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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE DIREITO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO AGROAMBIENTAL NÍVEL MESTRADO MICHELE BEUTINGER DE MATTOS

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE DIREITO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO AGROAMBIENTAL NÍVEL MESTRADO

MICHELE BEUTINGER DE MATTOS

O TRABALHO DECENTE NA BUSCA PELA SUSTENTABILIDADE

CUIABÁ 2014

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MICHELE BEUTINGER DE MATTOS

O TRABALHO DECENTE NA BUSCA PELA SUSTENTABILIDADE

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito Agroambiental, na área de Direito Ambiental do Trabalho, oferecido pela Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial a obtenção do título de Mestre em Direito.

Orientação: Professor Doutor Bismarck Duarte Diniz

CUIABÁ 2014

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Com intenso amor e júbilo dedico a Jesus, Emanuel, Yeshua, Príncipe da Paz, Médico dos médicos, Leão da tribo de Judá, Senhor dos Exércitos, Rei dos reis, para sua Honra e Glória; ao meu esposo Thiago, meu Amor e amigo; e ao nosso Presente de Deus e filho amado, Isaque Emanuel.

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Agradeço com todo meu ser e louvor a Deus, por seu infinito amor e por ouvir e atender minhas orações; por cuidar do meu Amado e Anjinho Isaque Emanuel desde o meu ventre; por cuidar do meu esposo e da minha família, nos concedendo saúde, fé e força.

Agradeço de todo coração e com grande emoção ao meu orientador, Prof. Dr. Bismarck Duarte Diniz, por toda sua compreensão, apoio, dedicação, paciência, carinho e por me ensinar a valorizar as humanidades.

Agradeço, na pessoa da Profª Dra. Carla Reita Faria Leal, pela dedicação e lições de todos os professores do Programa de Mestrado em Direito Agroambiental da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Mato Grosso.

Agradeço, na pessoa do servidor Sr. Gabriel Plácido de Barros, à Secretaria do Mestrado pela presteza nas ajudas sempre que necessitei.

Agradeço aos colegas da primeira, segunda e terceira turma pelo saudável e contributivo convívio durante esses anos de estudo.

Agradeço o apoio da Dona Eliane e da Lorrayne.

Agradeço minha mãe querida por todo o amor e apoio sempre que precisei e ao meu pai por seu amor e carinho.

Agradeço às minhas amigas e aos meus irmãos em Cristo pelas orações.

Agradeço ao meu amor, esposo, amigo e companheiro Thiago por sua compreensão, carinho, amor, incentivo, apoio e orações.

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Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de EMANUEL. (EMANUEL traduzido é: Deus conosco). Mateus 1, 23 – Bíblia de estudo pentecostal. CPAD Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim. João 14, 6. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé no Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim. Gálatas 2,

20.

Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Romanos 8, 18.

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RESUMO

O arcabouço estratégico, político, normativo e principiológico envolto na promoção do trabalho decente é fundamental na busca pela efetivação da sustentabilidade em diversos de seus aspectos. O objetivo é demonstrar que o trabalho decente compreendido a partir da concepção do meio ambiente do trabalho é elemento que realiza os objetivos estratégicos da Organização Internacional do Trabalho - OIT, quais sejam, o respeito aos direitos do trabalho; a promoção de mais e melhores empregos; a extensão da proteção social; e o fortalecimento do diálogo social, e nessa condição produz efeitos de extrema relevância nas perspectivas da sustentabilidade que, por sua vez, se apresenta enquanto novo paradigma a ser alcançado pela humanidade. Para tanto, mediante revisão bibliográfica de obras de direito ambiental do trabalho, direito do trabalho e direito ambiental, bem como das diversas publicações da OIT, disserta-se acerca da construção, abrangência e promoção do trabalho decente, descrevendo em seguida como a sustentabilidade se tornou imprescindível para todos os setores da sociedade e da vida humana na terra e ganhou a multiplicidade de concepções relacionadas na pesquisa. Chega-se, desta forma, às evidências de que a promoção do trabalho decente implica na realização das perspectivas econômica, social, ambiental, política e cultural da sustentabilidade. Isso indica que no caminho a ser trilhado pela humanidade em prol da efetivação da sustentabilidade, a promoção do trabalho decente é inafastável, pois o desemprego, a informalidade, o trabalho infantil e forçado, o trabalho sem as mínimas condições de saúde e segurança, o tratamento desigual para e no emprego, a falta de diálogo social, e outros problemas que andam na contramão do trabalho decente, produzem pobreza, desigualdade social, desequilíbrio ambiental, prejuízos econômicos e políticos que impedem um mundo sustentável.

PALAVRAS-CHAVES: Trabalho. Decente. Meio Ambiente. Sustentabilidade.

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ABSTRACT

The strategic outline, political, normative and principle logical wrapped in promoting decent work is crucial in the search for effective sustainability in many of its aspects. The objective is to demonstrate that decent work understood from the working environment is part of the job that performs the strategic objectives of the International Labor Organization – ILO, namely, respect for labor rights; promoting more and better jobs; the extension of social protection; and strengthening social dialogue, and this condition produces effects of extreme relevance from the perspectives of sustainability which, in turn, is presented as a new paradigm to be attained by humanity. Thus, through literature review of works of environmental law work, labor law and environmental law, as well as various publications of the ILO, dissertations about the construction, scope of promoting decent work, describing then how sustainability has become essential for all sectors of society and human life on earth and won the multiplicity of conceptions related in the research. This way, we get the evidence that the promotion of decent work implies the realization of economic prospects, social, environmental, political and cultural sustainability. This indicates that the path to be followed by humanity in favor the realization of sustainability, the promotion of decent work is unremovable, since unemployment, informality, child and forced labor, the work without the minimum health and safety, the unequal treatment in employment and work, lack of social dialogue, and other problems that go against the decent work, produce poverty, social inequality, environmental imbalance, economic and political losses that impede sustainable world.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 11

1 CONSTRUÇÃO E ABRANGÊNCIA DO TRABALHO DECENTE ... 17

1.1 DA ORIGEM DO TRABALHO À BUSCA DO TRABALHO DECENTE ... 18

1.1.1 Da coleta e caça do período pré-histórico ao trabalho na Terra na Idade Antiga .. 20

1.1.2 Do sistema feudal da Idade Média à retomada comercial na Idade Moderna ... 26

1.1.3 Da Revolução Industrial aos dias atuais ... 29

1.1.4 Breves aspectos da história do trabalho no Brasil ... 40

1.2 TRABALHO DECENTE A PARTIR DA CONCEPÇÃO DE MEIO AMBIENTE DO TRABALHO ... 42

1.2.1 Considerações históricas acerca da proteção do Meio Ambiente ... 43

1.2.2 Abrangência do Meio Ambiente do Trabalho ... 48

1.2.2.1 Transcendência do Meio Ambiente do Trabalho para além do local de trabalho ... 52

1.2.2.2 Direito Ambiental do Trabalho e o estudo do Meio Ambiente do Trabalho ... 56

1.2.2.3 Trabalho decente e a proteção do Meio Ambiente do Trabalho ... 58

1.3 PROMOÇÃO E COMPREENSÃO DO TRABALHO DECENTE NA PERSPECTIVA DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO – OIT ... 60

