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ASPECTOS CONTROVERTIDOS ACERCA DA LAVRATURA DA ATA

3 ATA NOTARIAL ENQUANTO INSTRUMENTO DE PROVA

3.6 ASPECTOS CONTROVERTIDOS ACERCA DA LAVRATURA DA ATA

A lavratura da ata notarial envolve alguns aspectos polêmicos que têm sido tratados na doutrina, considerando a parca legislação notarial nacional.

O primeiro aspecto diz respeito à aplicação do princípio da unidade formal do ato. Conforme tratamos no primeiro capítulo deste estudo monográfico, a unidade formal do ato deve ser encarada como unidade instrumental.

No tocante à ata notarial, considerando que os fatos podem se desenrolar em momentos diferentes, “o princípio da unidade formal do ato deve inspirar, portanto, o momento da redação do ato, quando os diversos fatos verificados devem ser lançados num único instrumento, com a caracterização de tempo e local pertinentes” (RODRIGUES; FERREIRA, 2013, p. 57).

Acerca do assunto, Vicari e Vicari (2014, p. 57) lecionam que cabe ao tabelião adiar a lavratura da ata notarial, até que se finalizem todas as diligências, ou então lavrar mais de uma ata.

Pensamos que essa é uma decisão de cada tabelião: cabe-lhe deliberar se é mais conveniente, para a regularidade de seus serviços e considerada a segurança de que deve cercar-se sua atuação, protrair a lavratura, referindo minuciosamente na ata as datas e horários das verificações, ou, ao contrário, lavrar mais de uma ata (VICARI; VICARI, 2014, p. 58).

É certo que ao tomar a decisão de lavrar mais de uma ata, o tabelião precisa levar em consideração se economicamente será viável para a parte solicitante.

O segundo aspecto controvertido é a possibilidade de a ata notarial versar sobre fatos ilícitos.

Vasconcelos e Cruz (2000, p. 81) entendem que o tabelião não poderá agir quando o objeto for ilícito.

Considerando a obra acima foi publicada apenas seis anos após a edição da Lei 8.935/94, parece-nos que tal entendimento há muito já foi superado.

Segundo Rodrigues e Ferreira (2013, p. 41), o tabelião não deve compactuar com um ilícito, cabe salientar que inexiste qualquer óbice para que na ata notarial conste a narrativa de um ilícito verificado pelo tabelião. O tabelião não deverá emitir juízo de valor, e de forma minuciosa descreverá o fato em questão. Tabelião não é juiz, “o notário não deve se configurar num juízo sumário, oficioso, devendo limitar a sua qualificação ao que lhe compete”.

Ao se deparar com um ilícito, “o tabelião deve assessorar, informando os efeitos cominatórios da ação ilícita” (FERREIRA; RODRIGUES, 2010, p. 27).

No mesmo sentido, Kollet (2015, p. 229) também entende que a ata notarial poderá conter a narrativa de ato ilícito.

O tabelião não é juiz, nem delegado de polícia, não cabe a ele julgar a ação das partes na lavratura da ata notarial. A ilegalidade do fato não tem o condão de impedir a lavratura da ata. “A quase totalidade das atas é solicitada, justamente, para atestar fatos potencialmente tipificados como crime. É possível dizer que a infração, a irregularidade, o crime e o litígio são as razões existenciais da ata notarial” (FERREIRA; RODRIGUES, 2010, p. 188).

A ata notarial é em diversos casos a única prova viável para determinados fatos cuja demonstração seria, de outro modo, extremamente difícil ou até mesmo impossível. Proibi-la como meio de prova de fatos ilícitos significaria, portanto, condenar o titular do direito violado pelo ilícito ao fracasso em sua eventual demanda, justamente por ausência de prova de suas alegações. Seria, em última instância, inviabilizar ao prejudicado a obtenção de justa e devida reparação pelo ato ilícito (VICARI; VICARI, 2014, p. 64)

Ao se deparar com crime de ação penal incondicionada, o tabelião poderá lavrar a ata, mas deverá comunicar o fato à autoridade competente. Se o crime for de ação penal condicionada ou de ação privada, o tabelião não tem o dever de comunicá-lo, cabe ao ofendido decidir sobre a representação ou a queixa (VICARI; VICARI, 2014, p. 64).

Por fim, de Brandelli (2004, p. 48) pode-se inferir, que diante da natureza probatória da ata notarial, com o intuito de preservar o fato ilícito no tempo, e considerando ainda que sequer há manifestação de vontade, não há problema em lavrar uma ata notarial que verse sobre um ilícito, desde que a ata em si não seja um ilícito [por exemplo, o tabelião invadir um imóvel para lavrar uma ata notarial].

O terceiro aspecto refere-se à observância do limite da circunscrição para a qual o tabelião recebeu a delegação.

