2. Histórias da edição princeps de Colóquios dos Simples, Goa, 1563 99
2.2. Aspectos gráficos de Colóquios dos Simples 108
interesse que D. Gaspar Leão Pereira concedeu ao projecto de Orta.
2.2. Aspectos gráficos de Colóquios dos Simples
A obra de Garcia de Orta é bastante imperfeita do ponto de vista gráfico. Em causa não está a qualidade do papel, os caracteres tipográficos utilizados ou as capitais ornamentadas.215 Cada exemplar parece revelar uma pequena oficina gráfica artesanal, com pouca diversidade de tipos, preocupada com a publicação de um produto acessível (ou apenas sem vontade de grande investimento de capitais) embora apelando a recursos de qualidade. Apesar das gralhas, a qualidade da impressão é boa, o texto nítido e o papel excelente. Ao relacionar a globalidade das obras produzidas na tipografia de Endem, Anselmo afirmou que nela foram impressas ͞ƵŵĂ ŵĞŝĂ ĚƷnjŝĂ ĚĞ ŽďƌĂƐ͕ Ğŵ ĐĂƌĂĐƚĞƌĞƐ ƌĞĚŽŶĚŽƐ Ğ ŝŵƉƌĞƐƐĆŽ ƉŽƵĐŽ ĐƵŝĚĂĚĂ͘͟216 Atendendo à raridade e dificuldade de acesso às outras publicações desta tipografia, não nos foi possível analisar as restantes obras editadas por Endem, pelo que não podemos comparar a qualidade gráfica dos diferentes livros. Deste modo, limitámo-‐ nos a descrever os incidentes que verificámos em Colóquios dos Simples.217
Se falamos de anomalias de composição, não nos referimos apenas à paginação irregular, à introdução inesperada de folhas nos cadernos ou aos capítulos mal identificados. Pensamos também na incómoda, e certamente dispendiosa, Errata de 20 páginas, onde Garcia de Orta referenciou uma a uma, as 483 imprecisões, lacunas, erros ortográficos e gralhas tipográficas que considerou mais relevantes. A falta de cuidado na produção do tratado foi brevemente justificada pelo licenciado Dimas Bosque que, no texto preliminar, dirigiu ao leitor ƵŵůĂĐſŶŝĐŽ͗͞ƚĞǀĞŶĆĤƉƌĞƐĂŵĂůŐƷƐ erros, por faltar o prinçipal, empresor e ficar a obra em maõs dehú homê seu
215
Conde de Ficalho, Garcia de Orta no seu tempo, p. 368.
216
António Joaquim Anselmo, Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI, p. 151.
217
Para a análise da edição goesa recorremos ao exemplar fac-‐similado de Colóquios dos Simples, editado em 1963 pela Academia das Ciências que citaremos de forma abreviada: Garcia de Orta, Colóquios dos Simples, [1563], 1963, fl.
cõpanheiro que no era ainda mui destronaarte do enprimer, e pouco corente no ŶĞŐŽĕŝŽĚĂĞŵƉƌĞƐĂŵ͘͟218