1.3.1 Promoção do Trabalho Decente pela Organização Internacional do Trabalho ... 61

1.3.2 Compreensão do Trabalho Decente segundo a perspectiva da Organização Internacional do Trabalho ... 67

1.3.2.1 Dignidade da pessoa humana: um trabalhador feliz? ... 70

1.3.2.2 Trabalho em condições de liberdade e segurança ... 82

1.3.2.2.1 Liberdade de escolha e sua afetação pelo trabalho forçado, escravo e infantil ... 83

1.3.2.2.2 Liberdade de associação profissional e sindical ... 85

1.3.2.2.3 Trabalho em condições de segurança e saúde ... 87

1.3.2.3 Igualdade de oportunidades e de tratamento no emprego ... 88

1.3.2.4 Remuneração adequada e trabalho produtivo ... 93

2 CONCEPÇÕES ACERCA DO NOVO PARADIGMA SUSTENTABILIDADE ... 99

2.1 DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL AO ANSEIO PELA SUSTENTABILIDADE ... 101

2.1.1 Conferências Internacionais sobre Meio Ambiente e o binômio desenvolvimento sustentável ... 102

2.1.2 O termo desenvolvimento sustentável e a outra face do discurso ... 106

2.1.3 Anseio pela sustentabilidade ... 112

2.2 MULTIPLICIDADE DE CONCEPÇÕES DE SUSTENTABILIDADE ... 115

2.2.1 Dimensões da sustentabilidade segundo Ignacy Sachs ... 124

2.2.2 Novo valor na perspectiva de José Eli da Veiga ... 128

2.2.2.1 Indicadores da sustentabilidade ... 134

2.2.3 Visão holística integradora de Leonardo Boff ... 136

2.2.3.1 Nova cosmologia ... 139

2.2.3.2 Interação sinérgica e sintonizada para a sustentabilidade ... 141

2.2.4 Triple bottom line conceituado por John Elkington ... 142

2.2.4.1 Os três pilares: econômico, ambiental e social ... 145

2.2.5 Paradigma alternativo de sustentabilidade na racionalidade ambiental de Enrique Leff ... 148

(11)

2.2.6 Natureza multidimensional da sustentabilidade na concepção de Juarez Freitas 152

2.2.7 Desafios da sustentabilidade por Fernando Almeida ... 154

2.2.8 Do ponto de vista da Organização das Nações Unidas ... 157

2.2.8.1 De Estocolmo à Cúpula Mundial de 2002 ... 160

2.2.8.2 Aspectos da sustentabilidade tratados na Rio +20 ... 162

2.3 PARADIGMA SUSTENTABILIDADE ... 168

3 TRABALHO DECENTE NA BUSCA DA SUSTENTABILIDADE ... 171

3.1 ÍNDICES DO MERCADO DE TRABALHO – FORMAL E INFORMAL - QUE COMPROMETEM A SUSTENTABILIDADE ... 173

3.2 PERSPECTIVAS DE SUSTENTABILIDADE E A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DECENTE ... 177

3.2.1 Sustentabilidade econômica ... 179

3.2.1.1 Importância das empresas sustentáveis ... 186

3.2.1.2 Necessidade de fomentar uma economia e empregos verdes ... 190

3.2.2 Sustentabilidade social ... 194

3.2.2.1 Aspectos da proteção e inclusão sociais através da promoção do trabalho decente... 197

3.2.2.1.1 Combate ao trabalho informal e ao desemprego ... 200

3.2.2.1.2 Combate à discriminação no mundo do trabalho ... 203

3.2.2.1.3 Erradicação do trabalho infantil e do trabalho forçado ... 206

3.2.2.1.4 Seguridade social ... 210

3.2.2.1.5 Integração de migrantes e refugiados ambientais ... 212

3.2.3 Sustentabilidade ambiental ... 214

3.2.3.1 Princípios de proteção do meio ambiente laboral: instrumentos na busca da sustentabilidade ambiental ... 219

3.2.3.2 Prevenção dos acidentes e doenças decorrentes do trabalho: desenvolvimento e produtividade, redução dos prejuízos e da pobreza ... 227

3.2.3.3 Jornadas sustentáveis e gestão hominal ... 230

3.2.3.4 Contribuição do esverdeamento dos empregos, empresas e economia mundial na consecução da sustentabilidade ... 234

3.2.4 Sustentabilidade política ... 238

3.2.4.1 Diálogo social tripartite ... 241

3.2.4.1.1 Estados, empresas e empregados ... 245

3.2.4.1.2 Atuação dos sindicatos ... 248

3.2.4.2 Cooperação internacional para governança global participativa ... 252

3.2.4.3 Atuação integrada de organizações internacionais e outras atuações ... 257

3.2.5 Sustentabilidade cultural ... 260

3.2.5.1 Diálogo de saberes e a educação ambiental... 261

3.2.5.2 Conscientização dos envolvidos no mundo do trabalho ... 265

3.3 UTOPIA, SERÁ? ... 267

CONCLUSÕES ... 271

(12)

11 INTRODUÇÃO

O anseio pelo trabalho que conceda vida digna ao trabalhador nasceu muito antes da década de 90, mas foi em 1999 que o binômio trabalho decente recebeu da Organização Internacional do Trabalho – OIT a qualidade de condição imprescindível à redução das desigualdades sociais, superação da pobreza, garantia da governabilidade democrática e do desenvolvimento sustentável, pois tem o efeito de somatizar os objetivos estratégicos da OIT que são promover mais e melhores oportunidades de emprego para homens e mulheres, em condições de igualdade, liberdade, segurança e dignidade humana, visando à extensão da proteção social, à superação do desemprego, à erradicação do trabalho do forçado, do trabalho infantil e da informalidade, ao respeito aos direitos no trabalho e, ao fortalecimento do diálogo social.

Além de principal objetivo da OIT, o trabalho decente é considerado o objetivo global para o mundo do trabalho e pressuposto quando o assunto é a proteção do meio ambiente do trabalho, pois este apenas atinge seu equilíbrio se for extensão do trabalho decente, eis que a não garantia deste gera a degradação daquele.

E enquanto elemento intrínseco à realização do direito fundamental ao meio ambiente do trabalho equilibrado, o trabalho decente supera a defesa de direitos trabalhistas e individuais e transcende a esfera do trabalhador e de sua família produzindo efeitos econômicos, sociais, políticos, ambientais e culturais em toda a sociedade global, interferindo diretamente nas atividades das empresas e Estados.

Nesse sentido, e na atual conjuntura de emergência socioambiental, o arcabouço normativo, principiológico, estratégico e político que envolve a promoção do trabalho decente se revela como importante instrumento na busca pela efetivação do novo paradigma da sustentabilidade, justamente porque reflete a realização dos diversos aspectos desta.

E isso evidencia uma estreita ligação entre um e outro, ou seja, entre o trabalho decente e a sustentabilidade, pois a crise social, ambiental, política e econômica é severamente acompanhada por processos que reproduzem a indignidade humana e evidenciam também um mundo do trabalho doentio, no qual milhares de homens e mulheres quando não inseridos na grande malha do desemprego, sobrevivem de um trabalho às margens da sociedade e dos direitos fundamentais à vida, submetidos a trabalhos degradantes e indignos sem o mínimo das condições de higiene, saúde e segurança, muitas vezes confinados na informalidade, com

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12 remunerações injustas e jornadas desumanas. Todas situações que vão no caminho oposto ao da sustentabilidade.

E firmada nesses fatos que a pesquisa nasceu tendo como objeto o trabalho decente e sua qualidade de elemento imprescindível na busca pela efetivação da sustentabilidade.

O objetivo geral é demonstrar que enquanto conversor dos objetivos estratégicos da OIT de promover o respeito aos direitos do trabalhador, a promoção de mais e melhores empregos, a extensão da proteção social, bem como o fortalecimento do diálogo social, o trabalho decente, promovido segundo as políticas, normativas e ações da OIT, produz efeitos nas esferas sociais, econômicas, ambientais, políticas e culturais para além dos limites do trabalhador e do meio ambiente do trabalho, se revelando como elemento imprescindível na efetivação das perspectivas da sustentabilidade.

Trata-se de evidenciar que a promoção tripartite do trabalho decente pode ser entendida como uma das formas de efetivação da sustentabilidade, pois é impossível falar em realização desta sem que ocorra a concretização daquele. A busca de um implica na efetivação do outro, e vice-versa. Estratégias e políticas realizadas em prol do trabalho decente interferem na consumação da sustentabilidade.

