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Aspectos teóricos e metodológicos

5. Aspectos metodológicos: pontos de partida

A aproximação com o que chamo 'ações coletivas com mídias livres' surgiu do interesse suscitado, ao fim do trabalho de mestrado, no final do ano de 2005, pelas perspectivas da relação com a tecnologia que levassem a níveis de autonomia e auto- determinação. Esse é um sentido oposto ao verificado no ambiente de negócios que formou o contexto de minha pesquisa anterior78. Essa procura conduziu-me ao movimento software livre e à ética hacker. Daí para acessar as ações coletivas com mídias livres foi mais próximo, dada a forte influência que os princípios da cultura hacker (ASSIÉ, 2001; DIMANTAS, 2003; WARK, 2004) exercem sobre as inciativas que buscam a obtenção de autonomia usando tecnologias da informação e comunicação. No mesmo período, as questões relativas à democratização da comunicação passaram a me interesar também no reflexo da insatisfação com o então trabalho de jornalista que exercia.

A partir desse momento procurei me aproximar das formas de apropriação tecnológica, sistemas abertos, ética haker, e de uma maneira geral das práticas libertárias com tecnologias da informação79. A insatisfação com a economia-política da comunicação no Brasil permanecia como uma insatisfação muda. Somente a partir da decisão por tentar uma vaga no curso de doutorado no Departamento de Sociologia dessa Universidade Federal de Pernambuco me ocorreu a busca pela convergência entre esses dois campos..

Esse resgate é necessário porque tem seus reflexos sobre a forma de relacionamento com as ações coletivas com mídias livres, e por conseguinte com os caminhos tomados para identificação e escolha das ações coletivas com mídias livres a serem analisadas.

Nesse sentido, é necessário pontuar que nunca cheguei a tomar parte de nenhuma inciativa de democratização da comunicação, assim como nunca participei ativamente de nenhuma iniciativa para refletir sobre ou socializar tecnologias abertas.

78 A pesquisa do mestrado consistiru de um estudo de caso baseado nas experiências dos chamados profissionais do software na administração de seu tempo. A idéia era analisar a quais estratégias eles recorriam para administrar o tempo num contexto em que o espaço das demandas privadas e pessoais são espremidas por um trabalho que progressivamente passa a ocupar mais horas da vida dos sujeitos, e a se estabelecer em atividades que não são diretamente ligadas às atividades profissionais, como o aprendizado, o consumo, o lazer.

Para o bem e para o mal, esse não envolvimento direto me direcionou a pensar o que defino como ações coletivas com mídias livres verdadeiramente como um objeto de pesquisa.

Esse ponto de vista certamente contribuiu para uma limitação do conjunto de metodologias, influências, afetos, experiências, experimentos, lugares, conversas, impressões, idéias, canções, acuidade a que pude chegar e depois expressar, analisar, traduzir. Sobretudo porque o sentido de compartilhamento que permeia os grupos e pessoas acompanhados e analisados requer essa convivência, que não pude desenvolver – ou que desenvolvi de forma limitada.

Não é que tivesse tocado daquela condição que Bourdieu considerava fundamental para a prática metodológica - o princípio de não-consciência, que permite “a apreensão da lógica objetiva da organização”, que por sua vez “conduz ao princípio capaz de explicar, por acréscimo, as atitudes, opiniões e aspirações”, (BOURDIEU et. al., 2002, p. 29).

Consequentemente, fica dada a limitação de uma possível contribuição às próprias demandas sociológicas, filosóficas, éticas e políticas que emanam (do tenso e problemático, mas virtuoso e fértil) terreno das ações coletivas com mídias livres.

Assim, necessário foi definir uma estratégia de curto prazo para confirmação de algumas hipóteses e caminhos para a pesquisa que se iniciava. Essa estratégia começou pela identificação, a partir de uma prévia busca bibliográfica, dos movimentos que se encontravam no cruzamento aquelas duas áreas mencionadas – o que aliás resultou num conjunto bem reduzido de trabalhos tanto em Sociologia quanto em Comunicação80. Também fez parte desse momento inicial uma busca, entre as instituições integrantes do movimentos pela democratização da comunicação por coletivos, pessoas, grupos e outras referências que atuassem com apropriação tecnológica e sistemas e tecnologias abertas. Correspondentemente, procurei entre o movimento pelo softwre livre no Brasil por grupos envolvidos com a luta pela democratização das comunicações.

80 Novamente são os autores que vêm refletindo sobre a cultura hacker e seus desdobramentos que têm fornecido desde finais dos anos 1990 contribuições mais valorosas nesse sentido. É interessante observar, aliás, que em geral a formação desses pensadores nem é em Ciências Sociais nem em Comunicação, mas em Engenharias, Tecnologias da Informação e Direito.

