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5 CONVERSANDO SOBRE AS HABILIDADES SOCIAIS EDUCATIVAS

5.1 Aspectos históricos, teóricos e conceituais

Quando se pergunta para alguém o que essa pessoa entende quando ouve a expressão “habilidades sociais”, é comum que as respostas obtidas sejam manifestações do senso comum acerca do que o próprio significante transporta em si, ou seja, existe uma associação imediata às questões ligadas à habilidade de fazer algo, seja relacionado ao meio social, às pessoas ou à convivência em sociedade, ou simplesmente associa-se a algum tipo de aptidão para confeccionar materiais, objetos, dotes culinários, artísticos, etc. (SILVA et al., 2019).

Nesse sentido, Del Prette e Del Prette (2017, p. 24) nos ensinam que “o conceito de habilidades sociais é razoavelmente intuitivo e, talvez por isso mesmo, é necessária uma definição operacional para evitar equívocos e orientar a pesquisa e prática”. Mesmo baseadas no senso comum, as manifestações acerca do termo “habilidades sociais” carregam em si uma força de expressão que nos leva a refletir sobre o que realmente vem a ser tais habilidades. É nessa ponte linguística existente entre significante e significado que busca-se atravessar o passado histórico sobre o surgimento das habilidades sociais enquanto campo teórico, seus horizontes para a construção de uma cadeia de significações e aplicações nos mais diferentes aspectos que esquadrinham as dimensões mais profundas do ser humano em suas relações interpessoais, traçando-se, a partir dessa rede de interlocuções, um possível caminho para um desenvolvimento pleno do indivíduo em seus aspectos culturais, pessoais, sociais, profissionais, cognitivos, afetivos e emocionais.

Historicamente, não há como tratar de habilidades sociais sem fazer referência à área de Treinamento em Habilidades Sociais (THS), a qual se constitui, na atualidade, como

“um campo de investigação e de aplicação do conhecimento psicológico sobre o desempenho social” (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2012, p. 24). Segundo os autores, o THS é entendido como sendo derivado do campo teórico-prático das habilidades sociais, que por sua vez pode referir-se tanto à base teórica do campo quanto às próprias classes de comportamentos designadas como tal. De acordo com Del Prette e Del Prette (2012), o Treinamento em Habilidades Sociais é uma área que vem provocando o interesse crescente por parte de estudiosos da Psicologia, tendo sido observado um grande número de publicações teóricas e

empíricas, com aplicações clínicas, em ambientes escolares e organizacionais (DEL PRETTE;

DEL PRETTE, 2012).

Segundo Del Prette e Del Prette (2012), a disseminação do termo “habilidades sociais” iniciou na Inglaterra, mais precisamente na Universidade de Oxford, com Argyle e outros pesquisadores a ele associados, o que ocorreu quase que concomitantemente ao nascimento do Treinamento Assertivo nos Estados Unidos.

A área das habilidades sociais chegou muito tarde no Brasil, enquanto em países como EUA e Inglaterra, há muito tempo, já se realizavam estudos sobre o tema a partir da perspectiva da Análise do Comportamento (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2012). Mesmo constatada a demora na chegada deste campo teórico prático no Brasil, de acordo com Bolsoni-Silva et al. (2006), o primeiro artigo teórico que visava a apresentação do campo das habilidades sociais no Brasil, publicado em 1996 por Del Prette e Del Prette, intitulado

“Habilidades Sociais: uma área em desenvolvimento”, pode ser considerado como marco da apresentação desse campo de conhecimento e aplicação no país. Contudo, o primeiro livro que relatou a história e os fundamentos teóricos que constituíram esse campo de investigação se materializou somente 3 anos depois (BOLSONI-SILVA et al., 2006).

Quanto à expansão e atualização do campo das HS, a inclusão de novas classes de habilidades sociais como “empatia” e “habilidades sociais profissionais” foram fundamentais para a ampliação das perspectivas teóricas e práticas relacionadas às habilidades sociais (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2018). Especificamente no Brasil, o crescente interesse em investigar e propor novas classes de habilidades sociais é perceptível com a inclusão da classe de habilidades sociais educativas, parentais e conjugais, além da produção e validação de instrumentos padronizados para avaliação, tanto das habilidades sociais em geral quanto das específicas, afirmam Del Prette e Del Prette (2018). De acordo com Bolsoni-Silva et al.

(2006), a partir da década de 90 o número de publicações aumentou consideravelmente, e até os dias atuais tem sido crescente o interesse pela área das habilidades sociais, demonstrando como ela vem se consolidando como campo de pesquisa e aplicação nos últimos anos.

Enquanto conceito, o termo “habilidades sociais” aplica-se a um conjunto de comportamentos sociais que possuem características específicas. Enfatiza-se que uma definição adequada desse conceito deve incluir, pelo menos, as seguintes características:

Habilidades sociais refere-se a um constructo descritivo dos comportamentos sociais valorizados em determinada cultura com alta probabilidade de resultados favoráveis para o indivíduo, seu grupo e comunidade que podem contribuir para um desempenho socialmente competente em tarefas interpessoais (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2017, p. 24).

Dessa forma, eles ressaltam ainda que não basta simplesmente atribuir um caráter social ao papel que o educador exerce, nem tampouco à emissão de comportamentos socialmente habilidosos, pois somente isso não é suficiente para garantir a eficiência e eficácia no processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, destacam que é imprescindível que sejam avaliados e monitorados os efeitos de tais comportamentos nos alunos.

