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As trajetórias de vida e os fios que entrelaçam ao artesanato

No documento Ana Cristina Santos Limeira (páginas 80-84)

CAPÍTULO III AS ARTESÃS NARRADORAS E SUAS HISTÓRIAS DE

3.2 O contexto histórico e social das artesãs em sua trajetória de formação

3.2.1 As trajetórias de vida e os fios que entrelaçam ao artesanato

Foram muitos os desafios no início do curso, tanto para os docentes quanto para as artesãs. Também para a pesquisadora, a sensibilidade para fazer a investigação de um curso que nascia lado a lado com a pesquisa, relações muito imbricadas entre os envolvidos. Vivenciar a implantação da proposta do curso à medida que acompanhava os movimentos iniciais que se deram na organização curricular, o que possibilitou conhecer as expectativas iniciais, as incertezas e os “medos” das artesãs de voltar a estudar, o receio de não conseguir acompanhar as disciplinas. Além do mais, os sentidos que a dinâmica do curso trazia para a prática docente, os receios e dúvidas por trabalhar com adultos, planejar e (re)planejar as atividades de sala de aula, a falta de livro didático que atendesse a proposta do curso foram algumas das questões dignamente enfrentadas. Essa convivência durou meses de pesquisa para o mestrado (2010), possibilitando estabelecer uma relação de confiança e harmonia entre as artesãs e os docentes.

Ao retornar nesse outro momento, uma nova pesquisa, agora noutro estágio, reencontrar as alunas, não mais nas salas de aula do IFAL, porém. Encontrar as artesãs, todas egressas, ouvir as narrativas de suas histórias de vida. Ao pensar no então projeto da tese, elaboramos várias hipóteses sobre onde e como estariam as egressas após a profissionalização, que perspectivas profissionais o curso ofertou à vida dessas mulheres após a superação dos desafios de retornar à escola e concluir mais uma etapa profissional.

A expectativa de reencontrá-las e saber qual seria a receptividade dessas mulheres para fazer parte de outra pesquisa. Não nos referimos ao sentido de haver ou não disponibilidade, do acesso às artesãs, mas sim, sobretudo, de encontrá-las receptivas, abertas para falar de suas experiências de vida, dos conhecimentos que adquiriram nos seus ofícios, dos (des)encontros da sua formação, da inserção profissional como artesãs após a profissionalização e de seus projetos de vida.

Onde e como estariam após a conclusão do curso? Houve a superação dos “medos” de não concluir o curso, sabendo que nem todas o concluíram? A expectativa para ouvi-las, não apenas para confirmar ou negar suas trajetórias, mas sobretudo contribuir para validar suas experiências, o reconhecimento da formação para mulheres, valorizar a arte popular que produzem, reconhecer um curso que trabalha a complexidade da formação de adultos.

Foram vários agendamentos para nos encontrarmos, para possibilitar o resgate de histórias de vida singulares, que envolvem fios que tecem toda uma trajetória de formação de mulheres que, na fase adulta, buscam o reconhecimento de um trabalho por viverem no

anonimato da cultura local, como também a autoafirmação econômica com a arte de um trabalho que possui uma tradição cultural e que ainda não é o suficiente para a sobrevivência econômica. Em Alagoas, apesar de estarmos na segunda posição do país em artesãos/as cadastrados, trabalha-se para a arte, mas não se consegue viver exclusivamente da arte quando não se tem um nome consagrado no mercado artesanal.

Diante dessa apresentação de pesquisar a formação, baseamo-nos na proposta de Nóvoa (2010) para fundamentar a metodologia que investiga a formação de adultos, que discute o tempo da formação, dissociado do tempo da ação. São possibilidades de construir uma proposta que permita refletir sobre os sentidos da formação no processo da ação.

