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2.1 Passado: Saindo do Ninho

2.2.4 Aspectos valorizados

Neste subtema serão abordados o que os pais valorizam em seus filhos, tanto no que se referem às atividades extra-escolares como em suas características pessoais.

Os pais de Lucy, como já citado, salientam que o kumon de matemática é importante, pois “ajuda no desenvolvimento”. O balé e a natação é uma “necessidade” por ser indicação médica, “descarregar energia” e um “incentivo” a sua vida. A mãe sempre achou a balé uma atividade “linda”. Quanto à maneira de ser, os pais dizem que Lucy é

“diferente”, “inteligente”, “criativa”, “sociável”, não tem “inibição” diante das pessoas e é

muito “esperta”. A mãe coloca que: “Se não tiver um jogo de cintura ela te engana, ela é

malandra. Você tem que ter um jogo de cintura pra conseguir com que ela faça uma tarefa, com que ela faça alguma coisa sem você ter que... nada ela faz de uma primeira vez que você pede”. Isso se refere ao banho também. O pai relata que ela é muito “viva” e “esperta” e

exemplifica: “[...] você está no supermercado com ela, né! ‘Pai compra isso, compra aquilo,

compra isso’. ‘Não vou comprar, não falta nada’. Aí, você sai assim no caixa, cheio de gente, ela fala para a mãe dela: ‘Mãe, você não comprou nem uma calcinha mãe! Pelo amor de Deus, me compra pelo menos um pacote de bolacha. Pelo amor de Deus mãe, pelo menos um danone mãe’. Tem que sair de perto porque você passa... você passa vergonha, passa vergonha. Tem que sair de perto, entendeu?” Os pais riram muito quando contaram este

episódio. O fato de ser esperta, de enganar e ser malandra são atitudes que Lucy toma em determinadas situações e, mesmo que às vezes a mãe grite e fique brava, percebe-se que são comportamentos que acabam encantando os pais, porque eles apreciam essa demonstração de independência, de decisão própria e vivacidade.

Um aspecto que os pais valorizam muito é o fato da família sempre permanecer junta no final de semana. A mãe relata: “É nós quatro (inclui o filho caçula) mesmo, eles não

são... é sempre nós. É sair pra jantar, comer alguma coisa em casa é nós quatro, levar no Tênis (clube) é sempre a gente. A gente mesmo é que cuida, não tem babá, não tem nada, é a gente que leva é a gente que busca. [...] A gente que faz tudo pra eles. A gente está sempre em contato com eles”.

No caso de Aaron, os pais salientam que no kumon de matemática ele enfrenta

“desafios” e desenvolve o “raciocínio”. O espanhol é importante porque envolve a “comunicação entre as pessoas” é uma “língua irmã”. O futebol, o tênis de campo e a

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não é porque eu quero que ele seja atleta, nada, é porque é importante a atividade física”.

Outro aspecto que os pais apontam é que estas atividades são coletivas e individuais, portanto, ele “aprende a conviver com outras crianças”, “aprende ganhar e perder”.

O que a mãe de Aaron valoriza muito é a sua convivência com o avô materno. A palavra chave para ela é “lazer” e “brincar”, pois o filho consegue ter estes momentos junto ao avô. Ela comenta: “[...] gosta de ficar com o meu pai bastante. Às vezes, o meu pai leva, o

meu pai vai buscá-lo. Ele tem oitenta e quatro anos, o meu pai é uma belezinha. [...] Ele tem um vínculo bom com o avô, tá!”.

A mãe ainda verbaliza que o filho a “surpreende” porque ele é “muito esperto”,

“inteligente” e declara que é apaixonada por ele. Demonstra preocupação, dizendo: “Eu só acho que o Aaron tem uma dificuldade de lidar com... com a frustração. Ele tem. Ele tem de quebrar a asa. E eu acho que ele se segura muito, né!”

Os pais de Maria consideram que o inglês é “um ensino, um estudo” para ela,

“outra escola mesmo”. A catequese visa ao “desenvolvimento da espiritualidade”. Quanto a

natação os pais deixam claro os seus medos diante da água, por isso a necessidade dela

“aprender a nadar”. As outras atividades estão relacionadas ao “estímulo”, “oportunidades” e “opções” que futuramente ela poderá fazer. A leitura também é muito valorizada por estes pais.

