106 me apoiou em tudo Nunca tive problemas em falar nisso Eu estou a falar da minha mãe, mas também já
4.1.2. b) As zonas cinzentas, o controlo subtil e o discurso do “tem cuidado”
Vários/as jovens não classificam claramente os pais como tradicionais ou liberais, colocando-os antes numa zona mais cinzenta. Primeiro que tudo, porque muitos/as deles/as evitam falar ou não falam de todo com os pais sobre estes temas, sobretudo, quando “intuem” que estes tendem a não ter uma posição muito liberal sobre a matéria, como se pode discernir pelo discurso do Jorge (23 anos, 12 ano, designer gráfico): “A opinião dos meus pais é a seguinte: o que anda para aí agora não presta, tem cuidado, não fumes, não bebas, não te metas em coisas. Portanto a opinião deles são quase conselhos, mas segundo estes conselhos é porque a opinião não é muito boa”. Mas, acima de tudo, é referida a preocupação dos pais em relação aos/às próprios/as jovens, nomeadamente aquando das
130 A apresentação dos/as parceiros/as aos pais, num contexto onde existe uma primeira relação sexual, é descrita, por Le Van e Le Gall (2010/1: 87), como um momento importante, em que a relação passa a um “grau superior”, na medida em que confere outra dimensão à relação do casal, no sentido de um maior compromisso emocional, assegurando uma certa perenidade e legitimidade à relação.
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saídas noturnas, a que se junta um discurso do “tem cuidado”131, quer por ambos os pais ou por apenas um deles, que neste contexto não remete apenas, embora também, para a questão das práticas sexuais.
Quando apenas um dos pais fala sobre sexualidade com os/as filhos/as nesta base, tende a existir uma divisória de género, em que os pais falam com os filhos e as mães com as filhas, dando conta de como, frequentemente, as relações entre pais e filhos/as são construídas em termos de partilha de uma identidade de género e de experiências em comum, que enaltece os laços entre ambos (Galland, 2011; Kirkman et al., 2005; Solomon et al., 2002; Vilar, 2001)132: “Tinha talvez 12, 13 anos. [...] Falaram basicamente do: “tem cuidado e tal, e se acontecer alguma coisa tens preservativos” [...]. Estou a falar mais do meu pai, né? A minha mãe é uma pessoa mais conservadora. [...] Acho que nunca falei com ela de sexualidade!” (Norberto, 25 anos, licenciatura, bancário).
Os pais advertem assim os/as filhos/as para terem cuidado: cuidado com a bebida, o tabaco e a droga; cuidado com os acidentes; cuidado com os/as amigos/as e com as companhias; cuidado, utilizar sempre contracetivos!; cuidado com as DSTs (sobretudo com a SIDA); juizinho com os/as parceiros/as; cuidado para não se chegar grávida a casa ou engravidar alguém... Neste sentido, e relativamente às questões da sexualidade, é de notar, como muitos destes/as jovens referem a importância atribuída pelos pais e/ou as advertências feitas por eles ao uso do preservativo, em conversas, mais ou menos diretas. Até porque “nos dias de hoje, só engravida quem quer!”, como dizem vários/as deles/as.
“É assim, pronto, o lema deles é que esta juventude está toda estragada, não é?, “no meu tempo não era nada assim” [...]. Ah, são é contra o facto de o pessoal abusar, de beber demais, não sei quê. [...] Ainda hoje quando saio de casa a minha mãe diz-me sempre: “olha, cuidado com o álcool”, etc.. Sobre os métodos contracetivos eles são a favor, são. E quando dá essas notícias das miúdas engravidarem aos 16 anos ou aos 15 a minha mãe diz logo: “só engravidou porque quis” [...]. O meu pai, quando eu cheguei aos meus 14, 15 anos, teve a dizer para eu ter cuidado, que haviam aí doenças, para eu usar sempre o preservativo, para não me meter em complicações, para ter juizinho, essas coisas assim do género.” (Filipe, 26 anos, 12º ano incompleto, empregado de armazém)
Ora, no caso dos/as jovens entrevistados/as, mais frequente do que uma total não interferência nas sociabilidades, lazeres e sexualidade dos/as jovens, é então a existência de conselhos, opiniões ou advertências (Pappámikail, 2004). Em termos dos tempos e dos espaços de lazer vários/as jovens referem alguma interferência por parte dos pais, sobretudo, quando este/as eram mais novos/as, nos horários de chegada a casa, e/ou referem como os pais gostam/gostavam de ser avisados dos sítios que frequentam/frequentavam e das companhias com quem estão/estavam. Mas, mais do que proibirem ou
131 Deve dizer-se, no entanto, que mesmo os pais que têm uma maior abertura com os/as filhos/as em questões de sexualidade também recorrem, por vezes, a este discurso.
