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ORIGEM E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS ALIMENTOS

Entre os romanos, os alimentos eram concedidos pelo marido à esposa e diziam-se prestados a título de officium pietatis, ou seja, aproximavam-se da obrigação alimentar com a ideia de caridade, como se fossem um espelho da situação de inferioridade em que até então vivia a mulher. Podem-se citar como exemplo, além da mulher, os filhos e os escravos, os quais eram submetidos à autoridade do pater familias. (PEREIRA, A. P., 2007).

Nessa linha, complementa ainda o autor supracitado, “nos primórdios das civilizações, os alimentos constituíam dever moral, sendo concedidos pietatis causa, sem regra jurídica para impor-lhes a prestação”. (PEREIRA, A. P., 2007, p. 2, grifo do autor).

Posteriormente, com o surgimento das normas disciplinadoras do Direito de Família é que os alimentos puderam então ser reivindicados como direito resultante das relações jurídicas existentes entre credor e devedor, discutindo-se assim o direito de exigi-los e a obrigação de prestá-los, passando estes a assumir as características de dever legal, fixando o seu caráter assistencial, com fundamento no princípio da solidariedade familiar. (PEREIRA, S. G., 2007; QUEIROGA, 2004).

O ser humano, por natureza, é carente desde a sua concepção; como tal, segue o seu fadário até o momento que lhe foi reservado como derradeiro; nessa dilação temporal, mais ou menos prolongada, a sua dependência dos alimentos é uma constante, posta como condição de vida.

Percebe-se que a obrigação alimentar é própria da família moderna, e que a sobrevivência é um dos direitos fundamentais do ser humano, e para garantir tal direito, o ser humano necessita não só da alimentação, mas também de meios para ter acesso à saúde, à educação, ao lazer etc. Nesse sentido, sabe-se que cada pessoa deve promover a própria subsistência através de seu trabalho, e que a responsabilidade por promover esta subsistência somente se transfere a terceiros se este indivíduo não tiver condições de promover sozinho o seu sustento. Em razão disso é que os alimentos foram concebidos como imposição dos deveres de caridade, de piedade ou de consciência, contendo-se nos campos morais e religiosos, e, por conseguinte, é o dever mútuo e recíproco entre os cônjuges, os ascendentes, os descendentes e os irmãos. (FREITAS, 2005; QUEIROGA, 2004; LÔBO, 2008).

Fazendo-se uma analogia necessária, destacam-se os ensinamentos proferidos pela 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, na decisão do Agravo de Instrumento nº 2007002005397-9, tendo como Relator o Des. James Eduardo Oliveira, o qual entendeu que, “o avô possui legitimidade para a ação de alimentos cuja causa de pedir está assentada na insuficiência dos alimentos prestados pelos pais [...]”. Pois o fato de o genitor ter que pagar alimentos não impede, nem exclui a responsabilidade subsidiária do avô, desde que presentes os requisitos emoldurados nos artigos 1.694, § 2º, 1.696 e 1.698, do Código Civil de 2002. Porém, se comprovada a insuficiência financeira do genitor, e a necessidade alimentar do menor, caso o avô ostente melhores condições econômicas, poderá arcar com a complementação da obrigação alimentar imposta. (DISTRITO FEDERAL, 2007).

Há uma tendência moderna de impor ao Estado o dever de socorrer a quem dele necessita, através de sua política assistencial e previdenciária. E com o objetivo de amenizar tal encargo, o Estado transfere tal dever, mediante lei, aos parentes do necessitado, para que estes tenham a obrigação de promover a sua subsistência, a fim de garantir a sua sobrevivência, pois os laços que unem os membros de uma mesma entidade familiar impõem não só deveres afetivos, mas

também deveres morais e jurídicos. Em suma, presume-se a possibilidade de os parentes exigirem uns dos outros a prestação alimentícia, consoante bem demonstra nosso diploma legal, em que o instituto dos alimentos se funda não apenas no vínculo familiar (jus sanguini) imposto pela lei, mas também, como já se registrou, decorre da vontade das partes. (RODRIGUES, 2007; DINIZ, 2006; FREITAS, 2005; PORTO, 2004).

Venosa (2011, p. 359, grifo do autor) expõe com notável clareza:

No Direito Romano clássico, a concepção de alimentos não era conhecida. A própria estrutura da família romana, sob a direção do pater familias, que tinha sob seu manto e condução todos os demais membros, os alieni juris, não permitia o reconhecimento dessa obrigação. Não há precisão histórica para definir quando a noção alimentícia passou a ser conhecida. Na época de Justiniano, já era conhecida uma obrigação recíproca entre ascendentes e descendentes em linha reta, que pode ser vista como ponto de partida.

Com efeito, a doutrina se mostra uniforme no sentido de que a obrigação alimentar, fundada sobre as relações familiares, não é mencionada nos primeiros momentos da legislação romana, não havendo uma determinação precisa do momento histórico em que essa estrutura foi se concretizando, no sentido de ser reconhecida no contexto das relações familiares. Só se sabe que esta obrigação alimentar é antiga, e que teve suas origens durante o período republicano e arcaico, pois tais períodos são reflexos da própria constituição da família romana, em que o poder familiar era exercido pelo pai. (PEREIRA, S.S. M., 2007; CAHALI, 2009).

Sabe-se que o Direito Romano é fonte inexorável das diretrizes a serem tomadas pelo Direito Civil, a partir da evolução do conceito de família e de alimentos, e com o advento das novas diretrizes constitucionais, determinadas classificações doutrinárias e posicionamentos jurisprudenciais referentes à obrigação alimentar não mais prevalecem no ordenamento jurídico brasileiro com o evoluir da sociedade, por força das sensíveis transformações sociológicas dos institutos familiar e alimentar, existindo certo interesse público em relação ao instituto dos alimentos, pois caso os parentes não atendam as necessidades básicas do necessitado isso poderá levar a ocasionar mais um problema social, afetando assim os cofres públicos. (CARVALHO, 1994; DIAS, 2006; DIAS, 2010; VENOSA, 2011).

Em acompanhamento a essas mudanças, cumpre, por fim, destacar que, embora o Estado possua o dever de amparar quem não tem condições para prover o seu próprio sustento, este transfere tal obrigação às pessoas que pertencem ao

mesmo grupo familiar, as quais têm obrigação jurídica de prestar auxílio aos que dele necessitam. (GONÇALVES, 2011).

E é através das mudanças ocorridas no âmbito familiar que se interessa conceituar e investigar o instituto dos alimentos, conforme se verificará a seguir.