Foto 17 PE – 78 dividindo a Fazenda Varame e os PA Varame I e II
2 TERRITÓRIOS, TERRITORIALIDADES E DISCURSOS EM
2.3 FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: TERRITÓRIO,
2.3.4 Território, poder e discurso
2.3.4.1 Território e poder
Iniciemos nossa reflexão sobre território e as relações de poder, a fim de nos situar no debate teórico-conceitual que nos propomos fazer, tomando como referência básica Claude Raffestin (1993), principalmente em torno de sua obra “Por uma Geografia do Poder”.
Raffestin (1993) é um dos autores que mais se destaca nos estudos do território e das territorialidades dentro da geografia italiana e com grande repercussão na geografia brasileira. Em entrevista ao Professor Claudio Jorge Moura de Castilho, em 2012, ao ser questionado sobre a importância do seu livro, o geógrafo fala do papel desse estudo para as pesquisas que tem o território como foco central:
Cette première question en fait s’adresse plutôt aux chercheurs qui voudraient utiliser la méthode car l’auteur sait mieux que personne les progrès qui ont été faits dans le domaine des relations entre pouvoir et territoire. Première remarque sur la question du territoire qui est vivement débattue chez les géographes. Certains considèrent que le territoire n’a plus de sens, mais que seuls en ont les réseaux, mais d’autres pensent que le territoire est encore au centre des préoccupations, comme le démontrent divers colloques dans le monde ! Dernièrement un colloque a eu lieu à Paris pour fonder la science du territoire ! Ce que j’ai personnellement fait dans ce domaine est encore valable à certaines échelles mais ne l’est plus à d’autres échelles. Les exemples géographiques ne sont évidemment plus valables (RAFFESTIN, 2013, p. 175).
Ele é uma sorte de autor, guia – mas não como dogma – em nossas concepções de território, por apreender o caráter relacional e multidimensional no seu processo de produção. Tais características identificadas e ressaltadas como componentes que resultam da busca pela “explicação material e imaterial” (SAQUET, 2013) da realidade espacial, tendo as relações de poder e de linguagem como elementos principais.
Em Raffestin (1993), espaço e território não são sinônimos, pois são distintos epistemologicamente, mas não podem ser analisados de forma separada. Não se pode pensar em território e desprezar o espaço geográfico, como também, não é concebível pensar em objetos e ações separados de relações de poder (RAFFESTIN, 1993). Ter ambos sem entender as várias relações sociais e multidimensionais dos sujeitos na sua construção é, no mínimo, cair num erro de análise.
Ao mesmo tempo em que não são conceitos e categorias equivalentes, o território é visto como uma apropriação (i)material de sujeitos no espaço, que é anterior. É resultado de uma série de ações de atores sintagmáticos – que criam sentidos. Relações que se cristalizam no território. Nas palavras do autor:
O espaço é portanto anterior, preexistente a qualquer ação. O espaço é, de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria-prima. Preexiste a qualquer ação. [...] Evidentemente, o território se apoia no espaço, mas não é espaço. É uma produção, a partir do espaço. Ora, a produção, por causa de todas as relações que envolve, se inscreve num campo de poder (RAFFESTIN, 1993, p. 144).
Nessa perspectiva, é no espaço que se projeta o trabalho por meio de energia e informação, sendo o território uma produção a partir do espaço:
O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. [...] território se apóia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção, a partir do espaço (Ibidem, p. 143).
Segundo o autor, cada ator social se apropria e usa o espaço de acordo com as suas intenções, marcando-o como um campo de forças. Essas relações concretizam a existência do território e se constituem como carregadas de poder: “Ora, a produção, por causa de todas as relações que envolve, se inscreve num campo de poder” (Ibidem, p. 143).
Nesse sentido, o território vai revelar um conjunto de intenções e os projetos de diversos atores. Nele, criam-se práticas e sistemas de relações multidimensionais que se materializam. A construção da realidade territorial se dá como uma apropriação e, posteriormente, um uso efetivo do espaço. Daí o seu caráter relacional e conflituoso, já que dentro de um sistema de ações, o território envolve vários tipos de atores multilaterais e diversos20.
20
Essa relação entre espaço e poder também pode ser vista em Claval (1979). Para este autor, analisar o poder é uma análise das ações do homem para modificar o meio e sobreviver nele. O poder é um fenômeno social central na organização social. Ambas as noções são centrais no estudo da organização da sociedade.