O artigo 8º da Lei 8.935/94 prevê a livre escolha do tabelião, enquanto o artigo 9º trata do limite territorial, ou seja, o tabelião só pode praticar atos no município para o qual recebeu a delegação.

Ocorre que na ata notarial, pode haver situações em que a constatação de fatos se desdobra para além dos limites do município.

Chaves (2013, p. 67) aborda esta problemática e, inclusive, o risco de haver perda do objeto em caso de interrupção da ata. Para o referido autor, o tabelião deve ter autorização da Corregedoria para atuar nesses casos.

Em Santa Catarina, o CNCGJSC trata em seu artigo 788 dos casos de impossibilidade de prestação de serviço pelo tabelião competente:

Art. 788. Na impossibilidade de ser prestado pelo tabelião competente, o serviço poderá ser efetuado por qualquer dos delegatários de notas que atuem, sucessivamente, no município, na comarca e na comarca integrada.

§ 1º O motivo apresentado para o serviço não ter sido realizado e a identificação do respectivo tabelião deverão constar do ato lavrado, sem prejuízo do arquivamento de declaração subscrita pelo usuário.

§ 2º Concluído o serviço, o tabelião, no prazo de 5 (cinco) dias, enviará comunicação, devidamente instruída, ao juiz-corregedor permanente para apurar eventual responsabilidade do delegatário originariamente competente (SANTA CATARINA, 2013).

Com relação à impossibilidade da prestação de serviço pelo tabelião, pede-se licença ao leitor para constar que em relação ao impedimento, na hipótese de na verificação dos fatos o tabelião se deparar com alguma das pessoas que figuram no artigo 27 da Lei 8.935/94, recomenda-se orientar o solicitante a procurar outro tabelião. Porém, havendo possibilidade de o fato se perder, deve-se lavrar a ata ainda assim, mas ciente da possibilidade de que venha a lhe ser conferida a mesma eficácia probatória do documento particular, nos termos do artigo 367 do Código de Processo Civil (RODRIGUES; FERREIRA, 2013, p. 111).

Nesse diapasão, parece-nos que o artigo 788 do CNCGJSC está mais relacionado com os impedimentos previstos no artigo 27 da Lei 8.935/94, do que com a ata notarial que envolva fatos que se desdobrem em mais de um município.

Ferreira e Rodrigues (2010, p. 183) entendem que “quando o fato a ser constatado envolve uma ação contínua que percorre mais de um município, [...] a competência territorial é de qualquer tabelião com competência para um dos municípios envolvidos”.

Diante do conflito de competência territorial, aplica-se o “princípio da universalidade da tutela notarial”, a ata será válida desde que em algum dos momentos o fato transcorra dentro do limite territorial do tabelião que a lavrou (RODRIGUES; FERREIRA, 2013, p. 115).

A lavratura de uma ata notarial, por cada tabelião competente para o local dos fatos, mostra-se desarrazoada por onerar o solicitante e “uma vez que os fatos quase nunca

Nesse prisma, conclui-se pela possibilidade de que em casos pontuais pode haver mitigação do limite territorial de atuação imposto ao tabelião.

O quarto aspecto envolve a análise da capacidade civil do solicitante da ata notarial.

A respeito do assunto, é imprescindível acrescentar a valiosa lição de Brandelli (2004, p. 52):

[...] uma vez que a ata é mera narração de fatos jurídicos verificados pelo tabelião, não havendo nela manifestação de vontade, não passa ela pela qualificação de vontade das partes, isto é, a vontade não é elemento relevante, da mesma forma que ocorre por exemplo nos atos ilícitos. Assim,da mesma forma que pode um incapaz praticar um ato ilícito porque a vontade não integra o suporte fático da norma jurídica, pode ele requerer a lavratura de uma ata notarial, desde que tenha ele capacidade natural. Nesse sentido, um alienado mental que não tenha noção dos atos da vida não poderia requerer a ata por lhe faltar capacidade natural.

A respeito da incapacidade natural, Brandelli (2004, p. 52), apoiado em Orlando Gomes, informa que esta pode ou não coincidir com a incapacidade civil.

Rodrigues e Ferreira (2013, p. 111) entendem que a lavratura da ata notarial pode ser solicitada por pessoa relativamente ou por pessoa absolutamente incapaz, havendo um motivo que seja relevante e justo, a ser consignado no corpo da própria ata notarial.

Por fim, considerando que uma das diferenças entre a escritura pública e a ata notarial, conforme expusemos anteriormente, justamente é o fato de que na ata notarial não existe manifestação de vontade, portanto, o juízo de capacidade do solicitante pode ser dispensado, não havendo óbice para que uma pessoa relativamente ou absolutamente incapaz solicitem a lavratura de uma ata notarial, desde que configurada a capacidade natural.

Uma vez apontados os aspectos controvertidos acerca da lavratura da ata notarial, passa-se ao terceiro capítulo, no qual se discute a questão da publicidade dos atos notariais.