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2.1 Passado: Saindo do Ninho

2.1.1 Ingresso na escola

Este subtema pretende abordar a idade e o motivo do ingresso das crianças na escola.

Observa-se no Quadro 3, que o ingresso na escola ocorreu em uma idade que variou de um ano e seis meses até cinco anos. A entrada na primeira série foi entre seis e sete anos, sendo que a alfabetização ocorreu numa faixa etária de cinco a sete anos.

Quadro 3 - Ingresso e Percurso na Escola

Ingresso/Escola Percurso/Escola

Crianças Idade 1ª Série Alfabetização

Lucy 2;6 6;0 5;0 Aaron 2;8 6;0 5;0 Maria 1;6 7;0 6;0 Gilberto 3;5 6;5 5;0 Lúcio 3;0 7;0 6;0 José 5;0 7;0 5;0 Leda 2;8 6;0 5;0 Paulo 3;0 7;0 6;0 Emília 4;0 7;0 7;0 Nina 5;0 7;0 5;0

O motivo da entrada dessas crianças na escola baseou-se no fato de que os pais trabalham fora, apenas uma mãe é do lar. Alguns pais alegaram que os filhos ficavam com os avós ou babás, conviviam muito com adultos e, outros, achavam que eles sentiam-se sozinhos e precisavam estabelecer contato com crianças da mesma idade.

A mãe de Maria relata: “ela começou porque ela ficava muito assim, um dia na

minha mãe, um dia na minha sogra, um dia na minha mãe, um dia na minha sogra. E aí ela ficou assim... convivendo com doença de adulto, sabe assim? Então ela falava de colesterol, falava de triglicérides, sabe assim, não pode comer isso porque dá colesterol, não pode comer aquele outro, sabe! E aí eu achei melhor pôr ela pra conviver com criança da idade dela, né!”

44 Mãe de Gilberto: “A gente trabalhava fora e minha sogra mora comigo, com a

gente, e é uma pessoa já de idade. Então, a gente ficou preocupado e ele era uma criança muito sozinha, porque só convivia com adulto e ele tinha necessidade de ter crianças pra brincar”.

Mãe de Lucy: “Porque a Lucy foi para a escola com dois anos e meio, porque a

Lucy não dormia a noite... direito... ela era hiperativa. Com dois anos e meio a gente levou no médico foi detectada que... ela fez os exames, foi detectada que ela era hiperativa, ela assistia o último jornal da noite e acordava assistindo o jornal da manhã e ela ficava acordada o dia todo e brincava o dia todo. Ligadinha, ligadinha e daí foi orientado (pelo médico) que a gente tentasse levar Lucy para a escola”.

Pai de Lúcio: “Agora, o motivo da gente ter colocado com três anos é que a gente

achava que ele era muito fechadinho. Sozinho. Muito... é dificuldade de relacionamento, né! Eu procurava levar ele, né, nas festinhas... nos priminhos... e... mas, acho que numa escolinha seria melhor. Então, foi mais ou menos esse motivo. É pra tentar fazer com que ele se abrisse mais, né!”

Pai de Paulo: “Porque nós trabalhamos e achava que ele ia poder brincar mais

na escola, entendeu? Na companhia de crianças. Geralmente ele ficava com babá em casa e a gente não achava legal ele ficar em casa, com a babá somente e, indo pra escola ele ia brincar mais com as crianças. Foi isso”.

Mãe de Emilia: “Porque achamos que era hora dela ter amigas. Eu e meu marido

trabalhamos fora e achamos que ela precisava de companhia, de outras crianças para brincar”.

A mãe de José apresenta mais proteção em relação ao filho, pois ele entrou com quatro anos de idade na escola, relata: “[...] eu queria ter posto mais cedo. [...] pelo

município eu não poderia colocar ele mais cedo na escola, porque ele tinha que entrar, se ele fizesse aniversário até o dia... até junho, a criança poderia entrar na escola, entendeu?[...] mas ele completava só em dezembro eu não pude pôr ele na escola. Então ele ficou. E também porque na época ele era, ele é o meu caçula, né! Então eu segurei ele mais do que eu devia (risos). [...] José eu segurei, né, porque era o caçulinha, aquela coisa toda, o xodó, né,

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o xodó da mãe, o xodó do pai, xodó da minha mãe [...] Então, acabou, eu acabei segurando o José mais tempo comigo”.

