2.2 MULTIPLICIDADE DE CONCEPÇÕES DE SUSTENTABILIDADE
2.2.8 Do ponto de vista da Organização das Nações Unidas
2.2.8.2 Aspectos da sustentabilidade tratados na Rio +20
Passados dez anos desde a Rio 92, foi realizada em 2012 a Rio +20 ou Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, na qual foram renovados os compromissos
519 PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. Relatório do desenvolvimento
humano de 2011: sustentabilidade e equidade: um futuro melhor para todos. New York: PNUD/IPAD, 2011. p. 4.
520 PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. Relatório do desenvolvimento
humano de 2013: a ascensão do sul: progresso humano num mundo diversificado. New York: PNUD/ CAMÕES
– Instituto da Cooperação e da Língua, 2013. p. 34.
163 assumidos na Rio 92, reafirmados os princípios lá esposados e a necessidade de reforçar o desenvolvimento sustentável, bem como foi definida a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas.
Dentre os principais temas tratados na Conferência estão a economia verde no âmbito do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável.
Ao longo dos seus 283 itens o documento final da Conferência intitulado o futuro que
queremos faz uso intenso do termo desenvolvimento sustentável e logo no princípio identifica
a pobreza como o maior desafio que o mundo hoje enfrenta e o requisito indispensável para o
desenvolvimento sustentável (tradução nossa).522
Os países reconheceram que apesar dos progressos desde a Rio 92, ocorreram retrocessos econômicos, sociais e ambientais e, que apesar dos esforços por Governos e agentes não estatais em todos os países, o desenvolvimento sustentável continua sendo uma meta distante e ainda restam grandes barreiras e lacunas sistêmicas na implementação de compromissos aceitos internacionalmente.
Frisou-se que desde 1992 até 2012 ocorreram contratempos em alguns aspectos da integração das três dimensões do desenvolvimetno sustentável agravados pelas diversas crises financeiras econômicas e pela crise de alimentos e energia que têm comprometido a capacidade de todos os países, em especial dos em desenvolvimento.
Segundo o relatório da Rio +20 a ONU deixa claro que entende o desenvolvimento sustentável em três pilares, sendo eles, o econômico, social e ambiental, de tal forma que no item 3 os países reconhecem a necessidade de incorporar ainda mais o desenvolvimento sustentável em todos os níveis, integrando seus aspectos econômicos, sociais e ambientais, reconhecendo o vínculo existente entre eles com o fim de alcançar o desenvolvimento econômico.
E para acelerar o implemento dos compromissos de desenvolvimento sustentável, os estados se comprometeram a revitalizar as metas firmadas para o desenvolvimento econômico, social e ambiental, sendo que hoje o primeiro pilar sofre com a crise econômico-financeira e com um modelo produtivo que além de causar vários e intensos impactos ambientais por ainda depender muito dos recursos naturais é falho na eliminação da pobreza; o segundo pilar é
522 Item 2 do Documento final da Conferência Rio +20. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS
SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20, 2012, Rio de Janeiro. Documento final de al Conferencia: el futuro que queremos, Rio de Janeiro, ONU, jun. 2012. p. 1.
164 assolado com o desemprego e desigualdades sociais e, o terceiro pilar está perto de ruir por contas dos diversos problemas ambientais, dentre eles o aquecimento global e a desertificação.
O item 76 inserido na seção sobre o fortalecimento das três dimensões do
desenvolvimento sustentável prevê que o quadro institucional deve ser reforçado e, dentre
outros, promover a integração equilibrada das três dimensões do desenvolvimento sustentável.523
E na fixação das metas a serem cumpridas pelo desenvolvimento sustentável, resta consolidado que seus objetivos devem abordar e incorporar uniformemente três dimensões do desenvolvimento sustentável e suas inter-relações, sendo coerentes com a agenda da ONU para o desenvolvimento para além de 2015.524
Espera-se, inclusive, que essas três dimensões se incorporem ainda mais ao sistema da ONU, sendo observadas pelo Conselho Econômico e Social que, por sua vez, terá a missão de observar os progressos realizados no sentido de efetivação dos três pilares e, por consequência, do desenvolvimento sustentável.
Diálogo e participação social, democracia e a boa governança são outros pontos fortes levantados no relatório como essenciais ao desenvolvimento sustentável. As discussões precisam ocorrer em todos os níveis de forma eficaz, transparente, responsável e democrática.525 Devem ser estabelecidas alianças entre os indivíduos, governos, sociedade civil e setor privado para que, em conjunto, seja alcançado o futuro que queremos.526
Reafirma-se a importância da efetiva atuação do poder legislativo e governo, em todos os níveis, assim como da participação da comunidade, dos cidadãos e interessados no processo de tomada de decisões para a promoção do desenvolvimento sustentável. Vale ressaltar que o documento traz em vários momentos a necessidade da participação social e, antes disso, do fornecimento de informações e instrução aos direta ou indiretamente interessados, especialmente quanto às três dimensões do desenvolvimento sustentável, in verbis:
Ressaltamos que a ampla participação do público e o acesso à informação e aos procedimentos judiciais e administrativos são essenciais para promover o desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável requer a implicação produtiva e a participação ativa das autoridades legislativas e judiciais, regionais, nacionais e sub-nacionais, e todos os grupos principais: mulheres, crianças e jovens, povos indígenas,
523 CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20..., p.
15-16.
