2. Histórias da edição princeps de Colóquios dos Simples, Goa, 1563 99
2.5. Paratextos 122
2.5.1. Textos preliminares 122
2.5.1.1. Privilégio 124
O então Vice-‐Rei da Índia, D. Francisco Coutinho, o Conde de Redondo (g.1561-‐ 1564), concedeu o Privilégio à obra por um período de três anos, a partir de 3 de Novembro de 1562. Do seu texto cabe-‐nos salientar o parágrafo inicial:
͞KŽŶĚĞǀŝƐƐŽZĞLJΘĐ͘ĨĂĕŽ saber a quantos este meu alvará virem, q o Doutor Garcia dorta me inviou dizer que elle tinha feito hƹ liuro pa empremir das meezinhas, e fruitas da índia que era muyto proveitoso, pedindome q ouuesse por bem: e mandase que por tempo de tres annos nenhƹa pessoa o podesse Ĥpremir sem licença delle doutor porquanto era em seu prejuízo, e visto per mim seu pedido, e a vĤdo respeito ao que diz ei por bĤ, e por elle mando q pollo dito tĤpo de tres annos q se começarã da notificaçã deste em diante nenhƹa pessoa de qualquer calidade, e cõdiçam q seia possa empremir nĤ mãdar empremir por nenhƹa via o dito livro sem licĤça do dito doutor so pena de qualquer que o cõtrairo fizer paguar por cadauez dozentos Cruzados, a metade pa elle ou pa quĤ o acusar, e a outra metade pa as obras pias, e ser preso ate a minha merçe, e auer a mais pena que eu ouuer por bĤ͙͟
Segundo assinalou o governante, a iniciativa da publicação da obra partiu de Garcia de Orta. D. Francisco Coutinho, realçando a formação académica de Orta, não ƐĞĐŽŝďŝƵĚĞĂůƵĚŝƌĂŽ͞ŽƵƚŽƌ͟ĚĞĨŽƌŵĂƌĞƐƉĞŝƚŽƐĂ͘DĂŝƐĚŽƋƵĞĂƉĞŶĂƐĂŐĂƌĂŶƚŝĂĚĂ protecção dos direitos de autor relativos aos conteúdos, este Privilégio revelou, de forma inequívoca, a atitude cortês do poder político face ao trabalho do prestigiado Garcia de Orta.
Contrariamente ao desejável, entre a redacção do Privilégio, 2/11/1562, e o
terminus do trabalho de edição, 10/4/1563 decorreu quase um semestre.
Desconhecemos a razão que conduziu a um atraso tão expressivo na publicação. Esta demora, talvez imprevista por Endem, causou-‐lhe certamente prejuízos. Na verdade, se uma obra saísse das oficinas de Goa antes do final de Dezembro, ainda tinha possibilidade de chegar a Lisboa em meados do ano seguinte. No entanto, um texto publicado em Abril, se viajasse por mar, só aportaria na Europa um ano mais tarde o
que, provavelmente, se saldava por um adiamento na recuperação do capital investido pelo tipógrafo na publicação do tratado.
Admitimos a possibilidade de este atraso ter resultado de um esgotamento da reserva de papel. A produção sazonal desta matéria-‐prima estava altamente dependente das condições atmosféricas. O processo de secagem dos fólios exigia condições determinadas de humidade e temperatura. Caso estas não se verificassem, e não houvesse reservas disponíveis, podia ocorrer o bloqueio no processo de impressão. 248 Em Goa, a estação quente e seca termina em Dezembro, dando depois lugar à monção quente e húmida. Estas condições são adversas ao processo de secagem do papel.
A urgência em introduzir alterações no texto, tardiamente exigidas pelo autor, coincidentes com um eventual esgotamento do stock de papel, podia ter justificado este atraso substancial na publicação de Colóquios dos Simples. Este facto indesejável, era particularmente gravoso para o autor, que via protegidos os conteúdos da sua obra a partir da data de emissão do Privilégio. Daí que, aparentemente, só uma causa grave justificava este atraso.
Qualquer que tenha sido o motivo desta delonga, a verdade é que os Colóquios não puderam seguir para o Reino imediatamente após a edição, dado que, quando a edição ficou pronta já tinham zarpado, em direcção a Lisboa, as naus da Carreira da
Índia. Deste modo, o real atraso na divulgação europeia dos Colóquios, não foi de 5
meses mas de pouco mais de ano e meio. 249
248
Reportamo-‐nos a informações recolhidas durante o Curso ministrado por Isabelle Pantin, De ů͛,ŝƐƚŽŝƌĞĚƵ>ŝǀƌĞăů͛ƚƵĚĞĚĞƐƚĞdžƚĞƐ, École Normale Supérieure. Paris X, 2006.