Neste pequeno trecho, o médico valenciano aludiu a mais do que um tipógrafo. ,ĂǀĞŶĚŽŽ͞ƉƌŝŶĕŝƉĂůĞŵƉƌĞƐŽƌ͕͟ŶĆŽƐĞƌĄĚĞĐŽŶƐŝĚĞƌĂƌĂƉŽƐƐŝďŝůŝĚĂĚĞĚĂĞdžŝƐƚġŶĐŝĂ de outro tipógrafo? Que razão de fundo levou o principal impressor a confiar o trabalho a um seu companheiro, aparentemente pouco familiarizado com as artes gráficas? Neste caso faz-‐nos todo o sentido a hipótese levantada por D. Manuel II, que identificou o principal impressor com João Quinquénio. 219 Como propôs o estudioso, o impressor italiano, por ͞ĨĂůƚĂƌ ĂŽ ĞŶƚƌĂƌ Ž ĂŶŽ ĚĞ ϭϱϲϯ͟ ƚĞƌŝĂ ĚĞŝdžĂĚŽ ŶĂƐ ŵĆŽƐ ĚĞ Endem a impressão do projecto de Orta. Esta explicação parece-‐nos satisfatória. 220 Quinquénio poderia então ter planificado a execução da obra mas não chegaria a finalizar a sua publicação. Convém aŝŶĚĂ ƐĂůŝĞŶƚĂƌ ƋƵĞ ͞ĐŽŵƉĂŶŚĞŝƌŽ͟ era um termo então utilizado neste ofício para designar jovens artífices, que apesar de já não se ĐŽŶƐŝĚĞƌĂƌĞŵ͞ĂƉƌĞŶĚŝnjĞƐ͕͟ĂŝŶĚĂŶĆŽĞƌĂŵŵĞƐƚƌĞƐ. A grande maioria dos aprendizes estava ao cuidado do mestre tipógrafo, dos 12 aos 19 anos. Em função da sua habilidade e das suas capacidades técnicas podia vir a desempenhar importantes funções na oficina. Apesar de se encontrarem acima dos aprendizes e de trabalharem a seu lado, os artífices que chegavam a companheiros permaneciam ao serviço dos seus mestres cerca de dois anos, ĐŽŵŽ͞ƐĞƌǀŝƚĞƵƌƐĂůůŽƵĠƐ͘͟ 221 A sua situação laboral era instável, não havendo quaisquer garantias de continuidade no trabalho. Em caso ĚĞ ĚŽĞŶĕĂ ŽƵ ĚĞ ĐůĂƌĂ ĐŽŵƉĞƚŝĕĆŽ ĐŽŵ Ƶŵ ŚĄďŝů ĂƉƌĞŶĚŝnj͕ Ž ͞ĐŽŵƉĂŶŚĞŝƌŽ͟ ƉŽĚŝĂ͕ inadvertidamente, perder o seu lugar. Muitos asseguravam o futuro, estabelecendo laços matrimoniais com a filha do tipógrafo ou do livreiro. Se identificarmos o
͞prinçipal empresor͟ a que se referiu Dimas Bosque com João Quinquénio, Ğ Ž ͞ƐĞƵ
cõpĂŶŚĞŝƌŽ͟ĐŽŵŶĚĞŵ͕ƉŽĚĞŵŽƐƐƵƉŽƌƋƵĞĞƐƚĞƷůƚŝŵŽƐĞƌŝĂ͕ăĚĂƚĂĚĂŝŵƉƌĞƐƐĆŽ
218
Garcia de Orta, Colóquios dos Simples, [1563], 1963, fl.
219
D. Manuel II, Livros Antigos Portuguezes, p. 648.
220
ƌĞƐƉĞŝƚŽĚŽƚƌĂďĂůŚŽĚĂƚŝƉŽŐƌĂĨŝĂŐŽĞƐĂ͕ŽdžĞƌƉƌŽƉŽƐŽƵƚƌĂĞdžƉůŝĐĂĕĆŽ͗͞WƌĞƐƵŵĂďůLJƚŚĞ'ĞƌŵĂŶ masterprinter, João de Endem (Johann of Emden) was absent through illness or some other cause while most of the book was being printed, and the work was left to a partially trained apprentice. Nor was this all. As often happeed, with sixteenth-‐seventeenth century books [ ͙ ƐŚĞĞƚƐ ǁĞƌĞ ĞǀŝĚĞŶƚůLJ ƉƌŝŶƚĞĚ ďĞĨŽƌĞ ŚĂǀŝŶŐ ƚŚĞŵ ĐŚĞĐŬĞĚ ĂŐĂŝŶƐƚ ĐŽƉLJ ƚŽ ĚŝƐĐŽǀĞƌ ĞƌƌŽƌƐ ͙ ^Ž Ă ůŽƚ ŽĨ ŝŶĐŽƌƌĞĐƚĞĚ ƉĂŐĞƐ ǁĞƌĞ printed for ƚŚĞ Ŭ ǁŚŝůĞ ƚŚĞ ƚĞdžƚ ǁĂƐ ďĞŝŶŐ ĐŚĞĐŬĞĚ͟ Charles Ralph Boxer, A tentative check-‐list of Indo-‐Portuguese imprints, p. 35.
