4.4 AS INOVAÇÕES TRAZIDAS PELA LEI DOS ALIMENTOS GRAVÍDICOS (LEI Nº
4.4.1 Aspectos processuais dos alimentos gravídicos
Embora existam controvérsias no que tange a titularidade dos alimentos gravídicos, e, portanto, a parte considerada legítima para pleiteá-los, é preciso se atentar ao que está previsto no artigo 6º, caput e parágrafo único, da Lei nº 11.804/2008, in verbis:
Art. 6º Convencido da existência de indícios da paternidade, o juiz fixará alimentos gravídicos que perdurarão até o nascimento da criança, sopesando as necessidades da parte autora e as possibilidades da parte ré. Parágrafo único. Após o nascimento com vida, os alimentos gravídicos ficam convertidos em pensão alimentícia em favor do menor até que uma das partes solicite a sua revisão.
Afirma Angeluci (2009, p. 68):
Ao que parece, o legislador pretendeu inserir no ordenamento uma nova forma de substituição subjetiva da relação jurídica, tendo em vista que o primeiro titular desses alimentos é a mulher gestante, cujo termo final ocorre com o nascimento com vida, sendo este o marco inicial do novo titular desse direito: “o menor”. Portanto, a partir de uma ficção legal, os “alimentos gravídicos” ficam convertidos em pensão alimentícia para o menor, alterando-se o sujeito ativo da relação. Como corolário dessa assertiva, a preocupação primeira do legislador, apesar de afirmar o contrário, não é a mulher gestante, mas sim a criança que ela traz em seu ventre, especialmente porque as despesas decorrentes da gravidez não se encerram exclusivamente com o parto, pois são conhecidos muitos traumas e tratamentos que ela necessita após o nascimento do filho. Dessa forma, sem razão a referida conversão se a preocupação legislativa com a obrigação alimentar fosse restrita à mulher, além do absurdo que seria alimentos fixados a termo certo.
Donoso (2009, p. 104, grifo do autor) continua o mesmo raciocínio:
Ainda assim, ao que me parece, inicialmente a titularidade – e, portanto, a legitimidade ativa – seria da própria gestante. Após o nascimento com vida, porém, haveria uma conversão de titularidade, de modo que os alimentos gravídicos passariam à qualidade de pensão alimentícia em favor do menor.
Tal controvérsia decorre da redação do artigo 1º, da Lei nº 11.804/2008, in verbis: “Esta Lei disciplina o direito de alimentos da mulher gestante e a forma como será exercido”. No tocante a titularidade e a legitimidade para pleitear a ação de alimentos gravídicos, oportuno observar o que aduz Freitas (2009, p. 90, grifo do autor), “a mulher grávida é a legitimada para ingresso da Ação de Alimentos
Gravídicos nos termos do caput do artigo 1º da lei, podendo, se menor ou incapaz, ser assistida ou representada por aquele que detém sua tutela ou curatela”.
Nessa linha, Donoso (2009, p. 104) complementa, “a lei, aparentemente sem querer, teria criado uma restrição ao acesso do nascituro ao pleito judicial de alimentos. A ele só seria dada legitimidade de pleitear sua revisão, após seu nascimento com vida”.
Porém a 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, tendo como Relatora a Min. Nancy Andrighi, reconheceu no Recurso Especial nº 931556/RS o direito de um nascituro receber indenização por danos morais. Tal decisão reiterou o entendimento adotado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que já havia se posicionado a favor da indenização a um nascituro que ainda não havia nascido quando seu pai morreu em um acidente de trabalho. A mãe do nascituro, após a morte do marido, ajuizou uma ação de indenização por danos morais e materiais contra a empresa onde o seu marido trabalhava. Em primeira instância, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul condenou a empresa ao pagamento de pensão mensal a título de danos materiais, além do pagamento de danos morais arbitrados em R$ 39 mil para a viúva e R$ 26 mil para cada filho, inclusive para o nascituro. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul manteve a referida decisão que, recorrida, chegou até o Superior Tribunal de Justiça. (BRASIL, 2008).
Nota-se que a restrita menção apresentada no artigo 877, do Código de Processo Civil elucida não ser apenas a gestante a única legitimada para a propositura da referida medida, o Ministério Público também exerce legitimidade ativa quanto ao nascituro, conforme se vislumbra no caput do referido artigo, in verbis: “A mulher que, para garantia dos direitos do filho nascituro, quiser provar seu estado de gravidez, requererá ao juiz que, ouvido o órgão do Ministério Público, mande examiná-la por um médico de sua nomeação”. (MARINONI; ARENHART, 2008).