Nesse sentido, duas (vagas e limitadas) linhas de atuação para o que até então eu denominava ativismo digital foram identificadas inicialmente:

A apropriação tecnológica para mudança social e o exercício do que nomeei por jornalismo não-comercial e mídia livre. A hipótese naquele momento era a de que os grupos que realizam apropriação tecnológica para mudança social e jornalismo não comercial e mídia livre constituiam uma reação ao arranjo centralizado e monopolizado no setor da rádio-difusão no Brasil. Eram também uma reação às dificuldades de acesso a tecnologias informacionais com vistas à expressão de subjetividades e de criação a alternativas de formação profissional. Em última instância procurariam ocupar espaço público, criando ambientes comunicativos virtuais para a expressão de singularidades, vivências e visões de mundo não hegemônicos e/ou contra-hegemônicos. Como tal, se colocariam em oposição a esse arranjo de forças expresso pelos meios de comunicação de massa com ações localizadas e pulverizadas, formando esferas públicas autônomas, nos termos da crítica realizada por Cohen & Arato (1992) ao conceito mobilizado por Jürgen Habermas. Ou seja, elas expressariam a reação preconizada às forças do sistema, representadas, no caso das comunicações, pelo monopólio da fala e pela anulação da política, nos termos usados por Francisco de Oliveira (OLIVEIRA, 1999) – a importância da leitura de Ranciére e da interpretação de Francisco de Oliveira para a história política brasileira já estava presente. E de posse dessas indicações parti para uma série de entrevistas exploratórias.

Tais entrevistas, que suscitaram inclusive o início do acompanhamento de quatro listas de discussão (Submidialogia, Metarreciclagem, Rádio Livre e Fórum de Mídia Livre) e a bibliografia que foi sendo sugerida a partir do contato com tais pessoas, logo tornaram possível ver a limitação dessa abordagem inicial, e a necessidade de redirecionar e intensificar a procura pela transversalidade explicitada pelos grupos que passei a manter contato.

Isso porque, no escopo inicialmente considerado, as mobilizações estavam restritas às redes virtuais, deixando de fora as ações em torno das rádios livres e tvs livres. Também não levava em consideração a denúncia da falsa obsolescência dos equipamentos informáticos (com os graves reflexos sobre o meio-ambiente que traz) e

das possibilidades de re-uso de hardwares à base de softwares livres, o que renova o tempo de vida útil e otimiza sua performance. O recondicionamento nesses termos é um desdobramento virtuoso e radical que a generalidade do termo 'apropriação tecnológica', usado e abusado por programas de 'inclusão digital', oblitera. As entrevistas exploratórias serviram ainda para indicar a necessidade de considerar as iniciativas educacionais que procuravam criar condições de possibilidade (sobretudo por meio de oficinas, de produção e documentação áudio-visual) à afirmação/formação de identidades em comunidades periféricas.

As entrevistas ainda serviram para observar que o trabalho de criação, desenvolvimento e manutenção de plataformas de apoio técnico, armazenagem e compartilhamento de informação na internet está organicamente relacionada a todas as atividades precedentes. Algumas das listas que passei a acompanhar, por exemplo, rodam (funcionam) em servidores livres, ou seja, mantidos por organizações não governamentais, universidades, coletivos independentes e, genericamente, sem fins comerciais81.

Um outro aspecto ou front de ação identificado é relativo à economia de bens simbólicos, e em particular às estratégias corporativas em escala mundial para o controle e limitação do acesso à produção social imaterial – tratado no capítulo anterior. O desenvolvimento e a adoção de formas de licenciamento de bens imateriais que garantissem sua acessibilidade, por exemplo, não vinha sendo considerada e se revelaria depois das entrevistas iniciais um importante elemento de ação e portanto para a análise.

Esse aspecto requereu a busca de um entendimento que articulasse esse aparente emaranhado de frentes desconexas de atuação e fornecesse direções para a análise. Esse entendimento ficou mais próximo com o conceito de commons de informação (BENKLER, 2006; BOYLE, 2003 a e b, 2008; HESS e OSTROM, 2007; LESSIG, 2001; BAUWENS, 2005) e permitiu uma inflexão na abordagem que inicialmente vinha sendo dada.

