Mapa 4 – Localização de Itamatatiua em relação à Rodovia MA 106
3 O/A NEGRO/NEGRA NO CONTEXTO MARANHENSE
3.2 Espaço de Pesquisa: Comunidade Quilombola de Itamatatiua
3.2.1 Associação das Mulheres Quilombolas de Itamatatiua
A Associação de Mulheres de Itamatatiua nasceu da determinação de três mulheres (D. Neide, D. Maria de Lourdes de Jesus, D. Maria José de Jesus e outras integrantes) que, observando a realidade na qual estavam inseridas, percebiam que durante muito tempo realizavam diversas atividades de modo individualizado. Além disso, o desejo de obter melhorias para a localidade também motivou a criação desse espaço. Assim, a Associação de Mulheres de Itamatatiua (AMI) foi criada em 7 de maio de 1989 (ASSOCIAÇÃO DE
MULHERES DE ITAMATATIUA, 1989), entidade que marcaria uma importante etapa no processo de liderança dessas mulheres e de conquistas para a Comunidade. D. Neide descreve a fase que antecede a fundação da entidade:
Não tinha nada aqui na Comunidade, só uma casinha de taipa, tinha só duas casinha de telha, não tinha estrada, era só caminho mesmo comum; não vinha ninguém assim de fora pra dentro da Comunidade109
D. Ângela, por sua vez, reforça a fala de D. Neide e complementa dizendo:
Porque aqui não tinha nada! [...] Eu só vejo os mais velho dizendo que aqui não tinha nada, não tinha movimento de nada, era só o fazimento de louça, a cerâmica, mas cada qual fazia nas suas casas.
A ideia da criação de uma Associação emanou de um processo dialógico com uma pessoa externa a Comunidade, conforme relata D. Neide:
Aí teve uma moça de São Luís que veio e disse pra gente fundar uma Associação, aí a gente não sabia como, aí a gente convidou Pedro [Pedro Viegas, amigo delas], aí a gente fundou essa Associação.
Observa-se no depoimento a construção de um coletivo, dando visibilidade a práticas individuais. Nesse sentido, a união, que já era constante se fortalece paulatinamente entre as mulheres, visando a conquistas de direitos, tendo em vista, conforme Furtado, Pedroza e Alves (2014), que a união entre as populações quilombolas mostra-se como necessidade para assegurar a própria sobrevivência do grupo.
Para além da aquisição de bens materiais, a Associação traz a possibilidade de criação de uma consciência para as mulheres de que o coletivo tem o poder de efetivar conquistas, conforme depoimento de D. Maria José de Jesus, uma das protagonistas da criação da AMI, explicitando o principal motivo para essa fundação:
O motivo da gente trazer, fundar essa Associação porque a gente via que em outros lugares para conseguir uma coisa era só através de Associação. Se a gente não tiver uma Associação não tem como trazer nenhum projeto pra Comunidade da gente! Com a Associação a gente é mais unido, tá discutindo os problemas da nossa Comunidade. Sei lá, a gente tem mais tempo de se reunir, discutir o que que tá faltando na Comunidade porque a gente só, sabe, mas sozinho não resolve o problema, as coisas! A gente só resolve através da união, de um órgão, algum órgão! E assim é mais dipressa pra gente chegar a algum órgão, ficar mais visto também! E a pessoa sozinho, isolado não dá, tem que tá junto com as outras pessoas!110
Conforme exposto nessas narrativas, é perceptível a mudança promovida pela chegada da AMI na Comunidade: no primeiro momento, a luta pela sobrevivência, a partir dos saberes
109 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Neide de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2017. 110 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Maria José de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2017.
herdados de seus genitores (produção de cerâmica, roça, conhecimento local), já a segunda fase é marcada pelas parcerias e investimentos conseguidos pela organização político-social, desencadeada pelas mulheres à frente dessa instituição. D. Neide e D. Ângela dão mostras das conquistas materiais provenientes dessa segunda fase, implantação da Associação na Comunidade:
Aí começou a vir os recursos pra dentro da Comunidade, a gente começou a fazer projeto, [...] aí veio o Sebrae e organizou a gente pra fazer só num local [a cerâmica] porque antes cada qual fazia ni suas casas, aí a gente até hoje faz assim junto.
Aí até hoje a gente tem esses projetinhos pela Associação: energia, esse poço, o Centro de Produção, aquela pousada, tudo pela Associação, casa de farinha; é a Associação mais velha daqui! Antes a gente tinha roça, feijoal, tudo nós tinha!
