• Nenhum resultado encontrado

3 METADE SUL E A PERSPECTIVA DA COLONIALIDADE

3.2 SÃO JOSÉ DO NORTE: DA CAPITAL NACIONAL DA CEBOLA AO

3.2.1 Atraso e desenvolvimento segundo os nortenses

Conforme apresentado na seção anterior, para os agricultores familiares e pescadores artesanais, o discurso de que São José do Norte é atrasado ancora-se em três aspectos: (a) na monocultura da cebola e no declínio da pesca artesanal; (b) no isolamento geográfico; e (c) na carência de empregos. A perspectiva da colonialidade do poder é de suma importância para a compreensão da reprodução desse discurso. Quijano ressalta que o acesso restrito a determinadas esferas de poder foi fundamental para a consolidação da cultura europeia como um instrumento de exercício e disputa pelo poder (RESTREPO; ROJAS, 2010). Isso fez com que o sistema social baseado na distribuição de identidades sociais superiores e inferiores passasse a ser concebido como próprio pelos grupos dominados, fazendo-os reproduzir estruturas de poder organizadas em torno de relações coloniais (QUIJANO, 2014).

Embora não contestem a visão que vincula as crises enfrentadas pelo setor primário ao atraso do município, os agricultores e pescadores ressaltam que esse discurso acaba sendo utilizado como justificativa para a insuficiência de investimentos no meio rural. Ainda que a prefeitura não faça uma associação direta entre atraso e pesca/agricultura, o esforço por atrair empreendimentos sem relação com a vocação do município tem se apresentado como um caminho mais fácil “rumo ao progresso” do que encarar a necessidade de diversificação da produção na agricultura e a busca de soluções para a pesca na região. A construção de um entreposto de pescado no município, por exemplo, poderia agregar valor à produção, diminuindo os prejuízos dos pescadores,58 assim como a busca por uma comercialização que não dependa exclusivamente dos atravessadores. A fala de um político vai ao encontro do argumento apresentados pelos agricultores:

O nosso município tá muito atrasado no setor primário, muito mesmo. Nós temos uma precariedade enorme, eu não digo só em produzir, a questão de produzir também, nós deveríamos hoje já ter um avanço muito maior em tecnologia, porque muda o clima e todo o segmento muda. [...] Hoje, aqui no nosso município, não tem projeto de irrigação, consequentemente ele não tem um PROAGRO que dá uma cobertura maior em caso de perda. Nós aqui, o atravessador é uma das grandes forcas do nosso agricultor. Infelizmente nós dependemos deles pra poder escoar o nosso produto, o agricultor não tem condições porque o poder público não oferece isso.

58 Na minha última visita ao município, em 2017, havia entrado em funcionamento a Cooperativa dos Pescadores

Artesanais do Norte (Coopanorte). A construção da sede da cooperativa teve início com o recebimento de verbas durante o governo de Olívio Dutra (1999-2002), porém, não havia sido finalizada. O empreendimento possui todo o maquinário necessário para beneficiar os peixes e crustáceos, além de condições adequadas para o armazenamento dos produtos.

Além da falta de investimentos no setor primário, o estabelecimento de uma ligação a seco com Rio Grande é considerado fundamental para a superação do “atraso” – e para a recuperação da agricultura e da pesca. Embora ressaltem a necessidade de facilitação de acesso a um município que disponha de melhores serviços de saúde e educação, os atores do meio rural reconhecem que “com o progresso sempre vêm os contras”, conforme a fala de um agricultor. O principal “contra” reside no aumento da violência provocado pelo crescimento na circulação de pessoas – fator este já causado pela instalação do estaleiro EBR, mas insuficiente para fazer com que o desenvolvimento fosse questionado. Os agricultores e pescadores veem na ligação a seco a oportunidade de acessarem o mercado rio-grandino, ainda que isso exija mudanças e investimentos na diversificação da produção.