Também se faz pertinente sublinhar alguns conceitos importantes para melhor compreensão do campo teórico das habilidades sociais, considerando um entendimento adequado dos termos e conceitos-chave mais utilizados no âmbito deste construto. Na sequência, far-se-á uma breve exposição de alguns conceitos pertinentes a este campo de estudo, com vistas a uma maior e mais ampla compreensão de premissas importantes para correta utilização dos conceitos e suas aplicações, tendo como base as proposições efetuadas por Del Prette e Del Prette ao longo de sua trajetória de construção teórico-prática no campo das habilidades sociais:

a) comportamento social: refere-se aos comportamentos de uma pessoa em relação à outra. Os comportamentos sociais podem ser divididos em dois conjuntos: os desejáveis e os indesejáveis. Tanto os desejáveis quanto os indesejáveis são situacionais e aprendidos ao longo das etapas de desenvolvimento do indivíduo;

b) demanda: ocasião ou oportunidade diante da qual se espera um determinado desempenho social em relação a uma ou mais pessoas;

c) tarefa interpessoal: refere-se a uma sequência interativa entre pessoas, identificável em uma situação e cultura em termos de começo, meio e fim;

d) práticas culturais: envolvem tarefas variadas e, em sua maioria, tarefas interpessoais pertinentes aos papéis geralmente complementares assumidos pelos indivíduos;

e) portfólio de habilidades sociais: consiste em uma listagem de classes e subclasses de habilidades sociais relevantes e pertinentes às tarefas e aos papeis sociais, bem como à etapa de desenvolvimento do cliente, incluindo também os componentes não-verbais e paralinguísticos (CNVP).

f) déficits em habilidades sociais: apresentam-se de três maneiras: i) aquisição – ocorrem quando a habilidade não existe no repertório e precisa ser aprendida, requerendo, portanto, procedimentos de ensino; ii) desempenho – ocorrem quando a habilidade está presente no repertório, mas é desempenhada com baixa frequência ou sem a discriminação adequada de situação, interlocutor ou

ocasião de demanda; iii) fluência – caracterizam-se por falhas na topografia e dificuldade no desempenho que comprometem sua efetividade, requerendo procedimentos como feedback, modelação e instrução para o aperfeiçoamento de habilidade;

g) variabilidade comportamental: refere-se à diversidade de alternativas de que o indivíduo dispõe para lidar com as situações, visando atender às tarefas interpessoais relevantes em sua vida;

h) papeis sociais: são determinados culturalmente e envolvem padrões de comportamentos esperados pelo grupo social (ou autoatribuídos) no exercício de determinadas funções em contextos e atividades específicas.

Com base na literatura da área e considerando as principais habilidades sociais que vêm sendo objeto de estudos em meio acadêmico-científico, Del Prette e Del Prette (2017) identificaram dez (10) classes gerais e respectivas subclasses de habilidades sociais como sendo reconhecidamente relevantes para os indivíduos ao longo de todas as etapas de sua vida e aos papéis que estes assumem durante seu percurso vital. Considerando os objetivos propostos no escopo desta pesquisa, não serão aqui detalhadas as subclasses de habilidades sociais, sendo apresentadas apenas as classes, conforme Figura 7:

Fonte: Del Prette e Del Prette (2017).

As classes de habilidades sociais representadas na ilustração acima (com suas respectivas subclasses) podem ainda ser organizadas em função dos papéis sociais que as pessoas assumem ao longo de suas vidas. De acordo com Del Prette e Del Prette (2017, p.

Figura 7 - Classes gerais de habilidades sociais

69), “papéis sociais são culturalmente determinados e envolvem padrões de comportamentos esperados pelo grupo social (ou atribuídos) no exercício de determinadas funções em contextos e atividades específicas”.

Numa relação professor-aluno, por exemplo, existe uma expectativa que gira em torno dos comportamentos emitidos pelo professor, imbuído no papel que a ele foi atribuído mediante seu contexto de trabalho, seus pares e seus alunos, os quais se referem a padrões de relacionamento que estabelece com os demais sujeitos envolvidos neste processo (colegas de trabalho, pais, alunos, etc.). Nesse sentido, Del Prette e Del Prette (2017) observam que o bem-estar dos indivíduos em determinadas tarefas interpessoais depende de um desempenho competente no exercício do papel social que este assume ou a ele foi atribuído.

Em função dos diferentes papéis sociais e considerando os estudos teóricos e empíricos já realizados no Brasil, Del Prette e Del Prette (2017) apresentam um conjunto de habilidades sociais (HS) organizadas em função dos papéis sociais mais latentes na sociedade, conforme se pode visualizar na figura 3:

Figura 8 - Habilidades sociais e sua interface com diferentes papéis sociais

Fonte: Del Prette e Del Prette (2017).

A figura 3 ilustra esquematicamente as principais habilidades sociais denominadas em função dos diversos papéis sociais existentes na sociedade. Considerando que a presente investigação se volta para as habilidades sociais educativas de professores, foi dada uma ênfase visual a esta categoria em função dos objetivos aqui traçados. As respectivas

subclasses pertencentes a esta classe das habilidades sociais, serão detalhadas mais profundamente a seguir, em seção destinada exclusivamente para a discussão do referido portfólio.