Já, quanto ao pólo passivo da ação de alimentos gravídicos, compete ao pretenso pai, pois, segundo elucida Freitas (2009, p. 92), considera-se “aquele que na referida ação fora indicado como sendo o possível pai por conta dos indícios da paternidade ou pela paternidade presumida à luz do artigo 1.597 do Código Civil. Pode, também, haver o pleito em relação a outros parentes”, conforme está disposto no artigo 1.698, do Código Civil de 2002.
Também é aplicável nesse caso a regra prevista na Súmula nº 277, do Superior Tribunal de Justiça, in verbis: “Julgada procedente a investigação de paternidade, os alimentos são devidos a partir da citação”. Dessa forma, sustenta-se que os alimentos gravídicos são devidos desde a citação do devedor, eis que só a citação é que constitui em mora o devedor, conforme dispõe o artigo 219, do Código de Processo Civil. (DONOSO, 2009).
Contudo, se fixados os alimentos gravídicos, sobrevindo a ação investigatória de paternidade, como tais alimentos já foram fixados, estes serão devidos desde a concepção do nascituro, e não mais a partir da citação da ação investigatória de paternidade. Nesse caso, a Súmula nº 277, do Superior Tribunal de Justiça só valerá quando inexistir fixação prévia de alimentos gravídicos. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009).
Conforme pode ser verificado no atual teor da Lei dos Alimentos Gravídicos, poucas são as normas procedimentais, pois parte delas foi vetada pelo Presidente da República. Entretanto, aponta Gaburri (2009, p. 63), “após os vetos presidenciais, a única norma propriamente processual que restou diz respeito à resposta do réu. O prazo para que o réu ofereça contestação não será o de 15 dias, conforme art. 297 do CPC, mas de 5 dias, segundo o art. 7º da lei”.
Havia previsão na Lei dos Alimentos Gravídicos para fixar o foro competente para o processamento e julgamento de que trata a referida legislação como sendo o domicílio do pretenso pai, no entanto, o artigo 3º, que isso dispunha, foi vetado, passando assim a continuar a regra prevista na Súmula nº 1, do Superior Tribunal de Justiça, in verbis: “O foro do domicílio ou da residência do alimentando é o competente para a Ação de investigação de paternidade, quando cumulada com a de alimentos”. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009).
Freitas (2009, p. 88) esclarece:
O domicílio para a propositura da ação é o da gestante por duas razões patentes, por ser ela a alimentada beneficiada pela Lei e por deter, de regra, a posse em nome do nascituro, que, ao nascer, por disposição expressa da Lei dos Alimentos Gravídicos, será o novo alimentado, já que o nascimento põe termo ao direito da gestante e passa o benefício à criança, já que deixa de ser Alimentos Gravídicos e torna-se Pensão de Alimentos nos termos do parágrafo único do artigo 6º da referida lei.
Segundo dispõe o artigo 11, da Lei nº 11.804/2008, in verbis: “Aplicam-se supletivamente nos processos regulados por esta Lei as disposições das Leis nº
5.478, de 25 de julho de 1968, e 5.869, de 11 de janeiro de 1973 - Código de Processo Civil”.
Segundo Gaburri (2009, p. 64):
Com base nisso, poderíamos afirmar o contrário do que dispõe o art. 11, ou seja, aplica-se, quanto ao procedimento, o CPC e a Lei dos Alimentos Provisórios, em caráter principal e a depender do caso e, supletivamente, ou melhor dizendo, em caráter de especialidade, a Lei dos Alimentos Gravídicos!
Esclarece Fonseca (2009, p. 14):
A intenção do legislador é a de que o processo de alimentos gravídicos tenha celeridade e eficácia, sob pena de prejuízos na qualidade gestacional do nascituro ou de ser deferido após o nascimento. Daí a disposição de que o réu será citado para apresentar resposta em 5 (cinco) dias (art. 7º, Lei nº 11.804/2008), tal como disposto no Código de Processo Civil para os procedimentos cautelares (art. 802, CPC). Na resposta, o réu deverá alegar toda a matéria de defesa, sob pena de preclusão. Observe-se que nestas ações não se aplicam os efeitos da revelia, obrigando-se o juiz a instruir celeremente o processo.
Portanto, em defesa do que foi exposto, nota-se que a ação de alimentos gravídicos possui tempo determinado para a sua propositura, a qual deve ser proposta após a concepção da gravidez, e antes do parto. Desse modo, convencido da existência de indícios de paternidade, o juiz fixará os alimentos gravídicos. Trata- se de juízo de cognição superficial, o qual não denota prova inequívoca, contentando-se como meio de prova os indícios de paternidade. (FREITAS, 2009; ALMEIDA JÚNIOR, 2009).