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Atividade 2 – Ajudando a enredar o leitor

CAPÍTULO V MÃOS NAS OBRAS

5.4 Atividade 2 – Ajudando a enredar o leitor

A aula pode começar com alguns comentários informais sobre a quantas andam as dificuldades de quem tem de usar transporte coletivo com freqüência. O problema é tão comum que já virou tema até de histórias em quadrinhos. Após esse rápido delineamento de um assunto, é o momento de introduzir a história que vai ser lida: "Dentro do ônibus", com as personagens Tina e Pipa, criações de Maurício de Sousa. De início, apresentar apenas a primeira página. Isso pode ser feito por meio de projeção com datashow ou retroprojetor. O ideal seria que cada aluno recebesse uma cópia colorida da página, mas dificilmente a realidade será essa.

A leitura tem início com a exploração da primeira página (Figura 43), a única com que os alunos tiveram contato até aquele momento.

O primeiro passo é explorar o conhecimento prévio que os alunos têm com base em sua experiência com o gênero e aproveitar as hipóteses de leitura que eles vão formular como ponto de partida do diálogo com o texto. Por alguns aspectos levantados das falas dos personagens, a hipótese que assoma como mais provável é de ocorrência de um assalto.

Deve-se aproveitar esse colóquio para explorar:

1) Quem será a provável vítima? As características apontam fortemente para Pipa: não se mostra tão informada sobre o assunto quanto Tina e carrega uma bolsa, ao contrário da amiga, que nada teria de exposto para ser roubado.

2) Quem seria o provável ladrão? As pistas para essa pesquisa estão concentradas na vinheta final da página. As amigas estão entre três sujeitos, metonimicamente representados por seus braços:

um deles, em pé, de terno; outro, de camiseta regata, deixando entrever um braço peludo, com a mão no cinto; o terceiro, portando uma valise de executivo, está sentado ao lado de Pipa, que traz sua bolsa displicentemente sobre o colo.

Figura 43

Três hipóteses para a figura do ladrão, cujos perfis podem ser explorados como argumentos para a sua escolha ou não, trazendo à consciência os estereótipos dessa figura, o ladrão. Essa forma de condução da leitura nada mais é do que uma intensificação (com fins pedagógicos) da própria estratégia que o autor usou para enredar o leitor. O quadro final da primeira página apresenta de forma não discernível todos os elementos de que vai se compor o enredo: o tema (um roubo), a vítima (Tina e/ou Pipa) e o agente do delito (um dos três homens). Sendo a última vinheta, ocorre um lapso de tempo em que o leitor tem simultaneamente, todas essas possibilidades.

O que obtemos com a intensificação do lapso de tempo na leitura é mais tempo para refletirmos sobre o material lido e a possibilidade de chamar a atenção dos que até então têm menos agilidade na leitura para sutilezas dessa linguagem.

Feito isso, apresenta-se a segunda página (Figura 44). Essa página reduz a diversidade de enredos surgidos na observação da primeira página.

Quando nos deparamos com a figura inteira do sujeito com o braço peludo (muito provavelmente o campeão de votos para ser o ladrão), confirma-se a hipótese dos que o haviam escolhido para esse papel – some-se a esse realce na figura os demais traços físicos, que ajudam a compor um estereótipo de ladrão e o movimento suspeito de ter escondido atrás do corpo a mão com que antes segurava o cinto. Os que haviam optado por outras interpretações, promovem modificações na rede de eventos que projetaram e que os novos dados contradizem.

Figura 44

Na seqüência, definem-se também a vítima (Tina) e o objeto do roubo (um relógio, não uma bolsa). Novamente, o quadro final dessa página suspende o desfecho da reação que vítima do assalto pressupõe que vai adotar. Qual vai ser a reação? Nesse momento também o retardamento do encontro com a página seguinte (Figura 45) enseja a abordagem de vários aspectos não tão evidentes numa leitura mais rápida.

Define-se a reação da personagem ao que ela supôs ser um roubo, diante de que os alunos tiveram as suas expectativa confirmadas ou negadas, obrigando, neste último caso, a rever a interpretação feita e buscar novos encadeamentos a partir dos dados que se materializaram.

Começam a pipocar na mente do leitor novos enredos. Nesse caso também o retardamento do acesso à página seguinte pode ensejar a problematização de alguns aspectos (por exemplo, por que um sujeito daquele tamanho ficaria tão assustado com uma figura aparentemente mais frágil?).

Figura 45

Chega a vez da página final (Figura 46). Nesta, algumas interferências do professor no próprio texto vão garantir um trabalho mais sistemático já no campo lingüístico, entretanto, sem se perder de vista a especificidade da linguagem dos quadrinhos.

