3.2 A DECLARAÇÃO E OS COMPROMISSOS ADOTADOS
3.2.2 Compromissos aplicáveis a migrantes e refugiados
No que tange aos compromissos aplicáveis a ambos refugiados e migrantes, a Declaração de Nova Iorque é enfática ao reconhecer a importância de uma abordagem abrangente para lidar com a questão. Nesse sentido, os países se comprometem a garantir respostas centradas nas necessidades dos indivíduos, de forma sensitiva, humana, dignificante e que leve em consideração as perspectivas de gênero. Ademais, um dos compromissos acordados é garantir o pleno respeito e proteção aos direitos humanos e liberdades fundamentais para refugiados e migrantes.
Além disso, os Estados membros se comprometem a lidar com as necessidades específicas de grupos vulneráveis envolvidos nos grandes fluxos de refugiados e migrantes, tais como: mulheres em risco; crianças, e especialmente as desacompanhadas ou separadas de seus familiares; membros de minorias étnicas e religiosas; vítimas de violência; idosos; pessoas com deficiência; pessoas que são discriminadas por quaisquer outros fatores; pessoas indígenas; vítimas de tráfico humano e vítimas de abuso e exploração no contexto de contrabando de migrantes.
Nesse sentido, dentre os compromissos adotados para lidar com as necessidades de grupos específicos, a Declaração ressalta a: (i) vulnerabilidades de mulheres e crianças, considerando o seu risco de exposição a discriminação e exploração, bem como abuso sexual, físico e psicológico, violência, tráfico humano e formas contemporâneas de escravidão; (ii) enfrentar as vulnerabilidades de refugiados e migrantes portadores de HIV e que possuam necessidades especificas de saúde; (iii) proteção de crianças migrantes e refugiadas, levando em consideração o melhor interesse da criança81 e reforçando o cumprimento das obrigações previstas na Convenção sobre os Direitos das Crianças; (iv) levar em consideração uma perspectiva de gênero nas respostas promovidas, promovendo igualdade de gênero, a empoderamento de mulheres e meninas e o respeito aos direitos humanos destas, bem como o combate a violência sexual e baseada em gênero e acesso aos serviços de saúde de cuidados sexuais e reprodutivos. Esta reafirma a importância de apoio e
81 O princípio do melhor interesse da criança deriva da Convenção sobre os Direitos da Criança que, em seu art. 3.1 preleciona que: “Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o melhor interesse da criança.”
assistência às necessidades imediatas das pessoas que foram submetidas a abusos físicos ou psicológicos durante o seu deslocamento.
A Declaração dispõe ainda sobre a implementação de procedimentos de controle de fronteiras de acordo com os padrões do direito internacional, incluindo a promoção da cooperação internacional entre os países para o controle e gestão de fronteiras. Ainda no que diz respeito à cooperação internacional, a Declaração ressalta, como um ponto em comum para refugiados e migrantes, a necessidade de fortalecimento dos mecanismos de busca e resgate de indivíduos em deslocamento, sejam por rotas marítimas ou terrestres.
Considerando que os indivíduos que cruzaram ou pretendem cruzar fronteiras possuem o direito ao devido processo enquanto aguardam a análise do seu status legal, de entrada e de permanência, a Declaração considera a necessidade de revisão de políticas que criminalizam os movimentos entre fronteiras. Além disso, os países se comprometem a adotar alternativas à detenção enquanto essas análises são feitas.
Além disso, os países pretendem adotar esforços para coletar informações precisas e confiáveis sobre grandes movimentos de refugiados e migrantes. bem como melhorar a coleta de dados sobre refugiados e migrantes, principalmente pelas autoridades nacionais, ressaltando a necessidade de que estes dados sejam desagregados por sexo e idade, incluindo informações sobre fluxos regulares ou irregularidades, os impactos dos movimentos de refugiados e migrantes, tráfico humano, necessidades dos refugiados, migrantes e comunidade de acolhida, bem como outras informações relevantes.
Outro ponto de destaque é o compromisso em combater o crime organizado transnacional, tráfico humano e trabalho forçado. A importância da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional de seus dois protocolos é reafirmada, bem como a necessidade de implementação do Plano Global de Ação das Nações Unidas de Combate ao Tráfico de Pessoas. Nesse sentido, a Declaração reitera a necessidade de estabelecimento de legislações e políticas nacionais e regionais de combate ao tráfico. Para tanto, ressalta a importância da cooperação, regional ou bilateral, entre os países de origem, transito e destino para a prevenção do tráfico humano e contrabando de migrantes, bem como a persecução de traficantes e contrabandistas.
A Declaração traz ainda como uma prioridade não somente com as questões das pessoas em deslocamento, mas o próprio combate às causas e fatores que levam aos grandes movimentos de refugiados e migrantes, incluindo deslocamentos forçados e crises prolongadas. Desse modo, pretende-se reduzir vulnerabilidades, combater a pobreza, melhora autossuficiência e resiliência, assegurar o fortalecimento da relação entre desenvolvimento e assistência humanitária e melhorar coordenação de esforços para paz.
O combate à xenofobia, racismo e discriminação contra refugiados e migrantes é um compromisso assumido pelos países com a declaração. Nesse sentindo, estes adotarão medidas para garantir a integração e inclusão de refugiados e migrantes nos países e comunidades de acolhida, de modo que tenham acesso a serviços básicos, especialmente educação, saúde, justiça e ensino de idiomas. Para tanto, faz-se necessário o desenvolvimento de políticas nacionais de integração e inclusão que tenham o envolvimento de diversos atores relevantes (governamentais, sociedade civil, organizações religiosas, setor privado, organizações de empregados e empregadores, entre outros).
A Declaração ressalta ainda a importância do financiamento humanitário a fim de operacionalizar ações e garantir a respostas dos países à situação de refugiados e migrantes. Nesse ponto, chama a atenção para a necessidade de diversificação de fontes de recursos e adoção de estratégias inovadoras de financiamento.