CAPÍTULO 2 – CONTEXTUALIZAÇÃO: QUALIDADE NO ESPAÇO
2.2 ASPECTOS CONCEITUAIS DA QUALIDADE DE VIDA E DA QUALIDADE
Lombardo (1985) explica que, a qualidade da vida humana está diretamente relacionada com a interferência do ambiente construído pelo homem no meio natural urbano. A natureza desumanizada, através das modificações no ambiente alcança maior expressão nos espaços ocupados pelas cidades, criando um ambiente artificial.
O parâmetro para avaliar a qualidade de um espaço residencial está diretamente ligado ao parâmetro de qualidade de vida dos indivíduos que residem e freqüentam esse espaço. Definir qualidade de vida, no entanto, conduz a uma complexidade de possíveis formulações. Conforme explana Scussel (2007), este é um conceito carregado de juízo de valor e de caráter subjetivo que é construído a partir das condições sócio-econômico-culturais de indivíduos ou comunidades. De acordo com Keinert (2002) o conceito de qualidade de vida também possui o caráter de relatividade, pois sempre alude a comparações e medições entre grupos sociais distintos, abordando, sobretudo, as questões de atendimento as necessidades básicas e a privação destas.
É um conceito complexo, de conteúdo subjetivo e caráter qualitativo, que exprime juízos de valor, apresentando uma natureza política e ética. É também um conceito de caráter relativo. O seu uso implica comparação e medição de situações individuais e coletivas que diferem segundo países (ou localidades) e grupos sociais, com as suas diferenças de nível de exigência e aspirações. (KEINERT, 2002, p.14/15)
Segundo Herculano (2000), qualidade de vida pode ser definida como,
[...] A soma das condições econômicas, ambientais, científico-culturais e políticas coletivamente construídas e postas à disposição dos indivíduos para que estes possam realizar suas potencialidades: inclui a acessibilidade à produção e ao consumo, aos meios para produzir cultura, ciência e arte, bem como pressupõe a existência de mecanismos de comunicação, de informação, de participação e de influência nos destinos coletivos, através da gestão territorial que assegure água e ar limpos, higidez ambiental, equipamentos coletivos urbanos, alimentos saudáveis e a disponibilidade de espaços naturais amenos urbanos, bem como a preservação de ecossistemas naturais. (HERCULANO, 2000, p.22)
A partir do momento em que se observa que, o conceito de qualidade de vida inclui aspectos relativos ao espaço urbano, como mencionado anteriormente, pode-se relacioná-lo ao conceito de qualidade do espaço residencial, sendo aquele conceito, no entanto, mais abrangente, por englobar aspectos como acessibilidade ao consumo, aos meios para a produção de cultura, ciência e arte.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu qualidade de vida, em 1990, como, a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais se vive e em relação aos objetivos, expectativas, padrões e preocupações. A partir do que foi citado, pode-se fazer uma relação entre qualidade de vida e qualidade do espaço residencial, observando a relação que existe entre a localização das moradias de grupos sociais mais abastados relacionadas a sua posição social, sistema de valores e contexto cultural em que vivem. Esses grupos procuram pelas melhores “localizações” dentro da malha urbana da cidade, para residirem, em busca de uma melhor qualidade residencial urbana e, portanto, uma melhor qualidade de vida.
Appleyard e Jacobs (1982 apud Del Rio, 1990) salientam algumas metas, a nível geral de planejamento urbano para uma vida urbana dotada de qualidade, como identidade e controle, acesso a oportunidades e ao lazer, vida comunitária e pública. Definiram também metas específicas em uma atividade meio como, ruas e vizinhanças de convívio, densidades mínimas e intensidades de uso para a vida urbana, que as edificações devem ser organizadas como definidoras de espaços públicos e diversidade nas inter-relações e configurações entre edificações e espaços.
Pode-se falar na existência de componentes básicos cotidianos que condicionam a sobrevivência dos seres humanos, independente do grupo social ou estrato de renda. Keinert (2002) explica que, dentre esses componentes destacam-se a alimentação, habitação e acesso aos serviços de saúde. No entanto, é esperado que, em grupos sociais com maior poder aquisitivo as necessidades apresentadas sejam compostas por diferentes características ou com conotação diferente das apresentadas pela população mais pobre, como no caso em análise, na qual observa-se a interferência da verticalização na qualidade do espaço residencial de uma população de médio/alto padrão econômico. A qualidade de vida e de padrões de moradia, para esses grupos sociais extrapola as limitações de uma “simples sobrevivência” e dota o indivíduo de instrumentos para preservar os bons valores.
De acordo com Keinert (2002) há múltiplas abordagens para o termo qualidade de vida em trabalhos acadêmicos, dentre elas, há a noção de qualidade de vida oriunda da epistemologia ambiental, que emergiu com a deterioração do meio ambiente após a massificação de consumo,
ideologicamente justificada como necessária para o avanço das forças produtivas e auto- sustentação do sistema econômico vigente. Uma segunda abordagem procura definir qualidade de vida tendo como referência patamares mínimos de bem-estar a serem coletivamente assegurados. Outra perspectiva relaciona ambiente urbano com a percepção da população, esta, busca valorizar a percepção dos indivíduos, de suas condições de existência, resultando em mecanismos psicológicos de compensação, apropriação e rejeição. A idéia é que a vida urbana expõe os indivíduos a numerosas características ambientais que produzem sentimentos de satisfação, indiferença ou aversão de forma heterogênea, repercutindo a diferenciação dos indivíduos.Outra interpretação para a qualidade de vida baseia-se na diferenciação socioespacial, tendo a paisagem urbana como indicador. Assim, o ambiente construído pode ser visto como uma representação da qualidade de vida dos habitantes de uma localidade. A acessibilidade e fluência do trânsito, limpeza pública, iluminação, tamanho e aspecto das moradias, disponibilidade de áreas verdes e de serviços são aspectos considerados nessa interpretação.
2.3. ELEMENTOS FÍSICOS QUE ESTRUTURAM O ESPAÇO URBANO E INTERFEREM