Os objetivos específicos são descrever a construção e abrangência do termo trabalho

decente, partindo da origem do trabalho à busca do trabalho decente; compreender o trabalho

decente a partir da contextualização do meio ambiente do trabalho; examinar o papel desempenhado pela OIT na promoção do trabalho decente e os objetivos estratégicos que o formam; compreender o que é sustentabilidade através de breve estudo da conjuntura histórica e, principalmente, ambiental, na qual o termo sustentabilidade recebeu citação mundial, bem como da multiplicidade de concepções acerca da sustentabilidade; e, por fim, demonstrar que o trabalho decente é elemento primordial na busca pela efetivação da sustentabilidade, relacionando as perspectivas desta que são realizadas através da promoção daquele.

Inserido na linha de pesquisa de Meio Ambiente do Trabalho do Programa de Mestrado em Direito Agroambiental da Universidade Federal do Mato Grosso, o estudo acerca do trabalho decente despertou a necessidade de compreender a sua qualidade enquanto possível contributo da sustentabilidade.

A sustentação teórica para a efetivação da pesquisa, exploração do objeto proposto e alcance dos objetivos será realizada com base em obras produzidas por autores brasileiros e estrangeiros que abordam as diferentes categorias de análise necessárias para a realização do trabalho, dentre elas, meio ambiente do trabalho, trabalho decente e sustentabilidade.

(14)

13 Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, para a efetivação do tema ora proposto será preciso a conjunção de mais de um tipo de pesquisa, a saber a pesquisa bibliográfica e documental, que se fará através do estudo descritivo da realidade.

Dentre as fontes secundárias a serem estudadas mediante a pesquisa bibliográfica, estão obras escritas que tragam informações, análises, reflexões e interpretação de temas relacionados ao objeto da pesquisa, especialmente os que tratam de direito ambiental, meio ambiente do trabalho, direito do trabalho, dignidade, segurança, medicina e higiene do trabalho, trabalho decente, economia social, desenvolvimento econômico, sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, proteção ambiental, entre outros.

Especial fonte de pesquisa também será o material publicado e disponibilizado pela OIT, que nos últimos anos tem investido sobremaneira em sua missão de promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter efetivo acesso ao trabalho decente. Da mesma forma, as publicações da Organização das Nações Unidas - ONU, do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA, são importantes fontes de informações quanto ao trabalho decente e a sustentabilidade.

Para a maior parte da construção do trabalho serão utilizadas as fontes secundárias de pesquisa, dentre elas os livros, teses, artigos e outras publicações que tratem da temática, mas ainda serão utilizadas algumas fontes primárias, quais sejam dados estatísticos, convenções e leis fornecidas por órgãos oficiais nacionais e internacionais.

A construção do pensamento será desenvolvida através do método dedutivo e no que tange ao método de procedimento adota-se o método estruturalista, construindo-se o instrumental a partir da identificação e listagem da bibliografia e de outras fontes que forneçam informações sobre o tema da pesquisa, sendo seguido da obtenção das fontes, seja pela via impressa ou digital.

Quanto à problematização do tema, existem diversos questionamentos a serem superados no decorrer da elaboração do relatório de pesquisa, sendo eles: O que se deve entender por trabalho decente e por que ele é considerado pela OIT enquanto conversor de seus objetivos estratégicos? Qual a relação entre trabalho decente e meio ambiente do trabalho? O que é sustentabilidade e por que podemos chama-la de novo paradigma a ser alcançado pela humanidade? E, por que o trabalho decente é imprescindível para a realização da sustentabilidade?

Por isso, o desafio da pesquisa será justamente evidenciar como a promoção do trabalho decente pela OIT mediante uma democracia participativa que envolve os Estados, empregados,

(15)

14 empregadores e a sociedade civil em geral se tornou de grande relevância para a realização da sustentabilidade em suas perspectivas econômica, social, ambiental, política e cultural.

Forçoso, ainda, reconhecer que o estudo dedicado ao meio ambiente do trabalho é desafiador, pois é tema relativamente recente na seara acadêmica se comparado às demais disciplinas do direito, e a carência de estudos e doutrinas se acentua quando o estudo se deleita na compreensão da sustentabilidade.

O trabalho será estruturado em três momentos ou capítulos, cabendo ao primeiro capítulo a compreensão do trabalho decente, ao segundo o estudo da sustentabilidade e ao terceiro a demonstração da relação existente entre o trabalho decente e a sustentabilidade.

Em mais detalhes, a pesquisa objetiva no primeiro capítulo tratar da construção e abrangência do trabalho decente realizando num primeiro momento um breve relato da história do trabalho desde os primórdios da humanidade até os dias em que o binômio trabalho decente recebeu a qualidade de conversor dos principais objetivos estratégicos da OIT em 1999.

Em seguida, e para demonstrar que a pesquisa se insere na área de pesquisa do direito ambiental do trabalho, pretende-se elaborar um estudo sobre a abrangência do meio ambiente do trabalho com o intuito de evidenciar que o trabalho decente está inserido na tutela do ambiente laboral ao passo que é instrumento da realização dessa e eixo central do direito fundamental ao meio ambiente do trabalho equilibrado.

Ainda no primeiro capítulo a finalidade é verificar como a OIT tem promovido o trabalho decente pelo mundo e como é construído o conceito desse binômio segundo a compreensão dessa organização a ponto de torna-lo condição essencial para promover a dignidade da pessoa do trabalhador.

Quanto ao segundo capítulo, num primeiro momento ele poderá parecer deslocado do restante do trabalho, mas para que no terceiro capítulo seja possível responder como o trabalho decente reflete na busca da sustentabilidade, primeiramente será necessário compreender o que esta significa, por isso, o segundo momento da pesquisa terá a finalidade de promover um estudo acerca das concepções de sustentabilidade que se formaram na doutrina e nos documentos produzidos a partir das Conferências das Nações Unidas sobre o meio ambiente desde Estocolmo/72.

Antes, porém, de relacionar os diversos entendimentos acerca da sustentabilidade, objetiva-se elucidar que o termo sustentabilidade nasceu nos discursos de proteção ambiental em momento seguinte ao uso do binômio desenvolvimento sustentável e que apesar de sua tão grande evidência, a busca pela sustentabilidade ainda permanece em grande parte na abstração

(16)

15 dos documentos das conferências internacionais, eis que a pobreza, a fome, a desigualdade social, a injustiça socioambiental, o desemprego e o trabalho desumano ainda são realidades que assombram os países e são temas recorrentes desde a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em 1972, se mantendo nos discursos da Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável de 2012, a Rio +20, como problemas que ainda desafiam demasiadamente as Nações.

Para conceber a sustentabilidade será forçoso compreender sua origem e o momento histórico, político, social, econômico e ambiental em que esse termo passou a ser inserido nos discursos e políticas, e essa compreensão será esquadrinhada através do estudo de doutrinas das mais diversas áreas do conhecimento que se arriscam na missão de elucidar o que é a sustentabilidade, partindo-se do pressuposto do reconhecimento de que há muita incoerência entre o discurso e a realidade e que evidencia as grandes falhas dos Estados na superação dos problemas que agoniam a dignidade humana, o meio ambiente, a sociedade e a economia.

Após apresentar a multiplicidade de acepções de sustentabilidade, o objetivo é encontrar uma compreensão de sustentabilidade que permita evidenciar a relação de suas perspectivas com a promoção do trabalho decente.

Superados os dois capítulos iniciais, o terceiro capítulo será construído no intento de demonstrar que a promoção do trabalho decente é imprescindível instrumento na busca pela sustentabilidade, pois a proteção daquele é um dos caminhos que, por via de consequência, realizam aspectos da sustentabilidade, enquanto a ausência dessa proteção tem implicado em tomar o caminho inverso a esta.

