4 A IMPLEMENTAÇÃO DA RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA PARA
4.1.3 Aspectos práticos do princípio da responsabilidade compartilhada
No que se refere às formas de compartilhamento de responsabilidades, tem-se o entendimento de que estas dividem-se em: (i) compartilhamento de responsabilidades financeiras; e (ii) compartilhamento de responsabilidades físicas121.
117 Definição de soft law
118 THÜRER, Daniel. Soft Law. Max Planck Encyclopedia of Public International Law. 2009. Pág. 2. Disponível em: <http://opil.ouplaw.com/view/10.1093/law:epil/9780199231690/law-9780199231690- e1469?prd=EPIL> Acesso em: 17 de fevereiro de 2018.
119 THÜRER, Daniel. Soft Law. Max Planck Encyclopedia of Public International Law. 2009. Pág. 3. Disponível em: <http://opil.ouplaw.com/view/10.1093/law:epil/9780199231690/law-9780199231690- e1469?prd=EPIL> Acesso em: 17 de fevereiro de 2018.
120 A Declaração de Nova Iorque, em se tratando de uma Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, não se caracteriza como um tratado internacional.
121 MILNER, James. When norms are not enough: Understanding the principle and practive of burden and responsibility sharing of refugees. 2016. Pág. 3 Disponível em: <
O compartilhamento de responsabilidades financeiras consiste no aporte de assistência financeira ou outros tipos de assistência (por exemplo, assistência técnica) aos países de acolhida de refugiados. Esta pode ser feita por meio de assistência bilateral, em que os países doadores fazem a contribuição financeira para o país de acolhida ou por meio da assistência multilateral, através de contribuições dos países doadores para organizações internacionais, tais como o ACNUR ou para organizações não governamentais122.
Em relação à responsabilidade física, esta se caracteriza essencialmente pela admissão e recepção de refugiados em países terceiros, por meio do reassentamento123. Nesse sentido, isto se faz possível através do estabelecimento de programas de reassentamento ou do aumento de quotas para reassentamento nos países que já possuam programas implementados. Desse modo, segundo Thomsom124 para que o reassentamento represente uma forma significativa de partilha da responsabilidade internacional, o número total de refugiados aceitos para reassentamento e os Estados envolvidos de forma significativa nos processos de reassentamento precisa aumentar dramaticamente.
O compartilhamento de responsabilidades entre os Estado pressupõe ainda a necessidade de se mensurar os impactos, negativos ou positivos, dos refugiados para a comunidade de acolhida. Tal entendimento se faz necessário a fim de determinar s em que medida os Estados devem se engajar no processo de compartilhamento de responsabilidades.
Nesse sentido, Milner chama atenção para o fato de que é imprescindível o entendimento sobre os impactos de refugiados nos países e comunidades de acolhida, incluindo uma análise dos impactos positivos e negativos que podem
https://www.cigionline.org/sites/default/files/documents/Refugee%20Paper%20no2web_3.pdf> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
122 MILNER, James. When norms are not enough: Understanding the principle and practive of burden and responsibility sharing of refugees. 2016. Pág. 3 Disponível em: <
https://www.cigionline.org/sites/default/files/documents/Refugee%20Paper%20no2web_3.pdf> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
123 MILNER, James. When norms are not enough: Understanding the principle and practive of burden and responsibility sharing of refugees. 2016. Pág. 4 Disponível em: <
https://www.cigionline.org/sites/default/files/documents/Refugee%20Paper%20no2web_3.pdf> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
124 THOMSON, Jessie. The Role of Resettlement in Refugee Responsibility Sharing. 2017. Pág.3.
Disponível em:
<https://www.cigionline.org/sites/default/files/documents/Refugee%20Paper%20no.3_0.pdf> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
decorrer da presença de refugiados, com o objetivo de mitigar as a consequências negativas de acolher refugiados e desenvolver potenciais contribuições para refugiados e programas de assistência125.
Assim, para que haja o engajamento dos Estados, assumindo compromissos concretos, faz-se necessário compreender os efetivos impactos dos refugiados na comunidade de acolhida. Ademais, a determinação da contribuição dos Estados também depende das suas capacidades e recursos.
Nesse sentido, o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas (principle of common but differentiated responsibilities), princípio do Direito Internacional Ambiental126, reconhece que os Estados têm contribuído em diferentes níveis para o problema ambiental e possuem diferentes capacidades para enfrentar o problema127.
Tal princípio tem sido considerado também como aplicável no contexto dos refugiados, e, nesse caso, com o entendimento de que a proteção de refugiados é de responsabilidade dos Estados, independente de este ter contribuído ou não para as causas do deslocamento, e que os Estados contribuem de formas diferentes128.
Apesar de não se encontrar menção expressa ao “princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas” com tal nomenclatura, a sua concepção encontra respaldo no parágrafo 68 da Declaração de Nova Iorque, o qual preleciona que o compromisso dos Estados para o compartilhamento de responsabilidades levará em consideração “a existência de contribuições e diferentes capacidades e recursos entre os Estados129”.
125 MILNER, James. When norms are not enough: Understanding the principle and practive of burden and responsibility sharing of refugees. 2016. Pág. 3 Disponível em: <
https://www.cigionline.org/sites/default/files/documents/Refugee%20Paper%20no2web_3.pdf> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
126 O princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas é refletido na United Nations
framework convention on climate change
127DOWD, REBECCA; MCADAM, Jane. International Cooperation and Responsibility-sharing to
Protect Refugees: What, Why and How? In: International and Comparative Law Quarterly, 66(4).
2017. Pág.24 Disponível em: <https://doi.org/10.1017/S0020589317000343> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
128DOWD, REBECCA; MCADAM, Jane. International Cooperation and Responsibility-sharing to
Protect Refugees: What, Why and How? In: International and Comparative Law Quarterly, 66(4).
2017. Pág.24 Disponível em: <https://doi.org/10.1017/S0020589317000343> Acessado em: 17 de fevereiro de 2018.
129 Conforme o parágrafo 68 da Declaração: “We underline the centrality of international cooperation to
the refugee protection regime. We recognize the burdens that large movements of refugees place on national resources, especially in the case of developing countries. To address the needs of refugees and receiving States, we commit to a more equitable sharing of the burden and responsibility for hosting
Em suma, o referido princípio reconhece que os Estados possuem diferentes forças e capacidades para proteger refugiados, e que não é razoável ou realista esperar que os Estados contribuam no mesmo nível e de maneira igual130.
Ressalte-se que, diante da ausência de um mecanismo acordado entre os Estados para o compartilhamento de responsabilidades entre si de forma sistemática, equitativa e previsível, e da falta de uma obrigação legal para tanto, o que se observa é que as ações de compartilhamento de responsabilidade por parte dos Estados, apesar de existentes, têm sido discricionárias131.
A Declaração de Nova Iorque, por sua vez, propõe que, através de um Pacto Global sobre Refugiados, seja elaborado um mecanismo que promova uma partilha mais justa e igualitária entre os Estados para uma efetiva resposta aos movimentos de refugiados. Nesse sentido, a Declaração objetiva, com o Pacto Global, suprir essa lacuna dos instrumentos internacionais anteriores, buscando uma abordagem concreta de compartilhamento de responsabilidades para lidar com os grandes movimentos de refugiados132.
4.1.4 Exemplos de práticas dos Estados de compartilhamento de