Capítulo 1 – Percursos Etnográficos
1.5 Apresentando os interlocutores
1.5.2 Josué Roldan Martins
Josué, presidente da União Riograndense de Umbanda e Cultos Afro- brasileiros, tem 41 anos, é natural de Pelotas e também possui uma trajetória familiar vinculada a religião afro-brasileira. Cabe destacar que Josué é eurodescendente. Antes de trazer a sua trajetória, faço a ressalva que Josué, não é apenas
representante da URUCAB, como também é técnico de futebol com especialização na área de Educação Física e atua há 14 anos como coordenador geral da base de futebol do Esporte Clube Pelotas.
A trajetória religiosa de Josué começou a partir de seus pais, Santos Laureci Martins, natural de Arroio Grande e Sônia Maria Roldan Martins, natural de Jaguarão, ambos vivos29. Segundo Josué, a família de seu pai era tradicionalmente católica, mas
o primeiro contato que seu pai teve com a religião afro-brasileira foi a partir de um caso envolvendo sua irmã, a qual estava muito doente e sem encontrar uma solução através da medicina, foi recomendada a família que procurasse um centro de umbanda. E foi nesse centro de umbanda que a irmã foi curada.
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Isso na década de 60, 54, 55, ela era uma criança ainda e levaram ela e ela saiu bem. E ai chegou em casa, todo mundo contou, e ele [pai] não acreditava porque era coroinha. E o padre, o primeiro padre da cidade lá, que ajudou a fundar a cidade, era o padrinho dele, então ele foi nascido e criado na Igreja Católica, indo todos os dias para a igreja católica. (Entrevista realizada com Josué Martins, em 10 de outubro de 2014).
A partir do acontecimento de sua irmã, seu Laureci, pai de Josué, decidiu ir até o centro de umbanda que curou a irmã para desafiar o poder das entidades, pois, em razão da sua forte crença no catolicismo, tornava-se difícil acreditar na existência de outro poder que não o de Jesus ou de Deus.
E ai ele foi um dia para desafiar, chegando lá, uma entidade chegou, baixou, e chamou ele lá no meio e disse assim: “eu vou provar pra ti que existe alguma coisa a mais, então tu te mexe na minha frente a partir de agora, pode fazer o que tu quiser”. E ele não conseguiu se mexer. Depois dali ele começou a acreditar, entendesse? (Entrevista realizada com Josué Martins, em 10 de outubro de 2014).
Segundo Josué, esse acontecimento foi que levou o seu pai a começar a acreditar na religião de matriz africana, mas somente na vinda de seu pai para Pelotas, em busca de emprego, é que o mesmo começou a ter contato mais intenso com a religião. Em Pelotas, seu pai, Laureci, começou a trabalhar em uma loja que vendia produtos religiosos que se chamava Flora São Jorge, que pertencia ao Dinorá Feijó Leal. Josué apontou, na sua fala, que foi a partir desse trabalho que seu pai entrelaçou
29 Na Ata nº 66, relativa a reunião de Diretoria da União da Umbanda da Princesa do Sul realizada em
30 de abril de 1970, se faz menção ao delegado regional Santo Laureci Martins “felicitando-o pelo brilhantismo da festa realizada em vinte e cinco de abril, na cidade de Jaguarão”. Presume-se que neste período ele estivesse residindo nesta cidade.
uma forte amizade com Dinorá, sendo considerado um pai adotivo de Laureci e em razão disso Dinorá é considerado por Josué e familiares como um membro da própria família Martins. Em razão dessa forte relação de amizade e trabalho, Laureci passou a fazer outro serviço para Dinorá, que era direcionado a União de Umbanda da Princesa do Sul, cuja presidência era exercida por Dinorá, como será visto em capítulo posterior. Nesta nova ocupação, Laureci tornou-se delegado30 da União, onde tinha
como finalidade buscar terreiros em outras regiões para se filiarem a entidade. Josué ainda salientou que seu pai, após casar-se com sua mãe e constituir família, trabalhou por 33 anos em outra loja de artigos religiosos, Flora Oxum, a qual localiza-se, até os dias atuais, em frente ao Mercado Público, pela Rua Andrade Neves. Seguindo a trajetória de inserção de Josué na religião afro-brasileira, ele relatou que sua mãe, Sônia Maria Roldan Martins, também foi de grande importância para sua inserção na religião. Destaco uma parte da história da mãe de Josué, porque esta também tem um cruzamento com a história da Federação Sul-Riograndense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros. Uma vez que, Sônia, mãe de Josué, pertenceu ao centro de umbanda São Sebastião, o qual tinha como responsável Ernestina, esposa de Dinorá Feijó Leal.