221
de Colóquios dos Simples, um jovem principiante na arte de imprimir, com pouco mais de vinte anos. Sobre o sucedido na tipografia goesa, naquele início da década de 1560 pouco podemos, com segurança, afirmar. Os parcos dados de que dispomos permitem-‐nos, no entanto, esboçar um cenário que justifique o peculiar estado em que Colóquios dos Simples foi posto a circular. Face ao desaparecimento de Quinquénio, provavelmente durante o ano de 1562, podemos admitir que Endem se socorreu da ajuda do Arcebispo de Goa. O alemão poderá assim ter recebido a ajuda do prelado que, aparentemente, o apoiou ao longo de toda a sua carreira de gráfico. Se por um lado parece ficar explicada a precoce ascensão de Endem à direcção da oficina, continua por justificar a falta de atenção do tipógrafo relativamente às especificidades da empresa que tinha então em mãos. No entanto, a desatenção do gráfico não parece justificar todas as anomalias que se encontram na obra.222
A descuidada revisão da ortografia insinua o afastamento de Garcia de Orta da oficina tipográfica no decurso dos trabalhos de impressão. Se o autor, ou alguém da sua confiança, tivesse tido acesso às cópias produzidas diariamente, certamente não teria ocorrido uma tão volumosa acumulação de erros ortográficos.223 Esta sua ausência do ateliê gráfico durante os trabalhos de composição e impressão é, quanto a nós, um aspecto que se reveste da maior importância para a compreensão do momento da edição. A análise dos exemplares goeses, mais do que uma questão técnica, suscita uma nova questão no já vago percurso biográfico do médico: onde estava Garcia de Orta durante o trabalho de edição de Colóquios dos Simples? Que razão o levou a não participar na revisão quotidiana da sua obra?
De qualquer forma, a presença de Garcia de Orta nas oficinas de Endem, apesar de desejável, não era indispensável. O médico, entre as visitas a doentes, a gestão dos
222
Na segunda edição de Colóquios dos Simples ;>ŝƐďŽĂ͕ ϭϴϳϮͿ͕ sĂƌŶŚĂŐĞŵ ĂĨŝƌŵŽƵ͗ ͞ŽƐ ĞƌƌŽƐ ĚĂ primeira edição são tantos que se poderia suspeitar que o autor entregara aos caixistas o seu ŵĂŶƵƐĐƌŝƚŽ͕ƐĞŵƌĞǀĞƌŶĞŶŚƵŵĂƐƉƌŽǀĂƐ͘͟ƐƚĂƉŽƐƐŝďŝůŝĚĂĚĞůĞǀĂŶƚĂĚĂƉĞůŽsŝƐĐŽŶĚĞĚĞWŽƌƚŽ^ĞŐƵƌŽ͕ apesar de algo incoerente com a elaboração, por Orta, da extensa errata, não deve ser totalmente descurada.
223
Como escreveu Parent ͗͞ĂŶƐůĞŵĞŝůůĞƵƌĚĞƐĐĂƐ͕ů͛ĂƵƚĞƵƌ͕Ɛ͛ŝůŚĂďŝƚĞƐƵƌƉůĂĐĞ͕ĐŽƌƌŝŐĞƌĂƉŝĚĞŵĞŶƚ les preuves qui lui sont fournies, chaque jour, aƵ ĨƵƌ Ğƚ ă ŵĞƐƵƌĞ ĚĞ ů͛ŝŵƉƌĞƐƐŝŽŶ͘ ZĞǀĞŶƵĞ ĐŚĞnj ů͛ŝŵƉƌŝŵĞƵƌ͕ůĂĐŽƉŝĞůƵŝĠĐŚĂƉƉĞĐŽŵƉůğƚĞŵĞŶƚ͕ůĞƐĐŽƌƌĞĐƚŝŽŶƐƐƵŝǀĂŶƚĞƐůƵŝĠƚĂŶƚƚƌŽƉĐŚğƌĞƐƉŽƵƌġƚƌĞ ǀƌĂŝŵĞŶƚŝŵƉŽƌƚĂŶƚĞƐĞƚƌĞůĞǀĂŶƚĞŶƚŝğƌĞŵĞŶƚĚĞů͛ĂƚĞůŝĞƌ͘ƵƐƐŝů͛ĠĐƌŝǀĂŶƚƐĞƉůĂŝŶƚ-‐il souvent de ne pas ĞƵů͛ĂǀŽŝƌĞƵůĞƉůĂŝƐŝƌĚĞƌĞǀŽŝƌƐŽŶƚĞdžƚĞ͘͟ŶŶĞ-‐Marie Parent, Les métiers du livre à Paris au XVIè siècle (1535-‐1560), p. 123.