A reflexão daquelas formas de manifestação acima, em face aos recursos de análise e interpretação fornecidos pela teoria de Benkler, consolidou a noção de que os

81 O que é por si próprio uma forma de estabelecer parâmetros de autonomia e segurança para os debates, trocas, conversações e planejamentos de todo tipo que lá ocorrem.

movimentos com os quais estava travando conhecimento não poderiam ser entendidos como mera “reação ao arranjo centralizado e monopolizado no setor da rádio-difusão no Brasil”, mas como indisposições relativas à forma como o sistema capitalista gera, apropria, distribui, transforma a produção social, em particular, em suas formas imateriais. Em sua teoria, Benkler argumenta que a comunicação humana mediada se dá em três camadas (física, lógica e de conteúdo82

). Ainda que as formas de interação humana possam ser muito mais complexas do que esse esquema permite ver, ele se torna útil como mecanismo que contempla todos os fronts de atuação verificados, articulando-os em um mesmo corpo de análise. Assim, foi possível associar a cada uma dessas camadas os fronts do antagonismo exercido pelo que passei a nomear como 'ações coletivas com mídias livres'.

Assim, os níveis de antagonismo que passaram a se considerados, em face à teorização de Benkler são:

A camada física. Está relacionado às licenças de transmissão por ondas de rádio e nos remete ao atual mercado altamente concentrado da comunicação comercial no Brasil e no mundo todo. De um ponto de vista mais geral, essa camada também nos remete à abundante bibliografia sobre o duplo papel que as corporações de comunicação e entretenimento desempenham na assimilação, pela ideologia liberal

aggiornata (o neo-liberalismo), dos processos de globalização: legitimam o ideário

global, transformando-o no discurso social hegemônico ou em outros termos, reverberam a doxa invasiva e insinuante do neo-liberalismo (BOURDIEU, 2001); mas também atuam como agentes econômicos globais, por onde vendem seus próprios produtos e intensificam a visibilidade de seus anunciantes.

Em uma interessante interpretação dessa potencialidade, já mencionado anteriormente, Octavio Ianni considera a mídia – as corporações de entretenimento e comunicação – uma nova configuração do “príncipe” de quem falaram Maquiavel e

82 Embora muito associada a ambientes digitais e à internet, modelo de Benkler se propõe a explicar por exemplo a comunicação entre as pessoas. Nesta, a camada física seria composta pelo aparelho fonador; a camada lógica seria composto pela linguagem e o conteúdo, transmitido sobre as camadas anteriores, seria formado pelos formatos de comunicação humana. Para os objetivos aqui estabelecidos, o modelo e os conceitos de Benkler são adequados para fornecer uma base de análise do impacto da regulação pelo código no ambiente digital sobre a produção, compartilhamento e usufruto de informação, cultura e conhecimento. Mas também para identificar metodologicamente os lócus do antagonismo de que se tem falado.

Gramsci. Nessa linha, a metáfora revive de modo inesperado, quando a mídia assume a figura do príncipe da modernidade-mundo, ao lado do líder e do partido, ou acima e além deles (IANNI, 2003: 134). Esse duplo papel estratégico é fundamental para a consolidação do capital monopolista trespassado por uma nova substância política reguladora das trocas globais (Sodré, 2005), da estratificação e do poder hegemônico na contemporaneidade.

A camada lógica é o segundo nível de conflitos identificado e, ainda seguindo Benkler, refere-se a "padrões, protocolos e softwares necessários, como os sistemas operacionais" e que "oferecem um ponto de controle sobre o fluxo e, portanto, sobre as

oportunidades de produção e compartilhamento de informação e cultura, (SILVEIRA

et al, 2006). Esse é o terreno da formação das chamadas “comunidades de desenvolvimento”, que procuram criar autonomamente plataformas tecnológicas e usos alternativos para recursos sociais com base nos quais ambientes comunicacionais fora do eixo comercial se estruturam, produzem e distribuem um enorme leque de bens culturais – músicas, vídeos, programas de rádio, programas de tv, entre outros. Essas plataformas incluem listas de discussão, fóruns, servidores e repositórios (arquivos) onde são alocados os registros de manifestações culturais periféricas e/ou contra hegemônicas.

É a atuação sobre a camada lógica que acena com as possibilidades de uso ou ressignificaçào de recursos técnicos que permitem a produção e a distribuição massiva de informação, cultura e conhecimento sem a necessidade de uma estrutura industrial que suporte tais atividades – daí sua crescente relevância, pela implicação que tem em áreas aparentemente tão diversas quanto desenvolvimento de softwares, jornalismo, documentarismo e formatos de TV83, (MAZETTI, 2006; DUNBAR-HESTER, 2009; SLACK, 1984).