Leda entrou para a escola aos dois anos e oito meses de idade, pois sua mãe estava grávida e prestes a dar a luz. Essa decisão foi tomada pelos pais porque a mãe teria meio período livre para cuidar do bebê. Mãe: “Assim eu podia me sentir mais livre para cuidar da

outra e Leda podia fazer amizades, arrumar amigas, brincar, não sentir ciúmes da irmã e nem sozinha”.

A mãe de Aaron resolveu colocá-lo em um berçário aos dois anos e oito meses de idade, juntamente com sua irmã gêmea. Esta decisão foi tomada em função de problemas ocorridos com duas babás. Este fato será relatado mais adiante.

Nina foi colocada na escola aos cinco anos e os pais alegam que preferiram que ela ficasse mais tempo no ambiente familiar e se sentisse mais segura. O pai diz que: “Nós

colocamos na idade que realmente os manuais pedagógicos sugerem aquela idade mais adequada. Nós não tivemos pressa de colocar na escola”.

Quanto à adaptação na escola, observa-se que seis crianças apresentaram problemas, sendo que as mães tiveram que permanecer junto por algum período. Quatro crianças não apresentaram problemas de adaptação no momento do ingresso na escola.

Verifica-se que a maioria das crianças foi alfabetizada aos cinco anos de idade e, apenas numa, esse processo ocorreu aos sete anos.

Retomando a primeira questão, ou seja, do ingresso à escola, os dados apontam fatos concretos que são o trabalho dos pais, filhos que se sentem sozinhos e precisam da companhia de outras crianças. Querendo ou não estamos diante de uma outra realidade. A sociedade se modifica porque segue suas próprias leis de desenvolvimento. O mundo moderno provocou transformações que, como salienta Knobel (1992, p. 23), temos que “reconhecer que os fenômenos sociopolíticos se regem por diferentes princípios e que, provavelmente, resulte ingênuo pretender enfatizar como predominante a ação psicológica, como determinante das mudanças sociais”.

Volpi (2005) ressalta que esse mundo novo necessita ser compreendido e tratado de forma interdisciplinar e, para reforçar sua posição, utiliza a citação de Torraine (1994), quando diz que esse novo mundo “é caracterizado pelo desenvolvimento produzido pelo

46 progresso técnico. Se por um lado traz facilidades, por outro, instiga o homem a desejos capitalistas que o coloca frente ao trabalho intenso e ao estresse deixando-o mais horas em função do trabalho do que no convívio do lar” (VOLPI, 2005, p. 87).

Todas as transformações ocorridas como não poderia deixar de acontecer, também afetaram as mulheres, desde quando houve a recusa de se comportarem conforme o código dominante. Como aponta Massi (1992, p. 40),

nos estratos médios, as mulheres parecem estar imbuídas, ideologicamente, de que é necessário trabalhar fora, pois, qualquer que seja a remuneração, ela passa a simbolizar algum trabalho, e, portanto, um trabalho produtivo. Daí a sensação de estar exercendo a cidadania, estar participando do mundo; a remuneração sugere à mulher uma inserção no espaço público, sendo igualmente regida pelas mesmas normas sociais, às quais o homem deve se submeter.

O movimento da mulher em relação à produção é o “de ‘descentrar’ seu cotidiano doméstico e partir, também, para o cotidiano público” (MASSI, 1992, p. 40).

As mudanças ocorreram, as mulheres buscaram e buscam seu espaço social, pessoal e profissional. As entrevistas realizadas mostraram mulheres que saíram de casa, alçaram vôo, foram em busca de uma realização profissional e desejam ao lado do marido ajudar, financeiramente, na educação e formação de seus filhos. Observou-se que as mulheres/mães entrevistadas mostraram muita garra, dinamismo, força e falaram muito mais que os homens/pais. De certa forma, elas mudaram o cotidiano familiar, os valores e os próprios papéis, como veremos mais adiante.

Este estudo não visa um aprofundamento sobre o avanço da tecnologia, da ciência, da modernidade e, nem tão pouco, sobre o papel da mulher do ponto de vista antropológico, psicológico e sociológico, mas, em função de tantas mudanças, formula-se a pergunta: o que fazer com as crianças? O que fazer com os filhos dessas mulheres que saíram de casa?

