4 CONTEXTO DA PESQUISA
6 APROXIMAÇÕES POSSÍVEIS ÀS RESPOSTAS DAS QUESTÕES E O PRODUTO DE PESQUISA
6.1 RESPONDENDO A PRIMEIRA QUESTÃO DE PESQUISA
6.1.1 Aspectos característicos do trabalho dos professores
Sobre as representações que denominamos de Aspectos característicos do trabalho dos professores, nos deparamos por meio dos relatos, com informações voltadas para as atividades realizadas em decorrência, tanto da estrutura didático- pedagógica quanto da estrutura organizacional do campus, que refletem em suas rotinas de trabalho.
No momento, retomamos as especificidades do local de trabalho dos professores, visto que, a forma como o local estrutura-se traz elementos significativos para suas rotinas e, consequentemente, para as atividades que realizam. Como já destacado, a pesquisa ocorreu em um Instituto Federal, que oferta cursos de ensino médio, subsequentes, graduação e cursos de pós- graduação, sendo o ensino profissional o eixo principal da organização e atuação dos professores.
Tal estrutura para nós configura-se como uma boa oportunidade aos alunos, que podem trilhar sua trajetória acadêmica numa mesma Instituição, tendo em vista que os cursos subsequentes, superiores e de pós-graduação são ofertados nos mesmos eixos tecnológicos do que os cursos de ensino médio. Ou seja, um aluno que, no ensino médio faz o curso técnico em Manutenção e Suporte em Informática tem a possibilidade de fazer um curso superior em Sistemas para Internet e ainda fazer a pós-graduação em Gestão da Tecnologia da Informação, todos no mesmo campus. Tal peculiaridade é denominada de verticalização do ensino e está expressa na Lei no 11.892/08.
No entanto, quando refletimos sobre a atuação dos professores nos mais diferentes níveis, nos deparamos com indagações acerca da qualidade de sua atuação, bem como, as dificuldades que tal situação lhes proporciona, pois, oras atuam em turmas do ensino médio, oras em turmas de cursos subsequentes, superiores ou de pós-graduação.
Sobre o fato de atuarem em diferentes níveis e modalidades de ensino, todos os professores participantes da pesquisa mencionaram que antes de ingressarem na Instituição tinham pouco conhecimento de tal organização e que nunca haviam pensado sobre atuar num contexto com essas particularidades. No entanto, após vivenciarem essa experiência, apresentam declarações favoráveis, por meio de relatos como:
Eu acho bem positivo porque também nos desafia a aprender uma coisa diferente, a buscar um material diferente, então tira aquela rotina de trabalhar sempre com a mesma coisa, então eu acho bem positivo, porque a gente tá compartilhando conhecimento de fato, porque você tá aprendendo com eles e também levando, construindo junto conhecimento, e eu acho bem positivo (BELA, 2016).
O fato de atuar em diferentes níveis de ensino desafia o profissional a sempre estar se atualizando, pois, cada nível exige uma forma de passar o conhecimento, como por exemplo, a educação de jovens e adultos exige uma aula com maiores detalhamentos nas explicações, utilizando exemplos práticos, o que diferencia de uma educação superior, onde podemos utilizar uma linguagem mais técnica. Considero um desafio para o professor, que não pode se acomodar na sua vida profissional (CARINA, 2016).
Olha, eu pessoalmente não acho ruim tá, não acho, assim se tu me perguntasse isso no início quando eu comecei eu acho que eu te diria: ah, é um problema, mas eu vi que não é um problema, acho que acrescenta para o professor inclusive (ELIANA, 2016).
Diante das considerações apresentadas inferimos que, as professoras enxergam com naturalidade a atuação em diferentes níveis, o que nos causou estranheza, pois de certa forma, esperávamos encontrar depoimentos apontando essa particularidade, como um desafio à sua prática, em razão de alguns professores estarem iniciando a carreira docente, pela diversidade de cursos e de disciplinas para ministrar, de serem oriundos de cursos de bacharelado etc. No entanto, nos deparamos com relatos mencionando que se sentem desafiadas positivamente, e que constroem e compartilham conhecimentos mediante tal organização.
Algo que também nos chama atenção nos trechos acima é que as professoras relacionam a busca de materiais diversificados e a adequação dos conteúdos e de suas explicações com o fato de atuarem em diferentes níveis. Tais considerações nos chamaram atenção, pois entendemos que tais ações são
inerentes ao trabalho do professor, independente da atuação em diferentes níveis ou pela forma que a Instituição se organiza.
