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Até que alguma luz acenda, este meu canto continua

No documento Maria Luísa Rangel De Bonis (páginas 105-108)

Ai, o meu amor, a sua dor, a nossa vida Já não cabem na batida Do meu pobre cavaquinho "Um chorinho" (1967) No percurso deste trabalho pontuamos alguns momentos da obra de Chico Buarque, situando-os na crítica imediata. Através da análise de matérias e resenhas de jornais e revistas, procuramos entender qual a força e recepção das canções de Chico no momento de sua produção. Compor tal retrato é difícil não apenas por Chico ser uma das mais influentes figuras do cenário cultural brasileiro. Mas principalmente pela penetração de suas canções, que, por tratarem de temas cotidianos e íntimos, tocam fundo a cada um e a todos – e cercam o compositor de uma proximidade que se transforma em responsabilidade: entender mais do que ninguém os dramas, desesperos e felicidades que parecem guardados no fundo de cada um. Basta um trecho da "Carta ao Chico", escrita por Tom Jobim em 1989, para situar (mais poeticamente impossível) o que acabamos de dizer:

Chico Buarque meu herói nacional Chico Buarque gênio da raça Chico Buarque salvação do Brasil

A lealdade, a generosidade, a coragem, Chico carrega grandes cruzes, sua estrada é uma subida pedregosa. Seu desenho é prisco, atlético, ágil, bailarino. Let's dance! Eterno, simples, sofisticado, criador de melodias bruscas, nítidas, onde a vida e a morte estão sempre presentes, o dia e a noite, o homem e a mulher, tristeza e alegria, o modo menor e o modo maior, onde o admirável intérprete revela o grande compositor, o sambista, o melomano inventino, o criador, o grande artista, o poeta maior Francisco Buarque de Hollanda, o jogador de futebol, o defensor dos desvalidos, dos desatinados, das crianças que só comem luz, que mexe com os prepotentes, que discute com Deus e mora no coração do povo. Chico Buarque Rosa do povo, seresteiro, poeta e cantor que aborrece os tiranos e alegra a tantos, tantos...1

1 "Carta ao Chico". Tom Jobim. In Chico Buarque: letra e música. WERNECK, Humberto. São

Antes de mais nada, talvez seja preciso dizer que a primeira percepção (que de tão introjetada tornou-se nada óbvia) passa justamente por perceber o espaço enorme que a canção popular ocupa no cotidiano. Espaço acomodado internamente quando fazemos nossas a singeleza das juras de amor, a dureza das denúncias sociais, a ironia do humor e a alegria da tristeza presentes nas canções, e que justifica de certa maneira esta proximidade intimista legada a Chico. Não seria muito dizer que se a história de cada um passa pela imensa rede das canções, a construção do que é o Brasil deve muito a elas. Afinal, se somos (ou nos fazemos) personagens das canções, o país é seu cenário mais constante – e, quem sabe, também inventado por ela.

Dito de outra forma: pouco importa se esse compositor prefere não falar, driblar, iludir tanto desencanto. Ou, ao contrário, se seu canto prolonga uma melancolia crescente apontando para um país cada dia mais soturno e tristonho. Ou ainda, se suas canções oscilam, vacilantes, entre o pato e o leão, entre o rap e o repente, entre o rebaixamento estético, a vulgarização comercial, as evocações pop, os estranhamentos rítmicos, as inflexões oníricas das palavras – esse canto ressoa sempre, no tecido da linguagem, alguma coisa organicamente ligada à aventura nacional brasileira, atualizando, com sua fluidez melódica, os dados de um país que nos parece escapar por entre os dedos, com suas pequenas expectativas cotidianas invariavelmente desniveladas, seus repentes de afetividade, sua ambigüidade civil, sua elegância esquiva, sua intolerável vulgaridade política, sua irônica melancolia.2

Partindo deste lugar onde canção popular se acomoda, chegamos a outra percepção. Antes que a recepção situe as canções em certos padrões artísticos – e muitas vezes mercadológicos–, elas são sua própria crítica. Em outras palavras: se a canção é leitura da realidade, o pensar e interpretar sobre ela, que formata a crítica, é parte fundamental de sua construção. Certamente isso vale para qualquer obra artística: a literatura não deixa de criar novas perspectivas. Mas, no caso da canção, tal fato aparece mais latente. Ao passar de boca em boca, a canção cresce, ganha tessitura, e o discurso que nasce já é aceitação e quebra.

2 "Apresentação". In Decantando a República: inventário histórico e político da canção popular

moderna brasileira. CAVALCANTE, Berenice; STARLING, Heloisa; EISENBERG, José (Orgs.).

Entender a canção – e, em nosso caso, especialmente a canção de Chico Buarque – como dona de um discurso e crítica intrínsecos é fundamental. Pois é a partir daí que poderemos pontuar a postura de Chico no balanço que acompanha a (des)construção de sua obra, levado na esquiva e na reposição de perspectivas. Perspectivas, que, por um lado, aceitam o artista como produtor de uma obra que apresenta papel importante na construção de sentidos num contexto social. E, por outro lado, imbuída nas mesmas perspectivas, uma produção que conte com a inegável existência do mercado de bens culturais, transformador em mera mercadoria descartável3. É neste jogo dialético que se faz entender a obra de Chico Buarque.

3 "O autor consciente das condições da produção intelectual contemporânea está muito longe de

esperar o advento de tais obras, ou de desejá-lo. Seu trabalho não visa nunca a fabricação exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, a dos meios de produção. Em outras palavras: seus produtos, lado a lado com seu caráter de obras, devem ter antes de mais nada uma função organizadora. Sua utilidade organizacional não precisa de modo algum limitar-se à propaganda. A tendência, em si, não basta." BENJAMIN, Walter. "O autor como produtor". In

Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 131.

No documento Maria Luísa Rangel De Bonis (páginas 105-108)