2 MODERNIDADE, COLONIALIDADE E DESENVOLVIMENTO
2.2 DA INVENÇÃO À DESCONSTRUÇÃO DO DESENVOLVIMENTO
2.2.1 O pós-desenvolvimento e a modernidade/colonialidade
A influência do Grupo Modernidade/Colonialidade no debate do desenvolvimento se vincula a uma crítica da modernidade. Tendo sido iniciada por Escobar, esses intelectuais (Quijano, Gudynas, Quintero) passaram a conceber o desenvolvimento como o resultado de séculos de colonialidade, nos quais suas premissas “nasceram de um passado longínquo de diferença com violência cujo horizonte jamais suspendeu a subalternidade da relação” (RADOMSKY, 2011a, p. 157). No universo marcado pela modernidade/colonialidade, o
desenvolvimento tem sido uma noção prática que serve como motor para a reprodução dos principais ideais coloniais e imperiais instituídos com o padrão civilizatório (QUINTERO, 2014).
Em 1939, o governo britânico transformou a Lei de Desenvolvimento das Colônias em Lei de Desenvolvimento e Bem-Estar das Colônias. O objetivo dessa mudança era dar uma conotação positiva à colonização, destacando a necessidade de garantir às populações locais níveis mínimos de nutrição, saúde e educação (ESTEVA, 2000). Isso já refletia a profunda alteração política e econômica em curso que encontraria no discurso do presidente dos Estados Unidos a sua síntese.
Ao utilizar o termo subdesenvolvido pela primeira vez em um discurso de grande circulação, o presidente Harry Truman marcou uma mudança fundamental na concepção de desenvolvimento. Passou-se do entendimento do desenvolvimento como um fenômeno de polarização Norte/Sul, de acordo com a oposição entre colonizador/colonizado para a dicotomia desenvolvido/subdesenvolvido. Essa mudança substituiu o domínio da Europa sobre as colônias pelo imperialismo norte-americano. Sem questionar a existência de uma hierarquia ao longo da qual as sociedades pudessem ser colocadas, os norte-americanos impuseram um novo padrão em que eles se encontravam no topo. Agora, os países subdesenvolvidos poderiam se tornar desenvolvidos desde que seguissem os preceitos norte- americanos, uma vez que o subdesenvolvimento não é o oposto de desenvolvimento, mas apenas sua forma incompleta (RIST, 2008).
Segundo Quintero (2014, p. 15), o desenvolvimento deve ser concebido como uma ideia/força no sentido de “motivadoras e impulsionadoras de mudanças maiores na sociedade”. Isso fez com que a definição de desenvolvido e subdesenvolvido fosse aceita por aqueles que lideraram os Estados recém-independentes porque configurava uma forma de afirmar sua pretensão de se beneficiar da “ajuda” que os tornaria desenvolvidos. Para os colonizados era a forma de afirmar a igualdade jurídica que até então lhes era recusada. Entretanto, ao tornarem-se independentes, perderam sua identidade e sua autonomia econômica e se viram forçados a adentrar pelo “caminho do desenvolvimento” traçado para eles pelos outros. Conforme Quintero (2013, p. 74), “se o desenvolvimento tem conseguido 'desenvolver' algo ao longo da sua história, tem sido a desigualdade e a assimetria a nível global, através do crescimento e da expansão do capitalismo e da colonialidade”.
O debate sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento no pós-guerra foi uma expressão da reconfiguração do poder capitalista mundial responsável pela construção de uma
noção de desenvolvimento totalmente nova e desvinculada da sua origem: a modernidade/colonialidade (QUIJANO, 2000). O desenvolvimento não desfez as classificações baseadas na raça, gênero e classe resultantes da colonialidade do poder, mas as articulou a categoria de “subdesenvolvido”, levando à manutenção da inferiorização de grande parcela da população mundial (QUINTERO, 2013).
