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CAPÍTULO I – AS PRÁTICAS MUSICAIS AFRO-PERUANAS

1.4 Atajo Afro-Andino ou Afro-Peruano?

A literatura recorrente situa o atajo como uma manifestação afro-peruana. Contudo, chegando ao campo percebi que os integrantes do atajo da Família Ballumbrosio e de outros

atajos do El Carmen se contrapunham diretamente a essa afirmação, declarando-se “afro-

andinos”. Na literatura acadêmica o termo afro-andino é utilizado para se referir à mestiçagem dos afrodescendentes e andinos por meio das relações sociais e religiosas e das trocas culturais que refletem o dia a dia dos afro-andinos.

Como contraponto, o modelo contemplado pela antropóloga peruana Olinda Celestina, publicado no livro Los afro andinos dos séculos XVI ao XX (2004), refere-se, primeiramente ao diálogo entre africanos (e descendentes) e indígenas, que estabeleceria uma série de relações sociais, religiosas, econômicas e políticas, no marco de uma situação subalterna há que ambos são forçados desde tempos coloniais (CELESTINA et al., 2004: 25). Presidindo do status de periferia do Atlântico Negro, o conceito afro-andino busca a compreensão de uma história de afrodescendentes ao longo das zonas baixas e altas da acidentada geografia latino- americana, independentemente das suas regiões marítimas33 (LLANOS, 2017, p.6).34

Nessa busca para poder compreender o significado do termo afro-andino no universo do Atajo de Negritos foram realizadas algumas perguntas a alguns integrantes do atajo da Família Ballumbrosio e do El Carmen. Foi assim que na pesquisa de campo realizada no El Carmen no dia 23 de Julho de 2018 perguntei para o Sr. Adan, um dos caporales mais velhos da localidade, o seguinte: que elementos faz com que o atajo seja uma manifestação afro- andina e não só afro-peruana?

33

Tradução feita pela autora.

34Como contrapunto, el modelo contemplado por la antropóloga peruana Olinda Celestina, publicado en el libro

Los afro-andinos de los siglos XVI al XX (2004), refiere, en principio, al diálogo entre africanos (y descendientes) e indígenas, que establecería una serie de relaciones sociales, religiosas, económicas y políticas, en el marco de una situación subalterna a la que ambos son forzados desde tiempos coloniales (CELESTINA et al., 2004: 25). Prescindiendo del estatus de periferia del Atlántico Negro, el concepto de afro-andino busca la comprensión de una historia de afrodescendientes a lo largo de las zonas bajas y altas de la accidentada geografía latinoamericana, independiente de sus regiones marítimas (LLANOS, 2017, p.6)

No total são 24 danças, dentro das 24 danças temos 5 ou 6 danças que são as

serranitas, isso vem a ser a conjetura do que é afro-andino... Afro-peruano não! ...

Afro-peruano é o festejo, isso que é afro-peruano... (começou cantar). O sapateado também é afro-andino, olha a rítmica da serranita, é rítmica andina... (começou sapatear) ...35(HERRERA, 2018).36

Adiante, mostraremos uma transcrição da dança “Serrana Vieja”, a qual pertence ao repertório do Atajo de Negritos. Esta dança se distingue das demais danças do Atajo de

Negritos. É considerada outro gênero musical dentro das danças do atajo, denominadas serranitas, pelo fato que contêm sonoridades que comumente se relacionam com o universo

andino, por conterem notas musicais na escala pentatônica, as quais se relacionam com a música andina no Peru. Outra característica deste gênero musical é o texto, o qual deferência outras danças do atajo que geralmente relatam as experiências dos negros escravizados na época da colônia ou o trabalho que desenvolviam nas fazendas e plantações de açúcar. No caso das serranitas relatam histórias de vivências e experiências que os antigos povoadores tiveram com as populações das zonas andinas contíguas a El Carmen.