negócios, o acolhimento de forasteiros e a exploração da sua fazenda, já tinha demasiadas ocupações a preencher-‐lhe o dia. Possivelmente, Orta delegou em alguém da sua confiança o trabalho de correcção das eventuais gralhas. O resultado revelou-‐ se, no entanto, decepcionante. Como escreveu KƌƚĂ͕͞ŶĞƐƚĞƐĞƌƌŽƐĚĂĞŵƉƌĞƐĂŵƋƵĞ ƐĂŵŵƵLJƚŽƐ͕ĞĂůŐƷƐĚĞůůĞƐƉŽĚĞŵŵƵĚĂƌŽĤƚĞŶĚŝŵĞŶƚŽƉŽƌŽŶĚĞŚĞŶĞƐƐĞĕĂƌŝŽƋƵĞ sĞůĞĂŵ͟ŶĆŽĞƐŐŽƚŽƵĂŝĚĞŶƚŝĨŝĐĂĕĆŽĚĂƚŽƚĂůŝĚĂĚĞ das faltas existentes. 224 O médico ƚĞƌŵŝŶŽƵĂƌƌĂƚĂĚŝnjĞŶĚŽ͞ŽƵƚƌŽƐŵƵLJƚŽƐĞƌƌŽƐŚĂŶĞƐƚĞůŝǀƌŽ͕ƋƵĞŚŽƵƚŽƌĂƋƵŝŶĂ poem, porque por estes se tiraram os outros, e mais porque sam craros pa ĞŵŵĞĚĂƌ͘͟225
Orta estava ciente da dificuldade que o seu texto, sobretudo pela estranheza dos conteúdos, podia trazer ao trabalho de gráficos menos cautelosos. Para além disso, o próprio manuscrito poderia complicar a tarefa dos artesãos. Pela análise do texto, admitimos que a redacção do tratado se realizou em tempos distintos. Na verdade, na obra identificámos grupos de colóquios que, pela similitude com que apresentam as referências, pela harmonia do seu ritmo discursivo ou pelo tipo de argumentação utilizado, parecem ter sido redigidos num mesmo momento. Outros, talvez colmatando lacunas de informação sobre determinada droga entretanto notadas, foram compostos posteriormente. A diferente estrutura e equilíbrio de cada um dos seus capítulos, sugere-‐nos que o tratado de Orta foi construído ao longo do tempo. É, por isso, plausível que o manuscrito original fosse composto por diversas caligrafias e, possivelmente, incluísse diferentes ortografias.
Mas, para além da eventual variedade de grafias presente no manuscrito, o conjunto de erros elencado por Orta, que à frente analisaremos, sugere o trabalho de um pessoal diversificado, talvez sazonal, não particularmente sensibilizado com as exigências ortográficas. Esta equipa heterogénea, familiarizada, sobretudo, com o léxico dos catecismos e cartilhas, foi desafiada pela abundância de ƚĞƌŵŽƐ͞ĐŝĞŶƚşĨŝĐŽƐ͟ e pelo uso frequente de vocábulos arábios ou persas.
224
Garcia de Orta, Colóquios dos Simples, [1563], 1963 fl. 229.
225
Falar de rigor ortográfico, na Índia de Quinhentos parece-‐nos até um pouco anacrónico. Se é verdade que os manuais de gramática de Fernão de Oliveira226 e de João de Barros227 já tinham então sido editados em Lisboa, pensamos que, caso fossem conhecidos pelos compositores tipográficos do Oriente, seriam considerados pouco relevantes.