Eles eram da alta sociedade, eram pessoas que tinham uma classe social bem mais alta. A casa do seu Dinorá Feijó, do vô e da vó, mas mesmo assim na humildade dela, ela foi desenvolvida. Ela fundou o Centro São Sebastião. O Centro São Sebastião tinha 250 médiuns, era um terreiro gigantesco, eu presenciei, eu sou o último médium do Centro São Sebastião, eu como pessoa porque eu comecei a tocar tambor com 11 anos. Quando eu tinha 15 para 16 anos, encerrou por falta de saúde da vó, daí não tinha mais condições. (Entrevista realizada com Josué Martins, em 10 de outubro de 2014).
No relato de Josué, dá-se a entender que Ernestina tinha uma relação muito próxima com sua mãe, assim como Dinorá tinha com Laureci, pois alguns pertences importantes de Ernestina e do centro São Sebastião foram passados, em vida, para Sônia. A convivência de Josué com a religião afro-brasileira iniciou com onze anos, quando Josué começou a tocar tambor no centro São Sebastião. Josué relatou que descobriu o dom de tocar tambor em razão do tamboreiro da terreira, São Sebastião
30 No depoimento de Josué não fica claro se o pai trabalhou no cargo de delegado na União de
Umbanda da Princesa do Sul ou na Federação Sul-Riograndense de Umbanda, pois num trecho da nossa conversa ele se remete ao cargo exercido pelo pai na União e, em outro também se remete ao cargo, mas exercido na Federação, dando a entender que poderia haver uma confusão entre entidades ou uma continuidade do serviço prestado pelo seu pai, a partir da União para a Federação.
não ter mais condições físicas para continuar a tocar. Assim, Josué se propôs a tocar e o tamboreiro ao ver que Josué sabia todos os ‘pontos’ de “cor e salteado”, determinou que o menino de onze anos começasse a tocar junto com ele na terreira. Segundo Josué, essa decisão foi tomada pelo tamboreiro porque na primeira vez que ele tocou, o tamboreiro viu um africano ao seu lado, como se este estivesse passando a sabedoria de tocar o instrumento para Josué.
Passados os anos, ai ele chegou e disse assim que quando ele era vidente, ele me viu tocando, ele viu um africano do lado e que eu sabia de cor e salteado as batidas, os toques, o repique e eu tinha uma coisa diferente que os outros nãos tinham que era o sentimento na batida, era uma vibração diferente no couro do tambor, até hoje o meu toque é diferente das demais pessoas [...] (Entrevista realizada com Josué Martins, em 10 de outubro de 2014).
Percebe-se que Josué, ao contar sua trajetória afro-religiosa, apresenta todos os fatos ocorridos, inclusive àqueles relacionados aos seus pais, como parte de uma “missão” destinada à família Martins. E acredito que Josué, por meio dessa noção missionária impregnada no seu discurso, utiliza-se dessa estratégia para legitimar a sua forte relação com a umbanda na cidade de Pelotas, bem como da sua família com o processo histórico de institucionalização da Federação Sul-Riograndense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros.
Atualmente, o terreiro que Josué e sua família trabalham chama-se Centro de Umbanda Nossa Casa, o qual tem como cacique a sua mãe, Sônia. O terreiro funciona todas as terças-feiras das 20h30min até 22h30min e localiza-se na Rua Três de Maio, nº 306. Josué ainda salientou, que o centro é somente umbanda e não há cobrança monetária para participar do centro, pois o mesmo é aberto ao público.
1.5.3 Marcos Abreu
Marcos Abreu é mais conhecido, na comunidade afro-religiosa, por Marcos de Oxalá, o qual é presidente da Federação dos Cultos Afro-brasileiros Umbanda e Quimbanda (FECAB), tem 57 anos de idade, sendo 42 anos de vida religiosa no batuque (denominado por ele como ‘nação), umbanda e quimbanda. Marcos é afrodescendente e não comentou sobre o seu estado civil, mas ressaltou na entrevista