No princípio o terceiro capítulo disporá de alguns índices quanto ao mercado de trabalho - formal e informal – com vista a constatar que o desemprego, a informalidade e os trabalhos forçado e infantil revelam o trabalho indigno e, via consequencial, comprometem a efetivação da sustentabilidade. Esses dados serão necessários para compreender a importância prática da promoção do trabalho decente para a erradicação desses males do mundo do trabalho e a influência direta de seus resultados na busca pela sustentabilidade.

Em seção seguinte, a pesquisa será dividida conforme as cinco perspectivas mais marcantes da sustentabilidade, quais sejam, econômica, social, ambiental, política e cultural, com o desígnio de confirmar, separadamente, como as estratégias, políticas e normativas destinadas à promoção do trabalho decente e realizadas em conjunto pela OIT, Estados, empregados, empregadores e sociedade civil, resultam na efetivação de grande parte de cada uma dessas sustentabilidades ou perspectivas de sustentabilidade.

(17)

16 Por fim, o trabalho suscitará a dúvida: a efetivação do trabalho decente e da sustentabilidade são anseios reais e realizáveis ou não passam de utopia?

A resposta a essa questão nos fará retomar à tudo que foi estudado e será apresentada ao final do terceiro capítulo, no intento de ressaltar que a busca de um e de outro depende do esforço de todos.

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17 1 CONSTRUÇÃO E ABRANGÊNCIA DO TRABALHO DECENTE

Desde os primórdios o ser humano atua sobre o meio que o cerca objetivando sua sobrevivência. Se no princípio o trabalho era usufruir o que a natureza oferecia através da caça, pesca e coleta, aos poucos o homem passou a desenvolver instrumentos que o auxiliaram nessas atividades e também propiciaram o surgimento do que hoje conhecemos como agricultura.

Ao longo de milênios a raça humana vem desbravando a terra na medida em que se multiplica, sobrevivendo através da prática do cultivo, criação e modificação profunda do meio que a cerca, e de geração em geração as formas e instrumentos de trabalho que possibilitaram a sobrevivência da humanidade sofreram modificações.

O progresso dos instrumentos de trabalho e as diferentes formas de atuação e apropriação do homem sobre a natureza sempre estiveram intimamente ligados à forma com que os agrupamentos humanos se organizavam, o modo de ser e viver que desenvolviam, assim como o tipo de relacionamento que estabeleciam entre os grupos e entre os integrantes de cada grupo.

Por isso, compreender as etapas de evolução do trabalho é pressuposto para entender como surgiu o anseio pelo trabalho decente e como este é elemento necessário à consecução da sustentabilidade por exigir transformações não apenas na relação entre empregador e empregado mas, especialmente, por requerer de toda a comunidade internacional o cumprimento de compromissos que passaram a vislumbrar a tutela do meio ambiente do trabalho e da dignidade humana, assim como mudanças reais nas esferas política, social, ambiental, cultural e econômica.

O estudo da história do trabalho permite-nos conhecer os erros e acertos da humanidade no trato do trabalho e trabalhador e, ao conhecermos, nos é dada a oportunidade de prosseguirmos sem cometermos as mesmas mazelas perpetuadas no passado. Compreendendo o que foi e como chegamos até aqui – trabalho decente. E assim, talvez, estimar o porvir.

Mas além do apanhado histórico, este capítulo também tratará da compreensão do trabalho decente a partir da concepção do meio ambiente do trabalho, considerando que o estudo daquele deve ter por base não apenas o direito do trabalho ou o direito ambiental mas, necessariamente, a somatória e importante contribuição que esses dois ramos do direito nos concedem, especialmente quando unidas através do direito ambiental do trabalho.

Ademais, seria falho tratar acerca da construção e abrangência do trabalho decente sem destacar o relevante papel que a OIT tem desenvolvido na promoção do trabalho decente ou

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18 mesmo sem elucidar que a organização entende o trabalho decente como o ponto de convergência de seus objetivos estratégicos de respeito aos direitos do trabalho, de promoção de mais e melhores empregos, da extensão da proteção social e do fortalecimento do diálogo social.

1.1 DA ORIGEM DO TRABALHO À BUSCA DO TRABALHO DECENTE

Segundo a Bíblia, Deus criou a terra e deu-a ao homem, que passara a ter o direito de nela habitar e desfrutar de todos os benefícios que ela oferecia. O jardim do Éden tinha tudo aquilo que Adão e Eva precisariam para sobreviverem e multiplicarem sua descendência:

27E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e

fêmea os criou. 28E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. 29E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda erva que dá semente e que

está sobre a face de toda a terra e todas árvores em que há fruto de árvore que dá semente; ser-vos-ão para mantimento. 30E a todo animal da terra, e a

toda ave dos céus, e a todo réptil da terra em que há alma vivente, toda a erva verde lhes será para mantimento. E assim foi.1

Nesses termos do livro de Gênesis, ao homem havia sido conferido o trabalho prazeroso e dignificante de manter e cultivar a terra, contudo quando o homem quis ser autossuficiente diante de Deus e desrespeitou a proibição de comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal e cometeu o pecado original, passou a sofrer as consequências de sua escolha.

Ao que consta, a partir de então a vida humana na terra passaria a ser marcada pela constante luta pela sobrevivência, através trabalho árduo e cansativo. O trabalho passaria a revelar duas realidades: a primeira positiva, como meio de evolução do homem e de sua personalidade e qualidades; a segunda, negativa, que o homem dependeria do trabalho para sobreviver e o trabalho lhe passaria a ser árduo e fadigoso:

17

E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. 18Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás das ervas do campo.

19

No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó te tornarás. [...]23O Senhor Deus,

1 BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL: antigo e novo testamento. Português. V.T. Gênesis. Brasil: CPAD,

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19 pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado.2

Conforme os relatos da Bíblia, nesse momento Deus já teria avisado o homem que a natureza lhe passaria a ser um obstáculo com cardos e abrolhos e a sobrevivência lhe custaria fadiga. A terra, ao invés de proporcionar um ambiente agradável para se viver uma vida plena com paz e alegria, seria lugar de guerras, disputas de poder, crises econômicas e políticas, violência, distribuição injusta e desproporcional da riqueza e do trabalho. O trabalho transformou-se em instrumento de exploração e opressão.3

Mas ainda assim, segundo os termos bíblicos, o trabalho não deixou de ser considerado um dom de Deus4, que confere dignidade ao homem e cuja recompensa é o seu salário.5

Como advertem Marcel Mazoyer e Laurence Roudart o trabalho organizado não é atividade restrita à raça humana, eis que muitos animais desenvolvem o trabalho, estabelecem divisão de tarefas, criam elementos artificiais no ambiente natural e praticam a agricultura em prol da sobrevivência, tanto que certas espécies transformam o meio onde vivem de forma a

aumentar sua capacidade de suporte e os recursos disponíveis para seu próprio uso, portanto, essa artificialização do meio, é o produto de um trabalho que não é próprio da espécie humana.6

As formigas cultivadoras da América tropical possuem todo um sistema organizado de produção e agricultura para a sobrevivência, estabelecido mediante uma rigorosa divisão social

do trabalho7, pois se associam a uma espécie de cogumelo doméstico do qual se nutrem. Toda a organização dos ninhos e galerias, que formam um grande sistema de transporte, está ligada às hortas de cogumelos que elas cultivam8, ocorrendo uma relação de exploração entre o cogumelo explorado e a espécie exploradora, a formiga, ocorrendo o mutualismo

assimétrico, no qual o desenvolvimento da espécie explorada é comandado pelo trabalho da espécie exploradora, e no qual o desenvolvimento da espécie exploradora é, em contrapartida, condicionado pelo da espécie explorada.9

2 BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL: antigo e novo testamento..., Gênesis. cap. 3: 17-23. 3 Ibid., Êxodo. cap. 1: 11-14; 2:23.

