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Os de reduzida e ínfimas posses – os alforriados

2. CAPITANIA DO MARANHÃO, COMPOSIÇÃO SOCIAL

2.3 Os de reduzida e ínfimas posses – os alforriados

A maior parte dos documentos da amostra representa moradores de São Luís de reduzidas e ínfimas posses. Muitos de origem mestiça, mas também poderiam ser brancos livres ou índios aculturados. Sem fortuna de família, sem a propriedade de terras rurais e recursos para cultivá-las, sobreviveram exercendo as mais diversas atividades. Poderiam ser funcionários de baixo escalão, oficiais mecânicos, pequenos comerciantes, atravessadores de gêneros, carregadores etc. Outra parcela significativa entre os inventariados eram mulheres viúvas ou solteiras, a maioria de reduzidas posses. Ao longo do trabalho, os haveres e o cotidiano dos que estavam neste nível de renda aparecerão, aqui e ali. No entanto, em meio a estes, encontramos um grupo distinto: os alforrriados. Achamos por bem nos determos mais demoradamente neste grupo, dada a sua condição social diferenciada.

Entre os mais de cinqüenta inventários trabalhados, uns cinco têm como titulares indivíduos que já foram escravos e guardam esta condição social particular. Estes registros chamam a atenção de qualquer pesquisador por sua preciosidade histórica, afinal, estas pessoas foram escravas, viviam em condições as mais adversas e conseguiram projetar sua vivência para a posteridade.

O documento mais interessante de ser trabalhado é o inventário de Vitoriano Ramos da Silva, pelo fato de ter sido juntado a este o testamento redigido a seu pedido. Esta não era uma prática comum, mas às vezes acontecia; talvez para fundamentar algum ponto no momento da partilha dos bens (inv. 11). Vitoriano Ramos era natural da Bahia, batizado na “freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Praia”, e deve ter migrado para a Capitania do Maranhão nas décadas finais do século XVIII, com certeza atraído pelo “boom” agroexportador do algodão e do arroz. Segundo ele mesmo conta, vivia há muitos anos em São Luís, na companhia de Maria dos Santos das Neves, também preta forra. Moravam num “quarto de casa”, na Rua de Santa Rita, “por detrás da Igreja de Nossa Senhora da Conceição”. Além deste imóvel, Vitoriano da Silva possuía ainda um terreno, na Rua Direita do Açougue, “comprado a Luiza Bernarda”. Contudo, estes não eram os bens de maior valor do baiano, ele possuía quatro escravos, dois africanos e dois crioulos, que totalizaram a quantia de quatrocentos e oitenta mil réis. Alforriado proprietário de escravos não era um fenômeno social incomum naquela organização social. Quase todos os moradores proprietários possuíam escravos, mesmo os pobres.

eram proprietários rurais. O casal de forros possuía doze escravos africanos que trabalhavam na lavoura de algodão. Totalizados os bens deste casal, chegamos à quantia de três contos, seiscentos e oitenta réis, uma fortuna mediana naquela conjuntura. Estes são os alforriados em melhor condição econômica que localizamos, pois a maioria dos ex-escravos estava entre aqueles de reduzidas posses.

Pela leitura do Testamento/Inventário de Vitoriano Ramos da Silva não é possível saber sua ocupação principal, talvez fosse “oficial mecânico” (ferreiro, carapina, calafate etc.), como inúmeros alforriados que viviam nos agrupamentos urbanos da América portuguesa. Sabemos que, durante sua vida, realizou inúmeras transações econômicas, pois menciona que comprou propriedades e que devia dinheiro a determinadas pessoas. Ainda, pediu que escrevesse que tinha “alguns negócios fora da terra, de que tudo sabe a minha testamenteira [Maria dos Santos das Neves]; ela apurará o seu importe e o monte, podendo demandar os meus devedores até seu cabal embolso” (inv. 11). Como se vê, a companheira de Vitoriano era uma mulher ativa, talvez fosse vendedora ambulante, como muitas da sua qualidade. Certo é que era pessoa bastante capaz para a defesa dos interesses do casal, como reconhece Vitoriano: “devo muitas obrigações e mesmo algumas quantias a minha testamenteira, deixo-lhe em remuneração disso o meu escravo Manoel, cujo domínio desde já lhe transpasso”. Constatar a autonomia social dos alforriados, e até de alguns escravos, enriquece a nossa compreensão sobre o escravismo e nos permite entrever que a resistência ao mesmo não se dava somente no espaço do quilombo.

