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Foto 17 PE – 78 dividindo a Fazenda Varame e os PA Varame I e II

2 TERRITÓRIOS, TERRITORIALIDADES E DISCURSOS EM

2.2 OBJETIVOS E CONCEITOS

Compreender de que forma ocorre o processo de inclusão socioterritorial das famílias assentadas na construção dos Projetos de Assentamentos Rurais em Passira-PE, a partir dos discursos, constitui o objetivo central desta pesquisa.

Com o intuito de alcançar este objetivo, redimensionamos e definimos dois objetivos específicos: a. Explicar de que forma ocorre o processo de participação das famílias assentadas na construção dos territórios dos PA; b. Analisar de que forma as famílias assentadas compreendem o seu papel e a sua participação na construção do território dos PA.

Frente a tais objetivos, a pesquisa buscará compreender se de fato há a participação e capacidade de organização dos territórios dos PA por parte das famílias assentadas, procurando compreender, por meio dos discursos formulados, se há de fato uma inclusão socioterritorial contínua e participativa. Tal percurso caminhará por uma análise que perpassará uma relação (indissociável) entre território e discurso em torno dos PA e da Reforma Agrária.

O caminho se justifica pelos seguintes aspectos:

Primeiro, há um grande desencontro histórico entre discursos e práticas sociais em torno dos territórios dos PA e a RA no Brasil. Há uma grande divergência histórica (e por que não espacial?) entre o que é dito e o que é feito enquanto prática com relação aos assentamentos rurais, tanto por parte do Estado como dos movimentos sociais. Há proposições, soluções e caminhos, tudo dentro de um quadro discursivo, para a inclusão das famílias camponesas nos PA, mas há poucas ações no sentido de efetivar esse processo.

Partimos da perspectiva apontada por Martins (2003), ao entender que existem discursos em torno da Reforma Agrária que não se constituem em ações reais de inclusão socioterritorial dos camponeses pobres nas várias partes do país (MARTINS, 2003). O Estado e o MST não estão sendo capazes de permitir que as famílias assentadas possam ser os reais sujeitos do processo de transformação histórica de suas realidades. O que há de fato é uma “experiência histórica brasileira” de politizar as demandas dos camponeses de “fora para dentro”, buscando “dar a voz a quem não tem voz” (MARTINS, 2003).

Não há uma efetiva participação e incorporação das ideias e concepções dos pobres nas decisões políticas, mas um desencontro entre quem realiza e quem se beneficia, como também entre os verdadeiros sujeitos na luta pela terra e pela RA e os reais protagonistas:

O desencontro entre o discurso contestador e radical das organizações políticas e sindicais, de um lado, sobretudo dos grupos de mediação nelas envolvidos, e a prática efetiva dos grupos sociais que reivindicam, tem se manifestado de vários modos. No geral, o grande diagnóstico dos primeiros ultrapassa o pequeno diagnóstico do efetivo sujeito social de necessidades. Na maioria das vezes, as necessidades políticas da sociedade vão muito além das necessidades sociais imediatas de grupos circunscritos [...] o que faz com que a prática fundada no pequeno diagnóstico raramente corresponda, de fato, ao projeto histórico anunciado no grande diagnóstico. E, certamente, não correspondem ambos diagnóstico das possibilidades históricas efetivas, de que as crises constituem um anúncio e a consciência social viabilizada pelos grupos de mediação constitui um limite de compreensão e uma limitação da ação (Ibidem, p. 172).

Esse desencontro, segundo Martins (2003), é fruto da mediação política. A atuação do Estado e dos movimentos sociais, por meio de discursos e práticas, em torno das lutas dos camponeses, constitui-se numa verdadeira “tutela” e é um problema da não emancipação do trabalhador. As mediações possibilitam lutas políticas que se espalham pelo Brasil, mas não há emancipação. Discursos que, de certo modo, impedem que o sujeito social da RA tenha força social para impor projeto social próprio e, portanto, eficaz.

Daí por que existem dois discursos em torno da luta pela terra e da RA: os “grandes discursos” ou “discurso histórico” dos agentes de mediação enunciados pelo Estado e pelos movimentos sociais, e os “pequenos discursos” ou “discurso vivencial”, ditos pelos camponeses pobres. Enquanto que os “grandes discursos” derivam da visão, dos interesses e do conjunto de relações de poder que envolvem os agentes de mediação com relação ao problema da RA; os “pequenos discursos” são construídos a partir da realidade local dos camponeses explorados e expropriados no processo cotidiano de construção e apropriação dos territórios dos PA.