Pensando sobre essa questão, apontamos as colocações de Zagury (2002), que ressalta as vantagens da criança entrar mais cedo na escola. Os seus argumentos são no total de cinco, mas ressaltaremos apenas três por serem mais compatíveis ao nosso estudo. Em primeiro lugar, ela ressalta a figura da babá, ou seja, da importância da criança se livrar de sua proteção e influência, ficando aos cuidados de pessoas treinadas; em segundo, porque a escola oferece segurança, desenvolvimento intelectual e social; e, em terceiro lugar porque as atividades pedagógicas facilitam o processo de alfabetização.

47 Alguns apontamentos serão tecidos sobre os argumentos estabelecidos por essa autora, pois nos parece que suas observações são alicerçadas apenas nas vantagens e, em nenhum momento, levou-se em conta as etapas evolutivas da criança concernentes aos aspectos emocionais.

O primeiro se refere à figura da babá. Alguns pais relatam nas entrevistas, especificadas acima, que preferiram colocar os filhos na escola ao invés de deixá-los com as babás. Salientaremos o relato da mãe de Aaron: “A. é gêmeo de uma menininha a M., e eu

tinha duas babás, uma para cada um e eu falava que não admitia que ficasse na televisão. E teve um dia, e eu trabalho o dia inteiro e chego muito tarde em casa, e teve um dia que eu precisei buscar alguma coisa às cinco da tarde em casa. Cheguei lá, tavam... é... as duas crianças brincando sozinha numa salinha de televisão pequenininha, uma das babás assistindo novela das cinco e a outra lá na cozinha lanchando. E eu fiquei muito preocupada com isso, porque eu era muito clara que eu não queria que eles ficassem na frente da televisão. Então, eu decidi ficar com uma babá e por os dois, meio período na escolinha, que eu sabia que na escolinha eles iam ter outra atividade. [...] Eu senti muito traída, porque eram pessoas que eu confiava, né!”.

Não precisamos recorrer a literatura para saber que existem babás mais preparadas, mais conscientes de seu papel e outras não. Já ouvimos, seja de um parente, de um amigo, de um vizinho seja até na própria mídia casos de babás que excedem pouco ou muito em seu papel. Algumas cometem atos impróprios a uma criança, ou seja, desde os cuidados básicos relativos à alimentação, trocar de roupas, remédios para dormir, chegando até às agressões físicas e psicológicas. Nestes casos, realmente, é preferível que a criança seja entregue aos cuidados de pessoas mais preparadas, treinadas e, principalmente afetivas.

Dolto (1999) especifica que existem dois tipos de cuidados que devem ser tomados por mães que trabalham fora. O primeiro é que se os pais optarem pela criança permanecer em casa, é importante ela poder estar o tempo todo em segurança com uma pessoa “confiável e de saber que a sua mãe é a sua mãe e que a outra pessoa é uma substituta paga por sua mãe e responsável por procuração” (p. 43). Os pais devem dizer-lhe a verdade, que vão trabalhar, que vão voltar logo e que confiam nessa pessoa. “É preciso que ela saiba que sempre será, inexoravelmente, o filho de sua mãe e de seu pai, e que isso jamais poderá ser mudado” (p. 43). Isso significa que os pais devem falar com a criança, mesmo ela sendo bebê, pois, para essa autora os seres humanos são concebidos na linguagem. Uma linguagem que ocorre não só no plano verbal, mas também no não verbal - gestual, mímico, afetivo e emocional. O corpo também expressa a linguagem.

48 O segundo cuidado se refere às crianças que vão muito cedo para a creche ou para o maternal. Dolto (1999), ressalta que antes delas começarem a freqüentar estas instituições deve haver uma experiência intermediária, isto é,

[...] um local intermediário, onde a criança se habitue a viver com outras crianças. Pois uma criança tem necessidade das outras crianças para vacinar- se contra a agressividade da vida em comunidade, e para estruturar-se. Mas tal experiência deve ser feita em presença da mãe ou do pai, que fica no local, e que tranqüiliza a criança sobre sua identidade. Pois o que é dramático, para uma criança, é estar no meio de outras crianças sem saber mais quem ela é. (DOLTO, 1999, p. 45).