4 E quanto ao homem a quem Deus deu riquezas e bens, e poder para desfrutá-los, receber o seu quinhão, e se

regozijar no seu trabalho, isso é dom de Deus. Ibid., Eclesiastes. cap. 5: 19.

5 Ora, uma só coisa é o que planta e o que rega; e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Ibid.,

1 Ibid., Coríntios. cap. 3: 8.

6 MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise

contemporânea. São Paulo: UNESP; Brasília, DF: NEAD, 2010. p. 55.

7 Ibid., p. 56. 8 Ibid., p. 56. 9 Ibid., p. 57.

(21)

20 Contudo, enquanto para os animais o trabalho e até mesmo a exploração de uns pelos outros se mantém como sinônimo de sobrevivência e manutenção da raça, para a humanidade tem revelado duas faces: a face dignificante e inclusiva, enquanto mecanismo que possibilita uma vida digna ao homem e, em outro ponto, a face opressora e oculta, na qual o trabalho serve como instrumento de subordinação, exploração e exclusão social.

Mudam os tempos, os instrumentos de trabalho, as formas de cultivo e os processos de produção, mas as duas faces do trabalho se confrontam ao longo da trajetória da humanidade. De um lado o homem busca através do trabalho o seu sustento e de sua família, de outro, os que detêm o poder, seja religioso, político ou econômico, utilizam o trabalho de outros não detentores do poder como forma de acumulação de capital.

Mas é inegável que no decorrer dos séculos o trabalho se mostrou como fator de

estabilidade e do progresso do homem e dos grupos sociais.10 Portanto, como assevera Ferrari,

seja na caça, seja na pesca, seja na fabricação de instrumentos para execução de serviços, o trabalho sempre foi um fator individual de conquista e também um fator social de cooperação na busca de idênticos ideais.11

1.1.1 Da coleta e caça do período pré-histórico ao trabalho na Terra na Idade Antiga

No princípio o homem sobrevivia graças à colheita de vegetais e caça de animais de mais fácil captura. Pouco sabia sobre seus instintos, mas a capacidade de adaptar-se aos variados alimentos e lugares tornou sua sobrevivência possível. Identificou-se que o homem

era eclético, onívoro e adaptável 12, características que lhe concederam vantagens.

Durante o paleolítico, por volta de 40.000 a 11.000 a.C., o homem desenvolveu instrumentos com ossos e madeira possibilitando a caça de animais de portes maiores, o desenvolvimento da pesca, ampliação das possibilidades de exploração da natureza e melhora de seus abrigos.13 A caça coletiva passou a ser fundamental para a manutenção dos grupos.

Em torno de 12.000 a.C., início do período neolítico, o homem vivia em comunidades e detinha instrumentos de trabalho que para a produção ainda eram rudimentares, sendo a alimentação muito mais produto da caça, pesca e da colheita de frutos silvestres realizadas

10 FERRARI, Irany. História do Trabalho. In: NASCIMENTO, Amauri Mascaro; FERRARI, Irany; MARTINS

FILHO, Ives Gandra da Silva (Coord.). História do trabalho, do direito do trabalho e da justiça do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2011. p. 21.

11 Ibid., p. 22.

12 MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo..., p. 58. 13 Ibid., p. 65-67.

(22)

21 dentro das limitações de seus utensílios. A propriedade e o trabalho eram estabelecidos em condições iguais e cada um recebia conforme suas necessidades. Nesse período o homem começa a transformar a natureza e deixa de ser nômade, realizando a semeadura e a criação de animais domésticos.

Na Europa pré-histórica o trabalho da terra foi realizado pelo cultivo com derrubada-queimada, enquanto que na Antiguidade ocorreu o cultivo de cereais com o uso do arado.

Os primeiros sistemas de cultivo e criação, teriam aparecido no período neolítico, por volta de 10.000 a.C.14 e foi no fim desse período que nas regiões áridas, como nas margem do Nilo, foram desenvolvidos os sistemas agrários hidráulicos, através dos quais o cultivo era feito por inundação ou irrigação, quando o homem passa a agricultar e criar animais domesticados por ele, assim como, introduziu e multiplicou, em todos os tipos de ambiente, transformando,

assim, os ecossistemas naturais originais em ecossistemas cultivados, artificializados e explorados por seus cuidados.15

Souto Maior relata que no mundo antigo já existiam evidências do trabalho. Ele cita o árduo trabalho desenvolvido às margens do rio Nilo antes da formação do Egito, pois os povos que lá habitavam necessitavam construir canais de irrigação para a produção agrícola16. Ainda no Egito, durante anos, centenas de homens trabalharam transportando as imensas pedras utilizadas na construção das pirâmides.

Ressalte-se que entre 10.000 e 5.000 a.C. a população mundial passou de 5 para 50 milhões17, aumentando sobremaneira a necessidade de trabalhar a terra para a mantença desse

número de pessoas. Do início da história antiga com o surgimento da escrita, que ocorreu por volta 4.000 a 1.000 a.C. a população da terra foi de 50 a 100 milhões, o que ampliou sobremaneira a extensão do sistema derrubada-queimada. E, surpreendentemente, de 1.000 a.C. e 1.000 d.C. a população mundial atingiu cerca de 250 milhões de pessoas.18

A escravidão esteve presente nas diversas fases da história e no meio dos diferentes povos. Essa diversidade de tempo e espaço fez com que a escravidão ganhasse distintas formas, prevalecendo, contudo, a face de exploração de um homem pelo outro.

A Idade Antiga tem início a partir da escrita e nessa fase o escravo não era visto como coisa, pois não poderia ser vendido. Fazia parte do Estado ou da família. A coisificação do

14 MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo..., p. 45. 15 Ibid., p. 52.

16 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social. São Paulo: LTr, 2000. p.

35

17 MAZOYER; ROUDART, op. cit., p. 148. 18 Ibid., p. 91.

(23)

22 homem escravo ocorre com a formação do sistema socioeconômico na Grécia e Roma a partir dos séculos VI e II a. C.19

Segadas Vianna destaca que a escravidão atingiu grandes números entre egípcios, romanos e gregos, tanto que em Roma os grandes senhores tinham escravos de várias classes,

desde os pastores até gladiadores, músicos, filósofos e poetas.20

No decorrer dos milênios e séculos a escravidão desenvolveu-se paralelamente às outras formas de mão de obra utilizadas no trabalhar da terra pelos diversos povos que nela viveram e, como assevera Ferrari, a escravidão promoveu a fixação do escravo a espaços determinados,

tornando o homem, ainda que escravo, um produtor dos alimentos que consumia, eis que anteriormente a esse estágio o homem caçava, pescava e recolhia frutos que nem sequer plantava.21

Mediante análise da obra de Fustel de Coulanges é possível afirmar que especialmente na Grécia e Roma antigas o direito de propriedade teve grande influência para desenvolvimento do trabalho, pois foi por causa da noção de propriedade sobre o solo que o homem intensificou o beneficiamento da terra.22 O solo era sagrado porque nele estava firmado o lar e altar de cada família e nele repousavam os entes da família que já haviam falecido. Uma vez estabelecido o lar em determinado local, ali sempre habitaria a mesma família, de forma que o cultivo da terra era realizado pelos membros da família e para a subsistência desta. Portanto, o trabalho era a forma de agricultar a terra e obter o sustento do lar.

Diferentemente do que ocorre hoje, o trabalho de cultivar a terra não se fazia para a aquisição de bens, mas para a manutenção da propriedade na família, eis que nela estavam os antepassados divinos e cuja escolha acreditavam ter sido determinada pelo deus doméstico. Desligar-se da terra seria ofender a religião, a família e a divindade dos mortos da família.23

O direito de propriedade era mais forte do que o próprio direito à liberdade e ao corpo, pois na hipótese de dívidas este respondia pela dívida e jamais a propriedade. Existia mais facilidade em tornar um homem escravo do que tirá-lo o direito de propriedade, eis que este

pertencia mais à família do que a ele próprio; o devedor está nas mãos do credor; a sua terra, contudo, de modo algum o acompanha na servidão.24

19 CARDOSO, Ciro Flamarion (Coord.); REDE, Marcelo; ARAÚJO, Sônia Regina Rebel de. Escravidão antiga e

moderna. Tempo, Niterói, v. 3, n. 6, p. 9-18, dez. 1998. p. 9-10.