Outra informação oriunda das entrevistas é que, em alguns dias, os professores cumprem sua carga horária na Instituição nos turnos da manhã e da tarde e, em outros dias, no turno da tarde e da noite. Esse arranjo se dá em decorrência do campus funcionar os 03 (três) turnos, por isso, o horário dos professores é organizado de acordo com seus turnos de aulas e demais atividades que exercem no campus. Dentre as outras atividades realizadas, destacamos o reforço escolar, o atendimento aos alunos, a participação em atividades extraclasses e, em projetos de ensino, pesquisa e extensão, entre outras.
Sobre a realização do reforço escolar há uma prescrição institucional, corroborada pelo art. 24, inciso V da LDB no 9.394/96 que coloca que o professor,
dentre suas atividades deverá propiciar esses momentos aos alunos. Tais momentos são fundamentais para que os alunos com dificuldades possam tirar dúvidas, rever conteúdos e suprir lacunas na aprendizagem. Embora não se tenha uma forma contínua de acompanhamento para ver, se realmente o professor dispõe desses momentos aos alunos, solicita-se na metade e, no fim de cada semestre os registros de tais atividades. Esses registros são feitos por meio de uma planilha onde constam as presenças dos alunos e a relação dos conteúdos trabalhados que, além de comprovarem que o professor oportuniza esses espaços, constituem-se como um instrumento de respaldo para o professor, caso algum aluno reprove e reivindique análise de resultado, alegando que não teve reforço escolar. Caso o horário das terças-feiras à tarde, horário destinado ao reforço escolar, não seja utilizado para esse fim, os professores devem permanecer na Instituição para atender os alunos que, eventualmente, lhes procuram.
Quanto à participação e proposição de atividades extraclasses traduzidas em festividades no campus, grupos de estudos, oficinas de teatro, grupos tradicionalistas, projeto de cinema, entre outras, foram consideradas positivas pelos professores, principalmente por propiciarem atividades diversificadas aos alunos fora da sala de aula e atividades com vistas à formação integral dos mesmos, conforme relatos a seguir:
Eu acho que a gente precisa ser muito forte aqui que a gente tá formando para que nossos alunos sejam profissionais, ou seja tenham uma profissão, seja ela em nível técnico ou de nível superior, mas também ao mesmo
tempo a gente não pode esquecer que a gente precisa formar do ponto de vista humanístico, que a gente precisa formar cidadãos, que tenha competências, habilidades, que seja um bom profissional, mas ao mesmo tempo que a gente não esqueça de formar também o ser humano, o cidadão (MÁRCIO, 2016).
Eu acho que a nossa estrutura aqui é ótima, a organização, porque ela contempla não só as questões de sala de aula, não só disciplinas, mas também a convivência, a interação e eu acho isso bem importante, porque a gente tá formando cidadãos pro mundo, mundo profissional, mundo social. Então eu acho bem importante a gente ter todos esses momentos que o campus proporciona, atividades extracurriculares (BELA, 2016).
Entendemos, tendo por base os relatos, uma forte preocupação com a formação integral dos alunos, o que no nosso entender contribui para desmistificar a ideia de que cursos profissionalizantes ou de natureza tecnológica, como os que os IFs ofertam, privilegiam apenas a transmissão de conteúdos e a formação técnica dos alunos. Além do mais, os aspectos mencionados vinculam-se com a ideia de que a função docente e da escola não se restringe apenas ao ensino dos conteúdos, mas também a formação de indivíduos. Ou seja, o papel da escola vai além de ensinar, mediar e medir conteúdos disciplinares por meio de procedimentos lineares e mecânicos.
Sobre a participação em projetos de ensino, pesquisa e extensão, evidenciamos uma colocação relevante na fala do professor Márcio, ao expressar que:
eu não posso simplesmente só ficar restrito a sala de aula, eu acho que a gente tem que fazer ensino pesquisa e extensão. A parte de extensão eu diria que eu pouquíssimo estou fazendo ainda, eu ainda não tô num projeto de extensão e a minha parte de pesquisa ainda é voltada com relação aos meus interesses acadêmicos e da parte de escrita de artigos referentes ao mestrado que eu concluí não faz tanto tempo e também com um grupo de estudos que eu ainda participo, mas em outra instituição, na UFSM; então acho que nisso eu acho que posso melhorar, principalmente, na questão da extensão.
Diante das palavras de Márcio, percebemos novamente a ideia da atuação do professor não se restringir apenas à atuação em sala de aula e que as situações de trabalho e as atividades que o professor realiza não se constituem apenas num processo com um fim em si mesmo, mas, também, em um processo de desenvolvimento profissional.