A Abordagem biográfica reforça o princípio segundo o qual é sempre a pessoa que se forma e forma-se à medida que elabora uma compreensão sobre seu percurso de vida: a implantação do sujeito no seu próprio processo de formação torna-se assim inevitável. Desse modo, a abordagem

biográfica deve ser entendida como uma tentativa de encontrar uma

estratégia que permita ao indivíduo-sujeito tornar-se ator do seu processo de formação, por meio da apropriação retrospectiva do seu percurso de vida (NÓVOA, 2010, p.168).

A importância de um curso que dialogue com seus atores sociais e com a complexidade de saberes que trazem vários sentidos à aprendizagem. É um trabalho complexo, pois desmonta metodologias tradicionais, hegemônicas, e desafia os docentes a encontrar propostas pedagógicas. Além disso, desafia a instituição a trabalhar a diversidade, a pensar em projetos voltados para a identidade dos seus atores sociais.

As entrevistas foram envolvidas pelo brilho dos olhos das artesãs quando narravam suas lembranças com trabalho artesanal, suas histórias construídas com dificuldade para manter a sobrevivência econômica familiar. Suas falas revelavam como se deram as descobertas de suas habilidades para o fazer artesanal, os vínculos que vinham da avó, da mãe, das tias, como os conhecimentos vieram de uma geração familiar.

Como pesquisadora, foi possível perceber a importância que o artesanato na vida dessas mulheres, através de seus depoimentos, e resgatar como se deu essa origem:

Antes eu trabalhava numa boutique, trabalhei três anos. Ai, fui demitida porque, na época de 92, quem tivesse muitos anos de trabalho eles botavam para fora para não pagar os impostos, então procurei trabalho e não consegui. Então comecei a pegar os retalhos de tecido e tentar fazer bonecos de pano. Consegui fazer uma bonequinha, estava assim “meio feinha”, mas mesmo assim fui fazendo. Coloquei uma estantezinha na sala, na casa onde eu morava, abri a janela, tinha medo de abrir as portas para alguma coisa não acontecer, e as pessoas passavam, ficava olhando as bonecas que eu fazia pela janela. Ai eu abria a porta, elas entravam, escolhiam as bonecas e

compravam. Aquilo foi me dando autoestima e eu comecei a fazer bonecas e não parei mais (PAULA, 2014).

Pesquisadora: como você aprendeu a fazer as bonecas de pano?

Foi por mim mesmo, eu pegava um jornal, fazia o modelo no papel para não perder o tecido, pois estava desempregada e não tinha como comprar tecido, e minha mãe, ela trabalhava com costura, então aqueles retalhos que ela não utilizava mais eu aproveitava para fazer (PAULA, 2014).

Há também uma relação que se estabeleceu como necessidade de superação de conflitos familiares, e o artesanato significou para ela uma possibilidade de recuperar sua autoestima e buscar firmar-se economicamente com suas habilidades manuais.

Foi devido ao fracasso no meu casamento. Fiquei muito deprimida e comecei a procurar curso, não precisava do curso, assim da técnica do crochê, do tricô, da aplicação, decoração, porque eu já sabia. Tive que cair em campo como mulher para assumir meus filhos. Então fui procurar cursos, tirar carteira de artesã. Pensei que precisava fazer curso, mas não, só a minha experiência. Então fui adquirir a lojinha aqui, no mercado de artesanato e cair em campo. Depois fui fazer o curso do IFAL, fiz a entrevista, e passei. Afinal, foram 03 anos de batalha, de sair, e cada vez mais o curso me atraía (ROSA, 2014).

Comecei nessa história, porque não tinha condições e melhorar minha renda familiar. Não tinha condições, tendo filhos, filhos, não trabalhava em canto nenhum. Eu nunca fui mulher para ficar quieta esperando que os outros me dessem as coisas para minha sobrevivência. Com isso fui fazendo algo para aumentar a renda familiar e sustentar minha família. Acho que está no sangue, minha mãe era bordadeira, minha avó costurava e bordava também (ANGÉLICA, 2014).