Maria é descrita pelos seus pais como uma menina muito “curiosa”,

“responsável”, “disciplinada”, “exigente” consigo mesma, se empenha em todas as

atividades, raramente reclama e apresenta um bom relacionamento com os colegas de classe. A mãe ressalta que a filha é muito despojada: “É. Não usa sapato de salto é... não gosta de

pintura (maquiagem), ela não gosta dessas coisas, não liga pra roupa, se é roupa de marca, nada, nada. Ela quer um tênis no pé, um short e uma camiseta”.

Os pais de Maria valorizam muito o lado financeiro e dizem que ela tem que ter consciência disto. O pai comenta: “[...] todas as atividades que ela faz, também tem o lado

financeiro, porque a gente também não, não libera porque a gente também, o dinheiro também não ta sobrando, né!” A mãe complementa: “E ela tem bastante ciência disso, né, porque a gente paga e ela sabe que a gente paga, né! Então a gente fala: ‘Ó, mas isto custa também’. Então a gente deixa bem a parte que a gente tá, tá sacrificando um pouco também, pra que ela faça aquilo também, né, que essas coisas não são assim, né, vai querer, vai fazer”. O pai continua: “Quer dizer, ninguém tem dinheiro sobrando pra isso, né! Então é isso, a gente deixa ela bem ciente de que realmente a gente tem um orçamento, ganha, gasta e tem que gastar de acordo com o que a gente tem, né! Ela sabe, não cobra, né, não pede”.

153 Maria quando tem sapatos e roupas que não usa mais pede para a avó materna vender para ela em um brechó. Este dinheiro, assim como a mesada ela coloca na poupança. Gosta de gastar este dinheiro quando vai à praia ou à Feira Agropecuária de Assis.

Gilberto teve a iniciativa de desenvolver as atividades extra-escolares, portanto, a colocação dos pais é no sentido de reforçar a atitude tomada pelo filho. Consideram que é importante para a sua “aprendizagem” e que devem ter “respeito pelo gosto e interesse” manifestados por ele.

Os pais enfatizam a sua “inteligência acima da média” e que ele não tem a preocupação de ser o primeiro aluno da classe. A mãe reforça: “Eu sei que ele tem condições

e competência pra isso”. Valorizam o seu “potencial” e estimulam a leitura em casa. Os pais

exaltam os seus trabalhos escolares e, como exemplo, citaremos as pesquisas que fez sobre Adoniran Barbosa e sobre o engenho da época do Brasil Colônia. A mãe assinala que sobre Adoniran: “Ele sabia tudo. Mas achei tão belezinha, a gente tava na praça da igreja no

jardim, à noite, e ele conversando de igual pra igual, parecia um adulto. Falando tudo sobre Adoniran Barbosa, da época, como foi, como aconteceu [...]”. E sobre o Brasil Colônia ele

contou para a mãe que a professora o elogiou e falou: “Que o meu trabalho tava riquíssimo”. Gilberto é visto pelos pais como uma criança “independente”, “agitado”,

“elétrico” e gosta muito de brincar de futebol com os amigos. Os pais comentam que não se

incomodam do filho ser assim, pois são justamente estes comportamentos que lhe dão

“energia” e o impulsionam para a realização das atividades.

Os pais de Lúcio ressaltam que o curso de japonês é importante, pois além de

“aprender a língua” é uma forma de preservar a “cultura” na família. Eles desejam que o

filho fique mais “sociável”, porque tem “oratória” e atividades em grupos que exigem

“cooperação” e “competição”. O kumon de matemática “potencializa o desenvolvimento do raciocínio”, torna o aluno “autodidata”, “seguro”, “confiante”, “responsável” e estimula a “motivação”.

O kumon de português é realizado por Lúcio para sanar as suas dificuldades, por isso os pais acham que é uma forma dele obter mais “segurança” em suas realizações. Ele revela “timidez e dependência” e os pais comentam que estas atividades podem estimulá-lo a tornar-se mais “sociável” e “independente”. Percebe-se que estes comportamentos de Lúcio incomodam um pouco os pais, embora seja importante lembrar que a atitude da mãe é de rigidez para com ele, mas mesmo assim, os pais depositam esperanças nestas atividades, acreditando nas transformações e modificações futuras do filho.

154 Os pais de José valorizam muito o kumon de matemática porque é um curso que propicia o “desenvolvimento mental”, a “concentração” e o “aprender”. O futebol e a natação são atividades físicas que consideram “interessante”, “saudável” e possibilitam

“descarregar energia”. A catequese é muito importante para a família, pois é imprescindível

à “formação religiosa”.