Portanto, o espírito de união, característica que marca a história de luta, resistência e sobrevivência dessas mulheres, se reforça na Associação, refletindo em outras localidades para obter benefícios para sua realidade. De acordo com o Estatuto da Associação (ASSOCIAÇÃO DE MULHERES DE ITAMATATIUA, 1989), essa é uma organização cuja finalidade é a inserção das mulheres ceramistas na tomada de decisões da comunidade, bem como favorecer seu desenvolvimento por meio de projetos que beneficiem a todos e melhorem o modo de vida no quilombo. Objetivamente, a Associação busca: a) promover o desenvolvimento comunitário, através da realização de obras e melhorias com recursos próprios ou obtidos por doações ou empréstimos; b) proporcionar a melhoria do convívio entre habitantes do lugar, através da integração de seus membros; e c) proporcionar aos associados e seus dependentes atividades econômicas e educativas, culturais, lazer e de assistência.
A acumulação de cargos pelas mulheres é uma característica dessa comunidade, desse modo, D. Neide de Jesus assume cargo de encarregada das terras da Santa e presidente da Associação; por sua vez, D. Eloísa, além do cargo de guardiã da Pedra, coordena o Centro de Produção. Cabe ressaltar que essas mulheres recebem a colaboração de outras mulheres para desenvolver essas funções.
A liderança feminina se tornou um marco em termos de organização social e política na localidade. Esse fato ganha notoriedade e merece destaque, visto que a gestão da comunidade passa a ser exercida, sobretudo, pelas mulheres itamatiuenses. Essa qualidade enseja, inclusive, a realização de pesquisas que se voltam para a atuação dessas mulheres, tais como a desenvolvida por Cantenhede (2006), na qual deu visibilidade à liderança política, social, educacional e econômica exercida por elas, de modo democrático no povoado. A pesquisa de Reis (2010, p. 145), embora não adote como objeto a atuação dessas mulheres, menciona que:
Há de se ressaltar que o comando do gênero feminino em Itamatatiua não é recorrente em outras comunidades quilombolas de Alcântara e do Maranhão. Em diversas regiões do estado, ao contrário de Itamatatiua, são os homens que coordenam os sítios quilombolas, organizando-se social e politicamente.
Alessiane de Jesus111, vice-presidente da Associação, justifica a participação das mulheres como hereditária. Segundo ela, o fato de D. Neide, líder da Comunidade, e suas irmãs serem filhas do líder anterior acabou influenciando as demais mulheres a se engajarem. Contemporaneamente, segundo a entrevistada, a AMI é composta por 105 sócios, dentre eles, 90% são mulheres, sendo permitido aos homens se associarem. A liderança é concedida apenas às mulheres, cujo processo para a eleição da presidência ocorre a cada dois anos.
No contexto atual, a Comunidade é composta por quatro principais lideranças: 1) encarregada das terras, a qual é responsável por todas as questões que envolvem o território, desde apaziguamento de conflitos, ocupação, organização da Festa da Santa e administração dos seus bens, que ocorre de forma hereditária; 2) outra que ocupa por dois anos o cargo de presidente da Associação de Mulheres de Itamatatiua, o qual exige “representar a Comunidade nos eventos, buscar, acompanhar, assinar projetos, prestar contas”112, além de administrar também o Centro de Produção e a Pousada e responder por inúmeras decisões políticas da localidade; 3) uma liderança que é responsável pela coordenação e questões organizacionais do Centro de Produção de Cerâmica e a mesma vem sendo guardiã da Pedra Documento; e 4) uma responsável pelas manifestações culturais da Comunidade.
Nas palavras de D. Canuta (2010)113, ao se referir à atuação delas na Comunidade, menciona: “nós é que somos do garra, e os homens fica tudo ôh...e nós ôh é que tem que enfrentar!” Assim, nessa fala, esta Senhora reforça as atitudes de enfrentamento que as mulheres precisam assumir em relação aos homens, que em geral se acomodam, diante dos problemas e necessidades cotidianas das famílias e da própria Comunidade.
