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Jantaradas, cafezinhos e copos: os tempos de lazer

134 Isso ajuda bastante também no meu crescimento e também na minha transição de adolescente para

4.3.1.1. Jantaradas, cafezinhos e copos: os tempos de lazer

Um dos aspetos considerado como central no grupo de amigos/as é, então, a partilha de tempos de lazer. São estes momentos que servem, geralmente, de pano de fundo para as conversas que se têm, sendo partilhados tanto em espaços públicos: rua, cafés, bares, discotecas..., como em espaços privados: na casa um dos outros (sobretudo, mas não só, quando estes/as já saíram de casa dos pais), mas, também, em pequenos apêndices da casa ou barracões, que são transformados em espaços de convívio juvenil. Os fins de semana são momentos privilegiados para se estar na companhia dos/as amigos/as. Os/as jovens encontram-se para beber o “cafezinho” e/ou um “copo”, hábitos culturais que se tornam numa “boa desculpa” para “pôr a conversa em dia” e sair um pouco de casa. As refeições, especialmente, os jantares, dentro ou fora de casa, são também tempos de eleição para o convívio, onde se pode comer, conversar, beber e rir um pouco160. Relativamente às saídas noturnas, os cafés e os bares são os locais de eleição para o convívio.

Já as idas às discotecas, nesta fase da vida, são menos referidas, sendo atividades que vários/as jovens fazem menos vezes e de forma mais esporádica. São, sobretudo, os rapazes e os/as jovens não heterossexuais, que, impendentemente da idade, tendem a frequentar estes espaços com maior regularidade. Para os/as jovens não heterossexuais, a ida ao bar-discoteca LGBT local é referida como prática frequente. Por vezes, percorrem-se os bares e discotecas LGBT do país, onde se tem uma rede de conhecimentos estabelecida. Mas uma menção especial tem que ser feita ao bar onde os/as jovens, que se autoidentificaram como gays e lésbicas, foram contactados/as. Este pode ser entendido como o bar da comunidade (Weeks, 1995)161. Um espaço onde os indivíduos com uma orientação sexual não heterossexual podem conhecer outros indivíduos com a mesma orientação sexual. O Bar funciona como um local de afirmação de uma identidade, muitas vezes escondida no espaço público, onde se pode encontrar um apoio e um reconhecimento, sentidos como difíceis de encontrar noutros espaços dominados pela heteronormatividade: “É um espaço nosso. Podemos estar à vontade para exprimir os nossos sentimentos [...], as nossas relações à vontade… E acho que aí é a nossa comunidade, acaba por ser” (Mariana, 24 anos, licenciatura, empregada de balcão/barmaid). É, então, um espaço onde se “pode estar à vontade” e exprimir os sentimentos mais íntimos da pessoa, onde o indivíduo se sente respeitado e em “casa”. A comunidade não heterossexual do “Bar” providência, assim, a estes/as jovens um sentido de pertença (Seidman, 2002).

160 Sobre os tempos de lazer juvenis ver, por exemplo, Gomes (2003).

161 De acordo com Weeks (1995), o conceito de comunidade equivale a um conceito específico de solidariedade, no sentido em que este dá poder e capacita os indivíduos, tornando a ação, pessoal e social, possível. Ora, segundo o autor (Weeks, 1995), os movimentos sexuais da segunda metade do século XX encorajaram a construção e construíram um sentido de comunidade, um espaço em que identidades e atividades sexuais, antigamente vista de forma negativa, se puderam afirmar e manter.