524 Item 246 do Documento final da Conferência da Rio +20. V. Ibid., p. 51. 525 Item 10 do Documento final da Conferência da Rio +20. Ibid., p. 2. 526 Item 13 do Documento final da Conferência da Rio +20. Ibid., p. 3.
165 organizações não-governamentais, autoridades locais, trabalhadores e sindicatos, empresas e indústria, comunidade científica e tecnológica e agricultores, e outras partes interessadas como as comunidades locais, os grupos de voluntários e as fundações, os migrantes, as famílias, idosos e deficientes. Nesse sentido, concordamos em trabalhar de forma mais estreira com os grupos principais e demais interessados, inventivando a sua participação ativa, conforme o caso, em processos que contribuem para a adoção de decisões, planejamento e implementação de políticas e programas que promovam o desenvolvimento sustentável em todos os níveis.527
Além do diálogo social democrático, o desenvolvimento sustentável pressupõe a cooperação internacional528 e troca de experiência entre os países, principalmente para a tomada de decisões a nível mundial que influenciarão internamente. São questões suscitadas pelo documento em várias ocasiões, incentivando que sejam formadas redes de contato e alianças através dos quais os Estados possam aprender uns com os outros quanto às políticas que deram certo, especialmente para a adoção de uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza.529
A participação dos Estados é crucial na elaboração em patamar internacional das normas que influenciarão nas estruturas de governança e nos direitos internos, exigindo transformações significativas nas instituições públicas e privadas dos países.
O documento ressalta a necessidade de ampliar a capacidade dos Estados para o desenvolvimento sustentável e, para isso, aponta o fortalecimento da cooperação técnica e científica entre os países, incluída a cooperação norte-sul e sul-sul, ampliando a capacidade institucional em planejar, gerir e supervisionar.
Nesse sentido, a ONU afirma a importância do acesso de todos os países às tecnologias ambientalmente racionais, a novos conhecimentos e a conhecimentos técnicos e especializados que possibilitem a melhor realização dos três pilares do desenvolvimento sustentável, especialmente para criar mecanismos, estratégias e instrumentos mais eficientes no uso dos recursos naturais ou, melhor, que afastem a necessidade do uso da natureza nos processos de produção. A tecnologia da comunicação, por exemplo, tem sido instrumento imprescindível por ampliar as possibilidades de trocas entre os países, a economia de tempo e dinheiro.
527 Item 43 do Documento final da Conferência Rio +20. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS
SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20..., p. 8. O item 44 trata da importância da participação dos membros da sociedade civil no desenvolvimento sustentável e a necessidade de ampliar o acesso à informação da sociedade através dos meios de comunicação e da tecnologia da informação para o sucesso dessa participação. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20..., p. 8.
528 Item 11, 17 e 19 do Documento final da Conferência Rio +20. V. Ibid., p. 2 e 4. 529 Item 64 do Documento final da Conferência Rio +20. V. Ibid., p. 13.
166 Da mesma forma, torna-se imperioso criar – onde não há – e aumentar a capacidade científica dos países, estimulando pesquisas que vislumbrem a realização do desenvolvimento sustentável em todos os seus níveis através de propostas inovadoras e ambientalmente racionais.
Noutro ponto, ao considerar que o maior desafio a ser enfrentado é a pobreza, sendo imprescindível a erradicação de todas as suas formas para que as sociedades sejam inclusivas, justas e igualitárias, a ONU reafirma a necessidade de conceder aos pobres e pessoas em situação vulnerável, meios para a melhoria de vida, seja através da eliminação dos obstáculos às oportunidades de emprego, do fomento e apoio à capacitação profissional, do desenvolvimento da agricultura sustentável, da promoção do pleno emprego e do trabalho decente para todos.
E para o sucesso dessa investida o documento aponta para a implantação de políticas públicas e sociais eficazes no sentido de manter os níveis mínimos de proteção social para a efetivação do desenvolvimento sustentável, engendrando planos para a diminuição e, quiçá, erradicação dos altos índices de desemprego e subemprego, especialmente entre jovens, através de estratégias mundiais baseadas nos planos de ação da OIT.