Com isso, o território é um reflexo de relações de dominação, passando a ser um “trunfo”, uma conquista para atores sociais que se apoiam e se posicionam no espaço e se apropriam dele (RAFFESTIN, 1993). Uma apropriação que se dá com ações, conteúdos e cognição, em que o poder constitui-se como motor.
Essa contribuição também se torna importante ao entender que as relações conflituosas se dão a partir de condições simétricas e dissimétricas, isso sinalizando para uma questão muito importante: o poder encontra um ponto de apoio no espaço. Daí porque os diversos embates da sociedade se encontram em toda parte, possuindo conteúdo e forma. Ao mesmo tempo, faz com que a posição que o sujeito ocupa no contexto socioespacial seja importante para o estabelecimento de relações com os demais. O que justifica a existência de dois tipos de poder: o poder com “P” maiúsculo, representado pelo Estado, e com “p” minúsculo, representado pelos demais atores sociais21.
Esse é um dos principais aspectos que não podem ser negligenciados na análise relacional de Raffestin (1993), ou seja, o território configura-se em um espaço de lutas, conflitos, embates. Daí a importância do poder como um dos elementos centrais no seu estudo, ponto levantado e defendido pelo autor e corroborado nos estudos e reflexões de Saquet (2013):
[...] o poder significa, nessa perspectiva, relações sociais conflituosas e heterogêneas, variáveis, intencionalidade; relações de forças que extrapolam a atuação do Estado e envolvem e estão envolvidas em outros processos da vida cotidiana, como as famílias, as universidades, a igreja, o lugar de trabalho etc. O desenvolvimento das relações de poder e da ideologia se faz fundamental porque, nesta, age-se na orientação e constituição do eu, do indivíduo, integrando-o à dinâmica socioespacial através das mais distintas atividades da vida em sociedade (SAQUET, 2013, p. 32).
Em outra passagem, o autor continua:
O poder é inerente às relações sociais, que substantivam o campo de poder. O poder está presente nas ações do Estado, das instituições, das empresas..., enfim, em relações sociais que se efetivam na vida cotidiana, visando ao controle e à dominação sobre os homens e as coisas, ou seja, o que Claude Raffestin tem denominado de trunfos do poder (Ibidem, p. 33).
21 Essa visão de Raffestin está alicerçada nas concepções de Foucault, principalmente, na abordagem
genealógica. Aqui há uma concordância de que o poder está estabelecido nas várias esferas sociais, emergindo em todos os espaços e tempos. O que fica evidente que não existe um poder único, do Estado ou de outra grande instituição, e sim uma rede de vários poderes que se estabelecem conflituamente em vários espaços da estrutura social.
Essa perspectiva tem uma influência muito grande na análise sobre o espaço e o território. Tornando-se importante e, por conseguinte,ponto de partida para muitos estudos posteriores, tanto na Itália como no Brasil, por exemplo.
Em Dematteis (2005), observamos uma leitura do espaço a partir do processo de “territorialização” dos atores. Neste sentido, o território é um espaço modelado, construído por sujeitos em constantes embates e “tramas”, tornando-se um produto no qual o poder está presente. Com isso, as territorialidades, em suas várias escalas, não são dadas, mas construções que ligam uma multiplicidade de níveis territoriais e de quadros sociais, culturais e de poder (DEMATTEIS, 2005).
Governa (2005), ao analisar a “territorialidade humana”, a partir de Claude Raffestin, afirma que esta nasce da relação tridimensional entre sociedade-espaço-tempo. Diretamente das relações de mediação e dos conflitos dos sujeitos em seus territórios. Por isso, afirma ser a “geografia da territorialidade” não uma descrição da materialidade, mas das práticas e da utilização dos recursos presentes na realidade. Devendo ser analisada a partir de relações e práticas entre vários atores agindo no e a partir do território.
No Brasil, como já o dissemos, vários são os trabalhos que tomam como referência Raffestin e sua análise do território a partir do poder na perspectiva relacional. Vale citar, nesse momento, Haesbaert (2007) que aponta o território como sendo uma dominação de espaços socialmente construídos. Tal construção acontece com base na articulação das dimensões materiais e imateriais presentes em cada realidade, fazendo com que a apropriação se dê de forma simbólica, enquanto a dominação acha-se ligada às condições político- econômicas de cada grupo/sujeito social. O autor defende que “O território é sempre, e concomitantemente, apropriação (num sentido mais simbólico) e domínio (num enfoque mais concreto, político-econômico) de um espaço socialmente construído” (HAESBAERT, 2007, p. 42).