O desenvolvimento funciona como um instrumento de classificação social e como uma fonte motivadora de forças sociais de diversos tipos. Através da identificação dos “níveis de desenvolvimento” atingidos por diferentes territórios, o desenvolvimento produziu uma classificação da população mundial (QUINTERO, 2013, 2014). O mundo passou a ser dividido em três grandes agrupamentos: o Primeiro Mundo – composto pelos países que participam ativamente da dinâmica do capitalismo – seria desenvolvido, tecnologicamente avançado e livre para o exercício do pensamento científico; o Segundo Mundo – formado pelos países socialistas no contexto da Guerra Fria – também seria desenvolvido e tecnologicamente avançado, todavia, a influência ideológica impediria o florescimento de um pensamento científico; e o Terceiro Mundo – composto pelos países excluídos das categorias anteriores – seria subdesenvolvido, atrasado tecnologicamente e com uma mentalidade “primitiva” que obstruiria o pensamento científico (ESCOBAR, 2007; MIGNOLO, 2003; QUINTERO, 2014).
O desenvolvimento formou um dos principais pilares da definição global de uma história puramente ocidental e passou a atuar como uma máquina homogeneizadora que unificou conglomerados populacionais sob o rótulo de desenvolvidos e subdesenvolvidos (QUINTERO, 2014). Ao transformar os elementos da alteridade – como o saber, relações de parentesco, etc. – em motivos para intervenções, o desenvolvimento privou determinadas culturas da oportunidade de definir as formas de sua vida social (ESTEVA, 2000; PERROT, 2008). O desenvolvimento implica simultaneamente no reconhecimento e na negação da diferença. Essa característica não reflete apenas o fracasso do desenvolvimento em cumprir suas promessas, mas constitui também a principal justificativa para a manutenção das intervenções.
A partir da resistência à homogeneização das populações do Terceiro Mundo, alguns autores do pós-desenvolvimento (Escobar, Gudynas) buscaram abrir espaço para diferentes discursos que não fossem tão mediados pela ideia de desenvolvimento eurocêntrico ao elaborarem uma distinção entre desenvolvimentos alternativos e alternativas ao desenvolvimento. Os desenvolvimentos alternativos representam uma crítica às visões mais
ortodoxas do desenvolvimento em determinado momento – como o desenvolvimento participativo, sustentável, local, etc. – entretanto, apresentam uma capacidade de mudança limitada, visto que reproduzem os elementos principais do desenvolvimento hegemônico, motivo pelo qual seus resultados sempre foram muito próximos dos tradicionais.
Diferentemente dos desenvolvimentos alternativos, as alternativas ao desenvolvimento provocam fissuras nas ideias centrais da modernidade, tais como a linearidade da história e a fé no progresso, implicando na transcendência da ideia do desenvolvimento (GUDYNAS, 2014). O pós-desenvolvimento busca tornar visível o silêncio imposto aos movimentos sociais que expressam resistência ao desenvolvimento e exploram novas vias de transformação, abrindo espaço para outros pensamentos e possibilidades de imaginar novas formas de organizar a vida social, econômica e cultural (ESCOBAR, 2007; RADOMSKY, 2011a).
O pós-desenvolvimento não faz alusão ao fim do desenvolvimento, a um período histórico que teria chegado ao nosso alcance. Diferentemente do que previu Sachs (2010), as intervenções do desenvolvimento continuam ocorrendo com força expressiva. Essa perspectiva aponta para a necessidade de tornarmos visíveis outras formas de conhecimento produzidas por aqueles que são os “objetos” do desenvolvimento, transformando-os em agentes de seu próprio destino (ESCOBAR, 2005b). O pós-desenvolvimento refere-se à constituição de um futuro alternativo ao capitalismo contemporâneo (GUDYNAS, 2014).
Ainda que as duas principais hipóteses defendidas pelo pós-desenvolvimento – (a) de que o desenvolvimento reflete um pensamento eurocêntrico e (b) que possui implicações autoritárias – tenham sofrido pouca contestação até dos críticos mais contundentes, conforme veremos a seguir, a perspectiva ainda apresenta inúmeras lacunas a serem preenchidas.