Por fim, a camada do conteúdo, o terreno do controle rígido sobre a apropriação monopólica de bens imateriais e simbólicos. Para os interesses dessa pesquisa, o conflito inerente à camada de conteúdo se remete às indústrias da

83 Nos últimos 200 anos a produção de informação, cultura e conhecimento tem estado atrelada preponderantemente a uma economia industrial. Esse ambiente se complexificou nos últimos 30 anos, graças a mudanças “estruturais” de ordem tecnológicas, econômicas e de práticas socias – elementos, aliás, que também orientam a chave interpretativa da pluralidade dos movimentos sociais usada nessa pesquisa (GIDDENS, 1996 e CASTELLS, 1984, 1989, 1999).

comunicação e do entretenimento. O debate e a atuação dos grupos acompanhados se dá em torno da legitimidade desses monopólios e dos efeitos que a restrição legal ao acesso a tais bens trazem para as possibilidades de expressão cultural na sociedade, no âmbito de corporações monopólicas cuja hegemonia em muito é debitária desses marcos legais. O apego dos grandes grupos de comunicação e entretenimento à manutenção e ampliação dos direitos autorais, sobretudo, está na forma com que os princípios que regem a legislação (em escala internacional e que orienta as legislações nacionais) foram criados no início da era moderna e foram tratados no primeiro Capítulo. Em um sentido, o conflito ocorre em um nível retórico e argumentativo. O debate sobre a legitimidade dessas regulações também fez surgir nos últimos anos formas não comerciais e alternativas de regulação do acesso aos bens imateriais (LESSIG, 2005) – colocando-se assim para além da crítica à legitimidade dos marcos legais de alcance nacional e internacional.

Deve-se observar que esses níveis de conflito possuem um acento na hibridação e outro na transversalidade. O entendimento de BENKLER (2006) orientou ao longo de todo o trabalho as instâncias dos conflitos às quais as ações coletivas com mídias no Brasil se referem, direta ou indiretamente84.

O trabalho de campo e de análise de dados coletados portanto pode ser dividido em três grandes fases: a aproximação do tema – essa fase descrita anteriormente –, a obtenção mais vertical de informações e o período de análise propriamente dito. A fase inicial serviu para identificar que as questões a que se referem as ações coletivas com mídias livres têm uma clara ligação com a economia-política da comunicação. Mas essa aproximação serviu também para verificar que o antagonismo geral associado vai além, e se projeta para o mercado de bens simbólicos como condição de reapropriação das condições de possibilidade de afirmação da identidade e exercício da política.

A segunda etapa se caracterzou pelo aprofundamento da obtenção de informações. Até este momento haviam sido formados dois marcadores ou guias para a seleção de quais grupos e pessoas acompanhar: a atuação sobre as camadas física, lógica e de conteúdo, como descrito acima, e a perspectiva apropriadora e emancipadora da técnica que entede os objetos técnicos na zona de individuação – o

84 Nesse sentido, a construção do objeto passa pela sua decomposição, em face do sistema de relações sociais e das orientações que tais ações assumem (MELUCCI, 2001).

que implicava, como vimos, no abandono da divisão estanque entre a essência da coisa e a coisa formada, entre a forma e a matéria que abre possibilidades para práticas artesãs que transformem, apropriem e re-signifiquem o objeto técnico.

A identificação inicial de alguns indivíduos, coletivos de produção cultural, de ambientes virtuais e encontros presenciais serviu como um ponto de partida para a identificação de outros atores sociais nessa linha de interesse delineada. Ou seja, utilizei os primeiros contatos como intermediários que me remetessem a outros grupos, práticas e conceitos. Nesse processo, a forma de articulação em rede das ações coletivas com mídias livres funcionou como um fator fundamental.

Ao lado dessas duas guias, um outro elemento viria a ser adotado para identificar e caracterizar ações coletivas com mídias livres. É o Princípio de Dispersão, mais detalhadamente problematizado no capítulo seguinte. É necessário observar que esse Princípio não foi identificado, não foi encontrado. Ele é outro elemento analítico criado (a partir de uma intensa observação das interações nas Listas de Discussão, nos encontros presenciais e nas entrevistas que se seguiram à fase inicial) para a interpretação das ações coletivas com mídias livres, mas também serve como um balisador para sua identificação.

Assim, a Dispersão dos Sentidos, o Descentramento Organizacional e Temporal, a Desterritorialização das ações que compõem esse Princípio de Dispersão – vide Capítulo 4 –, serviram como o terceiro elemento a localizar e justificar os grupos analisados e as pessoas entrevistadas. A busca pela interpretação do programa político das ações coletivas com mídias livres passou a considerar que os conceitos mobilizados/criados, as ações, as formas de articulação e organização são executados por redes submersas de grupos, pontos de encontro, de circuitos de solidariedade que exprimem uma condição de latência, nas quais as relações vêm à tona por ocasião das mobilizações coletivas.

O Princípio de Dispersão permitiu orientar o olhar para a condição nômade das ações, isolando interpretações que tendessem a considerá-los emanações efêmeras, sem repercussão ou efeito, destituídos de um programa. É o mesmo Princípio que permite apreciar como e porque as ações coletivas com mídias livres são tornadas possíveis por redes submersas de grupos, de pontos de encontro e de circuitos de solidariedade e não