Outro autor que se debruça no estudo do território e destaca o seu sentido relacional é Souza (2008). Este assinala e reafirma-o como resultado do exercício do poder, onde a delimitação é fruto de uma projeção espacial do exercício das relações conflituosas: “O que ‘define’ o território é, em primeiríssimo lugar, o poder” (SOUZA, 2008, p. 59). Com isso, apresenta uma concepção de território como sendo um campo de forças, uma expressão espacial do poder: “relações de poder espacialmente delimitadas e operando, destarte, sobre um substrato referencial” (Ibidem, p. 65). Isso torna o território um espaço delimitado por
limites muitas vezes intangíveis. Não tendo necessariamente fronteiras visíveis na base material, mas realizando-se na projeção espacial. Logo,
[...] eu comparei o território a um campo de força: ele é, obviamente, um aspecto, uma dimensão do espaço social, e ele depende, de várias maneiras, da dimensão material do espaço, mas ele é, em si mesmo, intangível, assim como também o poder é impalpável, como a relação social é. O poder é uma relação social (ou, antes, uma dimensão das relações sociais), e o território é a expressão espacial disso (Ibidem, p. 66).
Voltando a Raffestin (1993), reafirmamos que o território é um objeto de atuação de vários atores sociais e de suas relações, estratégias, códigos e objetos construídos, em que tudo é colocado nesse movimento do poder, integrando um conjunto de relações nas diferentes atividades cotidianas. Por isso, ao trabalhar a noção de limite espacial e territorial, o autor francês nos apresenta a noção de tessitura territorial como sendo fruto das territorialidades e delimitações territorializadas e que se sobrepõe uma sobre as outras.
Falar de território é, também, ter e fazer referência à noção de limite:
Falar de território é fazer uma referência implícita à noção de limite que, mesmo não sendo traçado, como em geral ocorre, exprime a relação que um grupo mantém com uma porção do espaço. A ação desse grupo gera de imediato, a delimitação (RAFFESTIN, 1993, p. 153).
Delimitar é manifestar poder no espaço, é se impor nele. É construir um (seu) território. É delimitar e projetar a fronteira ou o poder do grupo. É impor o limite “desejado” e “suportado”22
:
[...] a tessitura é a projeção de um sistema de limites ou de fronteiras, mais ou menos funcionalizadas. A tessitura é sempre um enquadramento do poder ou de um poder. A escala da tessitura determina a escala dos poderes. Há os poderes que podem intervir em todas as escalas e aqueles que estão limitados às escalas dadas. Finalmente, a tessitura exprime a área de exercício dos poderes ou a área de capacidade dos poderes (Ibidem, p. 154).
E para explicar essa tessitura, este mesmo autor apresenta o território como uma realidade material e imaterial, em que, por meio de um sistema sêmico, cria-se imagens.
Para Raffestin (1993), a imagem espacial é a forma assumida pelo espaço a partir das ações dos atores. Estes são capazes de produzir um território, a partir de informações, códigos e das funções dadas aos objetivos. As imagens vão, assim, revelar as relações de produção e o poder presente no quadro relacional, antes mesmo de sua existência material:
22 O próprio discurso do sujeito traz a noção de limite, pois ao falar, fala-se do seu espaço de vida, do território
As ‘imagens’ territoriais revelam as relações de produção e consequentemente as relações de, poder, e é decifrando-as que se chega à estrutura profunda. Do Estado ao indivíduo, passando por todas as organizações pequenas ou grandes, encontram- se atores sintagmáticos que ‘produzem’ o território. De fato, o Estado está sempre organizando o território nacional por intermédio de novos recortes, de novas implantações e de novas ligações. O mesmo se passa com as empresas ou outras organizações, para as quais o sistema precedente constitui um conjunto de fatores favoráveis e limitantes. O mesmo acontece com um indivíduo que constrói uma casa ou, mais modestamente ainda, para aquele que arruma um apartamento. Em graus diversos, em momentos diferentes e em lugares variados, somos todos atores sintagmáticos que produzem territórios (Ibidem, p. 152).
Com isso, pensar no território, segundo Raffestin (1993), é pensar, ao mesmo tempo, nas práticas espaciais dos atores sociais, no processo de produção das tessituras, por meio de relações de poder, mas também, por um sistema de comportamentos e ações que se manifestam pela linguagem.