20 VIANNA, Segadas. Antecedentes históricos. In: SÜSSEKIND, Arnaldo et al. Instituições de direito do trabalho.

vol. 1. 20. ed. atual. São Paulo: LTr, 2002. p. 29.

21 FERRARI, Irany. História do Trabalho..., p. 28.

22 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 72. 23 Ibid., p. 73-76.

(24)

23 Por crenças religiosas, só o primogênito podia herdar25 o patrimônio, pois se acreditava

que ele havia recebido o dever de dar continuidade à família e ao seu culto. Assim, o primogênito tomava posse do patrimônio e os demais irmãos passavam a viver sob a sua autoridade, explicando a divisão que ocorreu dentro das famílias e, consequentemente, da sociedade.

Nos tempos mais remotos já existia a divisão de classes dentro da família e a separação da sociedade em classes superiores e inferiores, produzindo-se assim desigualdades que foram se estabelecendo ao longo dos tempos. Os filhos mais velhos sucediam ao pai, enquanto os mais novos se tornavam submissos àqueles.26

Esse regime familiar influenciou na estrutura social e familiar das cidades antigas, eis que as famílias superiores tinham servos que estavam ligados à família. Os servos faziam parte da classe inferior e nessa condição, uma vez nascendo filho de servo, sempre servo. Não era permitida a ascensão social.

O cliente trabalhava para o seu patrono e este, em contrapartida, o garantia a sobrevivência. E aquele não se rebelava contra os abusos e poderes ilimitados dos patronos porque todos faziam parte da mesma família e religião, de tal forma, libertar-se da condição de cliente seria perder a raiz, a ligação familiar e a base religiosa, e assim estaria renunciando ao direito de orar.27

Se em um extremo o cliente estava, em praticamente todos os aspectos de sua vida, sujeito às vontades do patrono, do outro lado detinha certa dignidade, pois ao fazer parte da mesma família que o patrono, possuía a mesma religião, fazia parte dos cultos, das mesmas comemorações e do mesmo lar. Ademais, o patrono era responsável pela proteção e sustento do cliente, considerando que nem mesmo o dinheiro do patrono lhe pertencia, eis que seu

patrono, que é o verdadeiro proprietário, pode dele apoderar-se para as suas necessidades.28

Os servos eram chamados de clientes e deveriam estar a serviço da família dos patrícios – que descendiam do pater - à qual estavam vinculados, recaindo sobre eles toda autoridade destes que, por sua vez, tinham direito à religião e à propriedade.

Mas a capacidade de indignar-se presente no íntimo de cada ser humano somada ao fortalecimento da ideia de sociedade fizeram com que o poder da família e do pater fossem se dissolvendo, fazendo aos poucos desaparecer a classe dos clientes.

25 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga..., p. 90. 26 Ibid., p. 120-126 e 254-263.

27 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social..., p. 37. 28 COULANGES, op. cit., p. 256.

(25)

24 Esse processo de enfraquecimento das famílias se inicia quando várias delas se uniram formando os grupos chamados fratria ou cúria e, da união de diversas fratrias ou cúrias surgiram as tribos.29 Num primeiro momento não se admitia a união de uma tribo com a outra em razão

da identidade religiosa. Contudo, posteriormente foi admitida a fusão desde que cada tribo mantivesse o seu próprio culto, e no dia em que se firmou essa aliança nasceu a cidade.30

Na família o chefe era o pai, na cúria o curião, na tribo o rei da tribo e na cidade o chefe era o sacerdote do lar público, chamado de rei.31 Este último passa a ter interesse na diminuição do poder das famílias, eis que isso implicaria no aumento de seu poder.

Os reis das cidades passam a proteger os clientes que se desligavam de suas famílias e que gradativamente passaram a ocupar a classe dos plebeus, classe esta que deu lugar à dos clientes por volta dos anos 372 a.C.32

Antes da migração dos clientes para a Plebe, essa era classe considerada abaixo dos clientes, pois não se reconhecia a entidade familiar formada por pessoas que nela se inseriam, assim como inexistia a figura da autoridade paterna. Não tinham religião. Enquanto os clientes possuíam cidadania por intermédio do patrono, aos plebeus esse direito era negado.

Para os patrícios os plebeus não detinham qualquer direito à propriedade e, mesmo que estivessem sobre algum espaço de solo, a terra na qual estivessem seria profana.

Por isso, quando os reis da cidade começam a apoiar os clientes, a aristocracia os derruba

para impedir uma revolução social e doméstica33, mas isso não foi suficiente para afastar o

inevitável enfraquecimento das famílias e, portanto, dos patronos sobre a numerosa classe dos inferiores clientes que passam a almejar melhores condições de vida.

Sabendo a aristocracia da importância do trabalho realizado pelos clientes, resolve permitir que os clientes deixassem de viver na casa do senhor e lhes concede lotes de terra para cultivarem. Contudo, ainda permaneciam trabalhando para o patrono:

Sem dúvida, trabalhava ainda em proveito do senhor; a terra não era sua; pertencia ele à terra. Não obstante, cultivava-a há muitos anos e a amava. Estabelecia-se entre ele e a terra não o laço de propriedade que a religião criara entre a terra e o senhor, mas outro vínculo, que o trabalho e o sofrimento podem gerar entre o homem que labuta e a terra que produz seus frutos.34

29 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga..., p. 129-130. 30 Ibid., p. 138.

31 Ibid., p. 191.

32 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social..., p. 38 e COULANGES,

op. cit. p. 295 e 296.

33 Ibid., p. 279.

(26)

25 Posteriormente, os clientes passam a cultivar para si, mas mediante o pagamento de tributo para o patrono, eis que ainda não podiam ser donos da terra.

Apesar das concessões realizadas pela aristocracia, os clientes queriam viver a liberdade já experimentada pela plebe e já perfaziam um número insuficiente para cultivar as terras dos patronos que acabavam obrigando-se a utilizar o trabalho plebeu.

Desta forma, a partir de 372 a. C. não se tem mais notícia dos clientes, permanecendo a classe dos plebeus e dos patronos. O surgimento do dinheiro, do comércio e da indústria fez surgir nas classes inferiores trabalhos diversos do cultivo da terra: artesãos, navegantes,

operários, comerciantes e, dentro em pouco, os ricos.35 Surgem os plebeus ricos e proprietários. Libertam-se os clientes e emancipam-se os plebeus, contudo não há relatos de qualquer direito que tenha sido atribuído às pessoas que exerciam os referidos trabalhos, até mesmo porque a escravidão ainda era uma prática especialmente decorrente da conquista de povos e terras.

A aristocracia deu lugar à democracia na qual a divisão das classes se estabeleceu em ricos e pobres. O fundamento dessa divisão era a riqueza e não mais a família.

O trabalho estava longe da concepção que temos hoje. Ao invés de ser chave mestre para abrir as portas de uma vida mais digna, principalmente para aqueles que não se enquadravam na classe rica, se tornara instrumento que reforçava as desigualdades sociais.

Os médicos frequentemente eram os escravos que cuidavam dos doentes em prol do senhor; empregados de bancos, arquitetos, construtores, baixos funcionários de Estado eram escravos, e a escravidão seguia como o flagelo de que sofria a própria sociedade livre. O

cidadão quase não encontrava emprego e trabalho.36

Noutro ponto, indicando o fim da Idade Antiga, Coulanges assevera que a vitória do

cristianismo é o marco terminal da sociedade antiga. Com a nova religião se completa a transformação social que vimos começar seis ou sete séculos antes de seu advento.37

Pois com os ensinamentos trazidos pelo Cristianismo o direito de propriedade foi

alterado em sua essência; desapareceram os limites sagrados dos campos; a propriedade deixou de derivar da religião, para ser fruto do trabalho[...].38

35 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga..., p. 300. 36 Ibid., p. 361.