O mesmo foi observado pela professora Angélica, que ainda mencionou ter consciência de que precisa se envolver mais em ações que envolvem pesquisa e extensão. Já a professora Janaina fez uma colocação pertinente, no sentido de que os professores substitutos no campus, como é o caso dela, pudessem participar de editais com vistas à proposição de iniciativas referentes ao ensino e a pesquisa. A partir do relato abaixo podemos constatar, de certa forma, uma reivindicação da professora à Gestão da Instituição:
[...] em relação ao que eu acho que deveria ser revisto, se fosse possível, porque eu sou professora substituta, se existisse projetos para professor substitutos. Às vezes a gente tem a capacitação semelhante de um professor efetivo, mas a gente não pode usar nossas ideias, devido o edital que limita (JANAINA, 2016).
Há no final da fala da professora a inferência da qualificação dos professores substitutos, ao expressar que um professor substituto tem as mesmas condições de propor tais iniciativas quanto um professor efetivo. Vemos como positiva a menção da professora, quando ela equipara a qualificação dos professores e mostra seu interesse em propor projetos de ensino e pesquisa, mesmo sabendo que permanecerá no campus por um período de tempo determinado.
Outro aspecto destacado pelos professores, que também contribui para as atividades que integram o seu trabalho e a sua rotina, foi o fato de não residirem em Panambi. Sobre esse aspecto, 04 (quatro) dos 06 (seis) professores, mencionaram que o tempo de deslocamento e o cansaço que isso lhes proporciona, somam diretamente na sua rotina de trabalho. A professora Carina também coloca que, por ser professora substituta e não ter dedicação exclusiva, além das 40 (quarenta) horas no IF, trabalha 20 (vinte) horas como professora municipal, fato que, aliado ao deslocamento de outra cidade, torna sua jornada de trabalho diária bastante corrida.
Paralelo às questões externas à Instituição, os professores ainda destacaram várias atividades como integrantes de seu trabalho, como: correção de provas, atendimento de pais, participação em reuniões, pesquisa de materiais, participação de comissões etc. Mesmo mencionando essas atividades, e que há ainda inúmeras outras atividades que compõem o seu trabalho e rotina, alguns professores também relataram que teriam vontade de propor outras atividades, caso tivessem mais
tempo, como: confecção de materiais didáticos, participar do PIBID, instituir grupos de estudos para trabalhar literatura e para estimular a leitura etc.
Sobre a questão de “se ter mais tempo” obtivemos repostas que configuram diferentes pontos de vista, pois ao passo que alguns professores relataram que conseguem realizar de forma tranquila suas atividades, outros dizem não conseguir se organizar para realizá-las. Podemos evidenciar essas divergências nas colocações das professoras:
Quando eu tenho tempo livre, que eu não tô em sala de aula, eu tô sempre trabalhando, costumo fazer 10 horas, aqui não dá pra fazer mais, mas eu acabo trabalhando em casa fazendo alguma coisa porque tem orientação de alunos, tem PPIn, tem supervisão de estágio né, de alunos da licenciatura, tem que ir nas escolas acompanhar, tudo isso ainda além de todas as disciplinas. Às vezes precisa, quando tem prova, tem um monte de relatório, vai fim de semana a dentro também. Então eu vivo para o IF mesmo, não faço nada fora mesmo, meu tempo é dedicado a isso, senão não venceria mesmo (ELIANA, 2016).
Acho que não seria necessário retirar nenhuma atividade, pois todas são coerentes com o papel de professor. Minha rotina de trabalho é bem tranquila, consigo realizar todas as atividades docentes aqui no campus, participar de reuniões e eventos, sem falar que temos uma ótima infraestrutura, diferentes espaços e materiais (ANGÉLICA 2016).
Por meio da fala da professora Angélica, também observamos outro aspecto que julgamos relevante em relação aos condicionantes que permeiam, aqui no caso, o trabalho docente dos professores que estão iniciando no Campus Panambi, ou seja, a professora menciona a estrutura da Instituição, de se ter espaços e materiais disponíveis. Particularidades do local, que acreditamos, que aliadas aos vários setores que possui, aos auxílios financeiros disponíveis a projetos e alunos, contribui, significativamente, para as atividades realizadas pelos professores.
Tal menção nos fez refletir sobre as condições favoráveis que os professores têm nesse contexto, principalmente quando comparamos aos professores que atuam em outras Redes de ensino que, além de contarem com as inúmeras atividades que permeiam e constituem o trabalho docente, deparam-se com estruturas precárias e falta de recursos.