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Neste sentido, alguns/algumas dos/as jovens entrevistados/as, com uma orientação sexual não heterossexual, fazem a distinção entre o mundo “hetero”, onde têm que navegar e onde têm também amigos/as e conhecidos/as, e o mundo “homo” onde podem revelar o verdadeiro Eu, onde têm um espaço de protecção da sua identidade, de maior cumplicidade e confiança, onde os indivíduos se podem exprimir abertamente; embora nem tudo seja perfeito e também haja espaço para críticas, conflitos e intrigas. Estes dois mundos tendem a ser entendidos como distintos, misturando-se raramente. Mesmo porque se pode sentir que vários indivíduos do mundo hetero são homofóbicos. “O mundo gay” pode também ser entendido como um espaço onde é mais fácil de fazer amizades, um espaço mais divertido, animado e relaxado, sendo os indivíduos, com uma orientação sexual não heterossexual, percebidos como mais “dados e comunicativos”.

“Eu tenho dois mundos: o mundo homossexual e o mundo hetero. O mundo homossexual é diferente, nós falamos sobre tudo abertamente... tipo, as saídas são muito mais animadas, os jantares são muito mais animados, há mais risadas, há mais galhofa, porque estamos à vontade. No mundo hetero sinto que tenho que ter uma certa postura, é diferente. E às vezes perco-me um bocado nas conversas que eles têm quando falam em casamentos, quando falam em ter filhos [...], prefiro outro tipo de conversa. Mas não quer dizer que eu não goste deles ou que não goste de estar ao pé deles. Quando [os dois “mundos”] se cruzam é raro. Ah, são dois mundos porque alguns dos meus amigos hetero são muito homofóbicos e não gostam de gays que são bichas, muito extrovertidos e muito “ai querida”, acham... ficam tipo envergonhados quando nós vamos a um café.” (Teresa, 28 anos, 12º ano, escritora)

Voltando de novo para os/as jovens em geral, é de referir ainda que alguns/algumas destes/as referem ter passado162, ou estar ainda a passar pela experiência de trabalhar à noite, em bares e/ou discotecas. Além de ganharem uns trocos, este/as jovens conseguem, deste modo, aceder gratuitamente a estes espaços, onde convivem com outras pessoas e podem consumir álcool facilmente. Contudo, para outras jovens mulheres (mesmo para algumas das jovens que foram controladas pelos pais/família nas saídas às discotecas) e para alguns jovens homens (sobretudo, com idades iguais ou superiores a 24 anos), o aumento da idade, a entrada em relacionamentos sexuais e amorosos “sérios” e/ou o facto de considerarem que frequentarem largamente as discotecas, no passado, fazem com que estes espaços de convívio deixem de ser tão valorizados. Estes/as jovens tendem a dizer que (agora) não são de “sair muito” e/ou que não gostam muito de discotecas, o que poderá estar relacionado com o facto de estas serem atividades, geralmente, associadas ao ser-se jovem, e não tanto à “maturidade” e “responsabilidade” “exigidas” com o ser-se “adulto”, onde são privilegiadas outras atividades, como estar entre pares a conversar: “Agora com esta idade que tenho e com a responsabilidade já não sou daquelas de sair muito. Mas é tipo beber um cafezito à tarde, [...] ou beber um copo à noite, ou fazer um jantar. [...] Ou ir uma vez por outra [...] para uma discoteca” (Ana, 26 anos, 12º ano incompleto, desempregada/bairmaid em part-time). Esta hipótese é

162 Quando eram mais jovens, especialmente, durante os tempos em que estudaram no liceu ou na faculdade. Os períodos em que se frequenta a universidade, sobretudo, fora da terra onde vivem os pais e/ou familiares, são, para alguns/algumas dos/as jovens que por lá passaram ou estão a passar, tempos de grande convívio com os pares e de frequentes saídas noturnas.

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ainda suportada pelo facto de que as/os jovens com menos de 24 anos que referem (já) não (gostar de) ir a discotecas, terem geralmente uma escolaridade igual ou inferior ao 12º ano, e terem já percursos de trabalho pago e/ou de entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, fatores que, como se irá ver no capítulo 6, são, geralmente, associados à aquisição de responsabilidade e de maturidade, e, deste modo, com o ser-se adulto, ou pelo menos jovem adulto.

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