contextos de aprendizagem e de construção da intimidade
Como se viu no primeiro capítulo, as sociedades ocidentais contemporâneas passaram por uma série de transformações sociais que tiveram implicações nos modos de viver a vida familiar, a sexualidade e as relações de género, entre outras questões. Para além de processos de pluralização, democratização, privatização, secularização, sentimentalização e individualização da vida familiar (Aboim, 2006; Singly, 1996; Torres et al., 2006; Weeks, 1998, 2007), assiste-se a uma maior equalização das relações de género e uma valorização da horizontalidade das relações (Galland, 2011), não só entre homens e mulheres, como entre pais e filhos, professores e alunos e/ou no grupo de pares, que apontam para a idealização da amizade, da relação pura (Giddens, 1996) e/ou da intimidade revelada (Jamieson, 2005 [1998]) como modelos a seguir, mesmo que no plano concreto das práticas tal possa não acontecer (Jamieson, 2005 [1998]; Nardi, 1992; 2007).
Os/as jovens acabam por fazer os seus percursos para a vida adulta (Guerreiro e Abrantes, 2004), num contexto diferente dos existentes no passado (Therborn, 2004), onde tende a existir uma maior individualização, pluralidade de escolhas de vida, flexibilização e tolerância, apesar de existirem permanências em relação ao passado e linhas de continuidade geracionais (Beck e Beck-Gernesheim, 2001; Elias, 2004 [1987]; Ferreira, 2003, 2006; Furlong e Carmel, 2007; Inglehart, 2005, 2008; Inglehart e Norris, 2003; Jamieson, 2005 [1998]; Nico, 2010; Torres e Lapa, 2010). É, neste sentido, que Bozon (2004; 2005 [2002]) e Weeks (2006 [1986], 2007) argumentam que existiu uma diminuição dos controles externos, com o declínio da autoridade moral das instituições (nomeadamente da família, da comunidade e da religião), ao mesmo tempo que aumenta a influência do grupo de pares e dos/as amigos/as, que passam a constituir, como se irá ver ver mais à frente, um aspeto central da vida do/as jovens (Galland, 2011; Lees, 1993; Nardi, 1992, 2007; Pais, 1993, 1996 a); Weeks, 1995, 2007).
Paralelamente, de acordo com Singly (1996), o novo objetivo da educação dos pais passa a ser ajudar a revelar a identidade escondida da criança e a reconhecer as verdadeiras necessidades desta, de modo que a criança deve ser orientada para se exprimir num domínio que lhe permita desenvolver um eu positivo. Contudo, como referem Jamieson (2005 [1998]) e kellerhals e Montadon (1991), entre outros/as, os processos de socialização continuam, mesmo nos contextos de “pós-modernidade”, muito dependentes da situação de classe dos pais. Os vários projetos de posicionamento social desdobram-se em projectos de personalidade diferentes, com diferentes modelos educativos e diferentes modelos de relacionamento com outros agentes de socialização (kellerhals e Montadon, 1991).
Acresce ainda que, as transformações relacionadas com os percursos de vida das mulheres mudam os contextos em que em que estas crescem, ao mesmo tempo que ocorrem mudanças naquilo que é
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ser-se jovem e nos percursos feitos para a idade adulta (Saraceno, 1987 in Saraceno 1997). Para as jovens mulheres tende a existir uma perda de influência dos valores relacionados com a honra- vergonha e, portanto, uma maior libertação das normas tradicionais (Saraceno, 1997; Silva, 2003; Pais, 1996a, 1996b)121. Os/as jovens passam então a ter uma maior facilidade e condescendência no acesso às relações sexuais antes de uma possível entrada em conjugalidade, embora algumas formas de autonomia e comportamentos sejam mais fáceis para os jovens homens do que para as jovens mulheres (Saraceno, 1997; Pais, 1993). Contudo, as modificações nas possibilidades de alguns comportamentos e formas de autonomia, como o sair com os/as amigos/as, o passar férias sozinhos/as, ou ter relações sexuais sem ter um relacionamento amoroso, quando se é considerado demasiado jovem, a vivência em conjugalidade ou por conta própria, são ainda mais problemáticas para as raparigas do que para os rapazes (Saraceno, 1997). Anda assim, as experiências das jovens mulheres apresentam uma certa rutura (tendencialmente maior do que no caso dos rapazes), com as experiências das suas mães e, sobretudo, das suas avós (Aboim et al., 2011; Saraceno, 1997).
