• Nenhum resultado encontrado

A rede de atendimento integral a usuários de álcool e outras drogas do município do Natal

experiência do hospital M.Walfredo Gurgel

4.3 A rede de atendimento integral a usuários de álcool e outras drogas do município do Natal

A Rede Social de Atendimento é um conjunto de relações interpessoais concretas que vinculam instituições e indivíduos a outras instituições e indivíduos, à medida que há um poder de cooperação, e a assimilação de pontos em comuns entre os grupos possibilitando a insurgência de solidariedade e parceria.

Sendo assim, o homem como ser social ao nascer já estabelece sua primeira rede de relação, a interação com a família e o contato com os grupos sociais irão desenhar sua identidade social. Neste sentido, sociedade para FLUSSER, (1998, p.23) “significa a estratégia, graças à qual esperamos realizar-nos através da troca de informações com os outros”, e essa mesma sociedade, hoje se projeta como a sociedade da informação, tendo seu interesse existencial concentrado na troca de informações.

O conceito de Rede, como definição básica origina-se do latim retis e os dicionários de língua portuguesa definem como um entrelaçamento de fios com aberturas regulares, capazes de formar uma espécie de tecido. O verbete Rede admite vários sentidos que convergem para o entendimento do funcionamento da rede de atendimento.

Loyola & Moura (2000, p. 54) ressaltam as vantagens e definições do termo, o mesmo pode ser compreendido como instrumento amortecedor ou protetor, possui a ideia de fluxo ou circulação, as redes podem ainda ser consideradas como um sistema organizacional capaz de reunir diversos indivíduos e instituições de forma democrática e participativa que possuam objetivos e ações em comuns.

No plano das Políticas Públicas a Rede constitui-se em uma ação articulada e integrada entre as diversas organizações governamentais e não-governamentais que atuam direta ou indiretamente nas políticas sociais. A existência efetiva da rede depende do elo de integração e articulação entre as diferentes ações.

Assim, para ser Rede é preciso que os pontos estejam bem amarradinhos, ou seja, ela estará sendo tecida na proporção direta da integração e articulação das suas diversas ações. Neste sentido, Amaral (2007, p.

02) destaca a seguinte caracterização para as formas de Rede:

[...] apesar das características especiais, a forma de operar das redes sociais, assim como das espontâneas

traduz princípios semelhantes aos que regem os sistemas vivos. Deste modo, um passo importante para entender as dinâmicas próprias do trabalho em rede é conhecer os sistemas vivos, entender como a vida se sustenta e se autoproduz. Uma diferença essencial entre os dois sistemas é que os fluxos e ciclos das redes sociais estão permeados, representam canais de circulação de informação, conhecimentos e valores representados pelos sistemas simbólicos. (AMARAL 2007, p 02)

Sendo assim, o processo para se ter uma análise de funcionamento da rede de atendimento aos usuários de álcool e outras drogas, é preciso entender que o uso de substâncias psicoativas tem se revelado um problema não apenas de saúde pública, pois tal situação tem tido intensa repercussão social e econômica na contemporaneidade. Neste aspecto o poder público e a sociedade civil têm se mobilizado na perspectiva de prevenir e criar estratégias de enfrentamento a este problemática.

A precocidade com que os jovens vêm experimentando vários tipos de drogas sejam elas lícitas ou ilícitas e o aumento deste consumo tem se tornado um alerta para os especialistas e para tanto, tem sido colocado em pauta nas discussões para que seja realizada ações que tenham uma direção comum, principalmente na perspectiva da prevenção, no sentido de educar o indivíduo para que ele possa assumir suas responsabilidades na identificação e manejo das situações de risco que possam ameaçar a opção pela vida.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) elenca como fatores de risco ao uso de Drogas: Ausência de informações adequadas sobre as drogas; insatisfação com a sua qualidade de vida, pouca integração com a família e a sociedade; e a facilidade de acesso às drogas.

Por isso, a articulação dos diferentes pontos da rede social pode aperfeiçoar espaços de convivência positiva que favoreçam trocas de experiências para que se identifiquem os riscos pessoais e as possíveis vulnerabilidades sociais. Acionar uma rede consiste deste modo, em criar um processo comum de comunicação para todos os que estão envolvidos.

Segundo Amaral (2007) a rede deve ser poli Centrica, não hierárquica, horizontalizada, oportunizando as relações multilaterais, com potencial para oferecer os seguintes benefícios:

[...] a comunicação estruturada com públicos estratégicos; transparência; desenvolvimento de uma cultura de cooperação; desenvolvimento do protagonismo; descentralização das gestões; um ambiente/campo estruturado para possibilitar parcerias mais seguras e confiáveis; democratização das relações, regidas pelo par representado pela autonomia-interdependência; um espaço estruturado de interação social para as pessoas e organizações com objetivos comuns, além de um padrão organizacional cujas características são, por si, potencialmente facilitadoras de integração e democracia. (AMARAL, 2007 p.