37 Ibid., p. 412.

38 Ibid., p. 418. E no mesmo sentido Irany Ferrari afirma que a partir de Cristo, o trabalho humano adquiriu um

(27)

26 Por volta do século II d.C. o Império Romano estava em crise e a desorganização estatal não conseguiu conter o esvaziamento das cidades diante da escassez de alimentos e das epidemias que assolaram a população ao longo dos séculos III a VIII.39

Somando-se à pobreza da cidade, as invasões bárbaras acentuaram a insegurança da população que passou a migrar para o campo em busca de melhores condições de vida e proteção, abrindo caminhos para a Idade Média.

1.1.2 Do sistema feudal da Idade Média à retomada comercial na Idade Moderna

Jacques Le Goff explica que o período que se estende do século IV ao VIII é considerado como Antiguidade Tardia, para designar um longo caminho de tempo e evolução positiva,

mesmo que tenha sido marcada por episódios violentos e espetaculares40, entre a Antiguidade

e a Idade Média, afinal foi nos séculos XI a XIII que a Idade Média atingiu o seu apogeu quando, segundo Hilário Franco Júnior, foi a época do feudalismo41, sistema no qual a relação social de trabalho foi marcada pela servidão.

Essa forma de produção foi caracterizada pelo desenvolvimento de sistemas com

alqueive42 e tração pesada43 e o poder político se descentralizou para as mãos dos senhores feudais, que formulavam suas próprias leis, subordinados somente às regras da Igreja Católica.

A sociedade dividia-se em clero, senhores feudais e servos. O clero era composto pelos membros da igreja católica; os senhores feudais eram os proprietários das terras – dos feudos, os servos eram a maior parte da população e trabalhavam nas terras dos senhores feudais. Essa divisão era rígida, pois inexistia a mobilidade social. Uma vez servo, filho de servo, sempre servo.

Os servos eram considerados partes do solo.44 Em troca do uso da terra eram obrigados a pagar aos senhores feudais impostos per capita e entregar-lhes parte da produção. Também pagavam pela utilização dos instrumentos que pertenciam aos feudos.

39 FRANCO JÚNIOR, Hilário. A idade média: nascimento do ocidente. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001. p. 21

e 22.

40 LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 29. 41 FRANCO JÚNIOR, op. cit., p. 17.

42 Conforme Mazoyer e Roudart conceituam, o alqueive pressupõe o trabalho do solo (uma ou várias preparações

do solo ao longo de vários meses com vistas a incorporar resíduos agrícolas ou esterco animal e controlar o desenvolvimento das ervas indesejáveis). MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo..., p. 44.

43 Ibid., p. 91.

(28)

27 Mesmo estando na terra e podendo produzir para a sua subsistência, os servos viviam em grande pobreza, dificuldades e dominados pelos senhores feudais, eis que a maior parte do rendimento do trabalho acabava nas mãos desses em razão dos inúmeros impostos que eram obrigados a pagar. Não eram escravos ou livres, eram semilivres, pois passaram a ser obrigados a viver na propriedade do senhor.

Conforme em outras fases da história a pobreza e subordinação em que viviam os campesinos fez surgir as lutas sociais, nas quais esses almejavam se libertar da opressão nos feudos e obter o direito de dispor do resultado de seu trabalho conforme suas necessidades e escolhas.

Entre os séculos XII e XV a Europa foi marcada pelas consequências das cruzadas e passou por grandes transformações que alteraram sobremaneira a realidade da Idade Média.

As cruzadas foram organizadas pela igreja com o objetivo religioso de promover a guerra santa contra os povos muçulmanos, mas além da motivação religiosa as cruzadas cumpriram desígnios políticos e econômicos. Essas expedições possibilitaram o contato com outros povos, culturas e mercadorias que não se produziam nos feudos.

Se de um lado as cruzadas concederam ao feudalismo o seu ápice graças ao aumento da produção agrícola pela inclusão de instrumentos de trabalho que ampliaram a produtividade, abriram as portas para o renascimento comercial e urbano caracterizado pelo desenvolvimento do comércio e do intercâmbio comercial e cultural propiciado pela retomada das navegações com a reabertura do mar mediterrâneo.

Em concorrência com a fechada e agrária estrutura do feudalismo desenvolveu-se um

segmento urbano, mercantil45 que se fortaleceu conforme se enfraqueciam os senhores feudais

e, por consequência, os feudos e a vida campesina.

Caminhando para o final da Baixa Idade Média a produção agrícola entra em crise pela carência de solos férteis; pela perda das colheitas em decorrência de eventos climáticos; pelas intensas guerras e pelas já insuficientes técnicas de cultivo. A população cresceu e a produção caiu. A população enfrentou grande crise marcada por fome, doenças e inúmeras mortes.46

Desenvolve-se o comércio, o artesanato e ressurgem as cidades fazendo com que os limites impostos pelo sistema feudal fossem rompidos e a história do povo ocidental caminhasse a partir do século XIV para a História ou Idade Moderna:

45 FRANCO JÚNIOR, Hilário. A idade média..., p. 17.

46 MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo..., p. 91. Le Goff afirma que

a Europa medieval foi assolada pela peste negra em meados do século XIV, uma fase intensamente catastrófica para a região. V. LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa..., p. 228-229.

(29)

28

A Baixa Idade Média (século XIV-meados do século XVI) com suas crises e seus rearranjos, representou exatamente o parto daqueles novos tempos, a Modernidade. A crise do século XIV, orgânica, global, foi uma decorrência da vitalidade e da contínua expansão (demográfica, econômica, territorial) dos séculos XI-XIII, o que levara o sistema aos limites possíveis de seu funcionamento. Logo, a recuperação a partir de meados do século XV deu-se em novos moldes, estabeleceu novas estruturas[...].47

Os séculos XV e XVI marcam a Renascença da Europa que no século XV começou a desabrochar para a economia-mundo, para a globalização de trocas econômicas, mas também

de agravação das desigualdades sociais e políticas.48

Graças ao fortalecimento do comércio e do artesanato nasce uma nova classe social, a

classe burguesa, que se vai enriquecendo com a atividade comercial e industrial, enquanto os senhores feudais vão empobrecendo49, e se inicia o processo de transição do feudalismo para o

capitalismo.

Marc Bloch leciona que o burguês vivia, basicamente, de trocas e a sua subsistência decorria da diferença entre o preço de compra e o de venda, ou entre o capital emprestado e o

valor de reembolso.50

Os burgueses eram homens livres que haviam conquistado direitos e liberdades relação aos senhores feudais, eis que aqueles correspondiam a comerciantes e artesãos que viviam à margem da população camponesa e que posteriormente viram a compor a população urbana.51

O regime social de trabalho passou a ser diverso da servidão, pois a burguesia, enquanto detentora de um novo processo de produção necessitava de homens livres e sem propriedade que por baixos salários assumissem o trabalho pesado. E para trabalharem nas empresas os burgueses convocavam os camponeses que haviam saído dos feudos.

Ressalte-se que os campesinos saíram da condição de servos, mas não da condição de subordinados e explorados, numa liberdade individual que pouco mais significava que trabalho

insano para garantir a sobrevivência nos limites mínimos.52

A divisão de classe não é mais fundamentada na hereditariedade, pois a condição de ser proprietário de terra ou não é consequência do trabalho de cada um. Sendo todos livres e iguais, os que não conseguem atingir as classes superiores não os únicos culpados por sua condição.

