Croqui 3 Distribuição do comércio Chegança (CNAE, 2.2/2015) – 2016
2. DESCREVENDO A REALIDADE
2.1. NATAL/RN: A ATIVIDADE COMERCIAL EM FOCO
2.1.1. A ATIVIDADE COMERCIAL NA ZONA NORTE DE NATAL/RN
O processo de expansão urbana de Natal, na década de 1980, fez com que as atividades comerciais também se expandissem para atender à demanda da população. Nesse período inicia-se o processo de descentralização do comércio do varejo moderno, até então concentrados nos bairros do Alecrim e da Cidade Alta, passando a localizar-se inicialmente nas principais vias expressas de circulação na Zona Sul. A partir da década de 1990, esse varejo moderno também começou a se fazer presente na Zona Norte, nos principais eixos articuladores desta área: avenidas Bacharel Tomaz Landim e Doutor João Medeiros Filho. Em paralelo ao processo de incorporação do varejo moderno nestas avenidas principais, o comércio tradicional firmou-se em corredores secundários intraurbanos como as ruas Pompéia, Chegança e Boa Sorte, fato que contribuiu para a dinâmica comercial da Zona Norte.
Assim sendo, na Zona Norte de Natal, a atividade comercial se expressa de duas formas: uma correspondente ao comércio constituído principalmente pelo varejo moderno, que se espacializa em seus principais eixos articuladores; e a outra representada pelo comércio tradicional marcadamente presente nas ruas Pompéia, Chegança e Boa Sorte, que atendiam a função residencial e foram transformadas, sendo quase que totalmente ocupadas, pela atividade comercial com estabelecimentos de pequenas lojas generalistas, de base predominantemente familiar e de caráter de proximidade.
O emprego dos conceitos de comércio moderno e tradicional baseia-se nas discussões elaboradas pelos geógrafos portugueses Fernandes; Cachinho e Ribeiro (2000, p.11), ao discorrerem sobre o comércio retalhista português. Para estes autores, há atributos que diferenciam essas duas expressões, considerando várias dimensões de análise (Quadro 2):
Quadro 2 - Atributos do comércio varejista moderno e tradicional, segundo Fernandes; Cachinho e Ribeiro (2000)
DIMENSÕES DE ANÁLISE
ATRIBUTOS DO COMÉRCIO VAREJISTA
TRADICIONAL MODERNO
Formato das lojas Pequenas lojas generalistas; Pequenas lojas especializadas; Feiras.
Grandes superfícies especializadas; Centros comerciais; Grandes superfícies alimentares: supermercados, hipermercados, etc.
Formas de venda Relação estreita entre comerciante e consumidor; Venda ao balcão.
Venda automática e a distância; Presença do autosserviço.
Tipo de comerciante Pequenos retalhistas; Comerciantes
independentes.
Grandes cadeias de distribuição; Redes sucursalistas.
Estratégia de gestão das empresas
Predomínio da gestão familiar.
Gestão estratégica (capitalista).
Localização: lugares e princípios
Proximidade, vizinhança; Bairros residenciais.
Acessibilidade; Grandes artérias da cidade.
Fonte: Fernandes; Cachinho e Ribeiro, 2000 (adaptação da autora, 2016).
Ao analisarem a realidade portuguesa, Fernandes; Cachinho e Ribeiro (2000) compreendem o comércio tradicional como uma classe da atividade comercial que se contrapõe às novas formas (centros comerciais, hipermercados, supermercados, grandes superfícies especializadas etc.) no contexto da “Revolução Comercial”. Esta caracteriza-se em linhas gerais, pela introdução de novas formas de organização e gestão das atividades no interior dos estabelecimentos, introdução de novas tecnologias, novas formas de venda e a implantação do autosserviço.
Para os autores, “o aparelho comercial tradicional, é formado por pequenos estabelecimentos, generalistas ou especializados na oferta de um número reduzido de produtos afectos a ramos de actividade específicos” (FERNANDES; CACHINHO e RIBEIRO, 2000, p. 10). Neste tipo de comércio os estabelecimentos são geridos essencialmente por pequenos empresários, comerciantes independentes e pequenas sociedades por quota.