Como abaixo demonstraremos, os erros assinalados por Garcia de Orta nem sempre correspondiam à grafia da palavra que encontrámos no texto. 228 As variações são de diversa ordem e sugerem, como propusémos, uma intervenção tardia na correcção das provas. A presença, em alguns dos volumes analisados, de vocábulos que se encontram corrigidos, como foi proposto na Errata, leva-‐nos a aceitar uma intervenção de um corrector durante o trabalho de edição. No entanto, por se encontrarem diferentes formas da mesma palavra nos volumes analisados podemos admitir que houve várias intervenções e uma absoluta necessidade de aproveitar cada uma das provas efectuadas. Na verdade, a primeira intervenção poder-‐se-‐ia ter verificado imediatamente à saída das formas.229 Neste momento, o corrector confrontando as folhas com o manuscrito poderia propor algumas correcções. Como era prática, à medida que o funcionário conferia o manuscrito, lendo-‐o em voz alta, o corrector apontava as alterações a efectuar no texto. 230 Este era então corrigido e as folhas desta tiragem (forma revista) eram enviadas ao autor para que este as analisasse. As folhas anotadas pelo autor eram depois devolvidas à oficina para que esta modificasse o texto. Das alterações entretanto efectuadas saía uma segunda tiragem de alguns cadernos e a renovação parcial ou total de outros. Convém salientar que, dada a raridade de uma matéria-‐prima, como era o papel, todas as folhas usadas eram enviadas para o encadernador. Desta forma, num mesmo volume podiam surgir reunidas, de forma aleatória, folhas da primeira tiragem, da versão revista e também da segunda tiragem. Dependendo da extensão e responsabilidade dos erros e do tipo
226
Fernão de Oliveira, Grammatica da lingua portuguesa, 1536
227
João de Barros, Grammatica da lingua portuguesa, 1540
228
Vd. Cap. 2.3
229
Estas corresponderiam a uma 1ª tiragem.
230
Para a correcção das primeiras provas, realizada ainda na tipografia, o aprendiz lia o texto impresso em voz alta para que o mestre pudesse comparar com o manuscrito do autor. Este processo pode ter sido adoptado na oficina, sem que tenham previsto as consequentes discrepâncias gráficas. Ver, por exemplo : Phillip Gaskell, A new introduction to bibliography, p. 110-‐116 e Anne-‐Marie Parent Les métiers du livre à Paris au XVIè siècle (1535-‐1560), p.122,
de contrato estabelecido entre tipógrafo e autor, os custos de correcção ficavam a cargo da oficina ou do próprio escritor, que por vezes era obrigado a fornecer o papel necessário para a redacção da Errata e da consequente conclusão dos trabalhos.231
2.3. Análise da Errata
A Errata criava um elo privilegiado entre o autor e o seu auditório. A extensa lista de palavras autorizadas pelo escritor sobrepunha-‐se ao trabalho mecânico do tipógrafo.232 Garcia de Orta não desperdiçou aquela oportunidade para se afirmar como o criador da sua obra. Antecipando-‐se a qualquer olhar menos benevolente que tentasse denegrir o seu trabalho, o médico reconheceu-‐lhe os limites e apontou sugestões de correcção imprescindíveis de considerar numa segunda edição.233 Através da vasta Errata, Garcia de Orta assumiu o papel de censor do seu próprio texto propondo as correcções dos erros contidos na obra. A auto-‐crítica constituía um mecanismo de afirmação da sua propriedade sobre o texto.
A complexidade deste documento em Colóquios dos Simples exigiu uma análise detalhada. Para além da tipologia dos erros que nela identificámos, pareceu-‐nos claro que, neste derradeiro diálogo que Orta estabeleceu com os seus leitores, o médico se lhes dirigiu de forma subtil.
A extensão da Errata obrigava o leitor a um aturado exercício de comparação de palavras e correcção de erros. Percorrendo o volume à procura dos vocábulos a rectificar, o leitor corrigia o texto. Para Orta, a verdade não se restringia à palavra escrita. A constatação de um termo mal grafado obrigava à sua correcção. Os erros,
231
Philip Gaskell, A new introduction to bibliography, pp. 110-‐180.
232
Sobre o papel da errata nas obras desta época ver: Seth Lerer, Error and the academic self. The scholarly imagination, Medieval to Modern.
233
Não deixa de ser curioso que a errata surja no fim da obra, após dois textos latinos: a carta dirigida por Dimas Bosque a Tomás Rodrigues e o epigrama de Tomé Caiado, e também antes da detalhada ͚dĂďŽĂĚĂ ĚŽ ĐŽŶƚĞƷĚŽ ŶĞƐƚĞ ůŝǀƌŽ ƉĞůůŽ ĚĂƐ ĐŽƐĂƐ ĚĞ ŶŽƚĂƌ͘͟ /ŶƐĞƌŝĚĂ ŶŽ ŝŶƚĞƌŝŽƌ ĚŽ ŵƵŶĚŽ ĚŽƐ eruditos, a errata poderia ser muito mais eficazmente compreendida. Note-‐se que todos os outros paratextos se encontram no início do livro, estão redigidos em português e apresentam a obra ao poder político e ao público em geral.