Foto 17 PE – 78 dividindo a Fazenda Varame e os PA Varame I e II
2 TERRITÓRIOS, TERRITORIALIDADES E DISCURSOS EM
2.3 FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: TERRITÓRIO,
2.3.5 Territorialidades e discursos
2.3.5.3 As territorialidades e os discursos ativos e passivos
O esquema teórico-conceitual que apresentamos parte da perspectiva de entender o território como uma disputa territorial entre sujeitos no âmbito do processo de apropriação do espaço. Uma disputa que se estabelece em várias dimensões, dentre as quais a da linguagem, por meio dos discursos.
Para compreender as territorialidades ativas e passivas das famílias assentadas em torno do processo de inserção socioterritorial nos PA em Passira-PE, na forma de discursos, o que denominamos aqui de territorialidades discursivas, é necessário, primeiramente, retomarmos de forma sucinta algumas concepções já colocadas. São elas:
1. Entendemos que existe uma relação indissociável entre espaço, território e linguagem. Conforme argumentou Claude Raffestin em alguns de seus trabalhos 1993 e 2009, o território é: i) uma apropriação (i)material de sujeitos no espaço; ii) marcado por um campo de forças e por relações de poder; iii) sistemas de objetos e signos, fruto de territorialidades cotidianas; iv) reflexo de relações intersubjetivas que são dinâmicas e expressas por meio da comunicação, revelam as necessidades de produzir e existir dos sujeitos (RAFFESTIN, 1993). O que diferencia o espaço do território são as relações sociais entre os sujeitos, estabelecidas por territorialidades cotidianas, mediadas por trabalho, poder e pela linguagem. Argumenta que a relação entre o sujeito e o território se dá por essas relações semânticas, isto é, por meio da língua, ou mais especificamente das relações de poder estabelecidas pelo uso da linguagem. Para o autor, as territorialidades carregam poder, mas também sentidos, representações e imagens construídas na relação do sujeito com o espaço, por meio da linguagem. Sendo esta uma forma do sujeito construir novas paisagens do espaço: “É preciso, pois, compreender que o espaço representado é uma relação e que suas propriedades são reveladas por meio de códigos e de sistemas sêmicos. Os limites do espaço são os do sistema sêmico mobilizado para representá-lo” (Ibidem, p. 144). A linguagem é uma mediação entre o sujeito e a realidade territorial. Uma dimensão da territorialidade que se apresenta por meio da comunicação social, revelando as formas de constituição da realidade e dos conflitos estabelecidos no processo de apropriação do espaço em território.
2. As territorialidades são ações dos sujeitos no processo de apropriação do espaço. Esse processo é exercido a partir da mediação simbólica, cognitiva e prática (RAFFESTIN, 1993). Ao mesmo tempo, essas territorialidades podem ser ativas. Sobre isto, entendemos como um conjunto de ações coletivas dos sujeitos locais em seu território por meio de estratégias de inclusão e cooperação. É pensar no território como um sistema ativo, por meio de sujeitos agente social no processo de transformação: “[...] i territori sono visti come sistemi ‘attivi’, in cui la territorialiatà svolge un ruolo di mediazione simbolica, cognitiva e pratica fra la materialità dei luoghi e l’agire sociale nei processi di transformazione e di sviluppo locale” (GOVERNA, 2005, p. 26). Como argumenta Governa (2005), as territorialidades ativas possibilitam o sujeito a ser ativo no seu território, a ter ações e comportamentos inovadores, capazes de: a) construção de uma identidade territorial, b) autogoverno e autoregulação, c) redefinir práticas sociais, culturais e políticas e d) criar estratégias inclusivas.
3. Por último, entendemos que o discurso é um acontecimento, carregado de relações de poder, saber e práticas sociais. O discurso traz na sua constituição os jogos de lutas e afrontamentos, ou seja, uma série de relações de embates das micro-lutas sociais (FOUCAULT, 2005). Ao mesmo tempo, o discurso é um modo de ação dos sujeitos (FAIRCLOUGH, 2001), constituindo-se numa prática social, contribuindo para a constituição da estrutura social, uma vez que molda e é moldada por essa estrutura (FAIRCLOUGH, 2001).
Recuperamos essas observações para mostrar que existe, no processo de construção do território, uma relação indissociável com o discurso, uma ligação entre território-poder- linguagem, numa perspectiva de dimensão espacial do discurso.