A carência de empregos no município nortense é utilizada para justificar tanto a necessidade de uma ligação a seco com Rio Grande – facilitação do acesso ao município vizinho, que dispõe de um mercado de trabalho maior – quanto a chegada de empreendimentos externos. Embora a agricultura familiar apresente grande potencial para a geração de empregos, a plantação da cebola, que ocorre somente uma vez ao ano, somada à diminuição da área cultivada provocada pela saída do campo e pelo envelhecimento da população rural, faz com que sejam geradas principalmente ocupações temporárias.

Na visão da prefeitura de São José do Norte, o desenvolvimento ou o progresso (termo utilizado pelos entrevistados) apresenta-se fortemente vinculado a empreendimentos externos. Visando esse objetivo, nota-se um esforço de diferentes gestões em exaltar os potenciais naturais do município como forma de atração de grandes empresas que possam vir a explorá- los, tais como a existência de um porto com excelente calado, de minerais e de ventos com potencial para a produção de energia, conforme verifica-se no folder elaborado pela prefeitura (Figura 9). Esse discurso resulta na construção da “cidade como mercadoria” ou em uma “cidade empresa”, conforme o conceito apresentado por Santos, Araújo, Machado (2013) e Santos et al. (2016).

Figura 9 – São José do Norte e o desenvolvimento

Fonte: São José do Norte (2012).

Em entrevista realizada em 2014, o então vice-prefeito destacou que a atração de novas cadeias produtivas – representadas pela indústria naval, pela mineração, pela energia eólica e pelo turismo – não tem como objetivo a substituição das cadeias produtivas históricas do município, como a agricultura, a pesca e, mais recentemente, o reflorestamento de Pinus. A utilização do termo “desenvolvimento sustentável/integrado” pelo representante público consistiria no rearranjo e na convivência harmoniosa entre as diferentes cadeias produtivas presentes em São José do Norte.

A gente tem muito cuidado, a gente não gostaria também que as novas cadeias produtivas representadas pela indústria naval, representadas pela mineração, representadas pela energia eólica, representadas pelo turismo, que viessem destruir as cadeias produtivas históricas do Norte. Nós queremos, pelo contrário, que agreguem valor às cadeias produtivas. Que a agricultura possa ser beneficiada com a vinda dessas novas cadeias produtivas. Que a pesca seja recuperada. Que o nosso polo madeireiro, que é tão importante, que ele seja estimulado. Por isso que eu falei em desenvolvimento sustentável/integrado. [...] Então esse rearranjo entre as cadeias produtivas vai acabar tendo que acontecer, mas certamente isso vai representar melhoria da qualidade de vida pra população que é, em última análise, o que a gente deseja, é ver a pessoas mais felizes, mais bem remuneradas, trabalhando em condições melhores.

Figura 10 – Logo da Prefeitura Municipal de São José do Norte

e

Fonte: São José do Norte (2014).

Apesar da fala do vice-prefeito, para os agricultores e pescadores, a prefeitura possui uma visão de desenvolvimento direcionada ao meio urbano e em detrimento do rural. Ao afirmar que o retorno econômico gerado pelo setor primário não é revertido em melhorias para o campo, mas em investimento em calçamento na cidade, uma liderança da agricultura tece uma crítica à postura da gestão municipal e ao discurso do “desenvolvimento sustentável/integrado”. Nesse sentido, durante a audiência pública referente à instalação do Estaleiros do Brasil, realizada em São José do Norte em setembro de 2011, os representantes do empreendimento ressaltaram a grande presença da agropecuária na composição do PIB municipal, comparando-a ao município de Rio Grande, no qual a indústria apresenta uma importância bastante superior (Figura 11). Isso demonstra uma visão de desenvolvimento vinculada à industrialização e à atração de grandes empreendimentos, e em prejuízo ao setor primário.

Figura 11 – Apresentação da EBR na Audiência Pública

Fonte: Polar Ambiental (2017).