Neste capítulo vai então refletir-se um pouco sobre alguns dos contextos em que os/as jovens se movem: a família, a escola, os/as amigos, as “novas” tecnologias da informação e os/as parceiro/as; procurar perceber-se qual a importância de algumas destas instâncias para as suas trajetórias de vida; e, mais especificamente, tentar analisar como estes contextos se articulam com a aprendizagem, comunicação e/ou as experiências da/sobre a sexualidade dos/as jovens, considerando que, como referido por West (1999), falar ou não falar sobre sexualidade está fortemente articulado com os contextos em que essa conversa é possível, os assuntos sobre os quais é mais fácil falar e as relações sociais que os/as jovens têm, especialmente com os adultos.
4.1. Família: importância; controlo dos lazeres, sociabilidades e namoros; e
comunicação sobre sexualidade.
Ao contrário do que os discursos da “crise” fazem transparecer, o resultado de várias pesquisas, quer de âmbito mais quantitativo (Galland, 2011; Torres et al., 2006; Torres e Lapa, 2010), quer de âmbito mais qualitativo (Aapola et al., 2005; Pappámikail, 2004, 2009 Henderson et al., 2007; Turtiainen et al., 2007) têm vindo a mostrar como a família tende a ser uma dimensão importante na vida dos indivíduos, em geral, e, na vida dos/das jovens, em particular. Estes/as tendem a dar conta de uma profunda ligação à família (Galland, 2011), sendo que esta tende a ser, para os/as jovens, e nos diferentes países europeus, uma esfera prioritária das suas vidas (Torres e Lapa, 2010), onde as
121 Segundo Silva (2003), o facto de as jovens mulheres usufruírem de um salário permite-lhes uma margem de ação fora do controlo dos pais e/ou da família com quem vivem, como algumas saídas, nomeadamente saídas noturnas (para festas, bares ou discotecas), sobretudo, aos fins de semana, para aldeias e cidades próximas; e/ou a possibilidade de namorarem de forma mais liberta. Acresce ainda que, segundo o autor (Silva, 2003), a separação de espaços e/ou eventos deixa de ser, em várias ocasiões, tão persistente como era no passado; sendo que elementos de ambos os sexos começam a assumir papéis que eram usualmente atribuídos ao sexo oposto.
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relações tendem a ser intensas (Galland, 2011) e emocionalmente significativas (Arnett, 2004). O que muda, como se referiu no capítulo I, são as representações e os modos como se vive a família. Com as transformações ocorridas no domínio da vida íntima, família é estabelecida como um lugar de afirmação e manutenção da liberdade individual e espaço de realização afetiva (Torres e Lapa, 2010).
Neste subcapítulo vai procurar perceber-se qual a importância e o significado da família para os/as jovens adultos, em que medida os/as jovens consideram que os seus pais ou familiares com quem vivem interferem nos seus lazeres, sociabilidades e relacionamentos sexuais amorosos, e que conversas sobre sexualidade existem (ou não) no seio da família.
4.1.1. Família: significado e importância
Distanciando-se, assim, de perspetivas mais tradicionais e institucionais, a valorização da família remete, atualmente, sobretudo, para os seus aspetos mais expressivos, sublinhando-se a importância da afetividade (Galland, 2011; Henderson et al., 2007; Pappámikail, 2004; Torres e Lapa, 2010; Turtiainen et al., 2007), da reciprocidade intergeracional (Galland, 2011), assente no apoio que os pais dão aos/às filhos/as, tanto a nível emocional como material (Galland, 2011; Pappámikail, 2004), e da sua representação como instância socializadora e como “porto de abrigo” (Pappámikail, 2004). Esta tende a providenciar aos jovens um sentido de continuidade, estabilidade, conforto, bem-estar, harmonia e segurança (Henderson et al., 2007; Pappámikail, 2004; Turtiainen et al., 2007), onde é possível escapar ao mundo exterior e/ou exprimir um verdadeiro sentido do eu (Henderson et al., 2007).