Entender o discurso como um acontecimento, carregado de práticas sociais, relações de poder, saber e estratégias, possibilita interpretar o processo de construção e apropriação do espaço geográfico em território. Falar do espaço é agir nele, é criar delimitações, representações, imagens e, portanto, estabelecer relações de poder. Como afirma Lefebvre (2006), o espaço social “[...] articula o social e o mental, o teórico e o prático, o ideal e o real” (LEFEBVRE, 2006, p. 41) e todo e qualquer conhecimento humano se rebate no espaço, delimitando territórios de relações de poder, exercício do saber e práticas sociais.
Nessa perspectiva, a relação entre espaço-território-discurso diz respeito ao entendimento do território por meio de territorialidades presentes nas relações sociais de comunicação entre os sujeitos (RAFFESTIN, 1993). No território, há elementos do real, mas também há do abstrato, a partir das sensações, representações e das imagens (RAFFESTIN, 1993). A territorialização é um processo de apropriação social de fragmentos do espaço, por meio de territorialidades cotidianas que retratam as ações e os comportamentos dos sujeitos nesse processo.
Dessa forma, a territorialidade pode acontecer enquanto discurso, o que nos leva a compreensão das territorialidades discursivas35. Estas, enquanto dimensão espacial do discurso, são as ações dos sujeitos em torno do processo de uso e apropriação do território, em forma de discurso, numa relação entre grupos humanos e seu ambiente, por meio da linguagem.
Como as territorialidades acontecem por meio de sujeitos passivos e ativos, como aponta Dematteis (2005) e Governa (2005), as territorialidades discursivas podem e devem acontecer de forma ativa e passiva.
Por isso, compreendemos que as territorialidades discursivas podem ser definidas por meio de discursos passivos e ativos dos sujeitos em seus territórios de vida: Discurso Ativo ou Positivo é uma manifestação da linguagem sobre o espaço e que apresenta em sua constituição marcas que caracterizam ações e comportamentos ativos dos sujeitos coletivos no processo de uso, apropriação e construção do território; Discurso Passivo ou Negativo é uma manifestação da linguagem sobre o espaço e que apresenta em sua constituição marcas que caracterizam ações e comportamentos ativos dos sujeitos coletivos no processo de uso, apropriação e construção do território.
Os discursos ativos vão conter traços de práticas sociais inovadoras dos sujeitos em seus territórios, apresentando novas formas de saber e utilização dos recursos locais presentes no território, retratando ações e comportamentos positivos (DEMATTEIS, 2005) que conduzem os sujeitos locais a manterem um maior controle na construção do território por meio da autonomia (GOVERNA, 2005), maior capacidade de se autorepresentar e
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É importante que fique claro que não estamos trazendo aqui um conceito novo para a análise do processo de apropriação e construção de territórios. Mas, estamos buscando fazer uma associação, com o mínimo de esforço teórico, da possibilidade das ações humanas no espaço serem analisadas por meio dos discursos dos sujeitos.
autoprojetar (DEMATTEIS, 2005), como também da maior capacidade de autogestão e autogoverno (MAGNAGHI, 2010).
É importante que fique claro que esse percurso teórico está centrado na problemática que envolve a realidade socioespacial e territorial do município de Passira-PE, a partir dos PA Independência e Varame I. Nossa preocupação é compreender de que forma acontece o processo de inserção socioterritorial das famílias assentadas na construção dos Projetos de Assentamentos Rurais em Passira-PE, a partir de seus discursos. Por isso, é importante o resgate dos discursos – como ativos ou passivos - das famílias envolvidas para caminharmos nas práticas sociais em torno da RA e dos PA no município em epígrafe, a partir dos territórios de vida.
Porém, entendemos que os territórios dos PA, no município de Passira-PE, são resultados da soma histórica dos discursos e práticas em torno da RA no Brasil, principalmente, no âmbito do quadro de relações de poder e de conflitos, empreendidas pelo Estado brasileiro, a partir dos Planos Nacionais de Reforma Agrária, e os vários movimentos sociais no campo do país, com destaque para o MST. Dessa forma, retomar o quadro histórico dos discursos e das práticas em torno da luta pela terra e pela RA é a primeira etapa que permite compreendermos os embates, os conflitos, as ações, e as contradições que conduziram a existência dos assentamentos ora analisados.