132 É de referir, contudo, que no estudo de Vilar e Ferreira (2009), os jovens rapazes tendem a falar tanto com a mãe como com o pai, o que, segundo os autores, contraria a ideia de que os rapazes falariam mais facilmente sobre sexualidade com os pais. Acresce ainda que uma parte destes jovens não fala nem com o pai nem com a mãe, situação que acontece também, como se irá ver, com os/as jovens, neste estudo.
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terem um forte controlo sobre os lazeres, os pais tentam sobretudo orientar, aconselhar, ou impor regras que não devem ser ultrapassadas, mas que permitem aos/às jovens algum tempo para o seu espaço pessoal. Deste modo, e naquilo que pode ser considerado um controlo flexível (Bozon, 2008) ou subtil, os/as jovens, tal como foi visível noutros contextos (ver Pais, 1996a, 2012) referem, por vezes, a preocupação e/ou desaprovação dos pais quanto ao consumo de álcool, de tabaco e drogas, aos horários “tardios” a que se chega a casa, após uma saída noturna e/ou “ao abuso” quanto ao que são consideradas saídas excessivas, ao facto de se ultrapassar os limites impostos, e/ou em relação ao gasto excessivo de dinheiro.
“No início, quando comecei a sair [...] era mais a hora a que eu chegava e quando eu ia. Ao sábado à noite, uma pessoa com dezassete ou dezoito anos começa a sair, quer sair todos os sábados [...]. Ele não dizia a tal hora tens de chegar a casa, mas eu às vezes abusava. [...] Dava-me a entender: “ah, hoje voltaste tarde” [...]. Via-se que ele não estava muito satisfeito, mas também não ralhava comigo. Mas pronto, também só aconteceu duas vezes, não me quero chatear com o meu pai por causa disso.” (Joana, 23 anos, licenciatura, desempregada)
Simultaneamente, vários/as jovens limitam e/ou regulam o seu próprio comportamento, no sentido daquilo que consideram adequado tanto para si como para os seus pais. Estes/as jovens referem que avisam os pais dos sítios para onde vão, com quem vão e/ou as horas de chegada a casa, e/ou que encurtam, por sua própria, vontade as saídas, para algum bar ou alguma discoteca, de modo a chegar mais cedo a casa e assim não criar situações de conflito, como se viu pelo, exemplo da Joana, acima apresentado. Pode dizer-se então que estes/as jovens internalizam o controlo sobre os seus lazeres, sociabilidades e sexualidade, ao mesmo tempo que refletem sobre as consequências das suas ações (Aapola et al. 2005). Deste modo, os/as jovens procuram mostrar-se “bons/boas filhos/as”, agradar aos seus pais, respeitá-los, e, assim, ganhar a sua confiança.
E de facto, vários são os/as jovens, sobretudo os jovens homens, que afirmam que os seus pais confiam neles, na medida em que, segundo os próprios, demonstraram responsabilidade e maturidade nas suas sociabilidades, tempos e espaços de lazer, e na não existência de problemas relativos às práticas sexuais, nomeadamente as DSTs e a gravidez, para as quais são, frequentemente, vezes avisados. Como conta o António (23 anos, 9º ano incompleto, pedreiro): “Por acaso nunca tive [horas de chegada a casa]. Os meus pais sempre confiaram em mim. [...] sempre me soube comportar que é mesmo assim. Eles nunca tiveram motivos para me impor qualquer regra”. A existência de um comportamento “responsável” por parte dos/as jovens, e a, consequente, confiança por parte dos pais, são assim fatores essenciais para que haja permissão para e/ou um alargamento no horário das/as saídas. Parece então existir aqui uma negociação implícita entre a permissibilidade dos pais quanto aos lazeres dos/as filhos/as e a existência de um comportamento adequado por parte destes/as. A responsabilidade que os/as jovens dizem demonstrar não deixa também de ser um sinal da sua trajetória para uma idade adulta, para a qual um comportamento responsável é central, como se irá ver no capítulo 6.