Também no caso dos/as jovens entrevistados/as, a família é, na maior parte dos casos, considerada como importante. O valor que lhe é atribuído advém, sobretudo, desta ser, geralmente, considerada como uma fonte de apoio, seja ele material ou afetivo, de confiança e de proteção. Nas palavras do João (24 anos, estudante do ensino superior, empregado de loja): “A família? [...] são as pessoas que aconteça o que acontecer na nossa vida são pessoas sempre presentes, são pessoas que estão lá sempre para nos apoiar nos momentos bons, nos momentos maus”. Para alguns/algumas jovens, a família é, mesmo, considerada como uma “base” ou um “pilar” nas suas vidas. Sublinha-se, sobretudo, a sua importância como fonte de socialização e de transmissão de valores: os pais e/ou outros familiares que têm os/as jovens a seu cargo são as pessoas que dão educação, que aconselham, e que orientam; assim como a sua função afetiva, como fonte de carinho e afeto. Por fim, pode considerar-se a família como central na criação e estabilização da identidade pessoal, na medida em que esta é sentida como criadora de bem-estar e de estabilidade, como refere o Jorge (23 anos, 12º ano, designer gráfico, sem namorado): “a família é uma das melhores coisas que nós temos, é... faz-te sentir bem, e faz-te sentir acolhido, faz-te sentir o teu ninho”, tendo um conhecimento profundo do indivíduo, que lhe permite ser verdadeiro com estes outros significativos, e um papel essencial no crescimento dos indivíduos. Neste sentido, até mesmo as advertâncias da família relativamente aos/às
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jovens podem ser, reflexivamente, sentidas como positivas e consideradas como algo que vem para o bem do indivíduo122.
No caso dos/as jovens que se identificam como não heterossexuais, o apoio dos pais (ou a perceção de que estes apoiariam o indivíduo) na assunção da sua orientação sexual, é considerado como um aspeto importante de todo esse processo. Contudo estes/as jovens tendem a conhecer uma certa diversidade de reações por parte de pais, perante o assumir de uma orientação sexual não heterossexual, que vão, como mostra o Eurico, desde a sua aceitação à sua exclusão da rede de relações familiares, o que torna esta questão especialmente problemática para muito deles, sobretudo, quando a família tende a ocupar um lugar tão essencial na vida destes/as jovens.
“Acho que a família é muito importante mesmo. [...] Para o crescimento da pessoa, para o filho neste caso, acho que é tudo. Se uma pessoa tiver o apoio da família a vida vai ser bem mais fácil, bem mais fácil. Por exemplo, ao contrário daqueles que a família que descobrem e que reagem pessimamente mal. [...]. Tanto conheço pessoal que tiveram 6 meses que os pais nem sequer falavam para eles, tenho uns que puseram fora de casa, tenho outros que os melhores amigos tornaram-se os pais.” (Eurico, 25 anos, estudante do ensino superior)
No entanto, para alguns/algumas jovens, embora estes/as constituam uma minoria, a família de origem, nomeadamente, o pai e/ou a mãe, ao invés de constituir uma fonte de apoio e de suporte emocional, surge antes como fonte de conflito. A existência de problemas familiares e/ou a dificuldade de comunicação com um ou ambos os pais pode contribuir para diminuir a importância que lhe é atribuída, criar um mau relacionamento entre pais e filho/as e/ou criar um distanciamento entre eles/as, e, por conseguinte, levar os/as jovens a procurarem criar as condições para sair de casa e/ou de facto saírem, como se irá ver no capítulo 6. Os problemas familiares podem advir de questões como violência doméstica e/ou outros conflitos, consumo de álcool, conservadorismo, tradicionalismo e/ou autoritarismo, nomeadamente em termos de género e de orientação sexual, do forte controlo das sociabilidades e da sexualidade, da diferença de opiniões entre pais e filhos, e/ou da falta de apoio aos filhos, por parte dos pais. Deste modo, como referem Singly e Ramos (2010), a redução identitária e uma forte hierarquização no seio do grupo familiar são aspetos que podem contribuir para a existência de tensões na família, ao contrário do reconhecimento pessoal e da individualidade de cada um, da perceção de ter um ambiente familiar tranquilo, e da existência de respeito recíproco, que são geralmente valorizados.