Se por um lado o cargo de encarregada possibilitou prestígio e respeito para com as mulheres itamatatiuenses dentro da Comunidade, por outro, com a fundação da Associação as mulheres ganharam visibilidade, começaram a fazer cursos, treinamentos que tendem aos poucos reforçar um processo de autonomia e empoderamento, conforme destaca D. Neide:
111 Entrevista concedida à pesquisadora por Alessiane de Jesus, em Itamatatiua, em setembro de 2016. Jovem
nascida na Comunidade de Itamatatiua, em 1989. Única jovem que reside na localidade e possui graduação. Professora, vice-presidente da Associação. Líder do Grupo de Jovens da Comunidade.
112Entrevista concedida à pesquisadora por D. Neide de Jesus, em Itamatatiua, em outubro de 2016.
113 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Canuta, em Itamatatiua, em janeiro de 2010. Canuta Sebastiana dos
Santos, mulher da comunidade, nascida em 1953. Aposentada, trabalha com a cerâmica desde os 12 anos e a agricultura de subsistência.
Depois que a gente criou a Associação a gente começou a ser chamada pra fazer encontro do ACONERUQ, ele mandou a gente pra Brasília, Bahia, Recife porque a gente não saia daqui pra fazer curso nenhum, ir em São Luís era muito difícil, nós parece assim que era humilhado porque a gente era preto. Aí virge... com a Associação foi bom demais porque a gente aprendemo foi muito, já fumo em muitos curso, treinamento, nas reunião. Dantes, que nada, a gente tinha medo, se aparecesse uma pessoa branca aqui, eu dizia eu vou é muito conversar com esse pessoal, rsrs. A gente era tão sem valor que eu sentia vergonha de minha cor114. Agora não115.
Dentre os cursos e treinamentos citados por D. Neide, estão aqueles direcionados para melhoria da principal atividade econômica das itamatatiuenses que é a produção de cerâmica. Nas últimas décadas, embora o valor recebido pelas artesãs com essa produção tenha decaído, é dela que obtém projetos para a localidade e estabelecem parcerias com pesquisadores, órgãos governamentais, professores e demais pessoas que se interessam em suas histórias, das louças e do quilombo. A cerâmica é, portanto, um produto que possibilita as mulheres itamatatiuenses construir histórias e contribuir financeiramente para suas necessidades básicas e de seus familiares. Assim, adotam a arte que remonta a séculos de aprendizados desde suas mães, bisavós, tataravós, chegando a ser cogitada a inserção da produção na localidade antes mesmo da instalação da Ordem do Carmo, ainda com os índios, conforme relata Dona Eloísa:
Esse trabalho de cerâmica é muito antigo, tem mais de duzentos anos, não era só pote, essas coisas, também tinha olaria, fazia tijolos, telhas. Eu acho que é antes dos Carmelitas porque dizem que aqui já moraram índios e cerâmica faz parte muito de negócio de índio, eu acho que já existia, aqui a gente cava buraco e encontra muito pedaço, caco de telha, quando a gente cava ali pro cemitério é ôh a gente encontra só isso, pena que os mais novos não querem se engajar.116
Fontes históricas como a de Viveiros (1977) descrevem Alcântara, na pré-colonização, como uma grande aldeia de índios Tupinambás; o próprio nome do município, à época, Tapuitapera, designava residência dos tapuios. Botelho (2007) destaca que a cerâmica compunha a economia e a cultura dos silvícolas. Portanto, mesmo sem estudos arqueológicos para corroborar há fortes indícios que os vestígios cerâmicos encontrados na Comunidade advêm da produção indígena. Contudo, há diferença nas peças produzidas pelos itamatatiuenses e seus antepassados, com as encontradas enterradas no povoado, sendo em geral aquelas mais leves e finas e estas mais pesadas e grossas, conforme Reis (2010). Por isso, não se pode
114 A situação de discriminação pode ser explicada com mais clareza na fala de D. Irene, quando relata a forma
como eram violentados por sua cor pelos moradores de comunidades cincunvizinhas: “-Virge, aqui tinha muito preconceito. Vixi era muito preconceito. Povo daqui não ia pro Mojão, Comunidade pertencente à Bequimão. Quando eles olhavam alguém daqui, eles diziam: xô urubu. Até no tempo que minha mãe ía em Festa, só ia até o Tubarão, não passava. Eles vinham na festa, mas traziam as cabocas deles, elas não dançavam com as daqui. O pai que trazia uma filha que dançasse com um preto, quando chegasse em casa, apanhava uma surra.” (Entrevista
concedida à pesquisadora por D. Irene de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2010).
