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Capítulo 3 – O campo religioso afro-brasileiro em Pelotas

3.2 Federação Sul-Riograndense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros

3.2.7 Processos sucessórios e lógica segmentária

Originalmente, as eleições para presidência da Federação eram de dois em dois anos, alterando-se depois para um intervalo de quatro em quatro anos149.

Mesmo com essa possibilidade de alternância, é possível notar, ligeiramente, que alguns presidentes tiveram seus mandatos prorrogados várias vezes. Dinorá, o primeiro presidente, ocupou o posto por dez ou doze anos e “só saiu quando morreu”150. Porém, estão computados os anos em que foi presidente da União de

Umbanda da Princesa do Sul. O Livro de Atas inicia com o Sr. Dinorá Feijó Leal, exercendo o cargo de presidente da União, sendo reconduzido ao cargo em Assembleia Geral Extraordinária realizada em 8 de outubro de 1970151. Mas, se faz

referência a algumas licenças do cargo, quando era substituído por algum outro nome já integrante da diretoria. Chamou a atenção uma passagem da Ata nº 93, relativa a composição do Conselho de Orientação Espiritual, em que se faz uma alusão direta ao tempo ideal de permanência no cargo por parte do presidente da

Federação: “Sugeriu ainda que o presidente ao terminar seu mandato não deveria concorrer a outra eleição, proposta esta da qual discordaram os membros da mesa”152.

Não vai ser possível reconstituir aqui toda a linha sucessória dos nomes, que ocuparam o cargo de presidente da Federação, pois como já foi exposto no capitulo metodológico, foi vedado à mim o acesso aos arquivos da Federação.

Consideramos como um dado de grande relevância, para a história da Federação, a sucessão de diretoria que houve ao final de 1972, quando o Sr. Dinorá assume o lugar de vice-presidente na nominata da chapa oficial. Segundo a Ata que deu posse a nova diretoria eleita, a nominata era a seguinte:

E, como não houve apresentação de outra chapa ou seja de oposição; o presidente do Conselho Deliberativo, Sr. Análio Teixeira, dando prosseguimento aos trabalhos usou das prerrogativas que lhe são atribuídas através dos estatutos, capitulo IV, artigo 14, parágrafo 5º, dando posse a nova diretoria que regerá os destinos da Federação Sul-Riograndense de

149 Segundo o relato do Joabe, na trajetória da federação só houve uma mulher que ele denomina como

Rejane, assumido o cargo de presidente.

150 Entrevista com Joabe Bohns, realizada em 18 de setembro de 2014.

151 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

Ata nº 74, folha 19 (face) e 20 (verso), 08 de outubro de 1970.

152 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

Umbanda, no período acima mencionado. Sendo a nominata assim constituída: Presidente: Edyr Teixeira Padilha. Vice-Presidente: Dinorah Feijó Leal; 1º secretária professora Glauvia Amaro Brum; 2ª secretária Vera Regina Braga. 1º Tesoureiro, Irineu Viana. 2º Tesoureiro Roberto Botelho. Bibliotecária – professora Eloi Machado, tendo como auxiliares: a Sra. Maria do Carmo Botelho, Sra. Beatriz da Silva Britto e Sta. Maria das Graças Silva Britto. Consultor Jurídico, Sr.Dr. Afonso Dentes153. Conselho Fiscal, Álvaro

Martins Gomes, Manoel Villanova, José Massau, Atanázio Mendonça, Noé Mello Rodrigues e José Carlos Braga. Departamento Social, Olavo Ferreira Duarte e José Flores. Relações Públicas e Departamento de Assistência Social e Obras, Sr. Ari Paulo Pereira. Departamento de Divulgação e Cultura, professora Iara Maria Alves. Diretor de Patrimônio, Sr. Aldírio Oliveira154.

Conforme já assinalado em capitulo anterior, possivelmente houve controvérsias entre os membros dessa diretoria eleita, pois as atas recomeçam no nº 19, relativa a uma reunião Extraordinária ocorrida em 20 de janeiro de 1974, anunciando-se a demissão do cargo de presidente por parte do senhor Edys Teixeira Padilha e a recondução a este cargo do Sr. Dinorá Feijó Leal:

A sessão foi aberta pelo Sr. Análio Teixeira, presidente do Conselho Deliberativo, levando em consideração que o Sr. Edyr Teixeira Padilha ao se demitir não lavrou a ata da transmissão do seu cargo de vice-presidente, assim o fez na presente reunião o presidente do Conselho Deliberativo, mediante o recebimento do ofício do ex-presidente, datado de 17/01/74155.

Na Ata nº 20, relativa a uma reunião de diretoria ocorrida em 21 de janeiro de 1974, apenas um dia após a anterior, se faz referência a uma Ata de nº 18 que não consta no Livro, mencionada pelo recém reempossado presidente Dinorá Feijó Leal para manifestar a sua discordância com a programação já estabelecida para a Festa de Iemanjá, o que nos leva a perguntar se teria sido este o motivo das desavenças dentro da diretoria.

De acordo com as Atas, o Sr. Dinorá Feijó Leal ficou a frente da direção da Federação até, ao menos, 02 de abril de 1974, de acordo com Ata registrada sob nº 22. Na Ata nº 23, datada de 02 de junho de 1974, há a notícia de uma nova mudança de diretoria, sem nenhuma Ata intermediária neste livro acusando a realização de eleições. Neste dia toma posse, o Sr. Aldírio Oliveira que desta forma se pronunciou:

153 Suspeita-se que o sobrenome seja “Dantas”, mas efetivamente o que consta na Ata é “Dentes”. 154 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

Ata nº 2, folhas 97 (face) e 98 (verso), 22 de dezembro de 1972. Registra-se que esta Ata, referente a uma reunião do Conselho Deliberativo, consta como uma transcrição de outro Livro referente as Assembleias Gerais Extraordinárias.