Ainda assim, para vários/as destes/as jovens, esses problemas, sentidos como mais ou menos graves, podem ser pensados como fazendo parte do passado. Há medida que os/as jovens se distanciam do universo familiar, por exemplo, com a saída de casa, para ir para a faculdade ou para
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Neste sentido, Gordon e Lehelma (2002) referem que, embora possam existir tensões nos desejos dos adultos e dos/as jovens para o futuro destes/as, e o/as jovens tendam a tomar as suas próprias decisões, estes/as tendem a ter em consideração os desejos dos seus pais, a ouvir as suas opiniões e a respeitar as suas decisões.
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trabalhar, e/ou com o nascimento de uma criança123, isto é, há medida que se individualizam e que vários aspetos da sua vida se privatizam, pode existir uma reaproximação dos pais. Os sentimentos de autonomia e a independência, assim como a distância física, quando se deixa de viver com a família de origem, ajuda a que os jovens sintam menos controlo e interferência nas suas vidas e, deste modo, que haja menos discussões e conflitos entre pais e filhos/as, podendo deste modo aumentar a importância que se atribui à família, mesmo nos casos em que não existiam conflitos de maior, e a melhorar a relação familiar (Arnett, 2004; Galland, 2011; Henderson et al., 2007; Jones, 1995; Jamieson, [2005] 1998). Segundo Arnett (2004), pode acontecer também que, com o crescimento dos jovens, a hierarquia entre pais e filhos possa desaparecer, de modo que ambos passam a olhar uns para os outros como indivíduos e a discutir uma maior diversidade de assuntos, do que anteriormente, apesar da manutenção de alguns domínios como privados.
“Na minha adolescência tive assim alguns atritos com os meus pais, porque o meu pai é um bocado conservador, e a minha mãe até pode pensar de maneira diferente dele, mas não se opõe a ele. [...] Mas agora é muito boa, porque agora vim para Leiria e acho que a distância aproxima as pessoas, e como não estamos muito tempo juntos, já não há aquela coisa de chatearmo-nos e essas coisas assim.” (Sandra, 26 anos, licenciatura, à procura do primeiro emprego)
Estas dinâmicas mostram como o significado atribuído à família e o modo como os relacionamentos familiares são vividos não são de todo estáticos, mudando frequentemente à medida que os/as jovens mudam, isto é, há medida que crescem e vão ganhando mais autonomia (Galland, 2011; Henderson et al., 2007; Jamieson,1998). Acresce ainda que o que se entende por família nem sempre é equivalente para o conjunto dos/as jovens entrevistados/as. Se a maior parte dos/as jovens vê a família nuclear: pais (ou apenas um deles, geralmente a mãe) e irmãos, e mesmo a família extensa: avós, tios/as, primos/as, como a sua “Família”, nem sempre esta envolve os pais (ou um dos pais). Nestes casos, o “papel” da família é assumido pelo/as avôs/avós, irmãos/irmãs, filhos/as, amigos/as, parceiros/as, e/ou a família do/a parceiro/a, isto é, pela família que se constrói – que se escolhe (Weeks et al., 2001), como se pode ver pelo exemplo da Vera (23 anos, 11º ano incompleto, empregada de restaurante): “Para mim a minha família é quem eu construi: é a minha filha e o meu namorado. [...] A minha mãe é sempre a minha mãe! Mas família, família é quem eu construí”.
Deste modo, é importante reconhecer a diversidade das famílias nas sociedades ocidentais contemporâneas, o seu dinamismo e a fluidez das suas relações (Silva e Smart, 1999, in Aapola et al., 2005), assim como sublinhar que as dinâmicas familiares e a posição social das famílias estão fortemente articuladas com as trajetórias que os/as jovens fazem para a vida adulta, nomeadamente, no que diz respeito às suas trajetórias intimas, afectivas e/ou sexuais, conjugais e/ou parentais (reais e/ou esperadas).
123 Num estudo realizado anteriormente sobre a maternidade na adolescência (Marques, 2006) mostrou-se como, no caso de algumas jovens, o nascimento de uma criança pode levar a uma maior proximidade na relação entre pais e filhos e a um aumento da comunicação entre estes, embora para outras jovens suceda exatamente o oposto.