Ademais, o relatório evidenciou a imprescindibilidade da participação dos trabalhadores e sindicatos na promoção do desenvolvimento sustentável, realçando o papel dos sindicatos enquanto importantes associados na realização daquele, especialmente em sua dimensão social. E ainda afirma que, a informação, a educação e a capacitação em matéria de sustentabilidade
em todos os níveis, incluindo o local de trabalho, são essenciais para reforçar a capacidade dos trabalhadores e dos sindicatos para apoiar o desenvolvimento sustentável.530
Com o subtítulo promoção do pleno e produtivo emprego, do trabalho decente para
todos e da proteção social531, o documento final da Rio +20 efetivamente reconhece que a
erradicação da pobreza, o pleno e produtivo emprego, o trabalho decente para todos, a integração e a proteção social estão relacionados entre si e se reforçam mutuamente e, por isso, devem ser criados meios propícios para que sejam promovidos em todos os níveis da sustentabilidade.532
530Item 51 do Documento final da Conferência Rio +20. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS
SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20..., p. 10.
531 Item 147 do Documento final da Conferência Rio +20. V. Ibid., p. 31 e ss.
532 Item 147 do Documento final da Conferência Rio +20. V. Ibid., p. 31. Sobre a Rio +20 Melissa Leach afirma
que em junho de 2012 no Rio de Janeiro existiram dois encontros distintos, um era a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, no Rio Centro e o outro no Aterro do Flamengo, a chamada Cúpula dos Povos. Segundo a autora os dois encontros deixaram claro que a sustentabilidade não é um desafio
primariamente técnico. Ela é, fundamentalmente, uma questão política. [...] A sustentabilidade não é uma coisa só. É necessário reconhecer os múltiplos objetivos de sustentabilidade e os diferentes futuros possíveis, aos quais diferentes pessoas e grupos dão prioridade em diferentes escalas, assim como as disputas e escolhas entre eles.
167 Ao ressaltar a preocupação com o mercado de trabalho e a escassez de oportunidades de trabalho decente, especialmente para mulheres e jovens, a ONU convoca os governos a enfrentarem esses desafios através da elaboração e aplicação de estratégias e políticas que concedam oportunidades iguais de emprego a todos, inclusive a jovens e mulheres, e que sejam oportunidades de trabalho decente e produtivo.
Insta destacar que segundo o documento, a ONU compreende que o desenvolvimento sustentável deve ser um processo inclusivo e centrado nas pessoas, que beneficie e conceda participação a todos, incluindo os jovens e as crianças, proporcionando proteção e igualdade de direitos, de acesso e de oportunidades, seja para ou no emprego, seja nas decisões políticas acerca do mercado de trabalho.
O relatório reconhece a existência e a necessidade de respeito à diversidade cultural, considerando que é importante a participação dos diferentes povos na tomada de decisão, fazendo menção especial aos povos indígenas.533
Por fim, mas não sendo este o último tema a ser tratado pelo Relatório Final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, dedica-se uma seção em especial às considerações acerca da Economia Verde no contexto do Desenvolvimento
Sustentável e da erradicação da pobreza, que foi um dos principais assuntos abordados no
encontro.
A economia verde é tratada pela ONU enquanto elemento primordial na consecução do desenvolvimento sustentável, vejamos:
[...] a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza é um dos instrumentos mais importantes disponíveis para alcançar o desenvolvimento sustentável e que poderia oferecer alternativas para a formulação de políticas, mas não deve ser um conjunto de normas rígidas. Destacamos que a economia verde deve contribuir para a erradicação da pobreza e o crescimento econômico sustentável, aumentar a inclusão social, melhorando o bem-estar humano e na criação de oportunidades de emprego e trabalho decente para todos, mantendo ao mesmo tempo o funcionamento saudável da terra.534
O desafio é, portanto, abrir a política da sustentabilidade para reconhecer e permitir a negociação entre diferentes caminhos possíveis. LEACH, Melissa. Caminhos para a sustentabilidade: construindo estratégias
políticas. In: THE WORLDWATCH INSTITUTE. Estado do mundo 2013: a sustentabilidade é possível? Salvador: UMA, 2013. p. 136.
533 Itens 41 e 49 do Documento final da Conferência Rio +20. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS
SOBRE EL DESAROLLO SOSTENIBLE, Rio +20..., p. 8 e 9.
534 Item 56 do Documento final da Conferência Rio +20. V. CONFERENCIA DE LAS NACIONES UNIDAS
168 Portanto, concluindo a concepção de sustentabilidade segundo a ONU, é possível perceber que o termo desenvolvimento sustentável utilizado pelas Nações Unidas abarca a sustentabilidade em três dimensões: a social, a econômicas e a ambiental, também chamadas de três pilares do desenvolvimento sustentável.
Percebe-se que a efetivação da sustentabilidade depende da realização dessas três dimensões, que estão interligadas entre si, pois não há como falar em crescimento econômico, sem justiça social e equilíbrio ecológico, assim como não é possível a proteção social sem promoção da sustentabilidade ambiental e do crescimento econômico. Da mesma forma, o equilíbrio ecológico depende do bem estar social, da erradicação da pobreza e de um sistema econômico sustentável, cujas atividades busquem causar o menor impacto possível na natureza, eis que imprescindível a harmonia entre o natural, o humano e o econômico.