Em maio de 2012, a Fepam emitiu um documento em resposta aos apontamentos realizados pela Procuradoria da República no município de Rio Grande quanto à emissão da Licença Prévia à empresa EBR. Ao ser questionada em relação à afirmação, presente no EIA/RIMA do projeto, de que a mudança da matriz produtiva causada em São José do Norte seria um “impacto positivo permanente”, o órgão ambiental argumentou que

Não se pode desconsiderar que a diversificação da matriz produtiva é fator positivo em qualquer economia. É notório que o município se encontra em estado de

estagnação econômica e social e muito deste quadro se deve ao fato da economia municipal se basear em atividades do setor primário – especialmente a produção de cebolas e a pesca –, atividades com baixo valor agregado e rendimento. A diversificação da matriz produtiva, com a introdução de atividades

industriais em determinada zona da cidade, trará consigo empregos, renda, movimentação econômica para a região, modernização e desenvolvimento. (Fepam, 2012a, p. 3, grifo nosso).

No tocante ao processo de licenciamento ambiental referente à extração mineral em São José do Norte, em fevereiro de 2016, a Procuradoria da República encaminhou ao Ibama 137 recomendações acerca do Projeto Retiro (MPF, 2016a). O documento cita a ausência de adequada identificação e de consulta prévia e informada às comunidades tradicionais do município impactadas pelo empreendimento – cebolicultores e pescadores – em cumprimento

à Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. Em resposta, o órgão licenciador afirmou que não há previsão de impactos sobre a atividade pesqueira, o que descartaria essa necessidade. No que se refere à cebolicultura, o órgão ambiental afirmou que não teriam sido registrados elementos nem manifestações que configurassem a tradicionalidade deste cultivo (MPF, 2016b). A afirmação do Ibama desconsiderou os inúmeros documentos elaborados por órgãos representativos dos agricultores, como o sindicato, associações e grupos expressando suas preocupações, assim como a rejeição ao empreendimento minerário, conforme veremos no Capítulo 5. Ademais, aponta, no mínimo, para a falta de conhecimento da realidade nortense, uma vez que a atividade se faz presente desde o início da ocupação do território pelos portugueses. Novamente as atividades primárias foram subdimensionadas ou desconsideradas.

Embora destaquem a necessidade de maiores investimentos no setor primário, os atores do meio rural são favoráveis a vinda dos grandes empreendimentos – a exceção refere- se ao projeto minerário, conforme veremos adiante. Os agricultores e pescadores veem nessas iniciativas a oportunidade de emprego para seus filhos desejosos de sair do campo. Soma-se a isto a esperança de que com o aumento da arrecadação dos impostos, a prefeitura possa realizar melhorias em saúde, educação e saneamento básico.

O potencial turístico de São José do Norte é destacado tanto por representantes públicos quanto pelos atores do meio rural como uma possibilidade de fomento ao desenvolvimento. Por ter sido o palco de acontecimentos históricos importantes para a história do Brasil, como a resistência à ocupação espanhola e a expulsão dos farroupilhas, o município dispõe de um amplo patrimônio histórico-cultural. A isto somam-se as riquezas naturais existentes, como a praia do Mar Grosso, um balneário tranquilo e com água cristalina. Apesar desses aspectos, poucas melhorias foram realizadas para incentivar o turismo no município. A maioria dos prédios históricos encontra-se em péssimas condições, o que, somado à dificuldade de acesso ao município, impõe obstáculos à atração de turistas (Figura 12).

Figura 12 – Solar dos Imperadores59

Fonte: Pesquisa de Campo (2016).

A reivindicação de maior atenção e investimentos no setor primário não faz com que os atores do meio rural – as exceções serão apresentadas no decorrer do trabalho – questionem a noção hegemônica de desenvolvimento ancorada no fomento à industrialização e na atração de empreendimentos externos. As críticas dos agricultores e pescadores fazem com que sejam acusados de se colocarem contra o desenvolvimento de São José do Norte, apesar de afirmarem constantemente que não são contra o progresso. A seguir adentraremos na relação histórica de São José do Norte com projetos de desenvolvimento.