249
As naus zarpando de Goa em finais de 1563, chegariam a Lisboa em meados de 1564. Não devemos, no entanto, descurar a possibilidade de circulação da obra através de Ormuz ou de Adém. Nos navios carregados de canela, gengibre, pimenta ou pedras preciosas, a obra de Orta estaria bem acompanhada. Do mesmo modo podemos supor que, desde Abril de 1563, o livreiro Fernão Castilho de Goa não teria mãos a medir com as encomendas de volumes encadernados para os fidalgos, prelados e governantes locais. O mesmo se poderá admitir nas outras cidades da Índia, onde viviam leitores de português.
2.5.1.2. Carta dedicatória a Martim Afonso de Sousa
K ƚĞdžƚŽ ƐĞŐƵŝŶƚĞ ĨŽŝ ƌĞĚŝŐŝĚŽ ƉĞůŽ ŵĠĚŝĐŽ͕ ƋƵĞ ĚĞĚŝĐŽƵ ͞Ž ŵƵLJƚŽ ŝůůƵƐƚƌĞ senhor Martim Afonso de Sousa do cõselho Real senhor das villas dalcuentre, e ho tagarro seu criado ho doutor orta lhe deseia perpetua felicidade cõ inmortal fama pa seus deçĤdĤƚĞƐ͘͟250
Paradoxalmente, Garcia de Orta intitulou-‐ƐĞ͞ĚŽƵƚŽƌ͟ŵĂƐƚĂŵďĠŵ͞ĐƌŝĂĚŽ͟ĚŽ ͞ŝůƵƐƚƌĞ͟ĨŝĚĂůŐŽƋƵĞƉĞƌƚĞŶĐŝĂĂŽ͞ŽŶƐĞůŚŽZĞĂů͘͟KƐĂĚũĞĐƚŝǀŽƐĞƚşƚƵůŽƐǀĂůŽƌŝnjĂŵŽƐ opostos das personalidades, formando um todo coeso e forte. Ao longo da Carta, Garcia de Orta recorreu a numerosas referências clássicas, colocando Martim Afonso de Sousa ao nível dos grandes heróis da Antiguidade:
͞ƉŽƌƋĂŽƐƋĞŽƐĚŽƚŽƵĚĞƚĂŶƚĂƉĞƌĨĞŝĕĂŵ͕ĞĞdžĕĞůĞŶĕŝĂque fizessem feitos tam heróicos por onde os outros escrevessem delles como vossa senhoria fez em estas partes, e Ĥ outras não tĤ necessidade de escreuer pois a fama inmortal os çellebra o quĤ pudera illlustrissimo senhor tornarse Homero ou Virgílio pera escrever vossas grandes façanhas pêra com isto deixar fruto de mi aos vindouros mas pois que a furtuna isto me negou, e foi amoestado, e reprendido desta ociosidade da qual tãbem fuoi acusado dalgus que esta terra gouernã ͙͟251
Orta incluiu então Martim Afonso de Sousa no seu projecto editorial reconhecendo-‐Ž ĐŽŵŽ ŐƌĂŶĚĞ ŝŵƉƵůƐŝŽŶĂĚŽƌ ĚĂƋƵĞůĞ ƚƌĂďĂůŚŽ͗ ͞Ğ ƉŽƌƋ Ž ǀŽƐƐŽ cõƐĞůŚŽ ŚĞ ŵĂŶĚĂĚŽ ƉĞƌĂ ŵŝ ĚĞ ƚĞƌŵŝŶĞŝ ĚĞ ĨĂnjĞƌ ĞƐƚĞ ďƌĞƵĞ ƚƌĂƚĂĚŽ͘͟ K ŵĠĚŝĐŽ acrescentou: 250
Martim Afonso de Sousa (c.1490-‐1564) é uma figura fascinante da nossa História. No âmbito deste trabalho, não pretendemos detalhar a sua polémica biografia. Esta foi recentemente analisada por Alexandra Pelúcia, Martim Afonso de Sousa e a sua Linhagem: a elite dirigente do Império Português nos Reinados de D.João III e D.Sebastião.
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A familiaridade de Martim Afonso de Sousa com os textos Clássicos foi realçada por Orta no Colóquio 2º, do aloés͘ƐĐƌĞǀĞƵKƌƚĂ͗͞ĂĐŚĂŶĚŽŵĞĞŵĐĂƐĂĚĂƋƵĞůůĞĞdžĐĞůůĞŶƚĞǀĂƌĂŵDĂƌƚŝŵĨĨŽŶƐŽĚĞ^ŽƵƐĂ (a quem eu servia) me mostrou a Platina, onde estava lendo na vida de Sam Silvestre, onde achámos ĞƐĐƌŝƚŽ ƋƵĞ͕ ͙͟ ;KƌƚĂ͕ /͗ϯϮͿ͘ ƉƌŝǀĂĐŝĚĂĚĞ ĞŶƚƌĞ ŽƐ ĚŽŝƐ ŚŽŵĞŶƐ ŵĂŶŝĨĞƐƚĂǀĂ-‐se não apenas pelas relações de vassalagem que Orta insistiu em realçar, mas também pela partilha dos espaços, das leituras e dos saberes.