155 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

O Sr. Presidente fazendo uso da palavra, disse que após uma gestão com

grandes desentendimentos e demissões, ouve156 necessidade que fosse

formada uma junta governativa que ouve por bem convocar seus associados para Assembleia Geral Extraordinária, resolvendo a mesma, criar um novo Conselho Deliberativo, que após escolha entre os irmãos de fé da Umbanda Pelotense fosse indicado um novo executivo. Assim sendo coube-nos a

honra de dirigir os destinos da Federação Sul-Riograndense de Umbanda pelo período de um ano, ou seja, de 01.05.74 à 30.06.75.

Acreditamos, eu, e meus componentes de diretoria que envidaremos todos esforços para elevar bem alto o nome da Federação Sul-Riograndense de Umbanda. Após estas palavras que me vem do fundo do coração encerro esta alocução deixando a palavra a disposição de meus amigos, irmãos e filhos, para que externem os seus pensamentos entorno desta missão que ora nos foi imposta157. (Grifo nosso)

Este livro de Atas encerra com Ata nº 28, datada de 20 de novembro de 1974 e, nas Atas subsequentes a posse dessa nova diretoria não é mencionada a presença nas reuniões do Sr Dinorá Feijó Leal, o que nos leva a perguntar, em razão da centralidade que ele vinha assumindo na condução da Federação, se ele não faleceu neste intervalo de tempo. Em 12 de julho de 1974, segundo a Ata nº 24, o novo presidente solicitava ao secretário o encaminhamento de oficio comunicando a posse da nova diretoria ao Banco do Brasil, ao Banco do Estado do Rio Grande do Sul, ao senhor Prefeito Municipal e ao senhor Delegado de Polícia, indicando com isso as relações estreitas da Federação com estas instituições158.

São diversos os nomes apontados na sucessão da presidência da Federação, mas é difícil reconstituir a ordem em que os mesmos ocuparam o cargo: Irineu Viana, Jorge Burkert, Rejane Urrutia, dentre outros. Além de fugir dos objetivos deste trabalho, demandaria uma pesquisa de maior fôlego junto à comunidade umbandista e acervos documentais.

Joabe, o atual presidente, já completou dez anos no cargo e, justifica sua insistência em nele permanecer, a partir da crença de que todos os presidentes que abdicaram dos seus cargos acabaram falecendo:

Porque a luta de todo presidente aqui não é permanecer no cargo por privilegio, é porque todos que saem morrem. Todos que saíram daqui morreram. Então eu não vou ser também, então não vou lutar pra sair daqui pra provar o contrário. Eu também vou lutar pra não morrer porque todos que

156 Possivelmente buscou-se registrar a palavra “houve”, mas mantive grafia original da Ata.

157 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

Ata nº 23, folhas 104 (verso) e 105 (face).

158 Livro de Atas da União da Umbanda da Princesa do Sul/Federação Sul-Riograndense de Umbanda.

saíram daqui morreram. (Entrevista com Joabe Bohns, realizada em 18 de setembro de 2014)

Segundo seu próprio depoimento, Joabe passou a ter uma participação mais ativa na Federação quando foi nomeado para o Conselho Fiscal, pelo então presidente que ele identifica como doutor Jorge Telles. Após o falecimento repentino de Jorge, teriam ocorrido sérios conflitos pela sucessão da presidência da Federação. Foi então, que Joabe foi nomeado presidente do Conselho Executivo. Os conflitos sucessórios teriam gerado o afastamento de alguns dos antigos sócios, o que teria dispersado o próprio acervo de documentos da Federação. O próprio Joabe reconhece essas lacunas decorrentes da sucessão litigiosa.

Eu tô procurando fazer, resgatar muita coisa por quê? Porque quando eu assumi aqui, eu assumi por causa de uma briga entre os presidentes, vice- presidente de conselho deliberativo, conselho executivo. Existia uma briga. E foi bem nesse período que o doutor Jorge estava assumindo. E inclusive muitas coisas da Federação foi dado sumiço, muito. O acervo da Federação aquilo que poderia contar boa parte da Federação foi dado sumiço. Então, tá existindo uma dificuldade pra mim poder trazer. (Entrevista realizada com Joabe Bohns, em 18 de setembro de 2014).

Joabe deixa subentendido que, na perspectiva dele, muitos dos conflitos sucessórios decorriam da sobreposição entre vinculo consanguíneo com quem ocupava cargos na direção e, representação política no interior do campo religioso: algumas pessoas assumiam cargos por terem relação de filiação com antigos membros da diretoria, não porque efetivamente praticassem a umbanda. É obvio que podemos estar aqui, diante de um discurso de auto-legitimação, perante concorrentes que possuem vínculos mais sólidos com as antigas parentelas, que lutaram pela unificação da umbanda em Pelotas e constituição da Federação. A reforma estatutária que ele teria promovido ao assumir o cargo, contrariou esses princípios vigentes, o que teria gerado a saída de muitas pessoas, sendo que, alguma destas pessoas resolveram se unir e criar outras entidades representativas, como será discorrido no próximo subcapítulo.