Os vínculos com o artesanato vêm de uma relação familiar, a questão de gênero demarcada fortemente no contexto artesanal, a luta por um espaço na sociedade como mulheres produtivas, capazes de superar desigualdades sociais. Um vínculo que se constrói como uma forma de superação de mulher que exerce apenas afazeres ligados ao mundo doméstico.

[...] de certa forma eu sempre gostei das manualidades, então eu gostava de customizar as roupas, achava o máximo. Ganhava as roupas das senhoras e para ficar do meu porte tinha que recortar, tinha que botar fitilhos, tinha que botar um monte de coisas e quem fazia era eu, então minha mãe só me ensinou algumas coisas de costura. E aí, fui fazendo isso e fui me identificando com manualidades, colagem, costuras e bordados. Então, tinha uma senhora que era da prefeitura que ensinava gratuitamente, mas eu nunca conseguia vagas porque era distância da minha casa e quando eu chegava já estava completa a turma. Aí, eu sentava junto para ver como ela ensinava o bordado. Chegava em casa e refazia todo bordado. Minha mãe também ensinava bordado, minha avó, então foi uma coisa assim, que foi crescendo. Então, não se tinha como artesanato, tinha aquelas meninas que tinham que

aprender a bordar, costurar, porque ia ser dona de casa e ela precisava saber cozinhar e tudo, veio assim (CARMEM, 2014).

Carmem considera que a identidade cultural é algo que já tinha antes do curso, e que este possibilitou ampliar o conhecimento sobre a cultura, sendo importante como diferencial no artesanato: a identidade local, a regionalidade, a cultura do estado. É um vínculo que traz a afetividade, não é algo que se rompe por uma relação para atender o mercado; existe, de fato, uma identidade vinculada à afetividade, a uma tradição. "A relação com a cultura vem antes do curso. Sempre gostei muito de cultura. Sempre gostei de ver o que vem da geração de minha avó. Isso é de família mesmo (CARMEM, 2014)".

Aqui há uma relação de onde vieram os vínculos da tradição cultural, quais afetividades são estabelecidas, quais não se rompem e se há como compreender a importância trazida ao processo artesanal. "O curso disse assim: você pode usar a cultura na arte, você pode usar o que você acha interessante, único, na sua arte. O curso fez essa ligação, o conhecimento que eu tinha podia ser utilizado (CARMEM, 2014)".

À medida que ouvia o relato dos depoimentos, foi possível tecer reflexões sobre como o artesanato trouxe marcas de relações afetivas, a busca da autonomia das mulheres através de seus ofícios para além de ocupações domésticas como forma de construir sua identidade, que Bartra; Elias, 2015, nos permite compreender:

Tan importante es saber a que classe social pertencen los sujetos creadores como su género. Tener conocimiento de lo que las mujeres han creado y crean hoy em día ayuda sustancialmente a entender mejor al grupo social; saber em qué medida su processo de criación es igual o diferente al de los hombres puede contribuir tanto a la formacin de una identidade feminina más integral como a cambiar las condiciones de su existência, em la identidade feminina más integral como a cambiar las condiciones de su existência, em la medida en que revolarar el trabajo creativo feminino significa la recuperacion de uma história ignorada y el reconhecimiento de una parte de la cultura presente les es própia (BARTRA; ELIAS, 2015, p 23)

O fio condutor que une a relação ao artesanato tem pontos de singularidade entre suas histórias de vida; o artesanato entra na vida dessas mulheres como alternativa de sobrevivência econômica, desempregadas que estão e sem uma qualificação profissional que dê condições para a competitividade do mundo do trabalho.

A busca por um trabalho que garantisse a sobrevivência econômica foi o ponto motivador que revelou as habilidades manuais e os vínculos que trazem da família (costureira, bordadeira, entre outros). Vínculos que trazem sentidos afetivos e que não são rompidos.

Seus depoimentos resgatam como essa relação e o orgulho de suas experiências foram sendo construídos.

No documento Ana Cristina Santos Limeira (páginas 80-84)

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