Os pais salientam algumas características de José, como o fato dele ser “esperto”,

“atirado”, “extrovertido”, “comunicativo”, “líder”, “não tem vergonha” e é muito “amoroso”. A mãe salienta que: “Ele é considerado um dos líderes da classe”. O pai coloca

que ele conseguiu liderar a classe para oferecer uma festa para a professora: “Ele que

organizou, ele que... cada um leva um negócio, fizeram uma festa pra professora, né! José é

muito solicitado pelos amigos, inclusive por telefone. Parece que a maneira de ser de José causa muita admiração em seus pais.

O fato de Leda cursar o japonês é porque o pai faz questão de “manter a tradição

da família”. A mãe também concorda com este aspecto, incluindo que a obrigação em

participar da “oratória” pode contribuir para que a filha “fique mais desinibida”. A natação é estimulada porque eles consideram que é “bom ter uma atividade física” e a freqüência a igreja por ser importante ter “uma formação religiosa”. Os pais consideram que todas as atividades desenvolvidas por Leda, incluindo balé e jazz, promovem o “desenvolvimento”, a

“formação” alicerçando-a para o futuro.

A mãe estimula a leitura, dizendo: “Eu queria que ela lesse mais”. Leda sempre reclama e responde: “Ah mãe, eu já estudo, eu já tenho outras atividades”. Com esta reação a mãe acaba não insistindo.

Os pais acham que Leda é “esforçada” e “compete” muito com a irmã em questão de nota. Sua “inibição” e “timidez” são características que incomodam muito a mãe, que por sua vez, acredita que o curso de japonês irá deixá-la mais “sociável” e “aberta” aos contatos.

No caso de Paulo, os pais consideram que o inglês e a informática são cursos

“imprescindíveis” e “fundamentais” nos dias de hoje. Estimulam muito o filho, pois crêem

que o “incentivo” e o “investimento” trará benefícios para ele no “futuro”. Paulo apresenta

“potencial” para os esportes, sendo assim, os pais construíram um campo de futebol na

própria casa e compraram uma mesa de tênis. Ele participa de campeonatos em torneios de futebol de salão. Os pais acham que jogar futebol e tênis de mesa é importante porque envolve

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“atividade física” e ele tem a oportunidade de compartilhar do “convívio com outras crianças”. Sobre o tênis de mesa os pais se surpreenderam com o seu desempenho, porque foi

uma “surpresa”, um “desabrochar” do filho e acham que é “um dom na verdade”.

Os pais comentam que o filho é “obediente”, “vai todo dia pra escola”, “não

falta”, “é agitadinho”, se ressente da “ausência” deles e sempre procura ficar “perto” e “junto”, principalmente, quando vai fazer tarefas.

A mãe de Emília aponta que ela cursa o inglês por que: “Ela tá indo por um gosto

meu. [...] É um agrado que tá fazendo” [...] Pra não perder tempo”. Ela não tem ainda

consciência de que no “futuro” isto vai ser “essencial” para ela. O kumon de português é para tentar sanar suas dificuldades, pois a preocupação dos pais é que ela consiga ter

“motivação para ler” e “interpretar textos”. A dança de rua é vista pelos pais como uma

atividade de “lazer”, em que ela pode se “extravasar” e acham “lindo” quando vêem a filha dançando. As aulas de matemática também são estimuladas porque Emília “adora” esta disciplina.

Os pais admiram o jeito de ser da filha, descrevendo-a como “mandona”,

“sempre traz consigo uma liderança”, “toma a frente das coisas”, “tem objetivos”, “opinião”, “é independente”, “é uma pessoa agradável”, “é caprichosa com os seus cadernos”, “é carinhosa” e “apegada”. A mãe diz que: “Baba pela filha”. Os pais

valorizam muito a união da família.

Por sua vez, os pais de Nina ressaltam que o balé e a natação são “atividades

físicas” que propiciam “disciplina”, “socialização”, “organização” e “respeito para com o outro”. O fato de Nina fazer terapia seria no sentido de ajudá-la em seu “crescimento pessoal” e alcançar o “equilíbrio”. A importância da catequese é a “formação espiritual” e o

piano porque foi a sua opção, além de “gostar muito de música”. Os pais acreditam que deve ser dada à filha uma formação completa, sendo necessário “formar intelectualmente,

socialmente e espiritualmente”. Nina é incentivada desde pequena a ouvir músicas clássicas.

Os pais elogiam muito a filha, dizendo o quanto ela é “educada”, “crítica”,

“estudiosa”, “esperta”, “pesquisa bem para fazer seus trabalhos”, “tem facilidade para escrever histórias e poesias”. A mãe considera a filha “tímida e introvertida” e, neste

aspecto, identifica-se com ela. Os pais dão muito valor para a união da família.