02).

Nas redes o poder se desconcentra, por isso também as informações se distribuem, sendo certo que essa estrutura consegue reunir entidades governamentais e não governamentais, indivíduos, comunidades diferenciadas, órgãos colegiados dentre outros atores.

A rede de atendimento integral a usuários de álcool e outras drogas no município do Natal-RN[3] está inserida no contexto da política de saúde mental do município e encontra-se alicerçada nas diretrizes da reforma psiquiátrica nacional (Lei 10.216).

Além disso, o município conta ainda com o Conselho Municipal de Entorpecentes que se insere hoje dentro da Política Nacional de Assistência Social, uma vez que os municípios devem desenvolver estratégias de atendimento para os grupos considerados estigmatizados que se encontra em risco social e pessoal.

O principal dispositivo substitutivo da internação em hospital psiquiátrico é o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) AD que atende à clientela a partir dos 14 anos, usuários de álcool e outras substâncias psicoativas, para tratamento e recuperação com ênfase na redução de danos, com o estímulo a novos hábitos, visando à diminuição de internações hospitalares para desintoxicação e outros tratamentos, neste sentido, cabe mencionar ainda como está distribuída a rede de atendimento a estes usuários:

CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) i - Dimensionado para acolhimento de clientela na faixa etária entre 05 a 18 anos, portadores de transtornos mentais graves e usuários de substâncias psicoativas;

APTAD - Ambulatório de Prevenção e Tratamento do Tabagismo, Alcoolismo e outras

Drogadições - Implementado para realizar o atendimento preventivo e tratamento de dependência química para usuários a partir de 14 anos, promovendo também, orientação para os familiares;

NOADE: Núcleo de Orientação e Acompanhamento aos Usuários e Dependentes Químicos de Natal - Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do No

Ambulatório de Saúde Mental - atende pessoas, a partir de 16 anos, portadoras de transtornos mentais que necessitam de cuidados sem- intensivos e não intensivos, sendo referência para outros serviços especializados, há no município 4 (quatro) ambulatório

Residência terapêutica - Casa destinada a abrigar pacientes com transtornos mentais, egressos de hospitais psiquiátricos após longos períodos de internação e que perderam os vínculos

familiares e sociais, bem como, moradores de rua com transtornos mentais severos, quando estes estão inseridos em projetos terapêuticos vinculados aos CA

Em Natal estão em funcionamento dois CAPS II, dois CAPS ad, um CAPS i, um CAPS III, um ambulatório, uma residência terapêutica e um APTAD, distribuídos nos distritos sanitários. O fluxo de triagem e encaminhamento de pacientes que necessitam de atendimento na área de saúde mental é iniciado no nível de atenção básica, através do acolhimento em unidades de saúde desses usuários.

O resultado das discussões do processo de territorialização em 1990 culminou com a divisão do

Município em quatro distritos sanitários, respeitando a mesma conformação das Regiões Administrativas, que atuavam sob regime de organização em subprefeituras: Distrito Sanitário Sul; Distrito Sanitário Norte; Distrito Sanitário Leste; Distrito Sanitário Oeste. (Cf. Relatório de Gestão da Secretária Municipal de Saúde do Município do Natal, 2007).

O município possui dispositivos propostos no projeto da Reforma Psiquiátrica, contudo, os dispositivos da reforma não resumem aos CAPS, se faz necessário desenvolver uma rede integrada que possibilite ao usuário ou dependente reinserir- se no seio familiar e comunitário, através de atividades que possam fornecer a eles empoderamento e autonomia.

Neste sentido, os serviços existentes no município ainda são insuficientes e desarticulados, oferecendo uma assistência confinada aos serviços especializados de saúde mental, superlotados, que funcionam com enormes dificuldades, embora tenham profissionais competentes, dedicados e comprometidos com os usuários, que se depara com condições aviltantes de trabalho para atender as demandas dos usuários/dependentes químicos e seus familiares.

Além disso, tais usuários ainda são estigmatizados, cuja superação, constitui mais um campo de ação que o movimento da Reforma Psiquiátrica ainda não conseguiu imprimir grandes mudanças. Em geral, o conjunto dessa problemática ainda não tem sido incorporado no âmbito da prevenção, principalmente nas unidades básicas, que ainda não são capacitados para trabalhar com essa demanda, e poucos tem o conhecimento da Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e outras Drogas.