Do ponto de vista de venda, o comércio moderno dispõe do autosserviço ao passo que o comércio tradicional privilegia a venda a balcão, isto porque:
(...)de pequena dimensão, os estabelecimentos tradicionais alicerçavam a arte de comerciar na venda ao balcão, no contacto direto com o cliente e no atendimento personalizado. O comerciante não só vende mercadorias como também presta um serviço; expõe os artigos, informa os clientes sobre as suas características e ajudando-a a tomar decisões”. (FERNANDES; CACHINHO E RIBEIRO, 2000, p.11-12).
No que concerne às estratégias de gestão dos empreendimentos, a grande característica que difere o comércio tradicional do comércio moderno são os agentes envolvidos na administração. No primeiro predomina o gerenciamento familiar, enquanto no segundo a gestão é realizada por estratégias capitalistas.
Tomando por referência esses atributos, infere-se que o comércio moderno imprimiu novas formas de consumo à Zona Norte, a partir da implantação de equipamentos deste segmento. Nesta área da cidade é marcante a presença de escolas, equipamentos de saúde especializados como o Instituto do Rim, além de investimentos do varejo e do atacado como o Carrefour, inaugurado em 2006; o Natal Norte Shopping, renomeado em 2014 para Partage Nort Shopping, por ocasião da gestão pela rede de investimentos imobiliários Partage; o Atacadão e o Shopping Estação, de 2008; o Supermercado Nordestão do Conjunto Santa Catarina, estabelecido em 1981, e o Atacadão Autosserviço, inaugurado em 2008.
Além dos equipamentos mencionados, também se fazem presentes lojas especializadas em eletroeletrônicos e eletrodomésticos que ofertam ao consumidor produtos de caráter popular, chamados de bens de consumo da linha branca, caracterizada pela baixa sofisticação na produção no que concerne ao corte, pintura e acabamento. Alguns exemplos de lojas com esse perfil de mercadoria na Zona Norte são: Lojas Maré Mansa, Lojas Insinuante, Casas Bahia, Rede Unilar, Magazine Luiza, Laser Eletro, Atacadão dos Eletros e Armazém Pará, localizados nas avenidas Bacharel Tomaz Landim e Doutor João Medeiros Filho.
Em consonância com o comércio moderno, existe também na Zona Norte de Natal o comércio tradicional. Este é composto de lojas de pequeno porte, pouco ou nada especializadas, além de apresentar um atendimento marcado pelas relações de proximidade com o cliente.
A partir do exposto sobre o comércio moderno e tradicional, percebe-se que, no processo de produção do espaço urbano da Zona Norte, existem lugares que tem a configuração espacial regida por um comércio de ordem global, mas também há aqueles que criam a sua própria sinergia frente a essa ordem. Tratam-se de lugares que possuem na sua história, características próprias e também a coexistência dos momentos sociais. Lefebvre (2001) denomina de ordem distante e de ordem próxima. A primeira é aquela verticalizada, regida pelas grandes instituições, ao passo que, a segunda, se realiza no âmbito do cotidiano, se efetiva através das práticas espaciais de indivíduos, de pequenos grupos e se concretiza no lugar.
Nesta perspectiva, chama-se a atenção para as ruas Chegança, Pompéia e Boa Sorte, sendo a primeira pertencente ao Conjunto Habitacional Nova Natal e as outras duas aos loteamentos Nova Repúblicas e Santarém, respectivamente. Essas
ruas inicialmente, visavam atender à função habitacional, mas foram transformadas, tornando-se predominantemente ruas de comércio.
Faz-se importante a observação da forma comercial presente nas ruas estudadas a fim de descrever sua paisagem atual, que se encontra composta de um conteúdo diferente do momento de sua edificação. Fala-se de espaços comerciais que suscitam a busca pela mercadoria ofertada na rua; mercadoria esta que para chegar ao consumidor não precisa necessariamente estar em lugares especializados a exemplo dos shopping centers. Nas ruas de comércio, há uma extensão de lojas e intensiva exposição das mercadorias que atrai o consumidor e o seduz à compra. “A mercadoria, tornada espetáculo (provocante, atraente), transforma as pessoas em espetáculo, uma para as outras” (LEFEBVRE, 1999, p. 17). O autor refere-se ao efeito que a mercadoria tem de espetacularizar as pessoas, tornado-as mais perceptíveis para as outras. Nas ruas Pompéia, Chegança e Boa Sorte, o espetáculo também está na forma como a atividade se reproduz, através, por exemplo, do vestuário que, mesmo sendo popular, segue a moda recorrentemente lançada na mídia.
