3 REDES DE SOCIABILIDADE
4.1 Aspectos da cultura material
Os testamentos e inventários post-mortem permitem que se analise a composição e nível dos haveres, já que possibilitam conhecer os objetos que compunham o cotidiano das famílias, de sua cultura material. Concordamos com Jean-Marie Pesez, quando ressaltou a “evidente relação da cultura material com os condicionamentos materiais que pesam sobre a vida do homem e às quais ele opõe uma resposta que é precisamente a cultura” (LE GOFF, 1998, p. 184). Portanto, pensamos ser possível visualizar no rol de bens as manifestações do
cotidiano da sociedade do Maranhão setecentista.
No que se refere ao aparelhamento das casas, vimos que as famílias de maiores posses tinham acesso a todo o conforto e requinte próprios das casas abastadas européias. Podemos constatar este fato através dos testamentos de algumas famílias, deslocadas com todo seu patrimônio cultural para estas terras. Foi o que se percebeu, por exemplo, no mobiliário e utensílios arrolados em testamento por Carlos Pereira, sobrinho do capitão-mor Francisco Pereira, em 1765:
Possuo uma morada de casas, em que moro nesta cidade com seu quintal amurado, e dentro cozinha de telha, mais um leito com seu armamento de chita, e uma coleira branca, bordada de retrós; uma rede de taboca nova, duas caixas com roupa branca de pano de linho, bertanha e pano fino de algodão; a saber, toalhas, guardanapos, lençóis, fronhas de travesseiros e almofadinhas; três bofetes, uma pouca de louça de Veneza, três frasqueiros de cascos, duas do Reino, e uma de cedro com seus frascos, dois panos de cambebas para bofetes; duas imagens da Senhora da Conceição de palmo e meio, dois crucifixos de madeira com as imagens de Nossa Senhora, São João e Madalena, um resplendor1 de prata de um dos crucifixos, uma dúzia de tamboretes de pau, uma dúzia de colheres de prata de martelo, meia dúzia de garfos de prata, duas facas de mesa de cabos de prata, um florete com fivelas de prata, um chifarote2, com cabos, ponteira, bocal e fivelão de prata, um par de esporas de prata, umas chapas de ouro com quatro oitavas para pescosinho. Um anel de ouro com topázio amarelo, dois pares de botões de ouro de punhos, mais um par de fivelas de prata para sapatos, outro par dito para ligar; uma balança de pesar ouro três balanças com seus pesos, duas na cidade, e uma na rossa, um peso de ferro de meia arroba, um candeeiro usado; uma escrivaninha com três gavetas, um baú de cedro pintado no Pará de quatro palmos, um baú de moscovita de dois palmos, quatro vestidos de meu uso, e mais vestes, e calções que se acharem, duas bengalas com cantões de prata, uma bacia com seu jarro de estanho; um garrafão de vidro, uma candeia de latão, dois chapéus de sol, um grande e outro pequeno usados; uma capa de chamalote3 carmesim, que me serve na Irmandade do Santíssimo, um hábito Terceiro, um capote4 de pano escuro, duas cabeleiras, um chapéu de galão de ouro, um par de meias de seda branca em folha... (test. 03).
Com residência em São Luís, o capitão Carlos Pereira era proprietário rural. Possuía escravos, plantações e engenho de moer cana, e, por suas contas a pagar e a receber, concluímos que também comerciava. Embora no longo extrato acima não se tenha colocado a descrição das terras rurais e dos escravos, não deixa de ser um registro interessante pelo fato de apontar, segundo a sua ordem de prioridades, os bens de um homem refinado da época. Assim vemos que, já no século XVIII, no Maranhão, havia famílias que acrescentavam à necessidade de repouso um conjunto de objetos com vistas ao conforto, tais como: leito, lençóis, fronhas, travesseiros e almofadas. À mesa, toalha, guardanapos, louça fina e talher completo de prata. Ainda mais, para guardar estes objetos, possuíam armários, bofetes, baús e
1
Resplendor: auréola, coroa luminosa.
2
Chifarote: espada curta e reta. p. 254.
frasqueiras. No escritório, escrivaninha, caixas, cofre etc.
Carlos Pereira já nasceu nestas terras, embora seu padrão de consumo demonstrasse suas origens européias. Outro aspecto importante é que o testamento foi feito em 1765, o que comprovam as observações feitas de que, mesmo antes do “boom” agroexportador, as famílias de posses tinham acesso a um conjunto de objetos sofisticados para os padrões da Colônia. O que nos leva a crer que os de maior fortuna viviam em meio aos nativos e seus descendentes, aos escravos e alforriados, como se estivessem nas melhores cidades européias. Tanto que, desde o século XVII, os testamentos dos colonos e seus descendentes se referem às casas de sobrado, aos leitos, armários, etc. Os colonos mais aquinhoados conheciam um padrão de consumo e tentavam mantê-lo. Como bem destacou Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Caminhos e Fronteiras: “em tais paragens tratam os portugueses de provocar um ambiente que se adapte à sua rotina, às suas conveniências mercantis, à sua experiência africana e asiática” (1957, p. I).
Claro está que o mesmo não ocorria com a maioria das famílias que residiam no Maranhão. Algumas estavam reduzidas ao mínimo para sobrevivência e, sem de ter acesso aos bens que a riqueza poderia obter, continuaram com as mesmas condições de vida de antes, senão pior. Aludimos ao fato de que, antes do alastramento do sistema agroexportador, era comum nos testamentos dos colonos as referências a sítios nas proximidades dos núcleos urbanos. Estes praticamente desapareceram com o aproveitamento de todas as terras para o plantio do algodão. Conseqüentemente, pioraram as condições de vida dos mais pobres, pois grande parte de sua sobrevivência vinha destas pequenas unidades de produção agrícola.
Os espólios dão conta de que aqueles de pequenas posses estavam reduzidos ao mínimo, como no caso da família de Maria Francisca da Silva, que teve seus bens inventariados em 1821, no final do nosso período, portanto. Os bens do casal consistiam numa pequena “casa de madeira, coberta de palha”, na Rua dos Covões, periferia de São Luís, e de “uma cama ordinária com espelho de paparaúba, uma caixa velha de madeira ordinária e um tacho de arame usado” (inv. 54). Uma rede velha, um lençol de bertanha e outro de garças (sic), também já muito velhos, finalizavam toda a mobília da família. Os objetos eram exíguos, mas respondiam ao básico: um teto para se abrigar, um lugar para dormir, uma coberta para se cobrir, uma caixa para guardar os pertences miúdos, um tacho para cozinhar o que aparecesse. No entanto, a alguns metros dali, no bairro da Praia Grande e em seu entorno, algumas poucas famílias viviam cercadas de todo o requinte possível para a época, como veremos a seguir.
evolução dos objetos que atendem às necessidades humanas, do que verificar a difusão destes objetos naquela sociedade: quem os possuía e em que quantidade, observando as diferenças sociais e as hierarquias, marcadas pela posse ou não destes objetos.