Ressalta ainda que essa transição entre o meio familiar e o meio exterior não ocorre tão facilmente de forma harmoniosa, por isso é que na França, foi criada a Maison

Verte (Casa Verde), pela própria Dolto, onde é possível fazer esse processo de transição. Tudo

o que acontece com a criança e seus amiguinhos, seja uma discussão, seja uma agressão, ela tem a oportunidade de conversar com os pais que estão presentes, sendo que em momento algum ela será julgada. Este local intermediário vai proporcionar a criança segurança, estruturação no contato com os colegas, conhecimento de sua identidade e, assim, ela passa a ter certeza de que é amada por seus pais.

No Brasil, não conseguimos detectar nenhuma instituição, semelhante à Casa Verde, para que a criança possa passar por esse processo de transição. Para Dolto (1999), essa experiência é de extrema importância, pois faz que a criança não necessite mais que o pai ou a mãe fique, exteriormente, o tempo todo ao seu lado.

Ela tem, se é que posso dizer, um pai e uma mãe interiores a ela mesma que a amam sempre, mesmo quando está machucada, mesmo quando faz besteiras. Ela sabe que é sempre compreendida e perdoada aconteça o que acontecer, porque teve a experiência disso quando enfrentava o mundo exterior com o pai ou a mãe. [...] Muito cedo, a criança deve saber que os pais estão lá, para ele e nela, de forma irrevogável, e que não cederão seu lugar a nenhuma outra pessoa, porque ela conquistou o amor deles de uma vez por todas. (DOLTO, 1999, p. 45).

A partir destas colocações, retomamos o segundo argumento de Zagury (2002), referente à segurança que a escola proporciona, assim como, o desenvolvimento intelectual e social. A escola oferece um espaço, onde a criança vai poder se beneficiar de toda a segurança possível, porque possui professores e funcionários atentos e cuidadosos. Este é um aspecto importante e muito tranqüilizador para os pais.

49 Embora um pouco longa, citaremos as colocações de Zagury (2002, p. 33-34), para podermos continuar nossa discussão.

A criança que, desde cedo, tem contato com outras é sabidamente mais sociável, menos egocêntrica e mais tolerante. Viver em grupo é altamente positivo. [...] As trocas emocionais, a aprendizagem social, a observação e a imitação são processos importantes que se efetivam nesse contato. E também as brigas... Não, não se apavorem! Até hoje não se conhece caso de ferimento ou lesões graves resultantes dessa interessante convivência feita de amor, ódio, carinhos e mordidas... Porque, sempre é bom lembrar, as crianças na escola estão sob a proteção e a supervisão de pessoas preparadas e especializadas. É tão engraçado! Elas se olham, sorriem umas para as outras, aproximam-se, se tocam, se beijam e – de repente, sabe se lá por quê – uma começa a chorar. Pronto! A turminha toda em dois minutos está berrando... E, também dois minutos depois, tudo está de novo na santa paz... É o ciclo de aproximação no qual afeto, interesse, temores e estranhamento encontram-se misturados e vívidos. Nesses encontros iniciais, nossos filhos aprendem a ter preferências e a ser preteridos, a sentir afetos e amargar desafetos, a agredir e a se defender. É a primeira experiência importante, externa à família, de relacionamento afetivo e social.

Todas essas situações pelas quais as crianças passam na escola, as relações com os coleguinhas de aproximação ou afastamento, de aceitação ou de recusa, de amor ou de ódio, de briga ou de paz, é o que de fato acontece, algumas vezes mais, outras menos, mesmo que elas estejam sob a ‘proteção de pessoas preparadas e especializadas’. É o mundo real que a criança deve começar a enfrentar fora do seu lar, assim como buscar a tão necessária adaptação. Ressaltamos também a importância do processo de socialização na vida de cada criança, embora, necessariamente, ela não se inicie na escola, mas com as crianças da vizinhança, com os primos, com as crianças em uma praça, com os filhos dos amigos dos pais, entre outros.