Neste subtema observa-se que, mais uma vez, as atividades extra-escolares são muito valorizadas pelos pais. A preocupação está centrada na formação dos filhos e na

156 perspectiva de que eles tenham um futuro que garanta competência para a inserção no mercado de trabalho. Parece que a própria vivência dos pais relativa ao enfrentamento das exigências no mundo do trabalho que se torna cada vez mais competitivo, os tem levado a preparar melhor os seus filhos, dando-lhes condições e instrumentos de forma crescente e precoce relativas à profissionalização e, como conseqüência, ocorre a aceleração no ritmo do desenvolvimento infantil.

Mizrahi (2004), enfatiza que muitos pais se preocupam e contribuem com a educação de seus filhos, com o objetivo de uma competência futura, só que esta atitude tem um preço, isto é, cada vez mais cedo as crianças entram nas escolas e seus primeiros anos da infância são antecipados e podados.

[...] Atrás do discurso que postula o oferecimento de uma variedade de atividades para que a criança escolha e seja mais autônoma em relação à família, podemos talvez notar um ideal de excelência que permeia tudo o que ela faz. O tempo da criança deve ser maximamente dirigido para a aprendizagem, uma vez que nada afinal, segundo o espírito do capitalismo, pode ser desperdiçado diante da racionalidade do trabalho. Na medida em que este último se torna mais exigente, as particularidades da infância podem perder terreno, face à nova performance esperada. (MIZRAHI, 2004, p. 53-54).

Outra questão é que alguns pais, como visto no subtema anterior, revelam medo que os filhos sigam os mesmos caminhos que os deles. O desejo expresso é que eles possam avançar na vida com mais tranqüilidade e ter um futuro diferente e melhor. Provavelmente, eles projetam em seus filhos sua resignação diante da vida, o que nos leva a supor que essas crianças ficam identificadas com “a obediência” e “a passividade” diante do que lhes é imposto.

Em função de um mundo que nos faz dobrar os joelhos, que nos encolhe, nos domina por palavras, como competência, habilidade, qualificação, entre outras, não podemos recriminar estes pais por tomarem estas atitudes junto aos seus filhos. Eles acreditam que estão fazendo e dando o melhor para eles. O que questionamos é a demasiada importância dada ao intelecto, fortalecendo a cisão entre corpo e mente, entre pensamento e sentimento.

Na produção do conhecimento, seja em ciência, seja em filosofia, seja em arte, seja em educação, a idéia do mundo verdadeiro, pensado pelo entendimento, é deixada à parte. A percepção não corresponde a uma ordenação lógica dos dados sensíveis, mas à possibilidade de atribuir sentidos, o que é possível por encontrar-se no complexo emaranhado do corpo e do movimento que, em conjunto, expressam a sensibilidade humana. O conhecimento, em sua complexidade, não se deixa apreender pela perspectiva reducionista da intelecção, emergindo dos processos corporais. (NÓBREGA, 1978, p. 609).

157 Outro ponto que destacamos é a agenda cheia que não permite que estas criaturas vivenciem o ser criança. A educação também abrange percebê-la como um ser corporal que está relacionado aos sentidos, às percepções, aos desejos e às necessidades do corpo.

Por que não incluir nessa agenda, para além do controle dos domínios de comportamentos observáveis, a questão dos afetos e desafetos, dos nossos temores, da dor e do medo que nos paralisa ou nos impulsiona, do riso e do choro, da amargura, da solidão e da morte? Note-se que falo em incluir questões significativas que atravessam nosso corpo, que nos sacodem, que nos revelam e que nos escondem. (NÓBREGA, 1978, p. 610).

Sobre as características pessoais das crianças alguns pais relataram pouco, provavelmente, pelo escasso contato interno que possuem consigo mesmo, ou seja, com seu mundo psíquico. Outros apontaram mais, ressaltando os aspectos positivos dos filhos, o que admiram, o que gostam e o que os encantam. Observa-se a presença de valores como “competitividade”, “inteligência”, “esperteza”, “curiosidade”, “responsabilidade” entre outros, cujo objetivo é o enfrentamento do futuro, o que pode significar que estes pais estão pouco conectados com o presente de seus filhos, no que se refere aos desejos e às necessidades. Mas todos eles, sem exceção, verbalizaram admiração e demonstraram muito amor pelos seus filhos.