47 FRANCO JÚNIOR, Hilário. A idade média..., p. 18 e 19. 48 LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa..., p. 254.

49 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social..., p. 42. 50 BLOCH, Marc. A sociedade feudal. São Paulo: Martins Fontes, 1982. p. 392.

51 Ibid., p. 391-392. 52 MAIOR, op. cit., p. 44.

(30)

29 Se antes o nascimento era a regra básica para a divisão, nas teorias burguesas passou a ser o dinheiro.

O fortalecimento do sistema capitalista e a concretização da ideia do lucro e da acumulação de capital dos burgueses foram possíveis graças às revoluções que destruíram os resquícios do feudalismo e enterraram o absolutismo.

O Renascimento marchava a passos largos ao lado das ideias burguesas porque pregava a liberdade republicana em desfavor do poder político da igreja Católica. Liberdade e política foram postas enquanto elementos necessários para uma vida digna. Era pensamento segundo o qual a política tinha o objetivo de constituir uma comunidade una e indivisível, voltada para a

realização do bem comum e da justiça.53

Mas isso não se estendia aos trabalhadores, pois os burgueses e outros detentores de poder entendiam que ao concederem trabalho aos não proprietários estavam realizando mais um favor do que uma troca de prestação e contraprestação, pois se os trabalhadores estavam em classe inferior era por própria culpa.

Com a Revolução Francesa no século XVIII a civilização ocidental passou a experimentar uma nova ordem social e política.54 Os burgueses, que já detinham o poder econômico, ainda almejavam deter o poder político e para isso contaram com o advento do movimento renascentista que tinha como base o pensamento humanista que repensava o mundo a partir das necessidades, qualidades e capacidades humanas.

O crescimento das cidades, o desenvolvimento do comércio, as navegações, os intercâmbios internacionais de cultura e mercadorias ocasionados especialmente a partir do século XV e caracterizadores da Revolução Comercial proporcionaram um grande acúmulo de capital que em meados do século XVIII resultou na chamada Revolução Industrial e marca o início de uma nova etapa histórica, a Idade Contemporânea.

1.1.3 Da Revolução Industrial aos dias atuais

Marcada pela Revolução Francesa, o início da Idade Contemporânea foi palco da Revolução Industrial decorrente do investimento dos burgueses em capital acumulado para o aprimoramento do processo de produção que sofreu tamanha evolução e atingiu a fase de industrialização.

53 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social..., p. 47. 54 Ibid., p. 46.

(31)

30 Mas o início desse novo período histórico sofreu severas consequências decorrentes desse novo modo de crescimento, pois em razão da crise na produção agrícola familiar e do atrativo crescimento das cidades esse período foi caracterizado por intenso êxodo rural e consequente acréscimo do número de desempregados e do aumento da pobreza.

Não bastasse a sobra de mão de obra resultante do êxodo rural, a mecanização substituiu sobremaneira o trabalho humano, aumentando ainda o número de desempregados e causando um grande desequilíbrio entre a oferta e procura de mão de obra. A consequência da sobra de mão de obra foi a diminuição dos salários a patamares mínimos.55 Esse era o fundamento do processo industrial: aumentar a produção e reduzir os custos.

Vianna relata que o trabalhador, na sua dignidade fundamental de pessoa humana, não

interessava ou não preocupava os chefes industriais daquele período.56 Os salários diminuíram,

as jornadas se tornaram ainda mais exaustivas, os riscos para a saúde do trabalhador aumentaram e a mão de obra de mulheres e crianças passou a ser utilizada como forma de reduzir os custos, pois o salário destes era ainda menor do que dos homens.57

Nesse cenário nasceu a chamada classe operária, e segundo da Rocha, a origem de preocupação com o direito do trabalho:

Daí entender-se que o Direito do Trabalho tem origem ante circunstâncias econômicas e sociais determinadas, em muito pela Revolução Industrial e pelo surgimento do operariado. A noção do direito do trabalho somente pode ser apreendida diante dessa perspectiva histórica, sobretudo diante do conjunto de acontecimentos que se vieram elaborando: consciência dos trabalhadores, intervenção estatal e proteção legal.58

Ressalte-se que a história do direito do trabalho não deve ser confundida com a do trabalho em si, pois enquanto o direito do trabalho nasce com a Revolução Industrial passando o trabalho a ser assalariado, o trabalho remonta a história da própria humanidade59 como já exposto anteriormente.

O que não se pode perder de vista é que, conforme adverte Souto Maior, o direito do trabalho entrava num paradoxo, pois de um lado funcionava como fórmula da classe burguesa

para impedir a emancipação da classe operária.60 O direito do trabalho justificava e mantinha

55 MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social..., p. 57. 56 VIANNA, Segadas. Antecedentes históricos..., p. 36.

57 MAIOR, op. cit., p. 59.

58 ROCHA, Julio Cesar de Sá da. Direito ambiental do trabalho: mudança de paradigma na tutela jurídica à saúde

do trabalhador. São Paulo: LTr, 2002. p. 49.

59 Ibid., p. 54.

(32)

31 a existência da classe trabalhadora e a própria divisão de classes. Por outro, o direito do trabalho se apresentava como instrumento de tomada de consciência da importância do trabalho.

O discurso capitalista então muda a concepção do trabalho. O que passa a ter valor é a força de trabalho, a capacidade de trabalhar e não mais o trabalhador. Na capitalização do mundo, o homem é visto enquanto capital humano e o valor de sua força de trabalho será medida conforme a contribuição econômica que operar.61

Certamente a decisão da classe burguesa em valorizar o trabalho assalariando os trabalhadores, foi para convencê-los a trabalhar. A burguesia precisava da classe trabalhadora para continuar acumulando capital. Ademais, os salários ainda não concediam vida digna aos trabalhadores. E mais, preocupar-se com o direito do trabalho, era preocupar-se com a boa e compensadora aplicação do dinheiro.

Enquanto a classe trabalhadora, então chamada de operária, peregrinava cada vez mais para a miséria, no caminho inverso a burguesia obtinha mais lucros e acumulava ainda mais riquezas.

Essa desigual realidade fez surgir ao longo dos anos lutas de classes e as reações contra o sistema vigente que ganharam força através da união e organização de trabalhadores com mesmos interesses inspirados e provocados no campo das ideias pelas teorias e doutrinas que questionavam o sistema imposto. A tomada de consciência62 resultou da contribuição de doutrina sociais e teorias políticas socialistas e comunistas.63

Cobrava-se uma maior atuação Estatal nas relações de trabalho, eis que durante muito tempo, por conta de teorias de Estado Liberal como a de John Locke, pregou-se a abstenção do Estado nas relações privadas. O Estado se mantivera inerte frente às dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.

Durante o século XIX, progressivamente, o princípio liberal da abstenção do Estado é substituído pelo princípio intervencionista, segundo o qual o Estado passou a interferir e participar da ordem econômica e, por consequência, assumiu papel preponderante nas relações

61 LEFF, Enrique. Ecologia, capital e cultura: a territorialização da racionalidade ambiental. Trad. Carlos Walter

Porto – Gonçalves. Petrópolis: Vozes, 2009. (Coleção educação ambiental). p. 236, 238 e 244.

62 A importância das ideologias na tomada de consciência é destacada por Michael Löwt quando expõe que na

evolução de seu próprio pensamento Marx amplia o conceito e fala das formas ideológicas através das quais os

indivíduos tomam consciência da vida real, ou melhor, a sociedade toma consciência da vida real. E Michael frisa

que Marx enumera as formas ideológicas como sendo a religião, a filosofia, a moral, o direito, as doutrinas

políticas, etc., mas que no entendimento Marxista as ideologias são elementos ligados às classes dominantes de

forma que se atinge apenas uma consciência deformada da realidade, segundo os interesses dessas classes. V. LÖWT, Michael. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise. 13. ed. São Paulo: Cortez, 1999. p. 12.

Referências

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