Esses discursos fazem da RA um processo de intervenções voluntárias dos grupos que tomam os problemas sociais dos camponeses como sendo seus, bloqueando de forma significativa as transformações sociais no país8. Tais discursos, traço próprio das mediações, cercam e bloqueiam a imaginação e a criatividade social e política dos mais pobres (MARTINS, 2003).

Um segundo aspecto que justifica a compreensão do processo de inclusão socioterritorial das famílias assentadas, a partir da relação entre território e discurso, é entender que tanto o Estado como o MST constrói a RA a partir de uma disputa que se estabelece no nível discursivo. Nesse sentido, os PA são territórios que se tornam, primeiramente, uma manifestação da linguagem, uma imagem do espaço e um instrumento de poder.

Antes dos assentamentos existirem enquanto realidades materiais da RA, eles são construídos e disputados de forma imaterial, a partir do que é dito e das suas representações. Ao apresentar um discurso em torno da RA, Estado e MST constroem, por meio do “sistema sêmico”, que permite uma imaginação do que virá a ser o território. É por meio de tais

8 Segundo aponta Martins (2003), esses discursos representam uma “contextualização radical” e uma

“reivindicação limitada” das lutas sociais empreendidas pelos camponeses. Apresentam formas de mediações que têm motivações ideológicas, partidárias e culturais diferentes dos reais interesses dos possíveis beneficiados com a Reforma Agrária.

imagens que esses atores sociais vão conduzir ações e intenções no espaço9. Daí por que o território torna-se, primeiramente, fruto de uma ação imaterial, dentro de um campo de poder e de uma relação de comunicação (RAFFESTIN, 1993). Isso que faz com que seja apropriado e usado pelas famílias assentadas a partir de territorialidades que envolvem representações, mediações e intenções no espaço.

O terceiro e último aspecto que justifica o caminho de explicar as formas de inclusão socioterritorial contínua e participativa das famílias assentadas nos PA em Passira-PE, por meio dos discursos, se dão pela perspectiva de entender que os discursos destas são formas ou modos de ações lentas sobre o território e a partir do território.

Com base ainda na perspectiva de Martins (2003), entendemos que cada discurso com relação à RA se estabelece a partir da concepção do problema, pelo que alguns discursos não casam com a consciência social, não correspondendo com o tempo social do camponês. Um tempo mais lento. Se não incorporamos essa dimensão mais lenta do sujeito assentado na análise da RA, os discursos em torno dela serão “vazios” (MARTINS, 2003).

Ao mesmo tempo, a construção antecipada da realidade espacial, por meio de ações de comunicação e informação, muitas das vezes não se traduz na realidade espacial vivenciada por um sujeito. O que faz com que a representação não se torne realidade, ocasionando uma ruptura clara entre “imagem territorial projetada” e o “território real” (RAFFESTIN, 1993).

Afirmamos essas perspectivas, uma vez que, como a RA é construída inicialmente a partir desse “sistema sêmico” e nas imagens territorialmente projetadas nos discursos do Estado e MST, a realidade dos PA, vivenciada pelas famílias assentadas, não necessariamente vão ser condizentes com as imagens e representações presentes nos discursos, rompendo com a relação entre imagem criada e vivida.

Com isso, a realidade territorial e o conjunto de relações que perpassam a construção desses territórios podem, ao mesmo tempo, limitar as ações das famílias assentadas enquanto sujeitos participativos, como também possibilitar novas formas de resistência e conflitos.

Isso permitirá que, a partir do próprio território do assentamento, as famílias confrontem os discursos ditos anteriormente, por meio da emergência de outros e de novas ações. Desta forma, o discurso poderá igualar-se à prática social uma vez que cria

9 Segundo nos afirma Raffestin (1993), é a partir do espaço construído discursivamente que o sujeito busca agir

representações, significações e constituições da realidade (FAIRCLOUGH, 2001), ao mesmo tempo em que possibilitará novas formas de poder, saber e estratégias (FOUCAULT, 2001).

Nesse sentido, a territorialidade, enquanto agir social (DEMATTEIS, 1995; GOVERNA, 2005; MAGNAGHI, 2005) e reflexo da “multidimensionalidade do vivido territorial” (RAFFESTIN, 1993), possibilitará ao sujeito (assentado) construir novos projetos, novas identidades, representações e imagens do território, a partir do discurso, tornando a territorialidade efetivamente discursiva. Isso acontece num caminho em que o discurso permeia o processo de produção do espaço e de forma mais específica, a apropriação e uso dos territórios dos PA.