115 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Neide de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2017. 116 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Eloisa de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2010.
desconsiderar também a influência africana nessa produção já que a fabricação da cerâmica na África é uma prática comum, realizada, sobretudo pelas mulheres. Symanski (2010, p. 300) acrescenta que, no período colonial, para os “[...] grupos africanos, a cerâmica além de sua função utilitária, serviu também como um veículo que expressava identidades diferenciadas nos espaços dos engenhos”.
A cerâmica em Itamatatiua, como menciona D. Eloísa, marca a história na Comunidade (Foto 37). Remonta a uma produção que adota o trabalho manual por mais de três séculos com as serpentinas, técnica artesanal que consiste em fazer tiras com o barro (foto 38). Noronha (2015) evidencia que, em tempos pretéritos, a produção consistia em peças utilitárias, recentemente, a partir de influências socioculturais, comerciais, com cursos do Sebrae, começam a produzir bonecas e os souvenirs para atender a novas exigências do mercado.
Foto 37 – Produção de cerâmica Foto 38 – Serpentinas ou Cilindros
Fonte: Dados da pesquisa Fonte: Milena Reis
Outra característica que se diferencia é que no passado a venda era intermediada pelos homens que levavam a produção em canoas para ser comercializada em municípios próximos à Comunidade. Nos dias atuais, a concorrência dos plásticos com as louças fez com que as vendas caíssem, fato que demandou a saída desses atores, levando as mulheres a assumir esse processo, realidade que exigiu delas novas habilidades e aprendizados para atuar com o novo público: turistas e visitantes interessados no legado de sua comunidade. Na fase atual, estão
aprendendo a lidar com a nova situação, uma vez que requer a busca de estratégias e campos de negociação, tais como feiras, vendas fora da Comunidade. Além destas, a venda ocorre em duas lojinhas fixas: uma em Alcântara e outra, no Centro de Produção, espaço “Onde também expõem sua produção e as vendas são maiores”, conforme D. Ângela.
A chegada do Sebrae na Comunidade fomentou a produção coletiva do artesanato, que se materializou com a construção do Centro de Produção, em 2005, pelo Governo do Estado (fotos 39 e 40). A união das mulheres em único espaço promoveu mudanças significativas, conforme salienta D. Ângela:
A cerâmica deu uma avançada porque tava parada mesmo, do primeiro era só nas suas casas. Com a Associação começou a vir o Sebrae pra cá, aí veio várias pessoas dá cursos, capacitação [...] Na época não tinha aquele Centro de Produção, era uma casinha de palha que foi feito, aí a gente começou a fazer ali; na época, tinha uma professora que dava curso, professora Diana que deu um avanço bem forte aqui pra gente. Foi ela quem ensinou a gente a tratar o barro, trabalhar com as peças. Depois desse Centro de Produção, Eloísa foi convidada para uma feira no Rio Poty [Hotel de São Luís- MA], foi através dessa feira que esse Centro de Produção veio para cá (risos). (grifo nosso)
Foto 39 – Centro de Produção de Cerâmica de Itamatatiua
Fonte: Dados da pesquisa
Foto 40 – Cerâmica confeccionada pelas itamatatiuenses
Fonte: Dados da pesquisa
Esse feito só foi possível a partir da união das artesãs em torno de um objetivo comum. A valorização do trabalho manual ampliou as possibilidades de divulgação da arte com o barro, atraindo públicos nacionais e estrangeiros para aquisição desses produtos que, de acordo com D. Ângela, as tornam “conhecidas mundialmente”117, retratando as conquistas a partir da parceria com o Sebrae.
A cerâmica é o produto mais conhecido da localidade e atrai admiradores de diversos locais, do país e do mundo, conquistados pela possibilidade de adquirirem peças produzidas manualmente pelas mulheres de um quilombo, herdeiras de conhecimentos cultivados e mantidos por mais de três séculos, remontando ao Brasil Colônia.
Nesse Centro de Produção, sede da Associação, também denominado Galpão, com aproximadamente 100m2, é costumeiramente mencionado como umas das principais conquistas da AMI, congrega diversas funções na Comunidade, onde elas se capacitam como profissionais, recebem turistas, expõem e vendem o artesanato. É também o local onde os turistas buscam para estabelecer os primeiros contatos com a comunidade e os moradores recorrem para obter informações e se atualizar.