Vitoriano Ramos, que era filho da preta forra Rosa Maria e “pai incerto”, reconheceu uma filha: Gondiana da Silva. Ele a instituiu sua herdeira universal e pediu que sua companheira a conservasse sempre em sua companhia, “mandando-a ensinar a coser, bordar, e tudo o mais que lhe for preciso para uso da vida, segundo a sua qualidade”. Aqui entramos em outra seara: as relações familiares dos alforriados. Vitoriano Ramos não era legitimamente casado, mas, ao ditar suas últimas vontades ao padre Joaquim Xavier de Araújo, disse que pretendia legalizar sua relação com Maria das Neves:

Declaro que neste momento, que suponho ser o termo da minha vida, projetei casar-me [com Maria das Neves], por desencargo de minha consciência e salvação de minha alma, estou a espera do meu Reverendo Pároco para celebrar esse [ casamento ] (...), [ tornando] a dita, minha mulher e meeira dos meus bens. (inv. 11)

Vemos que as relações familiares dos libertos pouco diferiam da dos livres, pois, apesar dos entraves existentes na sociedade escravista, muitos conseguiram constituir família e deixar legados a seus filhos. O momento da morte era a hora de garantir que a fortuna

amealhada em vida fosse transmitida aos entes queridos: à companheira de muitos anos e à filha tida com outra mulher, relações consensuais engendradas fora do casamento legalizado. Vemos a afetividade se manifestar também quando Vitoriano alforria Joanna Maria Marques, “mulatinha de cinco anos, filha de sua escrava Francisca, de nação bijagó”. Segundo ele, fazia isto “pelo amor de Deus e pelo bem que lhe quero”. Apesar das linhas tortas, aqui temos sentimentos, relações familiares (inv. 11).

Finalmente, por estes documentos, vemos que Vitoriano Ramos - que foi batizado e, aconselhado por seu pároco, casou-se perante a Igreja - era membro ativo da comunidade católica, como demonstra por suas últimas vontades. Vemos que fazia parte das Irmandades do Senhor Santo Cristo, do Senhor São José do Desterro e de Nossa Senhora do Rosário, “em cuja igreja será sepultado o meu corpo, amortalhado no hábito de São Francisco e acompanhado pelo meu reverendo pároco e cruz de fábrica com seis capelães da Sé” (inv. 11).

Por inúmeros indícios, percebemos que Vitoriano Ramos tentou viver conforme os padrões dominantes naquela sociedade. No entanto, constatamos que sua inserção deu-se até certo ponto. Embora fosse proprietário, senhor de alguns escravos e vivesse conforme os preceitos da religião católica, não conseguiu apagar a marca da escravidão, pois, em todos os registros, consta sua condição social: preto forro.

O conteúdo dos documentos logo acima mencionados nos fala sobre a complexidade do sistema escravista e sobre a inserção do alforriado. Faz-nos refletir acerca da visão simplista existente sobre o escravismo; visão que cristaliza a imagem a-histórica do senhor malvado e do escravo submisso e que coloca os poucos indivíduos que se rebelaram aquilombados nas matas, segregados socialmente. As coisas não foram tão simples assim; tanto que nos chegaram alguns registros tendo como titulares alforriados, e são recorrentes, nos testamentos do período, as referências a alforrias. Embora estes sejam registros raros em meio a um imenso silêncio dos milhares de escravizados que existiram; contudo, se estes documentos chegaram até nós, é porque existiam “brechas”, possibilidades de sobrevivência e até de ascensão social naquela formação histórica.

As observações sobre os moradores da Capitania que estavam nos níveis intermediário e inferior de renda possibilitam análises comparativas mais fundamentadas. O estudo preliminar exposto acima mostra, de forma muito enfática, a diversidade de vivências

do processo e a concentração de riquezas ocorrida com a montagem do sistema agroexportador na região.

No entanto, nosso objeto de estudo são as elites regionais. A seguir, discorreremos mais minuciosamente sobre sua atuação política naquele momento histórico. Em especial, quando dos movimentos que levaram à separação de Portugal.