Os inúmeros casos atendidos no Complexo Hospitalar, nos serviços substitutivos da SMS/Natal e nos programas da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (SEMTAS), retrata que em geral o uso de substâncias psicoativas está associada a diversas manifestações da Questão Social, a violência urbana, à vulnerabilidade econômica e social, ao rompimento dos vínculos familiares, aos casos de violência doméstica e intrafamiliar.

A Rede conforme explicita a lei 11.343/2006 deve trabalhar de forma preventiva que é fruto do comprometimento, cooperação, e parceria entre os segmentos sociais, instâncias governamentais, e órgãos não governamentais, fundamentada na filosofia da “Responsabilidade Compartilhada” desenvolvendo ações que potencializem a construção de redes sociais e de estratégias para promoção à saúde.

Esta lei expõe que as atividades preventivas devem possibilitar emergência de multiplicadores que tenham um trabalho planejado e direcionado ao desenvolvimento humano, na educação para uma vida saudável socialização dos conhecimentos sobre drogas incluindo a participação familiar, as práticas de esporte, cultura e lazer, além de produzir campanhas mais direcionadas e fundamentadas cientificamente respeitando as diferenças e os direitos individuais.

A articulação integrada da rede possibilita que o estigma presente neste público seja rompido, conforme explicita a seguinte afirmação:

Os usuários de drogas são apresentados como um ser, por um lado improdutivo, sem qualificação intelectual, sem parâmetros morais, um estorvo para família e para sociedade. [...] oscilando sempre entre o delinquente /o que ameaça e o parasita/o incapaz. [...] O que equivale dizer que, dada a sua opção pela droga, esse indivíduo torna-se o protótipo do excluído moderno, segundo Elimar Nascimento:

Economicamente desnecessário, politicamente incômodo, e socialmente ameaçador. (Hygino & Garcia, p.

32 Serviço Social e Sociedade 74)

Neste aspecto o trabalho em rede possibilita que esse usuário tenha uma postura ativa no processo de reabilitação social, tendo em vista que a família e a sociedade também participarão. Um dos recursos mais práticos e eficazes é desenhar uma política preventiva por meio da comunicação, já que isto seria o método mais rápido de disseminar informações e que estas seriam passadas no modelo pedagógico que não seja eivado de caráter repressivo e negativista.

Desta forma, é fundamental que a Política de Redução de Danos seja utilizada como estratégia de atuação, tendo em vista que ela evita a compreensão moralista sobre os comportamentos relacionados ao uso dessas substâncias evitando por vezes intervenções preconceituosas e autoritárias, além disso, é importante frisar que cada indivíduo necessita de uma abordagem própria ao ser atendido, por isso à importância da integração da rede de serviços.

É importante destacar que mesmo sabendo da importância do trabalho em rede, o município hoje, sofre algumas limitações no que tange ao atendimento a esse tipo de demanda, tendo em vista que os serviços que são disponibilizados não estão equipados o suficiente para atender de forma integral a estes usuários.

O que existe na prática é uma rede deficiente que atende de forma pontual a pessoas dependentes químicas, muitas delas procuram os serviços principalmente nos Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Droga e não são atendidos, além disso, o Ministério da Saúde preconiza um modelo de atenção diferenciado, que não pode se resumir a CAPS AD, se faz necessária uma articulação entre as políticas públicas para desenvolver um atendimento integral a esses usuários.

Neste sentido, o HMWG/PSCS sofre com essa falta de articulação e desconhecimento da Política de atenção a estes usuários, tendo em vista que os casos de violência que chegam associados a dependência química, são na maioria das vezes, diagnosticados e tratados apenas o “trauma”.

Enquanto que o Setor de Serviço Social ao identificar a demanda nos politraumatizados, tenta procurar algum dispositivo extra hospitalar para atender a essa demanda e não encontra, e quando o serviço existe

não há vagas, isto impossibilita a ação dos Assistentes Sociais, que acabam tendo que acionar o Ministério Público para poder exigir uma postura até mesmo do próprio Hospital diante da fragilidade no atendimento a esses pacientes.

Logo, é essencial que a rede para este público específico seja efetivamente construída de forma articulada para que se possa atender a qualquer cidadão de forma integral, equitativa e igualitária como preconiza a Constituição Federal, além disso, é preciso sim, que sejam criados novos serviços, mas que também exista uma política de aprimoramento dos já existentes, pois o que temos visto é um sucateamento dos serviços e a construção de novos sem garantia de manutenção.

Por fim, é de fundamental importância lembrar que rede bem estruturada e articulada é condição essencial para a efetivação dos direitos, e em especial para efetivação e consolidação da política de atenção a usuários de álcool e outras drogas na perspectiva da redução de danos.