Nesse momento, solicita-se aos alunos a caracterização do estado psicológico de Tina no primeiro quadro da página e no quadro final, com base nos recursos disponíveis (imagem, linhas cinéticas, falas).

Poucos terão dificuldade para perceber o que de fato aconteceu dentro do ônibus. O objetivo da tarefa não é mostrar que entendeu, por isso todo o trabalho é feito oralmente e com a participação de todos, contribuindo mutuamente para a apreensão de detalhes importantes mas não tão evidentes.

Figura 46

Depois de esgotadas as discussões, sintetiza-se uma leitura para o que de fato ocorreu dentro do ônibus, ou seja, que Tina é que acabou tomando o relógio do sujeito que supôs que estava roubando o seu. Aliás, um dos aspectos a esclarecer é o

que a teria levado a supor que o seu relógio tinha sido roubado se, no último quadro, ele aparece em seu pulso. De qualquer forma, não é esse o objetivo final da atividade, embora seja um estágio obrigatório (entender a trama). Pela facilidade mesma desta parte, os alunos não oferecem resistência, pois ficam o tempo todo relativamente confortáveis, seguros das interpretações que vão sendo capazes de fazer. Esse é um estágio mais de preparação da atividade em si. Passemos à segunda parte.

Antes de mostrar os quadros com a versão original da história, para que eles recomponham-na, o professor entrega-lhes os quadros com os balões de fala suprimidos (Figura 47). O enredo todos já conhecem, ou seja, os alunos já têm conhecimento das operações que levaram do estado psicológico apresentado por Tina no primeiro quadro da página anterior ao estado apresentado no final da história.

A tarefa dos alunos vai ser captar essa transformação nos diálogos que se travaram entre esses dois pólos.

Figura 47

Servem de orientação para a criação dos enunciados tanto o conhecimento do que enredo apresenta quanto os indícios que as imagens oferecem (presença de objetos, expressões faciais, linhas cinéticas e formatos dos balões) e o próprio estilo de linguagem em que as personagens se expressaram durante todo o desenrolar da trama. Obviamente, hão de surgir diferenças entre os enunciados (uma benção para o professor), e essa diversidade de enunciados produzidos pelos alunos e compartilhados por toda a turma passa a ser o foco de discussão. Algumas questões:

• Que enunciados não condizem com a transformação relatada?

• Que enunciados não condizem com a forma de expressão do personagem a que foi atribuído?

Parece pouco para um exercício lingüístico, mas gostaria de ressaltar a quantidade de atividades complementares que foram realizadas até esse momento, principalmente no que diz respeito ao constante levantamento e testagem de hipóteses de leitura. Durante toda a atividade, explorou-se a modalidade oral para encaminhamento da interpretação. A manifestação escrita foi solicitada apenas na produção dos diálogos. Ressalto também que a complexidade do enunciado não reside na sua extensão, mas no seu poder de captar a força ilocucionária do texto. Por fim, não deixar de observar também o que venho defendendo ao longo deste trabalho:

a linguagem dos quadrinhos não foi subestimada, sendo inquirida, quando necessário, dentro de sua especificidade. São as suas características intrínsecas que servem de base argumentativa para as subsunções tiradas da história. Em nenhum momento ela sumiu de cena. É quem sempre esteve no plano principal de leitura.

Mas a atividade pode não parar aí, migrando, agora sim, para outros campos e formas de discurso. Por exemplo, aproveitando a introdução no cenário de sala de aula de um tema tão presente no dia-a-dia de todos, o professor pode solicitar que os alunos relatem situações embaraçosas que eles protagonizaram em coletivos urbanos, ou de que tiveram notícia. A princípio, tais relatos devem ser solicitados oralmente, para não caracterizar logo de saída uma "atividade de produção de texto".

Nesse momento, não são "textos" no sentido escolar o que se deseja, mas histórias. A partir do momento em que houver um conjunto de relatos, é hora de propor a classificação deles. Alguns critérios: qual o mais triste? Qual o mais engraçado?

Aí sim é hora de solicitar que eles sejam registrados por escrito, por que a quantidade deles criou um empecilho para a manipulação apenas de memória, a fim de avaliar as características que os fazem encaixar-se num ou noutro critério; ou seja, tornou-se necessário registrá-los. A escrita nesse caso não vai parecer ao aluno ser o foco da atividade, mas o registro de histórias que, pela quantidade e extensão, precisam ser de alguma forma retidas num formato mais concreto, mais facilmente manipulável. A escrita se manifesta no cumprimento de sua função social.