3.2 “HOW WOMEN BECOME MUSICIANS”
4.4 A ATIVIDADE DE CANTAR
Ao contrário das demais funções o papel de vocalista sempre foi autorizado às mulheres não somente por demandar o uso de um atributo “natural” – a voz, mas principalmente pelo caráter atrativo do corpo feminino, socialmente construído como portador de uma sexualidade excessiva, desvirtuadora e perigosa. E neste sentido também a voz “carrega valores sensuais, eróticos ou, simplesmente, ideológicos, que cativam a fidelidade do ouvinte, há como que um deslocamento das sensações táteis e visuais para as sensações auditivas”.31
Em “A dominação masculina”, Bourdieu diz que a supremacia dos homens transforma as mulheres em objetos simbólicos, fazendo de seus corpos sejam alvo de desejo e encanto e colocando as mesmas em permanente estado de insegurança corporal. O autor ainda afirma:
29 A expressão “povo de preto” de que fala a entrevistada é uma referência ao traje das pessoas que
freqüentam shows de rock’n’roll não possuindo qualquer ligação à raça do indivíduo.
30 Evento criado pelos alunos do Antônio Vieira para reunir as bandas de rock do colégio. 31
TATIT, Luiz. Rita Lee e A Era das Cantoras Na Canção Popular. In: Todos Entoam: Ensaios, Conversas e Canções. São Paulo: Publifolha, 2007. v. 1. 447 p.
Enquanto que para os homens, aparência e os trajes tendem a apagar o corpo em proveito de signos sociais de posição social (roupas, ornamentos, uniformes etc.), nas mulheres, eles tendem a exaltá-lo e a dele fazer uma linguagem de sedução. O que explica que o investimento (em tempo, em dinheiro, em energia) no trabalho de apresentação seja muito maior na mulher (BOURDIEU, 2005, p. 118).
Essa função decorativa destinada às mulheres é, em grande medida, a razão pela qual o papel de cantora lhes foi permitido. Nas bandas elas surgem como um diferencial que fornece aquilo que Roy Shuker (1994) chama de “distração sedutora da música”.32 Sobre esta posição ornamental Sara Cohen escreve:
Nas culturas Euro-americanas tende-se a presumir que a cultura rock pertence aos homens englobando atividades e estilos masculinos. Mulheres, entretanto, tendem a ser associadas a funções de criatividade reduzida, marginal ou decorativa, assim como a estereótipos comuns de mulheres de glamour (glamorosas) que atuam como cantoras para grupos masculinos ou caracterizam seus vídeos e outros tipos de produtos, ou ainda como fãs que gritam por seus vocalistas (COHEN apud WHITELEY, 1997, p. 17).33
Inconformadas com o lugar secundário, a busca pelo instrumento representou para as feministas uma reação ao papel limitado da “chick singer” ou “garota que canta” – prescrito para mulheres em bandas de rock no passado. No entanto, esta não parece ser uma preocupação de nossas entrevistadas. Ao invés, é possível verificar uma recusa ao próprio instrumento que representa um entrave a atividade de cantar. Ele aparece como uma necessidade e mesmo uma obrigação na fala desta entrevistada:
DINNY: A Apnéia surgiu quando Kika e a outra vocalista (porque no começo não fui eu que comecei logo cantando). Ai ela falou assim: “bora formar uma banda de rock, mas só que já tem a vocalista e eu na guitarra” ai eu falei: ‘eu posso tocar baixo né, de começo, mas não é isso que eu quero mesmo, você sabe que eu só canto, eu vou começar a tocar baixo pra te ajudar’...
DINNY: Não gosto muito de tocar baixo não. Eu gosto do instrumento, mas pra você tocar você tem que estudar mesmo e eu não queria me aprofundar em tocar baixo. Eu gosto mais de violão e cantar. Eu adoro cantar.
A voz, portanto, é tão valorizada quanto qualquer outro elemento, não necessitando de complementos ou recursos extras. Há, inclusive, o reconhecimento de
32 “Seductive distraction from the music”. 33
“Within Euro-American cultures there tends to be a general assumption that rock music is male culture comprising male activities and styles. Women, meanwhile, tend to be associated with a marginal, decorative or less creative role, hence the common stereotypes of glamorous women who act as backing singers for male groups or feature on their videos and other merchandise, and girls as adoring fans who scream at male performers”.
que tocar um instrumento enquanto se canta pode não ser uma combinação de atividades tão agradável:
DINNY: (...) principalmente é complicado você cantar e tocar. É complicado. Eu, às vezes, ficava errando tocando, às vezes, errava a letra. Ai depois que eu fui me acostumar a cantar e tocar junto, mas é difícil.
O papel de vocalista neste novo contexto possui grande valor, assim como também os laços de amizade que funcionam para manter estável a relação entre a cantora e as demais componentes do grupo. Em sua avaliação Bayton aponta que o status “natural” que é atribuído à voz pode transferir um sentimento de insegurança às vocalistas. A função exclusiva de cantar pode fazê-las sentir que não estão contribuindo ou aprendendo tanto quanto às instrumentistas e, portanto, seriam mais facilmente substituíveis. Por essa razão muitas vocalistas se lançariam ao aprendizado de algum instrumento ainda que seja alguma forma de percussão a ser tocada ocasionalmente. Contudo, o vínculo fraterno que é criado nessas bandas parece não tornar o medo da substituição um problema.
Mas se no mundo da música os microfones sempre estiveram ao alcance das mulheres, uma outra função parece ter sido feita especialmente para elas: a de fã. Longe dos palcos e afastadas dos espaços públicos de lazer, berços por excelência do rock, os apelos e as conotações fortemente sensuais e sexuais desse gênero também chegaram aos ouvidos femininos. Limitadas e impedidas de atuar como produtoras da música, a adoração desmedida surge como uma saída, uma exacerbação das angústias que teve sua expressão máxima nas décadas de 50/60 com Elvis Presley e posteriormente com os Beatles.
É interessante apontar que o papel de fã, que por tanto tempo foi consagrado à mulher, hoje perde espaço e prestígio. As opiniões sobre ele são, em muitas ocasiões, negativas e pejorativas.
MARIANA: [...] nunca achei que ninguém merecesse tanta idolatria nem iria gostar que fosse comigo.
FÉLIX: Acho que fanatismo deixa a gente muito cego. Não gosto de ver as coisas por essa ótica. Não gosto de nada muito militante, talvez é medo de me envolver demais nas coisas, não sei, mas acho que é pra me manter lúcida. Nunca curti fanatismo, mas se Alanis viesse ao Brasil eu faria um sacrifício para ver o seu show, mas nada sobrenatural. Também não ia querer ficar de tiete no hotel, nada disso.
THAIS: Sei lá é meio esquisito. Não sei. Fã clube não. Eu já fiz parte de lista de discussão. Tinha uma lista do Yahoo sobre Pitty. Logo quando eu comecei a tocar violão e tal, eu gostava muito, eu ainda
gosto, mas... Naquela época. Aí eu entrava na lista, conversava com a galera, mas nunca assim fiz parte de uma organização “vamos adorar fulano” tipo assim, que é como eu vejo um fã clube, “vamos falar sobre a vida de fulano e ver o último corte de cabelo” e etc.
Está expresso nos depoimentos que a idéia de fã se associa a aspectos negativos, como a adoração demasiada, histérica e fútil. As fãs dos primeiros anos do rock construíram uma imagem que hoje é recusada por essas meninas. Elas se limitam a recolher informações sobre artistas e grupos favoritos na internet, recorrendo a sites de relacionamento, listas e fóruns de discussão.