Mas, em todo caso, surge uma pergunta: se a autora salienta as vantagens da criança entrar mais cedo para a escola, será que de fato essas criaturas foram preparadas para isso? Elas estavam prontas para entrar na escola? Não queremos em hipótese alguma ignorar que brigas não podem ou não devam ocorrer entre as crianças, não consideramos que tudo deva ser um ‘mar de rosas’, mas não podemos esquecer também que elas estão saindo de um espaço conhecido, seu lar, e adentrando em outro totalmente desconhecido. Por isso, que as pessoas consideradas ‘preparadas e especializadas’, como cita Stefan (2005), deveriam estar atentas para a contenção externa, que deve ocorrer de forma contínua e consistente. Além disso, a emoção da criança deve ser mais do que contemplada, pois ela é preponderante no desenvolvimento de todo ser humano. O educador deve estar receptivo ao outro. Aceitar os

50 sentimentos e expressões de forma incondicional e, principalmente trabalhar com o lúdico para que as tensões acumuladas das crianças sejam descarregadas. O papel do educador implica não só estar preparado e especializado, mas implica também em ser compreensivo, competente e buscar aquilo que não entende para promover sempre transformações. Rocha (2003), assinala que não é comum a educação se preocupar com a profilaxia. Entretanto, a família e a escola deveriam ser o canal facilitador da criança em seu crescimento psíquico saudável e não proliferarem situações que impeçam os direitos naturais do indivíduo.

Como exemplo, não foi o que aconteceu com Lucy. Como já dito, sua entrada na escola se deu por indicação médica, por apresentar hiperatividade. A mãe relata: “ela passou

por aquela fase da mordida, então, ela... foi meio difícil a aceitação dela pelo grupo porque ela mordia... mordia bastante”. A mãe diz ainda, que essa fase foi resolvida da seguinte

maneira: “Eu mordi ela. Eu quase morri de vergonha, porque ela mordeu uma menina, filha

de um médico. Ela deu uma mordida e quase arrancou a bochecha da menina que ficou três meses com o rosto marcado. Eu perguntei: ‘Lucy, por que você mordeu?’ ‘Porque sim’. Aí, eu dei uma mordida no braço dela e ficou marcado. Aí ela chorou bastante, viu que doeu e daí não mordeu mais ninguém”. Por sua vez, a única atitude tomada pela escola foi avisar os

pais que Lucy estava mordendo os coleguinhas de classe. A mãe também coloca que, em nenhum momento, a escola e/ou professora tomaram alguma medida ou desenvolveram algum trabalho mais específico com a filha sobre o problema das mordidas e da hiperatividade. Mãe: “a gente perguntava, mas a professora nunca deu retorno. Só dizia que

era complicado”. Sobre a adaptação: “Nenhuma orientação foi dada. Fiquei com ela porque eu quis e por pena também”.

No caso de Gilberto, a mãe diz: “é... ele... o único problema dele é que teve três

briguinhas na escola e nós tivemos que ir, né! Pai: “É”. Mãe: “Porque ele mordeu duas crianças e nós fomos chamados”. Aqui também, a escola não tomou nenhuma providência. A

atitude tomada pelos pais foi a de conversar com o filho e deixá-lo de castigo, ou seja, ficar uma semana sem brincar com a bola.

Por isso, achamos importante citar três princípios que devem ser levados em consideração, principalmente no que se refere à entrada da criança na escola. Ou seja, quando que a criança se sente preparada para entrar na escola?

A primeira questão baseia-se no fato de que a criança deve já ter desenvolvido o controle dos esfíncteres. Essa fase é muito importante porque ela passa a expressar os sentimentos de realização e produção, aprende a explorar o ambiente que a rodeia, ocorrendo a educação da musculatura voluntária. É quando a criança passa a abrir e fechar objetos,

51 chutar uma bola, subir e descer escada, cortar uma fruta, isto é, ela passa a ter domínio e equilíbrio do próprio corpo, sentido de direção e desenvolve a destreza das mãos. Essa atividade lúdica e motora a criança deve vivenciar livremente. O aspecto fundamental desta fase é que também ela aprende a separar-se de sua mãe e a formar uma identidade independente. Isto significa, inclusive, saber o seu nome, idade, nome de seus pais, seu endereço, deve saber vestir-se sozinha. Como Dolto (1999, p. 46) diz,

a identidade provém da certeza e da confiança que tem de ser ela mesma, da consciência que tem do valor de seu sexo e de sua idade e do lugar que tem o direito de ocupar no mundo. Ela tem um lugar que lhe cabe e que ninguém pode tomar, como ela não deve tomar o lugar do vizinho.

Por isso, quando não ocorre o processo de transição, especificado acima, a criança corre o risco de ficar submissa ou se achar no direito de agredir o outro. Com a identidade