Além do Centro de Produção, as atividades desenvolvidas a partir da AMI têm possibilitado às mulheres itamatatiuenses enumerar outras conquistas, como a aquisição de um caminhão, uma máquina para preparar o barro e confeccionar o artesanato, bem como a instalação de energia elétrica, a construção de um poço artesiano para o abastecimento de água nas moradias de alguns membros dessa Comunidade. Esses poucos recursos são derivados da
luta constante dessas mulheres frente às inúmeras necessidades do seu cotidiano. Essas figuras femininas, em grande parte, conciliam suas atividades frente à Associação e os desdobramentos a elas inerentes, incluindo a gestão política, social e religiosa da Comunidade, com os labores domésticos, da roça e como chefe de suas famílias.
A Associação atingiu tal importância nos moldes de fazer que D. Maria, senhora mais idosa da Comunidade, já tendo trabalhado com as demais, recorda saudosa do passado, no qual desempenhava atividades relacionadas a agricultura:
[...] quando eu pudia trabalhar que vivia na Associação nós fazia roça longe, nós ia trabalhar, tão bom porque nós era uma pulsão, que trabalhava na Associação, fazia roça, arrancava mandioca, fazia muita farinha quando nós tava no forno; agora eu não posso mais [olhos encheram de lágrimas], mas a gente deve ter paciência, passando o que Deus quer! [não enxerga mais]!No tempo da minha mãe não tinha Associação [...]118
(grifo nosso)
D. Maria destaca que a roça era outra atividade desenvolvida pelas mulheres itamatatiuenses na Associação, hoje, em menor proporção. Nesse sentido, D. Ângela explica que essa situação decorre da divisão de tarefas por gênero para esse labor e se ressente da ausência masculina na atividade onde a força do homem é necessária para o seu desempenho,
Porque a maioria das mulheres que quer trabalhar na roça não tem marido, né! Aí sabe que só com a mulher é ruim porque a mulher não bota força no ombro pra roçar, às vezes não faz cerca, mas tem umas que sabe fazer cerca, mas tem umas que não sabe, aí o trabalho da roça é preciso os homem na frente pra roçar, pra cercar, pra ir atrás da maniva na época de plantar! Mas elas tão querendo fazer outra roça!119
A fala de D. Ângela vem destacar a necessidade de investimentos tecnológicos, equipamentos, cursos sobre produção agrícola, que as possibilite potencializar o cultivo, a renovar o modo de lidar com a terra: menos esforço físico e mais produção. Isto porque o contexto conjugal, social, ambiental na localidade vem se alterando, mas, ainda assim, são as mulheres que continuam suprindo o sustento de suas famílias, seja trabalhando no artesanato ou na agricultura, mesmo com infraestrutura precária (enxada, pá, facão), conforme observado no período de campo (Foto 41):
118 Entrevista concedida à pesquisadora por D. Maria José de Jesus, em Itamatatiua, em janeiro de 2017. 119 Entrevista concedida à pesquisadora por Ângela de Jesus, em Itamatatiua, em setembro de 2016.
Foto 41 – Labor na roça
Fonte: Milena Reis
Observa-se que o modo como as mulheres itamatatiuenses se posicionam diante dos labores diários e das atividades associativas assemelha-se em parte à resistência que impregna a história das mulheres africanas, visto que “[...] historicamente, as mulheres negras sempre exerceram a liderança nas comunidades [...]” (CARREIRA, AJAMIL, MOREIRA, 2001, p. 40). Como também não se pode ignorar os desafios diários enfrentados por elas para sustento próprio, de sua prole, familiares, como chefes de família, na manutenção das tradições, na roça, na produção de cerâmica e líderes da Comunidade com recursos cada vez mais escassos.
As lideranças veteranas têm solicitado o apoio das novas gerações com o propósito de incitar nelas o desejo pela luta e a busca de melhorias para a Comunidade. Diante dessas buscas, D. Neide destaca que vem convocando os mais jovens para o trabalho de liderança, como é o caso de Alessiane de Jesus, 26 anos, que tem atuado em diversos espaços de gestão, ora auxiliando Dona Neide na representação da AMI, como vice-presidente, ora à frente do grupo de jovens da Comunidade, e de Denise de Jesus, filha de D. Neide, presidente da Associação, que segue os passos da mãe, às vezes para ajudá-la na administração das tarefas da Associação, como a elaboração de Projetos, na organização da Festa da Santa e outras, de forma espontânea, para treinar os times de futebol das mulheres120.
120 Denise de Jesus possui 30 anos. Cursou Técnico de Enfermagem, Pinheiro, MA. Jovem que também tem suas