A atividade comercial na Pompéia, Chegança e Boa Sorte se constitui num comércio de proximidade física, uma vez que atende sobremaneira à população dos bairros e de localidades vizinhas, e também social, pois os comerciantes mantém uma relação estreita com o consumidor. De acordo com Barreta (2012, p.14) “o conceito de comércio de proximidade retrata o comércio que está próximo da sua procura, não só fisicamente, mas também, e principalmente, social, cultural, patrimonial e comercialmente”. O tratamento personalizado com o cliente; a organização simples do estabelecimento; o pequeno, mas significativo, estoque de mercadorias; e o pouco uso da publicidade constituem algumas características comuns às atividades do comércio de proximidade. Este se refere ao conjunto de relações entre as pessoas que compartilham experiências comerciais no lugar, criando laços profundos de identidade, de solidariedade. Também é de proximidade, pelas relações estabelecidas com os clientes, correspondendo à definição apresentada pelo autor.
Assumindo essa compreensão, entende-se que o comércio de proximidade, presente nas ruas estudadas, está relacionado a uma questão espacial, pois as características desta atividade nestes lugares estão vinculadas à demanda de consumo e a situação socioeconômica do consumidor tanto dos bairros onde se
localizam as ruas, mas também da Zona Norte. O quadro econômico desta zona administrativa, revelado pelo IBGE (2010) e melhor representado na tabela 1, mostra que a população dos bairros da Zona Norte, exceto Potengi, sobrevive com um rendimento mensal abaixo de 1 SM.
Tabela 1 - Distribuição da renda familiar na Zona Norte Natal/RN, por bairro (2010)
De modo geral, as condições socioeconômicas encontras na Zona Norte são desfavoráveis em relação a outras zonas da cidade, por exemplo, Leste e Sul. Além da situação de renda elucidada, outros fatores não identificados na tabela 1 podem ser problematizados na Zona Norte, como serviços públicos deficitários de saneamento básico e pavimentação, ambos com um quantitativo abaixo de 50%, e baixa taxa de alfabetização entre 5 anos de idade ou mais com índice de 88% (SEMURB, 2014).
Mesmo diante das condições mencionadas, a Zona Norte apresenta uma dinâmica comercial crescente, principalmente no que se refere ao comércio informal. Por não ter licenciamento e pouca fiscalização, muitos comerciantes não pagam impostos do estabelecimento à Secretaria de Tributação do Estado, e mesmo assim conseguem gerar renda que garanta a sobrevivência da família no cenário de crise econômica que atinge, segundo o IBGE, taxas exorbitantes de 12 milhões de desempregados no segundo semestre de 2016 em todo o país e consequentemente
Bairro Renda (R$) Rendimentos Médios
Igapó 484, 5 0,95
Lagoa Azul 402,9 0,79
Nsa. Sra da Apresentação 413,1 0,81
Pajuçara 469,2 0,92
Potengi 627, 3 1,23
Redinha 428,4 0,84
Salinas 234,6 0,46
Fonte: IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo Demográfico 2010. (Salário mínimo vigente em 2010 R$ 510, 00).
no Rio Grande do Norte. O comércio informal também é representativo nas ruas Pompéia, Chegança e Boa Sorte, de modo que, das três ruas, apenas a Boa Sorte tem o número de estabelecimentos formais superior ao de informais.
Diante do exposto, com o propósito de atender à segunda seção “Descrevendo a Realidade”, com base no primeiro momento do método regressivo- progressivo, realizou-se a descrição das atividades de comércio na Zona Norte e nas ruas Pompéia, Chegança e Boa Sorte. Para tanto, adotou-se como fundamento a seguinte metodologia: após a descrição das atividades de comércio e de serviços desenvolvidas nas ruas estudadas, foi possível construir um croqui apresentando a espacialização por segmento. Vale salientar que, do ponto de vista técnico, o croqui não tem nenhuma intenção de mapeamento, mas sim de representação sendo a rua, inclusive, entendida como um plano. A construção desta representação tomou por base o levantamento de informações a partir da pesquisa de campo com a anotação de cada estabelecimento e a sua posterior categorização de acordo com a Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), versão 2.2/2015.