Serrana Vieja (Serranita)

Una serrana vieja mamita, me quiso pegar Una serrana vieja mamita, me quiso pegar Com su chicote viejo, mamita, dentro de su corral Com su chicote viejo, mamita, dentro de su corral

Dicen que mañana mamita, mañana se va Dicen que mañana mamita, mañana se va Pero no me ha dicho mamita, cuando volverá Pero no me ha dicho mamita, cuando volverá.

35 Entrevista concedida pelo senhor HERRERA, Adan (2018). Tradução feita pela autora.

36 En total son 24 danzas, ¡dentro de las 24 danzas tenemos 5 o 6 danzas que son serranitas, eso viene a ser la

conjetura de lo que es afro-andino… Afroperuano no!... Afroperuano es el festejo, eso es afroperuano… (comenzó a cantar). El zapateo también es afro-andino, mira la rítmica de la serranita, es rítmica andina… (comenzó a zapatear) (HERRERA, 2018).

Figura 6 - Transcrição da música “Serrana Vieja” que faz parte do repertório do Atajo de Negritos. Fonte: Pesquisa de campo no El Carmen 23/07/2018 (Transcrição da autora).

Figura 7 - Entrevista realizada com o senhor Adan Herrera, atualmente

um dos caporales mais velhos no El Carmen.

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisa no El Carmen 23/07/2018.

Como afirma Chebo, a influência andina das serranitas está relacionada não só com as “sonoridades andinas”, senão também pelo aspecto demográfico, devido que a localidade de Chincha está situada geograficamente próxima às regiões andinas, tal como Huancavelica e Ayacucho. No caso da localidade de El Carmen havia movimentos migratórios entre os habitantes dessas localidades (Ver Figura 8 do mapa do Departamento de Ica).

O afro-andino acontece pela demografia, existe uma vertente andina, há um riacho andino... Geograficamente esta Ayacucho, Huancavelica, Ica e Chincha, então obviamente que os nossos ancestrais foram acolhidos, sarados pelas pessoas dos Andes, alguns velhinhos sábios acolheram a filhos de escravos para depois retorna- os curados a Costa. Eu lembro ter tido uma amiga andina, que era afilhada da minha avó, criada aqui, antes faziam um tipo de intercambio, para que aprendam os costumes de lá e aprendam os costumes daqui e assim se manter, porque é o único jeito, uma vez mais argumento, a única forma de preservar a cultura é a fusão (mistura) , porque senão não vamos ter este Atajo de Negritos sem fusão. Tem que ter pessoas de ambos costumes, tem que ter pessoas que não sejam negras... já nada é puro 37 (BALLUMBROSIO, Chebo 2018, falta pagina).38

Figura 8 - Mapa do departamento de Ica Figura 9 – Mapa da provincia de Chincha

Fonte: Instituto Nacional de Estadistica Fonte: http://www.munipnuevochincha.gob.pe/distrito.php?sec=4 e Informatica do Peru

37

Entrevista concedida pelo senhor BALLUMBROSIO, Chebo (2018). Tradução feita pela autora.

38 Lo afro-andino se da por el estado, hay una corriente andina, hay un cause andino... Geográficamente esta

Ayacucho, Huancavelica, Ica y Chincha, entonces obviamente que nuestros ancestros fueron acogidos, sanados por la gente de los andes, algunos viejos sabios acogieron a hijos de esclavos para después regresarlo sano a la costa. Yo recuerdo haber tenido una amiga andina, que era ahijada de mi abuela, criada acá, antes hacían un tipo de intercambio, para que aprendan las costumbres de allá y aprendan las costumbres de acá y así mantenerse, porque es la única forma, una vez más sostengo que la única forma de preservar la cultura es la fusión, porque sino no vamos a tener a este atajo de negritos sin fusión. Tiene que haber gente de ambas costumbres, tiene que haber gente que no sea negra... ya nada es puro (BALLUMBROSIO, Chebo 2018).

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