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Ora, mas se atualmente a maioria dos/as jovens não tem de facto um limite de horas de chegada a casa, nem sempre foi assim. É frequente os/as jovens entrevistados/as referirem a existência de limites quando começam a sair à noite. Limites estes que geralmente variam consoante a sua idade e os dias da semana. Assim, se por um lado, se vai deixando de ter horas de chegada a casa há medida que se vai avançando na idade, por outro lado tende a existir um controlo mais apertado nos dias de semana, visto que a maior parte dos jovens estuda(va) ou trabalha(va) no dia seguinte, e menor aos fins-de- semana. Fatores como ter um trabalho e/ou a carta de condução, sair com irmãos/irmãs mais velho/as, ter um namorado, e/ou ir para a universidade, fazem diminuir o controlo dos pais sobre os tempos e os espaços de lazer dos/as jovens.
“Até começar a trabalhar tinha [horas de chegada a casa]. E não me deixava sair até às tantas da manhã. Isso era o Deus me livre! [...] Depois é óbvio, a gente nunca cumpre os horários, depois pumba, ralhava. Mas mesmo assim deixava sempre. [...] [Quando começa a trabalhar] Foi diferente, [...] porque comecei a ter aquela de ser mais independente, e depois, tipo, tinha o meu dinheiro. Opá não dava tantas explicações, sabes? Agora sim, quando a minha mãe via que eu chegava muitas vezes mais tarde, a minha mãe [...] chamava-me a atenção.” (Catarina, 22 anos, 9º ano, empregada de balcão)
Tal como já tinham mostrado Farrow and Arnold (2003) e Torres (1997, 2002), sobretudo para as jovens mulheres, estudar longe da família, nomeadamente ao nível do ensino superior, alarga o seu âmbito de possibilidades, ao nível dos lazeres, sociabilidades e experimentação da sexualidade. Esta situação é visível no caso da Dina (29 anos, licenciatura, desempregada): “Como eu estive sempre a estudar fora, ela sabia que eu saia, mas não dizia nada. Agora que eu estou em casa, ah, não acha muita piada se eu saio de casa à noite ou isso... Mas eu digo-lhe "se eu fazia isso, quando ela não via, e sabia, porque é que eu não posso fazer agora?!”.
Quanto aos namoros, vê-se mais uma vez que os pais podem dar a a sua opinião, sobretudo quando não gostam do/a parceiro/a do/a filho/a, mas sem interferirem na relação. A opinião dos pais, especialmente das mães, é mesmo, por vezes, procurada pelos jovens homens, que a consideram importante e certeira. Acresce ainda que os pais, isto é, geralmente as mães, podem servir de ombro amigo para os desabafos sobre os relacionamentos das jovens mulheres, sendo assim uma fonte de apoio emocional e de conselhos. Deste modo, mesmo nos casos em que a comunicação sobre sexualidade entre mães e filhas é difícil ou mesmo inexistente, e/ou em que as mães não compreendem os envolvimentos sexuais e/ou amorosos dos/as jovens, e alguns dos seus lazeres, sobretudo os associados às saídas noturnas, algumas jovens referem as conversas com as suas mães sobre estes assuntos. Neste sentido as filhas procuram explicar os seus pontos de vista e/ou atividades, enquanto que as mães procuram ouvir, compreender e/ou aconselhá-las, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos amorosos das jovens. Este é, por exemplo, o caso da Raquel.
“A minha mãe interfere sempre [nos namoros], interfere. Não interfere, fala. [...] É engraçado porque ligava-lhe [quando estava na universidade] e falava com ela e ela falava comigo, mais naquela onda da amiga do que como mãe, e era a única forma que eu tinha de me acalmar. Ou seja, como nós temos esta proximidade, eu sempre lhe falei dos relacionamentos e ia-lhe contando como é que as coisas