiro em Pelotas, podemos concluir que num primeiro momento, na década de 1970, houve uma busca intensiva em unificar todas as entidades representativas religiosas em uma só e, com isso, consolidar e legitimar o campo umbandista na cidade perante a sociedade envolvente e o poder público local, que tinha como principal objetivo combater a forte perseguição religiosa impetrada pelo aparato estatal e policial em relação as práticas afro-religiosas. Embora, atualmente, ainda persista um movimento em direção a uma unificação no cenário religioso afro-brasileiro em Pelotas, as estratégias organizacionais dentro do campo umbandista e do batuque apresentaram modificações.
Deste modo, mesmo em períodos históricos distintos podemos observar que a conformação do campo religioso afro-brasileiro contou com uma estreita relação entre federações e associações religiosas e representantes políticos, aliança esta que também proporcionou apoio por parte do poder público em relação à efetivação das festas de Iemanjá. Também podemos identificar, neste capítulo, que o campo das religiões afro-brasileiras apresenta uma lógica segmentar, a qual possivelmente seja inerente a uma cosmologia afro-brasileira (GOLDMAN, 2001), porém, o que considerei nesta discussão foram os distintos posicionamentos sobre a diversidade de entidades ou a união de todas, o que nos possibilita refletir sobre os diferentes graus de legitimidade que uma ou outra destas entidades possui dentro do próprio campo ou perante o poder público e a sociedade como um todo.